Como já assinalado, dentre os meios alternativos de resolução de conflitos, a mediação é que tem mostrado mais exemplos práticos de sua utilização. O Poder Judiciário, através dos seus órgãos, tem adotado a mediação como instrumento efetivo para o acesso à justiça, criando núcleos de mediação para resolver conflitos de interesses. Além do mais, alguns cursos de direito têm demonstrado preocupação com esse sistema de acesso à justiça, criando núcleos de estudos e, até mesmo, núcleos de mediação.
De acordo com dados do Ministério da Justiça355, o Poder Executivo vem buscando desenvolver, desde 2003, meios de resolução de disputas que se realizem sem a imposição do poder do mais forte, ou sem uma norma positivada que desconsidere a participação direta do cidadão na solução. Esse é o principal desafio da justiça, qual seja, o de “desenvolver procedimentos que sejam considerados justos pelos próprios usuários, não apenas em razão
354MANCUSO, Rodolfo de Camargo. A resolução dos conflitos e a função judicial no contemporâneo Estado
de Direito. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009. p. 39.
dos seus resultados, mas também em função da forma de participação no curso da relação jurídica processual”. Acrescenta ainda o documento do Ministério da Justiça:
Como registrado desde a primeira edição deste manual, o acesso à justiça não se confunde com acesso ao Judiciário, tendo em vista que não visa apenas a levar as demandas dos necessitados àquele Poder, mas realmente incluir os jurisdicionados que estão à margem do sistema, e, sob o prisma da autocomposição, estimular, difundir e educar o cidadão a melhor resolver conflitos por meio de ações comunicativas. Passa-se a compreender o usuário do Poder Judiciário não apenas como quem, por um motivo ou outro, encontra-se em um dos polos de uma relação jurídica processual. O usuário do Poder Judiciário é todo e qualquer ser humano que possa aprender a melhor resolver seus conflitos, por meio de comunicações eficientes, estimuladas por terceiros, como na mediação, ou diretamente, como na negociação. O verdadeiro acesso à justiça abrange não apenas a prevenção e a reparação de direitos, mas a realização de soluções negociadas e o fomento da mobilização da sociedade para que possa participar ativamente dos procedimentos de resolução de disputas, bem como de seus resultados.
O Núcleo de Estudos de Meios de Solução de Conflitos – NEMESC356, órgão do
Departamento de Direito Processual da USP, foi criado em 2005. Surgiu em razão da necessidade de buscar alternativas ou outras formas de mostrar aos alunos da disciplina “processo civil” novos horizontes, que não apenas o processo de base estatal e judicial. Meios alternativos poderiam dar respostas mais eficientes para a solução de conflitos.
Atualmente, as atividades desenvolvidas pelo NEMESC estão formalizadas como disciplinas de cultura e extensão. São três disciplinas: uma abrange o programa de conciliação e mediação; outra envolve as atividades de arbitragem e a terceira cuida das atividades de monitoria. Nesse último caso, os alunos que já cursaram as disciplinas participarão como monitores em outras turmas. De acordo com Carlos Alberto de Salles357, essas disciplinas de cultura e extensão se mostraram bastante funcionais, pois supriram a necessidade de oficializar a atividade, permitindo aos alunos o registro da sua participação no histórico escolar.
As atividades de mediação, conciliação e arbitragem são desenvolvidas pelo NEMESC em três semestres, nos quais são ministradas, respectivamente, as três disciplinas acima citadas. Têm como público-alvo os alunos, preferencialmente, do segundo ano do curso de
356SALLES, Carlos Alberto de et al. A experiência do Núcleo de Estudos de Meios de Solução de Conflitos (NEMESC). In Revista Direito GV. v. 6. n. 1. São Paulo: Jan.-jun. 2010. p. 68.
direito, sendo desenvolvidas através de seminários, complementadas com a parte prática e vivencial, com atividades simuladas e com pesquisas de campo. Segundo os coordenadores do núcleo, essa escolha se dá em razão de se poder sensibilizar o aluno sobre as formas alternativas de solução de conflitos no período inicial de sua formação, pois ainda não tiveram contato prático com o Poder Judiciário e as formas adjudicatórias de solução de conflitos. “Trata-se de um movimento positivo de construção – e não de desconstrução de uma mentalidade já formada”358.
O objetivo do NEMESC é mostrar aos alunos várias possibilidades de solução para os conflitos, que podem ser comparadas, no sentido de verificar qual seria a melhor solução para o caso concreto. Sobre essa experiência afirma Carlos Alberto de Salles359: “Não há nada melhor do que se deparar com diferentes métodos compositivos para contrastar as potencialidades e limitações de cada um, o que é mais difícil de perceber quando há a imersão em um único método”. De acordo com os autores do estudo, os profissionais do direito, na qualidade de gestores de conflitos, devem despertar para essa realidade de diversificadas possibilidades para a composição de conflitos, acrescentando:
A disciplina é desenvolvida com vista a proporcionar uma nova e diferenciada visão aos alunos sobre as possibilidades de enfrentamento de conflitos. Conhecendo e compreendendo as várias técnicas de composição, é possível refletir sobre qual saída apropriada é mais próxima de uma solução genuinamente pacificadora da controvérsia (em contraposição à solução contenciosa decorrente do sistema adjudicatório pelo Poder Judiciário, que pode acabar fomentando mais crises)360.
