DESCONTEXTUALIZADOS
Neste experimento, visamos identificar os frames acionados durante o processo de compreensão de provérbios contextualizados retirados da obra Grande Sertão: Veredas62. Pretendemos verificar também até que ponto o seu acionamento interfere no grau de idiomaticidade das expressões testadas.
Para isso, foram utilizados provérbios contextualizados que deveriam ser completados adequadamente. Ou seja, diferentemente do experimento anterior – em que os provérbios foram exibidos de forma isolada de um contexto discursivo –, desta vez apresentamos a primeira cláusula inserida no interior de fragmentos textuais mais amplos, permitindo ao informante identificar contextos de uso mais específicos. Em seguida, pedimos que a segunda cláusula fosse completada. Com isso, tencionamos verificar até que ponto o contexto interfere no acionamento de frames.
7.5.1 Participantes
Este experimento teve a participação de 28 falantes nativos do Português – todos estudantes do curso de letras da UFRN, do turno matutino. A escolha dos participantes se deveu exclusivamente a questões de acessibilidade.
7.5.2 Material
O material elaborado para o experimento constitui-se de um teste composto por 05 (cinco) questões. Cada uma delas apresenta a primeira cláusula de um provérbio retirado da obra Grande Sertão: Veredas63 e pede que o informante observe e complete adequadamente a segunda cláusula. O teste é exemplificado abaixo:
62 Os informantes não foram comunicados que os provérbios exibidos nas atividades haviam sido
retirados da obra Grande Sertão: Veredas.
63 Os informantes não foram comunicados que os provérbios exibidos nas atividades haviam sido
106
Quadro 10 – Exemplo do experimento V
7.5.3 Procedimentos
Cada um dos participantes recebeu uma folha contendo o teste. Depois de receberem e conferirem as questões, foram orientados a observar as construções linguísticas incompletas de cada questão e, em seguida, a completar adequadamente a segunda cláusula de cada uma delas. O tempo disponibilizado para a realização da tarefa foi o de 20 minutos, tempo máximo de execução quando da realização dos testes.
7.5.4 Predições
Tendo em vista que os provérbios foram exibidos de forma contextualizada, esperávamos que os participantes ancorassem a formulação da segunda cláusula não apenas com base na primeira, mas também em outros elementos evocados pelo contexto. Nesse sentido, nossa expectativa era a de que tanto a primeira cláusula, quanto o contexto atuassem de forma conjunta no perfilamento da segunda cláusula, levando os informantes a construir expressões linguísticas coerentes com o contexto.
7.5.5 Resultados
Assim como no experimento anterior, neste também confeccionamos uma tabela cruzada com o objetivo de categorizar as estratégias utilizadas no processo de preenchimento da segunda cláusula dos provérbios elencados. E para tal, utilizamos os mesmos critérios. A única diferença em relação à classificação exibida no experimento anterior está no acréscimo de mais uma categoria. Vejamos:
107
f) Paráfrase: expressões que parafraseiam fragmentos encontrados no contexto. Por exemplo,
O critério que norteou a lógica dos números exibida na tabela é similar ao do experimento anterior. A única diferença é que neste experimento participaram 28 informantes. Em face disso, referimo-nos aos provérbios da seguinte forma:
1.1 = primeiro provérbio do questionário 01; 1.5 = quinto provérbio do questionário 01; 26.3 = terceiro provérbio do questionário 26.
