Ter um filho, antes do tempo planejado, traz repercussões psicológicas diversas para a
mãe, pai e familiares do neonato, além de outras implicações de ordem social, econômica,
relacional, etc. O nascimento prematuro desperta o temor da incerteza diante do risco de vida
Enfrentar essa situação é difícil, principalmente, quando é necessária uma internação
imediata na UTIN, após o nascimento, frustrando as expectativas e sonhos dos pais. A mãe se
depara com uma situação que não foi imaginada, vivenciar a maternidade nesse contexto
gerador de medos, inseguranças e incertezas em relação à sobrevivência do filho (Veronez et
al., 2017).
O nascimento do bebê antes do tempo planejado, faz com que a mãe tenha que lidar com
a fantasia criada da maternidade idealizada que, consequentemente reflete no luto do bebê ideal,
saudável e desejado, assim como pela perda do ser mãe ideal (Tinoco, 2013). Nesse sentido se
faz importante que a mãe, enquanto cuidadora, consiga responder aos sinais emitidos pelo bebê,
tornando-se uma figura sensível, e estabeleça uma interação social, desenvolvendo o
comportamento de apego (Ainsworth, 1979). Para tanto, é fundamental a facilitação da
aproximação e cuidado da mãe com o bebê, contribuindo na formação de um lanço de afeto
entre ambos, uma vez que o vínculo pode ser comprometido pelas desordens causadas pelo
nascimento prematuro (Veronez et al., 2017).
Todo esse cenário pode despertar na mãe, uma vivência do luto do ideal da gestação, por
não ter conseguido gerar um filho de acordo com suas expectativas, no tempo e da forma que
se planejou. Vivenciando uma ambiguidade, referente ao nascer e morrer, que se colocam
juntos, uma vez que ao nascimento prematuro apresenta um potencial risco de óbito para o bebê
(Scarabel, 2011).
Nesse sentido a maternidade pode se tornar uma ameaça para os pais, provocado medo
pela possibilidade de morte do filho PT, podendo dificultar a formação de vínculos saudáveis
com o bebê, diante dos diversos aspectos que caracterizam esse período, a exemplo a separação
os pais, querer se apegar ao filho ao mesmo tempo que temem sua morte (Henrich et al., 2017;
Martins, 2000).
Em séculos passados, havia um sentimento de indiferença relativo a perda do filho,
principalmente pelos altos índices de mortalidade infantil comum até o fim do século 18. O
desinteresse pelas crianças era uma maneira dos pais se preservarem de qualquer sentimento
relativo ao luto pela sua morte, defendendo-se do sofrimento provocado pela perda caso fosse
estabelecido o sentimento de apego da mãe e pai com o filho (Ariés, 2006; Badinter, 1985).
A literatura evidencia, referente a perda de um filho, que a vivência do luto se torna mais
complicada, percebida como uma monstruosidade, considerada, para muitas pessoas, um
sentimento de pesar mais atormentador e doloroso. Havendo uma quebrar da lógica da ordem
natural das coisas, onde os pais que são mais velhos morrem primeiro que os filhos (Flach et
al., 2012; Iaconelli, 2007; Parkes, 2009; Viorst, 2005).
Destaca-se que quanto maior a vinculação, maior será a energia necessária para o
desligamento, provocado pelo rompimento definitivo do vínculo significativo. Relativo aos
sentimentos de perdas, quando ela acontece intraútero ou no período perinatal, as mães são mais
afetadas com óbito do bebê, em comparação aos pais. Quando o óbito ocorre com os filhos
mais velhos, há uma semelhança na vivencia da perda entre pai e mãe (Parkes, 2009). Estudo
destaca que o luto é mais intenso quanto menor for a idade dos filhos ou quando o filho é
natimorto (Paris, Montigny, & Pelloso, 2016).
