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2.3 EXPERIÊNCIA DO ADOECIMENTO E PRODUÇÃO DE SENTIDOS:

2.3.1 Experiência do Adoecimento e Perda Auditiva

Para o desenho da estratégia do estudo das experiências de perda auditiva ocupacional, na busca pelos sentidos da audição e da perda auditiva atribuídos pelos metalúrgicos; e dos comportamentos/ações dos mesmos perante o ruído e a perda auditiva no trabalho, consideramos as observações de Gomes e Mendonça (2002). Segundo estes autores, a representação social da doença é compreendida na dimensão da experiência, na qual a compreensão das questões de ordem intersubjetiva dentro de um espaço comunicacional e relacional são essenciais. Neste entendimento, a representação social da doença é composta de dois pólos teórico-metodológicos que não podem ser abandonados na análise: o pólo representacional e o pólo da experiência do adoecer, separáveis apenas didaticamente (GOMES e MENDONÇA, 2002).

Vale lembrar que estas representações não são sistemas fixos e fechados que determinam os modos de agir perante as doenças, uma vez que conformam um conjunto aberto e heterogêneo que é continuamente refeito, ampliado, deslocado e problematizado durante as interações indivíduo-indivíduo e indivíduos-meios (ALVES e RABELO, 1998). Nesse sentido, estes autores recomendam que a análise das mesmas contemple:

(...) as formas temporalmente circunscritas pelas quais os atores imputam e negociam significados para suas experiências, vivenciam dificuldades de sustentar esses significados, delineiam e levam a cabo projetos e estratégias para se (re) situar no mundo social dado o evento/problema da doença (Alves e Rabelo, 1998, p. 119).

Alves (1993, p. 268) sugere que a compreensão da enfermidade prende-se à experiência, a qual merece maior destaque do que as representações ou demais perspectivas de análise. Nas suas palavras:

é a experiência do sentir-se mal que, por um lado, origina por si mesma as representações da doença e, por outro, põe em movimento a nossa capacidade de transformar esta experiência em conhecimento. É através das impressões sensíveis produzidas pelo mal-estar físico ou psíquico que os indivíduos se consideram doentes.

A experiência do adoecer remete ao modo como a doença é trazida à experiência individual e se torna significativa para o paciente, de modo que a pessoa se reconheça doente a partir da interpretação dos sintomas experienciados como sinais de uma doença (IRIART, 2003). Nesse instante, há a diferenciação da “disease” ou “patologia”, a qual se refere às anormalidades de estrutura ou funcionamento de órgãos ou sistemas; da “illness” ou “enfermidade”, percepções e experiências do paciente acerca da primeira. Essa diferenciação, proposta pelo antropólogo Kleinman (1980), permite ampliar a visão acerca da experiência da doença, a qual não é mais vista como simples reflexo do processo patológico no sentido biomédico do termo. Considera-se que ela conjuga normas, valores e expectativas, tanto individuais como coletivas, e se expressa em formas específicas de pensar e agir (UCHÔA e VIDAL, 1994).

Laplatine (1999) chama atenção de que anterior a illness, tem-se a sickness, um estado muito menos grave e mais incerto, que, de maneira mais geral, é constituído pelo “mal-estar” sem maiores significações pelo doente. Segundo Ferreira (1995) a percepção da doença se dá, inicialmente, neste momento através de um conjunto destas sensações desagradáveis e sintomas, como por exemplo: cansaço, fraqueza, dor, falta de apetite, sono, febre, incômodo, zumbido, dentre outras; sendo o corpo veiculador de mensagens que, ao serem apropriadas pelo médico ou pelo indivíduo, conduzem ao significado da doença. Contudo, lembra Alves (1993), nem toda alteração ou disfunção orgânica ou psíquica desperta necessariamente uma experiência de sentir-se mal. Processos ou estados patológicos podem estar presentes no nosso corpo sem que tenhamos consciência

deles. Ou seja, a disease também pode ocorrer na ausência da illness, a exemplo dos casos de hipertensão assintomática não diagnosticada.