As atividades que o referido núcleo de estudos vem desenvolvendo já vinham sendo praticadas em outros países, principalmente, nos Estados Unidos da América, como visto anteriormente. Naquele país, a disciplina alternative dispute resolution – ADR é incluída na matriz curricular logo no início do curso. O interesse pela prática dos meios alternativos de resolução de conflitos também está sendo alimentado pelo próprio Poder Judiciário. No Estado da Paraíba, por exemplo, a Procuradoria Regional do Trabalho da 13ª Região instituiu o Núcleo de Mediação e Arbitragem. O objetivo do núcleo é dar efetividade à atribuição prevista no art. 83, XI, da Lei Complementar nº 75/93, que confere ao Ministério Público do
358SALLES, Carlos Alberto de et al. Op. cit., p. 72. 359SALLES, Carlos Alberto de et al. Op. cit., p. 72. 360SALLES, Carlos Alberto de et al. Op. cit., p. 75.
Trabalho a possibilidade de atuar como árbitro nos dissídios de competência da Justiça do Trabalho361.
A arbitragem dos conflitos trabalhistas conduzida pelo Ministério Público do Trabalho apresenta vantagens para todos os envolvidos. Trata-se de "um trabalho gratuito, célere e informal, realizado por Procuradores do Trabalho, os quais detêm capacidade e prerrogativas para executar bem essa missão, além de desafogar o Judiciário”, tudo isso com o objetivo de promover justiça e paz social. Exemplo dessa prática foi a mediação das negociações para pôr fim ao conflito coletivo surgido no sindicato dos trabalhadores em empresas de vigilância e segurança. Como resultado, as partes aceitaram a proposta do Ministério Público e o indicativo de greve acabou sendo retirado362.
A instituição desses núcleos nos tribunais do país só foi possível após o Conselho Nacional de Justiça363 ter aprovado uma resolução, determinando que os tribunais do país oferecessem núcleos consensuais para a resolução de conflitos. Essa medida faz parte da política nacional de tratamento dos conflitos de interesses, que tem por objetivo assegurar a conciliação e a mediação das controvérsias entre as partes e prestar atendimento e orientação a todos os cidadãos. Nesses núcleos, as partes envolvidas em um conflito confiam a um terceiro, estranho ao processo, a “função de auxiliá-las a chegar a um acordo. Essa iniciativa evita futura sentença judicial e permite a solução definitiva do litígio, diminuindo a grande demanda dos processos em trâmite”.
O Tribunal de Justiça da Paraíba364 seguiu o plano estratégico do CNJ, a partir da Resolução nº 125/2010, que instituiu a política judiciária nacional de tratamento adequado dos conflitos de interesses no âmbito do Poder Judiciário. Ao criar o Núcleo de Conciliação, o TJPB também se engajou nessa luta a favor dos meios alternativos de solução de conflitos. Vários projetos estão sendo desenvolvidos, conforme pode ser constatado no Portal do Conciliador. O projeto “Pro Endividados” foi resultante de convênio assinado entre o Tribunal de Justiça e o Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ. O objetivo é orientar pessoas a trabalharem melhor com o que têm, ou seja, com um orçamento curto e diferenciado. Já o projeto “Caminhos da Conciliação” busca, através da sensibilização dos cursos de direito
361 Disponível em http://www.trt13.jus.br/informe-se/noticias/2006/06/paraaba-agora-tem-naocleo-de-
mediaassapso-e-arbitragem-do-mpt. Acesso em 01 out. 2013.
362 Disponível em http://www.trt13.jus.br/informe-se/noticias/2006/06/paraaba-agora-tem-naocleo-de- mediaassapso-e-arbitragem-do-mpt. Acesso em 01 out. 2013.
363Disponível em http://www.cnj.jus.br/programas-de-a-a-z/acesso-a-justica/conciliacao/nucleos-de-conciliacao. Acesso em 01 out. 2013.
existentes na Paraíba e das prefeituras dos municípios do seu entorno, implantar uma rede de acesso à justiça, focada nas formas extrajudiciais.
