3. O Ensino do violão popular nas universidades públicas no Brasil 83 !
3.3. Experiência pessoal 160!
3.3.3. Experiência como professor e os desafios da oferta 169!
Assim que entrei para o mestrado fui convidado pelo professor Ulisses a assumir algumas aulas como estagiário, dentro do Programa de Estágio Docente da universidade, que permite aos estudantes de pós-graduação darem parte das aulas de uma determinada disciplina. Essa experiência se estendeu por dois semestres no mestrado (de agosto de 2012 a julho de 2013) e mais dois semestres, enquanto já iniciava esta pesquisa, no doutorado (de agosto de 2014 a julho de 2015). Estes foram
os semestres mais desafiadores para mim como músico. Senti-me, primeiramente, lisonjeado com o convite, pois apesar de ter alguma experiência com aulas, eu me considerava muito jovem para estar à frente de alunos tão talentosos e que tocavam em tão alto nível. Apesar da inexperiência, fui confiante para essa tarefa, enxergando nela a oportunidade de colocar em prática as críticas que eu tinha em relação ao curso e sabendo que seria um período de grande aprendizado. E realmente foi.
Os dois primeiros semestres em que assumi as aulas foram de total experimentação. Tinha diante de mim grandes músicos, com potencial enorme e precisava corresponder às suas expectativas. Confesso que nas primeiras aulas fiquei bastante inseguro em relação a como agir e, para evitar grandes mudanças de início e me manter em uma área de conforto razoável, mantive o modelo de aulas que já vigorava: duplas ou trios com uma hora semanal de aula onde trabalhávamos com base no que os alunos já vinham desenvolvendo, buscando preencher suas lacunas de formação, de uma maneira bastante personalizada para cada aluno ou turma. Percebi ao final de um semestre que precisaria mudar o formato das aulas caso quisesse corresponder às minhas próprias expectativas em relação ao curso. Procurei propor projetos individuais com metas mais claras para o semestre seguinte e trabalhar de maneira mais linear os conteúdos relacionados a cada projeto, tentando assim organizar e ordenar melhor os conteúdos e aprendizados para cada aluno.
Foi nestes primeiros dois semestres que criei a autoconsciência de minhas limitações e de algumas das problemáticas de um bacharelado em Música Popular, em especial da inserção do violão popular na universidade. Eu cursava o mestrado neste momento e minha pesquisa não tinha relação direta com o ensino, porém já vislumbrava a possibilidade (e a necessidade interna) de realizar esta pesquisa de doutorado, com base nesta curta experiência letiva inicial.
Após a pausa de um ano, a defesa do mestrado e o ingresso no doutorado, voltei ao estágio. Esta pausa foi um momento importante de reflexão acerca dos caminhos já percorridos e de avaliação do que eu considerava terem sido erros e acertos até então. Agora no doutorado eu me sentia mais experiente para assumir as aulas, porém com menos confiança do que na primeira vez, talvez por agora ter mais clareza sobre as dificuldades inerentes ao curso.
Nesta segunda tentativa experimentei mudanças na estrutura das aulas e percebi logo o quanto isso seria desafiador. Não realizei mudanças muito inovadoras, mas busquei manter a proposta na qual o aluno poderia escolher seu caminho. Para
isso, mudei de aulas semanais em duplas/trios para aulas individuais não-semanais, porém agora com o enfoque em resolver apenas problemas pontuais e individuais. Paralelamente, criei três aulas coletivas diferentes, também semanais, para trabalhar assuntos genéricos como improvisação, acompanhamento e técnica. Os grupos eram formados por cinco a sete alunos e cada aluno poderia participar de mais de uma aula, mas deveria escolher uma delas como principal na qual seria avaliado. No segundo semestre deste período alterei alguns grupos com base no feedback dos alunos e adicionei um grupo especial para os alunos do primeiro ano, onde podíamos trabalhar assuntos mais básicos relacionados à técnica, leitura, interpretação e questões teóricas. Essa reestruturação intensificou as trocas de experiências entre os alunos, que agora podiam interagir com alunos de outros anos e turmas, agrupados apenas pelo interesse no estudo de um tópico específico.
A resposta dos alunos foi positiva à essa mudança, porém observei algumas dificuldades em relação ao novo formato. Ao mesmo tempo em que a presença em uma aula coletiva servia de incentivo e canal de troca de conhecimentos com os colegas, o fato de estar em grupo permitia que alguns alunos “se escondessem” dentro do grupo, trabalhando menos do que em uma aula mais individualizada. Além disso, a frequência também tornou-se um problema com alguns alunos que faltaram bastante às aulas. Este problema da frequência interferiu diretamente no andamento de alguns grupos e imagino que possa ter desestimulado alguns alunos que estiveram presentes em todas aulas pelo fato de ter que, frequentemente, recapitular assuntos já abordados.
Outro fator positivo em relação às aulas coletivas foi uma relação mais direta com a prática, visto que nessas aulas buscamos trabalhar tendo como centro o repertório e o desenvolvimento de habilidades aplicadas a ele. Diferentemente das aulas individuais ou em pequenos grupos onde muitas vezes as reflexões e trocas de experiências estão muito relacionadas a uma discussão mais teórica, nos grupos buscamos aplicar os conteúdos sempre em situações práticas, fazendo rodas de improvisação, arranjos coletivos para grupos ou mesmo adotando o formato de masterclass, no qual os alunos que não estão tocando, além de aprenderem através da observação, também funcionam como público ouvinte-avaliador impulsionando a execução daquele que está à frente tocando.
Resumidamente, essas mudanças me deixaram satisfeito e inquieto, ao mesmo tempo em que mostraram que eu poderia percorrer um trajeto longo nesta direção até encontrar soluções mais definitivas para o contexto da universidade. Penso
hoje, que caso continuasse nesta função continuaria a agir de forma parecida, ajustando as arestas e acrescentando soluções interessantes encontradas durante as aulas. Manteria também um canal constante de avaliação/feedback dos alunos para tentar sempre melhorar a resposta das aulas em relação às suas expectativas.
Concluí com base nestes dois períodos de um ano atuando como professor no ensino superior que esta tarefa neste campo de embates que é a música popular é mais complexa do que pode parecer. Corresponder às minhas próprias críticas de aluno seria uma tarefa bastante difícil neste contexto. A escolha ou mesmo a criação de um método pressupunha afirmar minha identidade, como artista e professor, colocando- me assim como modelo e referência para os alunos. Talvez por conta de minha saída recente da graduação quando do início destes estágios, me esforcei em não colocar as minhas próprias escolhas como parâmetro para estabelecer o que poderia/deveria ser ensinado, portanto observei assim que a demanda dos alunos é imensamente mais variada do que as habilidades e conhecimentos que eu poderia possuir enquanto músico e professor. A partir destas observações formulei algumas hipóteses que deram início a esta pesquisa. Também concluí, com base nestas observações de campo, não ser possível, por ora, definir ou mesmo sugerir um plano/programa de curso estático para um instrumento tão dinâmico e com espectro tão largo de atuação na cultura brasileira.