3 ESTUDOS DE CASOS: EXPERIÊNCIAS EXITOSAS DO PCPR NO RIO GRANDE DO NORTE
3.7 A experiência do beneficiamento da castanha de caju no Projeto Serra do Mel .1 Antecedentes
A trajetória do Projeto Serra do Mel tem início na década de 1970, quando foi delimitada uma área de 62.200 hectares, distribuída em 22 vilas e 1.260 lotes individuais de 50 hectares, onde foi assentado igual número de famílias de produtores rurais.
Ao longo de sua história, o Projeto passou por distintos desenhos de organização institucional e social, entre os quais podem ser destacados: i) o primeiro desenho, exclusivamente estatal, correspondente à primeira etapa do projeto, na década de 1970, quando a Companhia de Implantação de Projetos Agropecuários (CIMPARN), depois substituída pela Companhia Integrada de Desenvolvimento Agropecuário (CIDA), realizaram a demarcação do projeto, a implantação da cultura principal, o cajueiro, numa área de 15 hectares em cada lote, totalizando, portanto, 18.900 hectares; ii) o segundo modelo, ainda estatal, porém com a participação de organizações da sociedade civil, entre as quais se destacaram a Igreja Católica, o Movimento Sindical e a Associação de Apoio às Comunidades do Campo; iii) o modelo atual, onde as associações de produtores, existentes em todas as vilas, a Federação das Associações e a Cooperativa dos Produtores de Caju da Serra do Mel (COOPERCAJU), vêm se destacando como instâncias de organização dos processos de produção e de processamento da castanha de caju em unidades familiares de produção, localizadas nas residências dos produtores rurais e em unidades industriais, situadas nas vilas e na sede do município, localizada na Vila Brasília.
Apesar do modelo estatal predominante na maior parte da vida do Projeto, as organizações da sociedade civil tiveram importante participação em todos os seus momentos históricos, notadamente no que se refere à mobilização e à organização da população no grande número de associações hoje existentes na Serra do Mel.
Destacam-se, nesse contexto, o Movimento Sindical, que esteve presente desde os primórdios do Projeto, mobilizando os trabalhadores e apoiando as suas lutas pela ocupação dos lotes e pela melhoria das condições de vida e de produção no Projeto; a Igreja Católica, desenvolvendo o seu trabalho histórico de evangelização e de ação social; e, as organizações não-governamentais, atuando de forma direta ou em parceria com instituições governamentais, que desenvolveram um importante trabalho de assessoramento técnico e gerencial, que culminou com a elaboração do Plano de
Desenvolvimento Sustentável da Serra do Mel.
O resultado de todo este trabalho é um associativismo pujante, dotado de organização social e infra-estrutura que possibilitam o processamento da castanha de caju da Serra do Mel e a sua comercialização nos mercados nacional e internacional de produtos agropecuários e agro-industriais. Além disso, a produção de mel de abelha vem se destacando como um importante produto, com perspectiva de ampliação da infra-estrutura atual de processamento e de inserção nos mercados nacional e internacional de produtos apícolas.
Hoje são 25 associações de produtores, entre as quais se incluem 2 associações específicas de mulheres e uma de apicultores; 1 Federação das Associações da Serra do Mel e uma cooperativa, que além de desenvolverem as atividade de mobilização e organização social, também realizam atividades de organização da produção familiar especialmente da castanha de caju e do mel de abelha.
Foi, portanto, o grau de fortalecimento institucional e de organização social que deram condições aos agricultores da Serra do Mel a iniciarem o beneficiamento de castanha de caju em unidades familiares, contribuindo de forma decisiva para a geração de emprego, ocupação, qualificação e melhoria da qualidade de vida da população local.
Esse modelo alternativo de beneficiamento da castanha de caju foi desenvolvido por um grupo de produtores de Serra do Mel, apoiados e assessorados por instituições governamentais e não-governamentais, principalmente a Secretaria de Estado de Ação Social que através do PCPR/PAPP financiou unidades familiares de beneficiamento de castanha, centrais de embalagem de amêndoas, além da sede e dos galpões da COOPERCAJU; a FETARN, como instância articuladora do acesso das organizações de agricultores(as) familiares às políticas públicas; e, a Associação de Apoio às Comunidades do Campo, uma organização não-governamental criada em 1987, com o apoio da Fundação Konrad Adenauer.
Esse processo de organização do beneficiamento da castanha de caju, em unidade familiares tem possibilitado agregação de renda aos produtores de castanha de caju in natura; redução dos custos de produção; e oferta de amêndoas de qualidade superior aos da industrial tradicional, e ainda , acesso ao mercado externo.
