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4. REFORMA ADMINISTRATIVA EM SISTEMAS FEDERAIS

4.4 AS EXPERIÊNCIAS DO ESTADO DO CEARÁ E DO ESTADO DE MINAS

4.4.2 A experiência do Estado de Minas Gerais

Em Minas Gerais a iniciativa de descentralização via reforma do estado foi inicialmente realizada pela Assembleia Legislativa em 199320. A assembleia legislativa

direcionava os trabalhos a partir da realização de audiências públicas regionais tendo como objetivo inserir as demandas da sociedade nos orçamentos anuais (BIRKNER, 2008). As audiências anuais possuíam um caráter estritamente orçamentário, eram realizadas nos municípios para a escolha de representantes para as audiências estaduais entre vereadores, prefeitos e sociedade civil. Na fase estadual, esses representantes apresentavam as propostas de seus respectivos municípios, depois de exposições verbais de agentes do poder Executivo, do poder Judiciário e do Tribunal de Contas do Estado. Logo após, as propostas eram apresentadas e submetidas à votação para a definição de uma ordem de prioridade. Bandeira (1996) afirma que até o ano de 1996 a maioria das propostas não saiu das suas intenções, tendo recebido pouca atenção governamental.

Em seguida as audiências passaram a ser bianual, o que, de acordo com Birkner (2008), resultou em pouco ou em nenhum impacto sobre os atores envolvidos. Em 1998 as audiências foram suspensas, devido ao calendário eleitoral e aos problemas ocasionados entre o Executivo e o Legislativo estaduais, por inexecução das propostas prioritárias definidas nas audiências, minando a credibilidade do processo em relação à sociedade, conforme complementa o autor.

Birkner (2008) indica um fator de sobreposição à iniciativa do poder Legislativo que partiu do Executivo Estadual que, em 1995, criou 25 regiões administrativas com a finalidade de promover a descentralização administrativa, a fim de atender a população no interior do Estado. Entretanto, segundo Bandeira (1999), a iniciativa do Executivo não estabeleceu relação direta com as audiências públicas, provocando uma duplicação de papéis, o que veio criar os cargos de coordenadores regionais, onde o poder Executivo estadual atribuiu-lhes as funções de “identificar, priorizar e encaminhar os problemas e as reivindicações regionais”, sem deixar clara a participação da sociedade civil, o que ocasionou um conflito de funções entre as duas instâncias regionais. Ainda segundo Birkner (2008), o objetivo ao criar as regiões administrativas era aproximar o Estado do cidadão e desconcentrar serviços que eram

oferecidos apenas na capital, Belo Horizonte21. Essas regiões foram implementadas

em 1997 e o processo foi coordenado pelo professor Paulo Haddad da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e técnicos da secretaria de planejamento estadual, do Instituto de Geociências e da Fundação João Pinheiro.

A partir da criação das administrações regionais, o governo estadual, tendo à frente o governador Eduardo Azeredo do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB), implementou: (a) serviço de atendimento direto ao cidadão, voltado às reclamações e facilitando o acesso à recursos burocráticos; (b) descentralizou as licitações menores, para criar serviços e articular as licitação e obras nas regionais setoriais em vários órgãos estaduais para que permitissem integrar as várias agencias do serviço público estadual no interior.

O processo foi interrompido, com a não continuidade da política de descentralização pelo governo seguinte, quando foi eleito, em 1999, o Governador Itamar Franco, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Em 2003 assume o governador Aécio Neves (PSDB), que segundo Silva (2005), naquele momento tinha como prioridade a recuperação das finanças públicas.

Neves e Melo (2007), concluem em estudo sobre as inovações administrativas no estado de Minas Gerais a partir de 2003 que a utilização de novas práticas administrativas, como a contratualização de resultados através do Acordo de Resultados, constitui-se numa das principais medidas do Choque de Gestão mineiro, no período de 2003 a 2006, na busca da implementação de um novo modelo gerencial. No entanto, os autores afirmam:

O objetivo de alinhar instituições com a estratégia governamental a partir da pactuação de resultados, apesar de bem avaliado, precisava ser melhorado, pois problemas como a baixa execução física de alguns Projetos Estruturadores, assimetria de informações entre os acordantes e acordados, dificuldade de alinhar políticas públicas setoriais com a agenda estratégica de governo, baixo conhecimento e envolvimento dos servidores dos níveis operacionais no alcance das metas e objetivos governamentais, e restrições na aplicação do prêmio por produtividade, precisavam ser superados (NEVES; MELO, 2007).

O desempenho do Governo passou a ser avaliado, de um lado, por resultados analisados por indicadores de qualidade e universalização dos serviços e, de outro, por custo do Governo para a sociedade. Através da qualidade fiscal e gestão eficiente, “o objetivo síntese da estratégia “Estado para Resultados” é reduzir a participação do

poder público mineiro na riqueza, medida pelo Produto Interno Bruto (PIB) e, ainda, melhorar os resultados para a sociedade, avaliados mediante indicadores sensíveis à evolução na qualidade de vida dos mineiros” (PLANO DE DESENVOLVIMENTO INTEGRADO, 2007, p.25).

O Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado (PMDI) 2007-2023 passa por uma nova reformulação, elaborado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Secretária Desenvolvimento Regional e Política Urbana e Extraordinária para o Desenvolvimento dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e Norte de Minas, “Desenvolvimento do Norte de Minas, Jequitinhonha Mucuri e Rio Doce: aumentar o volume de investimentos privados nestas regiões por meio da atração de capitais produtivos e da melhoria da infraestrutura, da educação, da qualificação para o trabalho e das condições de saúde e saneamento” (PLANO DE DESENVOLVIMENTO INTEGRADO, 2007, p.25).