É importante destacar que o luto é considerado uma profunda transição existencial, que tem diferentes repercussões psicológicas, comportamentais, emocionais, sociais, familiares,
espirituais e físicas, incluindo efeitos no sistema imunológico. Esse conjunto de reações são
respostas universais e naturais frente a mortede uma pessoa querida ou perdassignificativas na
Bowlby trouxe contribuições significativas para a compreensão do processo de luto,
estabelecendo algumas fases como: choque e negação diante da perda de figura de vinculação;
protesto, na tentativa de conseguir a figura perdida; desespero e desorganização; e, por fim,
reorganização com tentativa de retorno as atividades sem a pessoa perdida (Bowlby, 1985,
1990). Seu legado é importante para o entendimento da formação e rompimentos dos vínculos
afetivos, mesmo que a experiência de luto seja singular e particular, vivido de forma não linear.
Alguns estudos evidenciam que a situação de crise provocada pelo nascimento
prematuro e internação do neonato na UTIN pode manifestar uma vivência de luto diante do
potencial risco de vida provocado pela fragilidade de saúde característico dessa condição.
Nessas circunstâncias, é realizado um trabalho de luto como preparação para um possível óbito,
conhecido como luto antecipatório. Portanto, essa condição pode se desenvolver em situações
que indicam ameaça ou perigo real do membro vir a falecer, diante da provável perda, com um
pressentimento de sua finitude, como em situação de risco provocado pela gravidade do quadro
de saúde do RNPT (Lindemann, 1944).
Especificamente, referente ao luto antecipatório, este pode ser vivenciado por mães de
bebês prematuros hospitalizados em UTIN, visto que, ainda que estas se apresentem
esperançosas e com sentimentos positivos acerca da sobrevivência do RN, ficam diante da
incerteza do prognóstico do filho e da ameaça constantemente trazida pelas intercorrências
acontecidas na unidade. Nesse contexto, essas mães apresentam um risco maior de vir a ter
problemas de saúde mental, com complicações que estão ligadas à fragilidade para enfrentar o
nascimento PT e os cuidados com o bebê (Pinto, Padovani, & Linhares, 2009; Valizadeh et al.,
2013).
Ter um filho prematuro, frágil e diferente da forma que foi imaginada, provoca na mãe
um sentimento de luto decorrente de todas as perdas existentes nesse processo. A mãe tem a
envolve vivenciar o luto pelo bebê ideal e do ideal de ser mãe que foi desconstruído. Para o
atravessamento desse período crítico, sem que prejudique a vinculação mãe-bebê, é
fundamental a validação e apoio do sofrimento materno, seja pela família, profissionais de
saúde, instituições hospitalares e a sociedade, como uma forma de reconhecimento das perdas
e luto na maternidade prematura, provocadora de medos e expectativas em relação à saúde e
desenvolvimento do bebê (Tinoco, 2015).
No luto antecipatório, há uma preparação tanto cognitiva, quanto emocional para o
enfrentamento da perda, compreendido como um fenômeno adaptativo vivenciado pelos
pacientes e seus familiares. Tal fenômeno, ocorre antes da morte, manifestando quando uma
doença e/ou situação de perdas já estão sendo sentidas por aqueles que vivenciam o cuidado
e/ou estão ligados afetivamente ou pelo próprio individuo adoecido (Fonseca, 2004, Kovács,
2007).
Uma internação de um filho na UTIN, pode provocar, na mãe e familiares, um turbilhão
de sentimentos, como forma de ajustamento a essa realidade, quando se tem um longo período
de hospitalização e/ou prognóstico ameaçador que comprometa a vida, o enlutamento poderá
estar presente, desde a informação do diagnóstico fornecido pela equipe de saúde (Fonseca,
2004). Experienciar um familiar crítico em cuidados intensivos pode acionar um mecanismo,
considerado como adaptativo, o luto antecipatório, pelos membros da família, gerador de
sofrimento intenso, esse processo se apresenta entre a descoberta do diagnóstico até a morte
propriamente dita (Monteiro et al., 2017).
