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3 CULTURA: UM ORGANISMO VIVO

3.3 EXPERIÊNCIA PRÁTICA NO MÉTODO PROCESSPATCHING

Nos encontros introdutórios do grupo Patchingzone no projeto Cultuur Lokaal, era importante visualizar como iríamos trabalhar juntos. Era importante conhecer um pouco a forma de trabalho de cada um de nós e estabelecer um senso de

colaboração dentro do grupo. Começamos com uma série de exposições, nas quais apresentávamos nossa forma de conceber o processo criativo e a composição. Essas exposições eram demonstradas em qualquer media artística: vídeo, performance, música etc. Através dessas apresentações, criamos um espaço para a troca de ideias, motivações pessoais e expectativas no projeto. Depois dessas atividades preliminares, de acordo com o princípio básico de pesquisa prática participativa, o primeiro passo seria procurar meios de interagir com a cidade de Gouda: as instituições, as ruas, as casas, os cafés etc. A primeira fase do processo foi, portanto, dedicada a “mapear a cidade”. τ objetivo era observar e analisar as características da população e do ambiente para compreender as questões fundamentais de cada instituição, por instância, quais as suas expectativas e objetivos e como eles poderiam trabalhar colaborativamente; e identificar aspectos da identidade da região para examinar os impactos dos processos político- econômicos globais na sua realidade cultural. Duas técnicas foram usadas nessa fase: Derive e pesquisa de campo.

Derive é a principal estratégia usada pelo movimento artístico e político

Internationale Situationniste na década de 1950, na Europa. Théorie de la dérive é

descrita na publicação do jornal Internationale Situationniste #2 (Paris, Dezembro de 1958)54 como “uma técnica de rápida passagem através de variadas ambiências; um

comportamento brincante-construtivo e atenção aos efeitos psicogeográficos, sendo pois diferente da noção clássica de jornada ou passeio”. σuma Derive, uma ou mais pessoas, durante um período de tempo, deixam suas relações sociais, trabalho, atividades de lazer e todos os outros motivos usuais para movimento ou atividade e se deixam levar pelas atrações do terreno e pelos encontros com que se depararem. O acaso é um fator menos importante do que se possa pensar nessa atividade: do ponto de vista da Derive, as cidades têm contornos psicogeográficos, com constantes correntes, pontos fixos e vértices, que desencorajam fortemente entradas e saídas em certas zonas. Mas, a estratégia inclui ambos „o se deixar levar‟ e sua necessária contradição: a dominação de variações psicogeográficas pelo

54 A teoria da Derive foi publicada no Jornal Internationalle Sitiationniste #2 (Paris, dezembro de 1958). Uma versão ligeiramente diferente foi publicada no jornal surrealista belga Les Levres Nues #9, em novembro de 1956. A traducão em inglês da qual me utilizei é de Ken Knabb, em Situationist International Anthology (2006, No Copyright).

conhecimento e o cálculo de suas possibilidades.A utilização dessa estratégia tinha como objetivo coletar impressões e destacar aspectos recônditos da cidade que viessem a revelar a sua subjetividade.

Em relação às atividades de pesquisa de campo, foram realizadas entrevistas nas ruas de diferentes vizinhanças da cidade, análise de estatísticas econômicas e demográficas, visitas guiadas às três instituições e encontros com seus diretores e alguns membros do governo local. Essa prática deu-nos uma visão das principais preocupações do projeto BAM e de seus principais interesses e objetivos. Além disso, nós escrutinizamos a cidade virtual, procurando por websites, blogs e todo tipo de network existente. Na comunicação interna, além dos encontros e reuniões na sede do projeto, em Gouda, utilizamos a comunicação virtual: networks, calendários comuns, salas de bate-papo, blogs e docs etc.

Uma importante ferramenta para a representação dos papéis de cada membro do grupo, suas funções e habilidades dentro do processo, foi o „Triângulo aRt&D:

O triângulo aRt&D é um instrumento especial para análise de processos colaborativos de times interdisciplinares. Essa ferramenta é designada a assistir o time no processo de seleção do modelo de colaboração. A ferramenta ajuda a informar os colaboradores a formação de cada um (alfa - humanidades; incluindo artes; beta - ciências naturais; gama - ciências sociais). Também visualiza a distância entre os domínios de conhecimento representados pelos colaboradores. Isso provê um mapa claro do conhecimento e proficiência representado no time, o que é a base para

decisões metodológicas quando está começando um projeto. 55 (NIGTEN,

2006) (Tradução nossa)

Essa ferramenta auxiliou a comunicação, mostrando os conhecimentos, inclinações, interesses e disponibilidade de cada um dos participantes. A estrutura do triângulo é móvel; muda com as alterações de dinâmica no grupo. O desenho da dinâmica do grupo pode ser percebida como uma rede, construída e transformada a cada novo momento. A ação dos participantes faz suas posições viajarem no triângulo, representando seus papéis e, portanto, mostrando outra configuração do

55 The aRt&D Triangle is a special instrument for analyzing the collaboration processes of the

interdisciplinary teams. This tool is designed to assist the team in the collaboration model selection process. The tool is useful in that it succeeds in informing the collaborators about each other‟s backgrounds ( - Humanities; including the arts, - natural sciences, - social sciences). It also visualizes the distance between the knowledge domains represented by the collaborators. It provides a clear map of the knowledge and expertise represented in the team, which is the basis for methodological decisions when starting a project.

time de trabalho na zona entre as disciplinas. O espaço entre as diferentes abordagens dos participantes, dado as suas formações distintas, foi descoberto como criativamente frutífero, pois promoveu um meio de colaboração, no qual os conceitos não eram construídos através de perspectivas, mas como inevitáveis efeitos/resultados. τ espaço “entre” reflete as teorias de base do método

Processpacthing, um método transdisciplinar, baseado numa zona de transvergência

de interação para comunicar e trocar ideias e conceitos, o que “leva-nos a novos campos onde métodos são mixados ou recebem novos efeitos/inputs, e onde todas as disciplinas são beneficiadas, e leva as partes relevantes do conhecimento gerado de volta para suas próprias disciplinas” (σIGTEσ, β006, p. 1β9) (Tradução nossa). Trabalhar nesse espaço “entre” as disciplinas trouxe ao nosso grupo diferentes abordagens ao tema de nossa investigação, criando um novo domínio, além daqueles de cada disciplina separadamente.

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