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CAPÍTULO 4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

4.1. Resultados Quantitativos

4.1.2. Experiências Indiretas

As experiências indiretas (pessoais, contextuais, conceptuais e futuras) se referem a experiências originadas fora do PECPLI, mas que, de alguma forma, influenciam e moldam as experiências de participação, ou seja, as diretas. No total de 2601 excertos codificados, a partir das transcrições das entrevistas, a maioria deles (média de 102 por participante) é referente às Experiências Cognitivas. Em segundo lugar aparecem as Experiências Pessoais, com média de 86 excertos. Assim, em primeiro lugar de ocorrência entre as experiências indiretas, estão as pessoais, cujos valores percentuais estão apresentados na Tabela 10:

Tabela 10- Natureza das Experiências Pessoais

Experiências (%) Participantes

Nível sócio-

econômico Aprendizagem anterior Vida pessoal Trabalho Identidade

Bárbara 1 3 6 64 25 Bia 2 8 16 51 22 Camila 1 9 3 65 22 Cris 1 2 19 46 31 Luísa 1 7 21 51 19 Marcela 2 4 11 39 44 Mary 1 4 9 61 25 Stephany 0 3 12 55 29 Média 1 5 12 54 27

No que se refere às experiências vivenciadas devido ao nível socioeconômico pessoal (Experiências Pessoais 1), os excertos revelam dificuldades para comprar artigos básicos como roupas e calçados (Cris e Luísa), falta de recursos para arcar com as despesas da faculdade (Bárbara) e do curso livre (Luísa, Marcela e Mary). Camila destaca a mudança para outro estado para buscar melhores condições de vida e somente Stephany não revela excertos nessa subcategoria. As experiências por nível socioeconômico também se referem às escolas onde

trabalham e a principal dificuldade enfrentada é a carência de materiais didáticos, livros e tecnologias, mesmo algo simples como um aparelho de tocar CDs (Bárbara e Bia).

Quanto às experiências anteriores de aprendizagem de inglês e outras formas de aprendizagem além do PECPLI (Experiências Pessoais 2), as mais significativas são todas ligadas à figura do professor, de forma positiva ou negativa. As experiências boas se referem ao professor como motivador e responsável pela paixão que as participantes possuem pela profissão e pela língua estrangeira. Os professores considerados piores são, principalmente, aqueles que humilharam as participantes em algum momento, como enfatizam Luísa e Marcela. Outras experiências negativas se referem a um ensino com foco na gramática descontextualizada e sem desenvolvimento da oralidade, tanto no ensino básico quanto na faculdade. Há também críticas com relação ao estágio distanciado da realidade escolar e pouca ênfase ao estudo sobre as teorias de ensino.

Quanto às experiências na vida pessoal (Experiências Pessoais 3), fora da escola, elas se referem à influência da família na opção pelo curso de Letras e também a tratamentos para superação da depressão, doença relatada por três participantes (Stephany, Cris e Luísa).

Dentro da categoria das experiências pessoais, a subcategoria de maior frequência de ocorrência (54%) se refere às Experiências Pessoais 4: experiências de trabalho nas escolas. Esse resultado se explica pelos objetivos do projeto que são de reflexão contínua sobre as práticas de ensino. Dessa forma, as experiências positivas mais significativas se referem à valorização do profissional, por colegas de trabalho que revelam desejo de aprender algo com as participantes e pelos estudantes motivados que se comunicam em inglês, mesmo que isso aconteça por meio de frases curtas. Também nessa subcategoria, as professoras relatam dificuldades relacionadas à indisciplina, sobrecarga de trabalho e desvalorização profissional.

No que se refere às experiências identitárias (Experiências Pessoais 5), segundo lugar em ocorrência na subcategoria (27%), os resultados revelam que, como parte de uma comunidade de aprendizagem, a construção das identidades das professoras do PECPLI é facilitada pelos

inúmeros traços que compartilham com as outras participantes. Além disso, elas vivenciam problemas muito parecidos em seus contextos de trabalho. Suas histórias são situadas em contextos sociais que são compreendidos e partilhados por todas elas. Assim, elas se constroem, no discurso como professores de escolas públicas, participantes do contexto social PECPLI e, percebendo que as outras vivenciam situações similares e as compreendem, sentem facilitadas a compreensão e construção de seus processos identitários. Além disso, as interações nos encontros revelam negociações de identidade que são marcadas pela forma como veem as formadoras e as participantes: como pessoas que conhecem seus contextos e dilemas e se colocam como parceiras na busca de solução dos problemas.