Helman (1994) ao utilizar o termo illness como doença na perspectiva do sujeito doente, para diferenciar do conceito de saúde/doença ditado pelo saber biomédico, esclarece que o mesmo não apenas experimenta os problemas de saúde, seus sinais e sintomas, mas, sobretudo dá significado à doença. Nesse sentido, as definições de doença variam entre indivíduos e entre classes. Esse diverso significado simbólico, que pode ser de cunho moral, social ou psicológico, irá depender de como o sujeito interpreta “[...] a origem e a importância do evento, o

efeito deste sobre seu comportamento e o relacionamento com outras pessoas, e as

diversas providências tomadas por ele para mediar à situação” (HELMAN, 1994, p.

104).

Kleinman (1980), inspirando-se em Geertz (1973), afirma que a cultura

fornece modelos “de” e “para” os comportamentos humanos relativos à saúde e à

doença. Ao influenciar a apreensão cognitiva dos sintomas, a cultura contribui para determinar se eles serão avaliados como irrelevantes; naturais e não indicadores de doença; ou se, ao contrário, serão percebidos como algo que demande ajuda terapêutica imediata. Desse modo, as interpretações destes sujeitos são fortemente influenciadas pela cultura, a qual fornece as lentes através das quais são realizadas as leituras dos sinais corporais. Os indivíduos, independentemente de conhecerem e/ou concordarem com os saberes médicos, criam “meios explicativos” para o processo de adoecimento, os quais veiculam crenças, normas de conduta e expectativas específicas de resolução. (Kleinmnan, 1980).

Esta discussão nos conduz a pensar o adoecer como um fenômeno social, no qual as interações entre atores sociais, instituições e grupos sociais operam modificações nas experiências e nas representações dos doentes. Compreender o processo saúde-doença nestes termos é significativo para entender como tais representações são produzidas, reproduzidas, atualizadas ou transformadas à luz das experiências que os atores sociais vivem durante o próprio processo do adoecer e a partir das conseqüências do mesmo em suas vidas (GOMES e MENDONÇA, 2002). Daí, a importância de se ultrapassar as concepções fisiopatológicas dos

distúrbios da audição e buscar compreender como o doente, o operário, experimenta e significa a perda auditiva.

Assim, o conceito de experiência ganha outra perspectiva, a de experiência socialmente constituída, na qual se apresentam estratégias que só são passíveis de análise quando se expressam como narração individual e intersubjetiva, portanto social; mas entendendo nessa condição a presença de uma situação dialógica e dialética. Os significados são, desse modo, negociados também em um espaço comunicacional e político, em que a enunciação coletiva reflete a atualização de um universo discursivo e experiências vividas e projetadas (HYDÉN, 1997). Em suma, a experiência da enfermidade é entendida como a “forma pela qual os indivíduos

situam-se perante ou assumem a situação de doença, conferindo-lhe significados e

desenvolvendo modos rotineiros de lidar com a situação”. Estas respostas aos

problemas criados pela doença remetem diretamente a um mundo, compartilhado socialmente, de práticas, crenças e valores (Alves e Rabelo,1999, p.171)

Apesar de não existirem estudos em Audiologia que utilizem a categoria experiência, é possível fazer algumas considerações iniciais acerca da vivência do ruído e da perda auditiva ocupacional pelos operários em seu trabalho e vida social. A exposição ocupacional ao ruído intenso está associada a várias manifestações sistêmicas, tais como elevação do nível geral de vigilância, aceleração da freqüência cardíaca e respiratória, alteração da pressão arterial e da função intestinal, dilatação das pupilas, aumento do tônus muscular, aumento da produção de hormônios tireoidianos e estresse (COHEN, 1973; COSTA e KITAMURA, 1995). Essa exposição torna-se um risco ainda maior quando além de perturbar seu trabalho, perturba seu descanso, seu sono e sua comunicação com os seres humanos (ALMEIDA et al., 2000).

