4. FATORES QUE DIFICULTAM E/OU FAVORECEM OS ESTUDOS DE GÊNERO,
4.3 Experiências e proximidade afetiva com LGBTs
Parte dos estudantes que manifestavam empatia pela temática, tanto nas oficinas como no seminário e nas entrevistas tinha experiências ou proximidade com pessoas que se enquadram na siga LGBT.
Aline: - […] a minha prima, agora com 16 anos, falou para mãe: “mãe, eu gosto de menina” […]. Eu tenho amigo gay, tenho uma amiga lésbica, tenho uma que trabalha até com questão de direitos humanos.
Nylene:- eu tenho bastante convivência com bi, com homo, com trans, com travesti, eu tive bastante convivência.
Essas relações de proximidade, seja de parentesco ou de amizade e dos afetos que as envolvem, foram importantes para que esses estudantes se interessassem em compreender melhor questões relacionadas a sexualidades e homofobia. De certa forma, essa convivência rompe estereótipos que afetam as representações que a sociedade promove das sexualidades diferentes da heteronormatividade.
Parte dos estereótipos acerca da homossexualidade advém do que Foucault chamou de monstruosidade moral. O filósofo, em uma de suas aulas elabora a seguinte pergunta: como ocorreu a distribuição dos indivíduos em indivíduos normais e anormais? (FOUCAULT, 2001). Depois, discorre sobre uma série de mecanismos criados a partir da tomada de poder pela burguesia no século XVIII, demonstrando que o poder passava a ser exercido através de mecanismos de vigilância e de controle, capazes de penetrar o corpo social em sua totalidade. O poder, assim, desloca-se do arbítrio do soberano e se constitui em saber. Por esse entendimento, a revolução burguesa do século XVIII foi marcada pela invenção de uma nova tecnologia do poder, cujas peças fundamentais são as disciplinas. Ainda para Foucault (2001), foi o saber investido na compreensão do crime que produziu uma inversão na compreensão de sua lógica.
Assim, o final do século XVIII viu “[...] despontar a noção de que não é o crime que é a doença do corpo social, mas sim o criminoso que, como criminoso, poderia ser de fato um doente” (FOUCAULT, 2001, p. 114). Esse é o ponto a partir do qual vai se organizar uma patologia criminosa que se desdobrará em classificações de normalidade e anormalidade.
A noção de normal e anormal é elaborada a partir daquilo que a sociedade vai classificar como patológico, como natureza monstruosa. O primeiro monstro é o monstro político, invocado pelos revolucionários franceses como sendo o comportamento do déspota que, por estar acima da lei, seria tão pernicioso como aqueles crimes cometidos abaixo da lei. No mesmo contexto foi criada contra a rainha Maria Antonieta a monstruosidade sexual, a partir de uma narrativa moral que atribuía à monarca práticas incestuosas, “[...] aversão aos deveres de esposa e mãe, e outra transgressão sexual: ela é homossexual” (FOUCAULT, 2001, p. 122).
Essas definições do que seria normal e patológico constituem dispositivos que explicam parte da homofobia e da forma como pessoas, apartadas do convívio com homossexuais, ou de discursos que problematizam essas questões se relacionam com pessoas LGBT. A convivência ou o conhecimento pode alterar essas representações estereotipadas e criar novas formas de compreensão e relação.
um estudante que não se posiciona em relação a questões de gênero, sexualidade e homofobia. Ele, que não se afeta, nos chamou atenção, posto que, apesar de não enquadrarmos esse perfil nos dispositivos que procuramos compreender, fizeram-se necessárias duas considerações. Primeiro: esses estudantes constituem um grupo a ser disputado pelos polos das relações de poder que tomam a escola como suporte para estudos de gênero, sexualidades e homofobia. A segunda observação pretende mostrar que esses estudantes são constantemente assediados pelos polos dessa relação de poder e mesmo assim continuam indiferentes.
Com esse posicionamento, não constituem um obstáculo às políticas públicas de combate à homofobia que pretendem ter a escola como suporte para essas políticas. Quando afirmamos que esse perfil de estudante não constitui um obstáculo, temos em vista aqueles que se apegam aos discursos heteronormativos e reproduzem comportamentos homofóbicos. Isso porque, mesmo que essa indiferença seja transitória, ela é um dado constante, ou seja, individualmente, um daqueles estudantes indiferentes pode transitar entre homofóbicos convictos ou militantes LGBT. Porém, toda vez que retornarmos a campo iremos nos deparar com essa indiferença que acreditamos constante.
Ademais, podemos relacionar experiências vividas em ambientes físicos ou virtuais, onde circulam discursos contrários a práticas homofóbicas e/ou de inclusão da cultura LGBT, como favoráveis à naturalização de sexualidades diferentes da heteronormativa. Foi citada por uma das participantes, por exemplo, uma página do Facebook notória pela abordagem de temas considerados tabus, como drogas e sexualidades. Outra estudante, assídua e participativa nas oficinas, possuía um repertório considerável de termos, conceitos e saberes típicos de ambientes favoráveis à manifestação de sexualidades diferentes da heteronormativa e que repudiam demonstrações de homofobia.
Uma das páginas de Facebook citada foi a Quebrando o tabu, cujo perfil liberal em termos de costumes se notabiliza na defesa de liberdades individuais, como aborto, regulamentação para venda e consumo recreativo de Cannabis e seus derivados, direitos humanos, pautas feministas e LGBT. Mesmo se tratando de um ambiente virtual, a página constava com pouco mais de 10 milhões de seguidores, segundo notificação na própria página em dezembro de 2018, e foi apontada pela estudante Aline como um dos elementos que a ajuda a entender a homossexualidade e a repudiar manifestações homofóbicas.
Espaços físicos voltados à população LGBT também promovem a circulação de discursos significativos para a compreensão dos mecanismos heteronormativos, e uma das participantes mais ativa nas oficinas compunha seu repertório nesses ambientes. Essa estudante, além de ter participado de todas as oficinas, também se destacava pela
singularidade de seu posicionamento, uma vez que demonstrava maior conhecimento sobre sexualidades e homofobia que os outros.
4.4 O desconhecimento sobre as questões de gênero, sexualidades e