Para a segunda subcategoria das experiências indiretas, as contextuais, as análises quantitativas revelaram os resultados apresentados na Tabela 11:

Tabela 11 - Natureza das Experiências Contextuais

Experiências

(%) Participantes

Experiências

institucionais língua inglesa Status da Exp. com esta pesquisa Experiência de tempo Experiência de espaço

Bárbara 33 25 17 8 17 Bia 12 12 50 25 0 Camila 29 0 57 14 0 Cris 0 20 80 0 0 Luísa 0 0 15 77 8 Marcela 0 0 43 50 7 Mary 0 0 50 50 0 Stephany 0 25 37 25 12 Média 9 10 44 31 5

As Experiências Contextuais 1 (Experiências institucionais: exigências do PECPLI, experiências relacionadas à UFV) só foram reveladas por Bárbara, Bia e Camila, sendo que o maior número se refere à primeira participante, quando ela descrevia o grande desejo de

participar de um projeto de educação continuada em uma universidade do porte dessa instituição. Assim, ela descreve a importância da instituição no contexto em que vive.

Com relação às Experiências Contextuais 2 (Experiências relativas à língua estrangeira: Status da LE), Bárbara, Stephany, Cris e Bia (nessa ordem) são as participantes que mais destacam ter consciência da importância do inglês no mundo atual, querer aprender sempre mais e motivar os estudantes a fazerem o mesmo.

Sobre as Experiências Contextuais 3 (atitudes, sentimentos e percepções sobre esta pesquisa) que revelaram maior ocorrência dentro da categoria (44%), as percepções reveladas são muito positivas, segundo relato das professoras, exceção feita apenas à primeira entrevista quando disseram estarem nervosas, a princípio. Todas as participantes revelaram sentimentos de valorização por serem parte deste estudo e uma enfatizou a importância de aprender como se faz pesquisa, especificamente com relação às sessões de visionamento.

No que concerne às Experiências Contextuais 4 (Experiência do tempo: falta de tempo para estudar e desenvolver as atividades do PECPLI), a frequência de ocorrência também é alta (31 %). Luísa, Marcela e Mary foram as que mais apresentaram excertos relativos a esse tópico. Isso porque as duas primeiras possuem dois cargos cada (um de português e um de inglês) e a última acumula a vice-direção com 12 aulas de português. A experiência do tempo é sentida na dificuldade de desenvolver atividades nas escolas, fazer leituras para discussão no PECPLI e nos próprios encontros, quando as participantes revelam desejo de falar mais em inglês, mas se sentem limitadas também pela preocupação com o tempo, pois pensar na língua estrangeira lhes exige maior tempo de raciocínio. Além disso, elas percebem a preocupação da formadora com o controle do tempo, uma vez que ela almeja dar prosseguimento aos encontros, conforme a agenda do dia.

As Experiências Contextuais 5 (Experiência do espaço: distância entre Viçosa e suas cidades, dificuldades com viagens e locomoção) foram acrescentadas ao framework de Miccoli (2007a), visando a adaptar o marco teórico da autora ao contexto pesquisado. Nessa

subcategoria, foram observadas, principalmente, dificuldades com os horários de ônibus, tanto para chegarem a Viçosa quanto para deixarem a cidade. Depois dessa discussão, entretanto, foram feitas alterações nos horários para as aulas de inglês que acontecem na parte da tarde, de forma a facilitar o regresso das professoras a suas casas.

Além das experiências pessoais e contextuais que as professoras trazem para o PECPLI, a participação também é moldada por crenças e concepções, construídas ao longo de suas vidas. Assim, a Tabela 12 revela a quantificação das experiências conceptuais presentes nos dados:

Tabela 12 - Natureza das Experiências Conceptuais

Experiências (%) Participantes

Sobre ensino aprendizagem Sobre própria Sobre aprendizagem Sobre papel do professor Outras Concepções Bárbara 46 11 4 15 23 Bia 58 15 6 9 12 Camila 52 22 10 10 5 Cris 40 17 6 23 14 Luísa 33 12 2 39 14 Marcela 23 0 12 53 12 Mary 64 4 0 18 14 Stephany 65 0 6 23 6 Média 48 10 6 24 12

Na subcategoria das Experiências Conceptuais 1 estão incluídas as concepções sobre o ensino de inglês e no PECPLI, papel do professor e relação ideal entres estudantes e professores. As crenças mais recorrentes se referem ao ensino de inglês (48%) e ao papel do professor (24%). Um dado recorrente se refere ao ensino da habilidade oral, que é considerado muito importante, mas ainda incipiente nas escolas. Outras concepções reveladas dizem respeito a um ensino direcionado mais por exigências burocráticas (currículo, diário, notas) feitas pela escola do que por questões de aprendizagem efetiva. Sobre o papel do professor, as participantes revelam que ele não precisa saber tudo, mas necessita desenvolver relacionamentos positivos com os

estudantes. Outras concepções sobre o ensino de inglês se referem a jogos e músicas, como atividades que facilitam a aprendizagem, ao papel da escola no preparo de cidadãos e à importância de uma prática de ensino embasada na teoria.