Martins (2000), realizou um estudo com 20 pais de bebês prematuros de risco,
objetivando compreender a experiência do nascimento PT e internação do neonato na UTIN.
Como resultado, verificou-se que em 100% dos participantes, foi identificado o medo da morte
do filho hospitalizado. Esse sentimento, conduziu os pais a um luto antecipatório, que pode
destacado pela autora que quanto menor o risco do bebê, menores serão as características do
luto antecipatório e maior será o vínculo afetivo fundamental para o comportamento de apego.
A esse respeito Tinoco (2015) coloca que a prematuridade antecipa e intensifica esse processo de luto pelo “bebê ideal” e pela maternidade idealizada com a separação abrupta do bebê.
Em um estudo que compara o luto antecipatório entre mãe e pai de bebê internado na
UTIN, não se percebeu diferença significativa na vivência entre ambos (Valizadeh et al., 2013).
Além disso, identificou-se que nesse tipo de pesar existe sentimentos de raiva, tristeza,
desespero, desamparo e culpa, bem como reações físicas que envolvem distúrbios do sono,
cansaço, hipertensão e alterações no apetite (Lindemann, 1944; Parkes, 1998).
A pesquisa supracitada destaca que, mesmo quando há melhora da condição de saúde da
criança, o luto antecipatório pode levar a problemas de dependência e dificuldades na relação
mãe-bebê. Além disso, quando o luto antecipatório não é identificado ou há falta de apoio
apropriado, existe a possibilidade de a mulher apresentar sintomas ou transtornos de ansiedade
e depressão (Valizadeh et al., 2013). Vale destacar a escassez de estudos que se dedicam a
compreender o fenômeno do luto antecipatório por mães e/ou pais de bebês prematuros em
contexto de UTIN. Assim como, a inexistência de instrumentos validados para a população
brasileira que consiga mensurar tal experiência nesse cenário de estudo.
Em um estudo de revisão referente às principais doenças associadas ao luto antecipatório,
destaca-se o câncer como a doença mais prevalente. Respectivamente, vem seguidos estudos
relacionados a disfunção cognitiva, alzheimer, prejuízo cognitivo e demência, prematuridade,
paralisia cerebral, crise psicogênica não-epilética e malformação congênita. Ressalta-se, que no
estudo realizado, foram encontrados, somente, dois artigos internacionais que relaciona a
É de grande importância um olhar atento por parte dos familiares e equipes de saúde para
a mãe que está com seu filho hospitalizado e com risco de vir a óbito. Ofertar um cuidado desde
o período de internação é essencial para o enfrentamento do luto após o óbito. Salienta-se que
a população do sexo feminino que vivencia a perda de um filho é mais comum de desenvolver
manifestações do luto complicado, condição descrita no Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais (DSM-V) e na nova Classificação Internacional de Doenças (CID-11), que
traz uma definição de um sofrimento intenso, persistente, angustiante e incapacitante, como
consequência de uma inadaptação no rompimento do vínculo significativo (Paris et al., 2016).
As mães e pais de filhos com doenças crônicas, deficiências, e outras condições não predizíveis (a exemplo a prematuridade que pode ser considerada, em alguns casos, uma condição não esperada) vivenciam seus papeis maternos e paternos com maiores dificuldades. Nesse sentido, é importante que na comunicação do médico ou equipe de saúde que assistem o casal, seja estabelecido, um diálogo com linguagem clara e simples, para que se consiga assimilar tais informações e contribua para elaborar o luto do “filho ideal” que foi perdido (Lucca & Petean, 2016).
Destaca-se, que falar de luto é abordar um tema interditado, reflexo de uma modernidade
que não suporta o sofrimento, com baixa tolerância a sentimentos que remetem à tristeza, perda,
frustração. Assim, torna-se necessário uma permissão social para a vivencia da dor,
favorecendo uma ressignificação frente à perda, aquelas reais e simbólicas, provocadas pela
nascimento prematuro e encontro com o “bebê real” apresentado extraútero (Freitas, 2013).