Por sua vez, o projeto “Selo Amigo da Conciliação”, desenvolvido junto à Universidade Estadual da Paraíba, busca propiciar às pessoas detentoras desse selo uma imagem positiva. O objetivo é valorizar a proposta de que a melhor maneira de negociar deve ser exercida, primeiramente, pelos meios extrajudiciais. Consiste na publicação de uma lista mensal pelo site do Tribunal, contendo as cinquenta maiores empresas que atuam como promovidas nas varas cíveis de João Pessoa e Campina Grande. Essas empresas passarão a ser detentoras do selo por assumirem o compromisso formal perante o TJPB de utilizarem primeiramente os meios extrajudiciais para a solução de conflitos.
Por fim, o projeto “Curso de Direito Amigo da Conciliação” tem por objetivo sensibilizar os cursos de direito para o estudo e análise das formas extrajudiciais, a partir das seguintes estratégias: criação e implantação de disciplinas voltadas para esse estudo; criação de um núcleo de prática jurídica que privilegie as vias extrajudiciais; produção de trabalhos de conclusão de curso voltados para os meios alternativos de acesso à justiça; realização de simpósios e congressos no meio acadêmico.
A iniciativa do Tribunal de Justiça da Paraíba vem reforçar o que a presente tese defende: a necessidade da desjudicialização dos conflitos e o papel dos cursos de direito para a sua implementação. Convém transcrever a meta a ser perseguida pelos referidos projetos:
Envolver toda a comunidade acadêmica dos cursos de direito existentes na Paraíba, os seus discentes, futuras gerações de operadores de direito, os poderes públicos municipais e a sociedade civil organizada na política pública criada pelo CNJ, para fomentar e popularizar a conciliação, a mediação e a negociação, como outros caminhos de acesso à justiça, criando uma cultura de paz, face a um sistema multiportas, como prescrito pela Constituição Cidadã, que resultará em uma outra mentalidade de solução dos conflitos em nosso país, baseada na cultura da paz, e que colaborará para desobstruir a pauta do Poder Judiciário365.
O Ministério Público também se deu conta da importância desses meios alternativos de resolução de conflitos. Com esse objetivo, o Ministério Público da Paraíba366 criou um núcleo da Escola Nacional de Conciliação e Mediação – ENAM, do Ministério da Justiça, dentro das instalações do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional – CEAF. A medida
365Disponível em http://conciliar.tjpb.jus.br/. Acesso em 01 out. 2013.
366Disponível em http://www.mppb.mp.br/index.php/noticias-android/101-ceaf/707-escola-de-mediacao-mppb-
foi resultado de um acordo de cooperação técnica, para criar a “cultura da mediação e da conciliação no âmbito da instituição, com a realização de cursos de aperfeiçoamento e seminários. O objetivo é a pacificação dos conflitos, a promoção de uma cultura de harmonização social”.
É um programa de formação técnica em mediação e conciliação para magistrados e profissionais voluntários. Faz parte da política nacional de mediação e conciliação, desenvolvida pela Secretaria de Reforma do Judiciário - SRJ, em parceria com o Conselho Nacional de Justiça - CNJ e com a Escola Nacional de Formação de Magistrados - ENFAM367. Nesse programa, magistrados são capacitados em técnicas de mediação e conciliação através de cursos presenciais, que são os “principais instrumentos para viabilizar a implementação de núcleos de mediação nos Tribunais de Justiça, conforme prevê a Resolução CNJ nº 125/2010”. Mas, segundo informações postadas no site do CNJ, serão promovidos cursos presenciais, semipresenciais e a distância para operadores de direito, servidores do Judiciário, professores e alunos dos cursos de graduação em direito e cursos para mediadores comunitários.
As instituições de ensino superior também estão despertando para a importância desses meios. A Universidade Federal da Paraíba – UFPB, por exemplo, conta agora com o Núcleo de Extensão e Pesquisa em Mediação de Conflitos – MEDIAC. O núcleo foi criado como resultado da observância da necessidade de estudos e discussões sobre o acesso à justiça e, principalmente, sobre as formas alternativas de resolução de conflitos. Foi também fruto de quase quatro anos de atividades de extensão e pesquisas sobre o tema. “O núcleo surge buscando unificar as ações e difundir, na Academia e na sociedade civil de modo geral, a influência e o papel transformador da mediação de conflitos como uma dessas formas alternativas a satisfação do litígio”368.
Isso precisa ser ampliado e divulgado, para que a sociedade tome conhecimento de que existem alternativas para se buscar a solução de um conflito, que não apenas o Poder Judiciário. Nesse contexto, fundamental é a participação dos cursos de direito, no sentido de ensinar esses métodos aos futuros advogados, para que possam fomentar a desjudicialização dos conflitos. É preciso reforçar o papel do advogado como negociador na sociedade moderna e apresentar-lhe técnicas de negociação necessárias para a solução do conflito de seu constituinte, de forma célere e eficiente. É o que será analisado no próximo capítulo.
367Disponível em http://moodle.cead.unb.br/enam/. Acesso em 05 fev. 2014.
368 Disponível em http://www.portalcodisma.com.br/ufpb-faz-lancamento-de-nucleo-sobre-mediacao-de-