Tabela 5 – Tabela cruzada II
TABELA CRUZADA
TIPO OCORRÊNCIAS TOTAL
Oposição direta ou indireta 1.3, 2.3, 3.3, 3.4, 4.3, 5.3, 6.3, 6.4, 7.3, 7.4, 7.5, 8.3, 8.4, 9.3, 10.3, 11.3, 12.2, 12.3, 12.5, 13.2, 13.3, 14.3, 15.3, 16.3, 17.3, 18.3, 19.3, 20.3, 21.3, 22.3, 24.3, 25.3, 26.3, 27.3, 27.4, 28.3. 36 Sonoridade / Rima Fonética 2.4, 9.4, 12.4, 15.4, 17.4, 18.4, 19.4. 24.4, 28.4. 09 Trocadilho / Jogos de Palavras 6.5, 11.5, 20.4, 25.4, 26.4. 05 Reiteração 1.2, 2.2, 3.2, 4.2, 5.2, 6.2, 7.2, 8.2, 9.2, 10.2, 22.2, 27.2, 2.5, 5.5, 8.5, 9.5, 13.5, 14.5, 15.5. 17.5, 18.5, 19.5, 22.5, 23.5, 24.5, 25.2, 26.5, 28.5. 28 Repetição/Paráfrases 1.1, 2.1, 3.1, 7.1, 8.1, 9.1, 10.1, 11.1, 15.1, 18.1, 20.1, 21.1, 22.1, 23.1, 27.1. 15 Outros 1.4, 1.5, 3.5, 4.4, 4.5, 5.4, 10.4, 10.5, 11.2, 11.4, 13.4, 14.2, 15.2, 16.4, 17.2, 18.2, 19.2, 21.4, 22.4, 23.4, 24.2, 21.5, 25.5, 26.2, 27.5. 25
Verificamos que, de fato, o contexto exerce uma forte influência na construção de sentido dos constructos linguísticos, perfilando o tipo de compreensão que será “Sujeito muito lógico, o senhor sabe: Assuntos principais, Zé Bebelo fazia lição, e deduzia ordens. – “Trabucar duro, para dormir bem!” – publicava. Gostadamente: – “Morrendo eu, depois vocês descansam...” – e ria: – “Mas eu não morro...” Sujeito muito lógico, o senhor sabe: assuntos secundários, Zé Bebelo brincava e inventava ordens. E – engraçado dizer – a gente apreciava aquilo. Dava uma esperança forte. Ao um modo, melhor que tudo é se cuidar miudamente trabalhos de paz em tempo de guerra.” (Informante 11)
108
construída. A questão 01, por exemplo, apresenta fortes indícios nessa direção. Para se ter uma ideia, dos 28 informantes que responderam a essa questão, 20 deles recorreram explicitamente a elementos do contexto no qual a construção proverbial estava inserida. Dentre os recursos utilizados pelos participantes estão o paralelismo com construções anteriores e a retomada de informações já apresentadas. Vejamos alguns exemplos:
(24) “Sujeito muito lógico, o senhor sabe: Assuntos principais, Zé Bebelo fazia lição, e deduzia ordens. – “Trabucar duro, para dormir bem!” – publicava. Gostadamente: – “Morrendo eu, depois vocês descansam...” – e ria: – “Mas eu não morro...” Sujeito muito lógico, o senhor sabe: não descansa, enquanto é vivo. E – engraçado dizer – a gente apreciava aquilo. Dava uma esperança forte. Ao um modo, melhor que tudo é se cuidar miudamente trabalhos de paz em tempo de guerra.” (Informante 02)
(25) “Sujeito muito lógico, o senhor sabe: Assuntos principais, Zé Bebelo fazia lição, e deduzia ordens. – “Trabucar duro, para dormir bem!” – publicava. Gostadamente: – “Morrendo eu, depois vocês descansam...” – e ria: – “Mas eu não morro...” Sujeito muito lógico, o senhor sabe: vive mais. E – engraçado dizer – a gente apreciava aquilo. Dava uma esperança forte. Ao um modo, melhor que tudo é se cuidar miudamente trabalhos de paz em tempo de guerra.” (Informante 07)
(26) “Sujeito muito lógico, o senhor sabe: Assuntos principais, Zé Bebelo fazia lição, e deduzia ordens. – “Trabucar duro, para dormir bem!” – publicava. Gostadamente: – “Morrendo eu, depois vocês descansam...” – e ria: – “Mas eu não morro...” Sujeito muito lógico, o senhor sabe: não para nunca. E – engraçado dizer – a gente apreciava aquilo. Dava uma esperança forte. Ao um modo, melhor que tudo é se cuidar miudamente trabalhos de paz em tempo de guerra.” (Informante 18)
(27) “Sujeito muito lógico, o senhor sabe: Assuntos principais, Zé Bebelo fazia lição, e deduzia ordens. – “Trabucar duro, para dormir bem!” – publicava. Gostadamente: – “Morrendo eu, depois vocês descansam...” – e ria: – “Mas eu não morro...” Sujeito muito lógico, o senhor sabe: não deixa ninguém descansar. E – engraçado dizer – a gente apreciava aquilo. Dava uma esperança forte. Ao um modo, melhor que tudo é se cuidar miudamente trabalhos de paz em tempo de guerra.”