O processamento de castanha de caju em unidades familiares tem proporcionado uma mudança fundamental na situação sócio-econômica do município de Serra do Mel, com destaque para os seguintes aspectos:
a) melhoria da qualidade de vida dos beneficiadores e de suas famílias, alcançada com o aumento da renda, através da agregação de valor a castanha de caju in natura;
b) Conservação dos recursos ambientais, através do manejo orgânico dos solos e da cultura do cajueiro;
c) Integração de mulheres e jovens aos processos de beneficiamento, classificação, embalagem e comercialização;
d) melhor distribuição de renda, proporcionado pela descentralização do processo de beneficiamento de castanha em maior número de famílias; e) redução das margens de intermediação promovida pelo acesso dos
produtores a mercados diferenciados;
f) humanização das condições de trabalho no processamento da castanha, possibilitada pelo uso de equipamentos de proteção e o respeito à legislação trabalhista;
Essa tecnologia, que tem como base o descasque de cada castanha separadamente, utilizando instrumentos manuais adequados para pequenos e mini produtores de castanha de caju garante:
a) o controle de qualidade, pois o beneficiamento manual conserva as duas qualidades mais importantes da amêndoa: a cor branca e a integridade (menor quantidade de amêndoas partidas, com 85% de amêndoas inteiras), permitindo maior competição no mercado externo e interno;
b) redução dos custos de produção, pois a utilização da mão-de-obra, pois familiar diminui os custos com encargos sociais e dívidas trabalhistas; c) redução das perdas, devidas à diminuição de umidade e implantação de um
Tabela 7 Tabela de preços de amêndoas no mercado solidário (exportação) PREÇO DE VENDA - EXPORTAÇÃO – FOB PREÇO DE VENDA MERCADO INTERNO ESPECIFICAÇÃO Kg ( U$) Kg (R$) Kg (U$) Kg (R$) Amêndoas Tipo SLW1 6,20 14,69 3,37 8,00 Amêndoas Tipo LW1 6,20 14,69 3,37 8,00 Amêndoas Tipo W1.240 6,15 14,57 3,37 8,00 Amêndoas Tipo W1.320 6,05 14,33 3,37 8,00 P1- (Misto) P1, B1 e S1. 4,30 10,19 1,69 4,00 Amêndoas Inteiras Mista --- --- 3,37 8,00 Amêndoas Partidas Mistas --- --- 1,69 4,00 Fonte: Pesquisa Direta
A produção da castanha de caju de base familiar está organizada, portanto, em dois níveis: na COOPERCAJU e na Associação dos Produtores da Vila Paraná.
A COOPECAJU recebe as amêndoas das Unidades Familiares de Beneficiamento, realiza os serviços de classificação, seleção, (tipos, cor e integridade) embalagem, padronização da qualidade e comercializa as amêndoas de caju para o mercado externo e interno.
A Comercialização para o mercado externo especialmente para Suíça para empresa denomina CLARO é feito através de uma OSIP, constituída pela AACC, TERRA VIVA/VISÃO MUNDIAL. A CLARO tem adiantado a COOPERCAJU cerca de 50% correspondente ao valor do contrato e a mesma repassa para os beneficiadores de castanha, após receber e classificar a castanha. T4em caso em que a cooperativa tomar dinheiro emprestado para pagar o valor integral aos beneficadores de castanha e pago o empréstimo quando recebe o restante relativo ao contrato da comercialização. Esse modelo tem trazido alguns prejuízo para cooperativa, pois há momento em que há atraso no pagamento a cooperativa isso aumenta os custo com juros do empréstimo que a cooperativa faz.
Em outro nível está Associação da vila Paraná, dispões de uma central de classificação, embalagem, cozinhamento e depilação de castanha que serve de apoio as unidade familiares das associações comunitárias, especialmente as de Santa Catarina, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
1. A Associação da Vila Paraná cozinha a castanha das associações, as mesma levam para unidades familiares, quebram, depilam e entregam na Vila Paraná para mesma fazer a classificação e realizar a comercialização que até hoje tem sido no mercado interno que é muito sérias desvantagens em relação ao mercado externo tais como: preço, forma de pagamento, irregularidade e não tem adiantamento.
2. A Associação da Vila Paraná trabalho hoje em parceria com as Associações da Vila Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais que trabalham 226 famílias.
3. A Associação também mantém cerca de 150 mulheres trabalhando em sua unidade na depilação e classificação de castanha. Uma espécie de terceirização, forma encontra pela associação para manter essas mulheres ocupadas no beneficiamento da castanha de caju da Usina USIBRAS, especialmente no período de entre safra nos momentos que a associação não dispõe de mercado para vender a castanha beneficiadas pelos seus parceiros.
É de se ressalta-se, que mesmo com essas unidade de produção familiares, ainda a maior parte da produção da Castanha de Caju da Serra do Mel é vendida In Natural a atravessadores.
A seguir um quadro demonstrativo da previsão da produção de amêndoa de castanha de caju e unidade familiares que pode ser disponibilizado para o comercio solidário.
Os dados do quadro evidencia capacidade produtiva e de infra-estrutura da Serra do Mel no beneficiamento da castanha de Caju para o mercado solidário, pois esse dados se referem apenas a produção que pode ser disponibilizada para o mercado solidário.
Quadro 15 Demonstrativo da Previsão da Produção para o Mercado Solidário. AMÊNDOAS DE CASTANHA DE CAJU (Kg) UNIDADES DE BENEFICIAMENTOS N° UNIDADES MÃO DE OBRA FAMILIAR MATÉRIA PRIMA
(Kg) INTEIRA PARTIDA TOTAL
COOPERCAJU – RN 9 MESES 99 492 553.300 82.550 27.516 110.066 ACOPECAL – Vila Paraná – Fabrica 01
(09 MESES) 25 máq. 110 450.000 67.500 22.500 90.000 UNIDADES DE BENEFICIAMENTO DE
CASTANHA DE CAJU – Vila Paraná
(09 MESES) 10 56 88.000 13.200 4.400 17.600
CLUBE DE MAES MARIA DAS NEVES BARBOSA (9 MESES) 5 25 90.000 13.500 4.500 18.000 ASSOCIAÇÃO DAS MULHERES NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO (09 MESES) 5 25 90.000 13.500 4.500 18.000 ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA PROD. VILA Rio Grande do Sul 02 10 36.000 5.400 1.800 7.200
TOTAL 122 718 1.307.300 195.650 65.216 260.866 FONTE: COOPERCAJU
4 CONSTRUINDO A METODOLOGIA DE IMPLEMENTAÇÃO DE POLÍTICAS