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4.3 Trajetórias acadêmicas e profissionais

4.3.3 Experiências de trabalho no serviço público

Dentre os entrevistados do estudo que já trabalham no serviço público, foi possível estabelecer aproximações e diferenças nessa experiência, a partir dos seus cotidianos de trabalho. Aspectos relacionados à burocracia e à morosidade no serviço público foram frequentes nas falas destes sujeitos:

É tudo bastante burocrático, bastante detalhe (...)(Grilo).

Aqui é tudo por meio de licitação, é demorado, é um trabalho (Estrela).

A este respeito, Saravia (2006) aponta que, apesar de o modelo administrativo pautado na burocracia receber muitas críticas, ainda é mantido como um ideal a ser alcançado para muitas administrações públicas. De acordo com Neves (2005), no contexto brasileiro, apesar das reformas ocorridas visando à substituição da administração burocrática pela administração gerencial, ainda estão enraizados aspectos burocráticos na gerência pública.

Enquanto as alusões à burocracia foram comuns nas diversas vivências, também emergiram particularidades, como a diferença de hierarquia e a discriminação existente no ambiente de trabalho. Segundo Sol, em seu departamento há advogados e administradores, ambos concursados e, consequentemente, servidores públicos. Entretanto, os administradores são chamados técnicos ou apenas servidores, enquanto os advogados são denominados como tais. Essa divisão provoca mal estar:

O meu concurso é nível superior, mas eles chamam de técnico. Então, você se sente um pouco, não vou dizer humilhado, mas um pouco mal com essa divisão. Eu adoro trabalhar lá, as pessoas são legais, adoro trabalhar lá. Mas eu não quero ser a servidora, entendeu? Eu sei que eu posso muito mais (Sol).

Uma diferença marcante explicitada foi a precariedade das condições de trabalho nas diferentes esferas e áreas do serviço público. Na área da saúde, conforme Estrela,

(...) os aparelhos estragam, aqui estão sucateados há 20/30 anos e não trocam. Então a gente trabalha em condições bem críticas, não te provêm de recursos mínimos prá você tá trabalhando (...)(Estrela).

Situação diferente foi relatada por Grilo, servidor público da Receita Federal: (...) trabalho eu e mais quatro pessoas, então é pessoal suficiente pra fazer o que a gente faz, não tem nada apurado pra se fazer, é bem tranquilo (...) nós temos um horário bastante flexível (...) então a gente escolhe o horário de trabalho, desde que folgue uma hora para o almoço. E nem sempre a gente faz oito horas também, tem uma coisa desse tipo também (Grilo).

Comparando as falas de Estrela e Grilo, percebem-se discrepâncias de recursos, tanto materiais quanto humanos, existentes nos diferentes âmbitos e distintas áreas do

serviço público brasileiro, evidenciando prioridades para algumas áreas, enquanto outras, como a saúde, parecem não gozar da mesma distinção. Estes dados mais uma vez corroboram a heterogeneidade de realidades presente no serviço público brasileiro.

Outras diferenças sobressaíram quando expressaram como se sentem na rotina das atividades que realizam em seus respectivos postos de trabalho:

Não é das melhores não [a atividade], às vezes a gente cansa, eu talvez esteja um pouquinho cansado de fazer o que eu faço lá. (...) além de ter bastantes dificuldades, por exemplo: compras, comprar pra órgão público é muito difícil, é bem complicado e quando são coisas pequenas ninguém quer fornecer, então pra você conseguir três orçamentos que é o mínimo exigido, às vezes a gente passa duas/três semanas ligando pra 10/15 pessoas e acaba ficando chato (Grilo).

Estrela, mesmo considerando o trabalho no serviço público “desgastante”, se diz satisfeito com o seu trabalho:

Eu tive que adquirir determinado conhecimento, não é qualquer um que tem prá ta exercendo essa atividade e também passei pela leva de passar em um concurso público, dois processos de seleção. Então pra mim tá sendo bem satisfatório. As

pessoas te tratam com respeito (...) os familiares e os teus colegas também têm uma determinada admiração por você ter conquistado esse posto. Então eu acho gratificante (...).

Enquanto Estrela relatou trabalhar com mínimas condições em sua atividade, porém ressaltou a satisfação que obtém por meio do seu trabalho, o conhecimento adquirido, o status e o respeito de ser um servidor público, Grilo, apesar de relatar excelentes condições de trabalho, expressou que sua atividade “não é das melhores”. Tal discrepância leva a refletir acerca do que se configuraria como diferencial para esses dois servidores.

Chanlat (2002) assinala que a natureza do serviço público não pode ser reduzida àquela de uma empresa privada, pois o primeiro remete a um universo não mercantil, cuja vocação deve ser a de servir ao interesse geral e assegurar a justiça social. Todavia, conforme os resultados mostram, foram pouco referidas as características elencadas por Chanlat (2002) como cruciais ao trabalho nesse meio. Machado (2009), problematizando o ingresso no serviço público assinala que “a necessidade de se buscar uma ocupação profissional pelas pressões naturais da sobrevivência cria um problema no campo da subjetividade profissional: a incidência de um baixo índice de realização pessoal no exercício da função pública” (p. 13).

Sobre essa questão, Luna e Baptista (2001) pontuam que o trabalho muitas vezes gera adoecimento, frustração e infelicidade, podendo ser fomentador de tais sentimentos o fato deste trabalho não ser significativo para quem o executa. Nesse sentido, alcançar o prazer, a felicidade e a realização através da atividade profissional requer que as

pessoas consigam se reconhecer no produto do seu próprio trabalho, ao invés de se motivar por fatores externos, tais como a estabilidade ou remuneração.

É fato que ao ingressar no serviço público, a maioria das pessoas não tem clareza da finalidade do trabalho que vão desenvolver, cujo foco primordial é o bem da coletividade. Assim, pautados apenas nos atrativos desse segmento, acabam “presos” numa armadilha que pode levar à desmotivação e frustração no trabalho. Chanlat (2002) propõe que a reflexão sobre a motivação para o trabalho no setor público tome por base a importância da ética do bem comum para este contexto. Desse modo, voltando à diferença na relação estabelecida com o trabalho entre Estrela e Grilo, talvez este último necessite rever sua atuação, buscando resgatar e incluir a ética do bem comum no seu cotidiano de trabalho.

De um modo geral, as vivências destes são marcadas por aspectos em comum, tal como a burocracia característica deste segmento. Percebem-se também distinções no que diz respeito às diferentes esferas e áreas do serviço público, tanto relacionadas aos recursos disponíveis quanto à satisfação profissional.