109
No entanto, nas questões 03 e 05 a influência do fragmento textual mais amplo contexto discursivo parece não ter sido tão relevante. Na questão 03, por exemplo, o contexto não influenciou o preenchimento da segunda cláusula que, em todas as 28 ocorrências, se restringiu a produzir relações de oposição à primeira. Aventamos que isso tenha ocorrido devido à existência de um “mas”. Essa hipótese se baseia no fato de tal item apresentar forte frequência de token em construções de contraste (cf.: DUQUE; PEREIRA DA SILVA, 2010). Vejamos alguns exemplos:
(28) Saí, vim, destes meus Gerais; voltei com Diadorim. Não voltei? Travessias... Diadorim, os rios verdes. A lua, o luar: vejo esses vaqueiros que viajam a boiada, mediante o madrugar, com lua no céu, dia depois de dia. Pergunto coisas ao buriti; e o que ele responde é: a coragem minha. Buriti quer todo azul, e não se aparta de sua água – carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem dá o exemplo. (Informante 01)
(29) Saí, vim, destes meus Gerais; voltei com Diadorim. Não voltei? Travessias... Diadorim, os rios verdes. A lua, o luar: vejo esses vaqueiros que viajam a boiada, mediante o madrugar, com lua no céu, dia depois de dia. Pergunto coisas ao buriti; e o que ele responde é: a coragem minha. Buriti quer todo azul, e não se aparta de sua água – carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem sempre aprende. (Informante 05)
(30) Saí, vim, destes meus Gerais; voltei com Diadorim. Não voltei? Travessias... Diadorim, os rios verdes. A lua, o luar: vejo esses vaqueiros que viajam a boiada, mediante o madrugar, com lua no céu, dia depois de dia. Pergunto coisas ao buriti; e o que ele responde é: a coragem minha. Buriti quer todo azul, e não se aparta de sua água – carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem aprende junto. (Informante 12)
(31) Saí, vim, destes meus Gerais; voltei com Diadorim. Não voltei? Travessias... Diadorim, os rios verdes. A lua, o luar: vejo esses vaqueiros que viajam a boiada, mediante o madrugar, com lua no céu, dia depois de dia. Pergunto coisas ao buriti; e o que ele responde é: a coragem minha. Buriti quer todo azul, e não se aparta de sua água – carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem sabe que fez um bom trabalho. (Informante 01)
110
(32) Saí, vim, destes meus Gerais; voltei com Diadorim. Não voltei? Travessias... Diadorim, os rios verdes. A lua, o luar: vejo esses vaqueiros que viajam a boiada, mediante o madrugar, com lua no céu, dia depois de dia. Pergunto coisas ao buriti; e o que ele responde é: a coragem minha. Buriti quer todo azul, e não se aparta de sua água – carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem mostra o caminho. (Informante 16)
Já na questão 05, prevaleceu uma tentativa de preencher semanticamente a proposta da primeira cláusula. Tudo indica que os informantes tentaram conceptualizar a noção acionada pela expressão “tudo o que já foi”. Vejamos alguns exemplos:
(33) Deus está em tudo – conforme a crença? Mas tudo vai vivendo demais, se remexendo. Deus estava mesmo vislumbrante era se tudo esbarrasse, por uma vez. Como é que se pode pensar toda hora nos novíssimos, a gente estando ocupado com estes negócios gerais? Tudo o que já foi, é o que um dia iria ser, toda a hora a gente está num cômpito. Eu penso é assim, na paridade. (Informante 04)
(34) Deus está em tudo – conforme a crença? Mas tudo vai vivendo demais, se remexendo. Deus estava mesmo vislumbrante era se tudo esbarrasse, por uma vez. Como é que se pode pensar toda hora nos novíssimos, a gente estando ocupado com estes negócios gerais? Tudo o que já foi, é o que nunca mais será, toda a hora a gente está num cômpito. Eu penso é assim, na paridade. (Informante 06)