No que se refere às concepções sobre a aprendizagem de inglês (Experiências Conceptuais 2), os dados mais recorrentes foram sobre a questão da oralidade e a dificuldade de ensinar de uma forma diferente da que foi aprendida quando eram estudantes, ou seja, essencialmente pela gramática descontextualizada.

Como Experiências Conceptuais 3 (o próprio processo de aprendizagem), as professoras, novamente, enfatizam dificuldades com a habilidade de fala e essa dificuldade se mostra intimamente associada a uma preocupação excessiva com a forma, ou seja, a preocupação com a correção gramatical prejudica a comunicação fluente. Sobre a aprendizagem no PECPLI, Cris relata ser continuamente reflexiva, causando inquietações e desafiando o professor a mudar.

Sobre a responsabilidade do professor como profissional e membro do PECPLI (Experiências Conceptuais 4), as participantes revelam acreditar que precisam ser, primordialmente, profissionais conscientes de seu papel, uma vez que trabalham sozinhas e sem orientação. Além disso, destacam ser preciso refletir sobre a forma como influenciam a vida dos estudantes e buscar desenvolver o melhor trabalho possível. É também revelada a concepção de que o professor é responsável pela motivação do aluno, ou seja, é ele quem deve “acender o pavio da motivação do aluno” (Luísa, ent. 3: 08.10.09).

As participantes revelaram outras concepções (Experiências Conceptuais 5) sobre relacionamentos, pais, família, direção da escola, sociedade, teoria de ensino, etc.. Foram reveladas concepções tais como: a teoria em si pode distanciar o leitor pelo uso de termos muito elaborados; a vida não é só prazer e a escola também não deve ser assim; a reflexão pode transformar as pessoas; as famílias dos estudantes deveriam ser parceiras da escola; a sociedade não valoriza o professor, mas cobra dele um trabalho sério e comprometido; etc..

Além da influência exercida pelas crenças e concepções, as ações das participantes também são guiadas por aquilo que almejam para o futuro, como mostra a Tabela 13:

Tabela 13 - Natureza das Experiências Futuras

Experiências (%) Participantes

Planos Vontades Necessidades Sonhos

Bárbara 75 0 25 0 Bia 60 20 20 0 Camila 67 0 16 16 Cris 73 13 13 0 Luísa 30 50 10 10 Marcela 40 20 40 0 Mary 0 0 100 0 Stephany 40 40 20 0 Média 48 18 30 3

As Experiências Futuras 1 se diferem das outras nessa subcategoria por serem estas os objetivos que já saíram do plano das ideias e estão sendo colocados em práticas. Por exemplo, a intenção de aprender a falar inglês revelada por Camila já está, há muito, em processo de realização, devido ao curso de extensão da UFV. Cris também está colocando seus planos de estudo em ação: além do PECPLI, estuda em curso livre. Tudo isso porque querem se superar a cada dia e fazer diferença na vida do estudante. Outros planos já em prática dizem respeito dizem respeito à aprendizagem efetiva dos estudantes e ao trabalho com gêneros textuais nas escolas.

Na subcategoria das Experiências Futuras 2, estão as experiências relacionadas a vontades, ou seja, ao que não é facilmente atingido, mas é importante para os processos de ensino e aprendizagem, bem como para a vida das participantes. Um exemplo disso é o desejo de trabalhar com o gênero carta, para que seus estudantes possam se corresponder com outros de diferentes instituições.

Nas Experiências Futuras 3 (necessidades), a habilidade de fala é também a área que as participantes acreditam merecer maior atenção e todas revelam a importância do estudo contínuo para trabalharem com qualidade.

Com relação aos desejos mais distantes (Experiências Futuras 4: metas e sonhos), as participantes destacam o curso de mestrado em Linguística Aplicada e a fala fluente em inglês, a qual consideram essencial para o bom exercício da profissão.

As análises quantitativas aqui apresentadas mostram os resultados da categorização dos excertos das entrevistas, evidenciando que as principais experiências diretas vivenciadas pelas professoras são de aprendizagem reflexiva associada às experiências pessoais. A aprendizagem ocorre nas interações com colegas e formadoras, em um clima, essencialmente, de amizade e respeito. O que acontece no PECPLI é influenciado pelas experiências indiretas, ou seja, por tudo o que as participantes trazem para aquele contexto. Dessa forma, apresentei, nesta seção, as tabelas com as quantificações das experiências diretas e indiretas que serão discutidas, em profundidade, a seguir, quando traço a trajetória de participação das professoras no projeto. Somente as quantificações das experiências de mudança (produto) serão apresentadas juntamente com os dados qualitativos, para facilitar a compreensão das transformações vivenciadas.

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