Birkner (2008) afirma que desde então, não houve propriamente qualquer reformulação na direção da regionalização político-administrativa no estado, o que demonstra o desperdício de esforços pelas soluções de continuidade.

5 A GOVERNANÇA REGIONAL: DIMENSÃO INSTITUCIONAL E AS TENDÊNCIAS ESTADUAIS

Nesta seção apresentamos uma matriz com informações que procuraram caracterizar e diferenciar as experiências estaduais relacionadas ao desenvolvimento regional integrado, no período de 2007 a 2014 no Brasil, a partir das experiências dos estados de Minas Gerais (Sudeste), Ceará (Nordeste) e Pará (Norte). A apresentação da matriz/quadro tem o objetivo de contribuir com o aprofundamento da análise. Ela é formada por 13 indicadores determinados a partir dos referenciais teóricos e empíricos deste estudo.

Além da matriz, apresentamos o índice de autonomia fiscal e Produto Interno Bruto (PIB) dos Governos Estaduais do Pará, Ceará e Minas Gerais entre o período de 2000 a 2010, com o intuito de relacionar os aspectos institucionais e os fiscais dos governos estaduais analisados nesta seção.

Após a apresentação da matriz, destacamos, por estado, as informações localizadas nos PPAs, relatórios de avaliação referentes aos PPAs e as constituições estaduais, documentos aos quais nos permitiram pensar os indicadores apresentados.

As ações, programas e resultados destacados por estado estão relacionadas ao desenvolvimento regional integrado proposto por cada governo estadual entre os períodos de 2007 a 2014.

5.1 MATRIZ ANALÍTICA, ASPECTOS CONSTITUCIONAIS E AÇÕES DE GOVERNOS: CEARÁ, MINAS GERAIS E PARÁ

Quadro 3: Aspectos Constitucionais e Ações dos governos estaduais do PA, CE e MG voltados ao

desenvolvimento e integração regional (2007 a 2014)

CONSTITUIÇÃO ESTADUAL

PARÁ CEARÁ MINAS GERAIS

Determina atribuições relacionadas ao

Desenvolvimento Regional.

Sim Sim Sim

Determina Planejamento regionalizado.

Sim Sim Sim

Prevê inter-relação, integração,

desconcentração e descentralização dos múltiplos níveis de governo e das entidades da

administração pública direta e indireta com

representação nas regiões de integração.

Sim Sim Sim

O estado deve atuar com vistas à diminuição das desigualdades regionais e sociais e a partir

participação social

organizada no planejamento regional.

Sim Sim Sim

AÇÕES E PROGRAMAS ESPECÍFICOS

PARÁ CEARÁ MINAS GERAIS

Reforma do estado

específica, com vistas a promover o

desenvolvimento regional integrado.

Programas específicos para o desenvolvimento regional integrado.

SIM SIM SIM

Políticas territoriais pactuadas

SIM SIM SIM

Políticas específicas para Desenvolvimento Territorial

SIM SIM SIM

Prioridade nas relações institucionais em nível horizontal (governo federal)

SIM SIM SIM

Prioridade por relações verticais (prefeituras, secretarias e demais atores).

SIM SIM SIM

Conselho estadual de desenvolvimento regional

SIM SIM SIM

Atitudes de governança regional democrática participativa voltadas ao desenvolvimento e a integração regional

Fundo estadual para o desenvolvimento regional

SIM NÃO SIM

Fonte: PPA’s Pará, Minas Gerais e Ceará (2008 a 2016), Relatório de Avaliação (2008 a 2016), Constituições Estaduais Pará, Ceará e Minas Gerais. Elaboração da Autora (2015).

A matriz/quadro nos permitiu visualizar como os governos estaduais preveem, em suas constituições, a implementação de iniciativas voltadas ao desenvolvimento regional integrado, a integração regional e o planejamento territorial participativo, nos estados brasileiros, conforme já afirmou Abrucio, Sano e Sydow (2010). Ou seja, existe a tendência entre os três estados em priorizar o desenvolvimento regional integrado intrarregional com iniciativas características de governança regional relacionadas ao aumento das relações intergovernamentais próprias.

Na tabela abaixo apresentaremos o índice de autonomia fiscal e Produto Interno Bruto (PIB) dos Governos Estaduais do Pará, Ceará e Minas Gerais entre o período de 2000 a 2010.

Tabela 2: Índice de autonomia fiscal e Produto Interno Bruto (PIB) dos Governos Estaduais do Pará,

Ceará e Minas Gerais entre o período de 2000 a 2010. (Em%)

Índice de autonomia Fiscal

UFs Populaçã o 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Pará 8 175 113 44,4 4 47,9 3 55,4 4 52,6 6 61,0 9 46,2 0 64,8 5 52,4 1 57,0 3 57,9 7 58,6 4 Ceará 8 904 459 64,0 0 57,4 3 50,5 1 47,3 7 56,5 8 41,9 8 58,7 2 47,0 8 52,8 5 53,4 7 55,7 7 Minas Gerai s 20 869 101 75,6 5 84,7 1 82,8 7 68,1 0 86,5 4 58,4 1 84,9 6 70,6 5 85,6 4 84,9 5 90,0 6 Fonte: STN/IBGE (2016).

Conforme demostra a tabela 03(três), em todos os anos o governo estadual de Minas Gerais foi o que mais apresentou percentuais acima de 60% de autônima fiscal em relação aos governos estaduais do Ceará e Pará, que oscilaram entre 44% a 58%,

tendo o estado do Ceará apenas no ano de 2000 atingido um patamar acima de 60% de autonomia fiscal em relação aos demais governos estaduais.

5.1.1 Aspectos Constitucionais e ações do governo do Pará em relação ao