Segundo Merluzzi (1981), os sintomas decorrentes de exposições crônicas a ruído evoluem em quatro estágios. Nos primeiros dez a vinte dias de exposição, o trabalhador costuma acusar zumbido acompanhado por leve cefaléia, fadiga ou tontura. Segue-se o período de alguns meses de adaptação, nos quais os sintomas tendem a desaparecer. Num terceiro período, geralmente anos, o indivíduo refere dificuldade em escutar sons agudos como tique-taque do relógio ou as últimas

palavras de uma conversação, principalmente em ambientes ruidosos. É neste estágio que a habilidade de diferenciar os sons da fala começa a ficar prejudicada. Por fim, num quarto momento, o déficit auditivo interfere diretamente na comunicação oral e, geralmente, reaparece o zumbido. Vale salientar que, apesar do zumbido ser um sintoma de aviso, que pode aparecer antes da sensação de redução auditiva, por não interferir diretamente na conversação diária, corre o risco de ser também naturalizado e/ou negligenciado pelos trabalhadores e profissionais de saúde. Isso acontece por conta do mesmo atingir, inicialmente, as freqüências agudas, justamente aquelas que estão em processo de deterioração.

Os metalúrgicos acometidos pela perda auditiva estão sujeitos; além do isolamento social proveniente do distúrbio de comunicação, comum a todos os indivíduos com déficit auditivo; à diminuição na habilidade para monitorar o ambiente de trabalho (sinais de advertência); ao aumento do risco de acidentes no local de trabalho; aumento do esforço e fadiga; atenção e concentração excessiva durante a realização de tarefas que impliquem a discriminação auditiva; ansiedade; irritação e aborrecimentos causados pelo zumbido; intolerância a lugares ruidosos e a interações sociais; auto-imagem negativa: vê-se como surdo, velho ou incapaz; e redução da qualidade de vida (HÉTU, LALANDE, GETTY, 1987; NIOSH, 1996).

Além destes comprometimentos na esfera laboral, tem-se uma série de outras limitações que podem se manifestar no relacionamento pessoal com familiares, amigos, colegas de trabalho, e que podem acarretar mudanças drásticas de comportamento em nível psíquico e social (FERREIRA JUNIOR, 1998). Logo, há claramente um aumento da complexidade do problema nessa população, pois além dos acometimentos relativos à vida social, comum a todos os sujeitos com déficit auditivo, tem-se a redução da capacidade do sujeito para o trabalho, o que modifica substancialmente a constituição da subjetividade destas pessoas. Araújo (2002) observou, por exemplo, que após o diagnóstico de perda auditiva ocupacional, os operários expressaram maior ansiedade durante o trabalho e passaram a reclamar dos sintomas característicos de desordem auditiva, a exemplo do zumbido, fadiga auditiva e incômodo auditivo.

Tal fato confirma os estudos de Loyola (1984), Duarte (1986), Queiroz (1993) e Minayo (1997), os quais mostram que apesar dos indivíduos da classe trabalhadora representarem a doença como incapacidade para o trabalho, tendem a desconsiderar os primeiros sinais e sintomas de incômodo corporal e buscar assistência médica somente quando estes lhes impedem de continuar realizando suas atividades laborais. Este comportamento, construído em interação com a experiência concreta das condições objetivas de trabalho, acontece devido a mecanismos de coerção no sentido de manter-se trabalhando ou do retorno ao trabalho o mais breve possível (IRIART, 2003).

Atrelado a isso, tem-se algumas características singulares da perda auditiva ocupacional que influenciam a experiência da perda auditiva, são elas: não afeta inicialmente as freqüências da fala (500, 1000 e 2000 Hz), logo, demora a interferir na compreensão durante a comunicação; seus sintomas não são facilmente perceptíveis, na medida em que não causam dor ou mal-estar no organismo do trabalhador; e há mecanismos do organismo de compensação para a perda, sistemas de adaptação que nem sempre permite que o trabalhador consiga perceber a perda (MOREIRA, 2007). Os resultados da incapacidade auditiva só vão serem observados pelo trabalhador quando a lesão evoluir em grau ou em freqüências atingidas, passando a ocasionar redução da discriminação da fala na presença de competição sonora (ruídos de fundos, outros sons, outras pessoas conversando, etc); problemas de localização sonora e redução da capacidade de discriminação de sons ambientais (televisão, rádio, cinema, teatro, música, sons ambientais diversos e sinais sonoros de alerta) (MELNICK, 1994). Portanto, a deficiência auditiva é imperceptível até que seus efeitos comprometam a discriminação de fala ou dos sons ambientais. Ou seja, a perda auditiva ocupacional, até o instante de seu agravamento, é outro típico exemplo de disease na ausência da illness.