(35) Deus está em tudo – conforme a crença? Mas tudo vai vivendo demais, se remexendo. Deus estava mesmo vislumbrante era se tudo esbarrasse, por uma vez. Como é que se pode pensar toda hora nos novíssimos, a gente estando ocupado com estes negócios gerais? Tudo o que já foi, é passado, toda a hora a gente está num cômpito. Eu penso é assim, na paridade. (Informantes 02, 08, 09, 11, 13, 14, 17, 18, 19 e 28)
(36) Deus está em tudo – conforme a crença? Mas tudo vai vivendo demais, se remexendo. Deus estava mesmo vislumbrante era se tudo esbarrasse, por uma vez. Como é que se pode pensar toda hora nos novíssimos, a gente estando ocupado com estes negócios gerais? Tudo o que já foi, é o começo do que
111
ainda será, toda a hora a gente está num cômpito. Eu penso é assim, na paridade. (Informante 10)
Nas demais questões (02 e 04), houve um equilíbrio entre as respostas dadas, no sentido de que tanto a estrutura construcional quanto o contexto discursivo influenciaram o processo de produção da segunda cláusula, como podemos verificar nos exemplos a seguir:
(37) O que lembro, jamais esquecerei. Venho vindo, de velhas alegrias. A Fazenda Santa Catarina era perto do céu – um céu azul no repintado, com as nuvens que não se removem. A gente estava em maio. Quero bem a esses maios, o sol bom, o frio de saúde, as flores no campo, os finos ventos maiozinhos. A frente da fazenda, num tombado, respeitava para o espigão, para o céu. (Informante 01)
(38) Solevei uma desconfiança. Sempre o vulto presente daquele homem; seria só por acasos? O urucuiano, deles, que o Salústio se chamava. O que tinha os olhos miudinhos em cara redonda, boca mole e sete fios de barba compridos no queixo. Arreliado falei: – “Que que é? Tu amigou comigo?! Tatu – tua casa...” – para ele. Semi-sério ele se riu. Comparsa urucuiano dos olhos verdes,
homem muito feioso. Ainda nada não disse, coçou a barriga com as costas dobradas da mão – gesto de urucuiano. Eu bati com a minha mão direita por cima da canhota, que pegava o rifle, e deixei deixada – gesto de jagunço. Apertei com ele: – “Ao que me quer?” Me deu resposta: – “Ao assistir o senhor, sua bizarrice... O senhor é atirador! É no junto do que sabe bem, que a gente aprende as coisas. (Informante 04)
7.5.6 Discussão
A partir dos resultados do experimento V, verificamos que, havendo um contexto discursivo mais amplo, os participantes ancoram a formulação da segunda cláusula em itens lexicais da primeira e em frames já acionados por pistas linguísticas encontradas em trechos anteriores do texto. Dessa forma, o contexto discursivo mais amplo exerce um papel crucial na configuração das construções linguísticas. Além disso, observamos que algumas estruturas construcionais acabam exercendo uma
112
influência maior que a do próprio contexto discursivo. É o caso das construções de contraste que, impulsionadas pelo item “mas”, acabam direcionando o preenchimento da segunda cláusula.
7.6 DISCUSSÃO GERAL
Os resultados apresentados nos experimentos indicam que os compreendedores recorrem a estruturas linguísticas prototípicas durante o processo de construção de sentido de novas estruturas. Porém, esse não é o único recurso utilizado na categorização e semantização das construções proverbiais. Há também uma relação entre o acionamento de esquemas e o grau de idiomaticidade das expressões testadas, o que denuncia a influência do acionamento de esquemas no processo de categorização de construções proverbiais.
Além do acionamento de esquemas, os artefatos utilizados nas ilustrações contribuem para a construção de sentido dos provérbios. Essa constatação em si já sinaliza para a importância dos frames no processo de categorização das expressões linguísticas investigadas. Os resultados dos testes revelam que os informantes recorrem a frames no processo de construção de sentido das expressões linguísticas sob investigação.
Verificamos que os papéis (roles) dos esquemas - que, de acordo com Lambrecht (2004), configuram o Contexto Conceptual Compartilhado (Shared Conceptual Context) – exercem influência na maneira como os informantes categorizam expressões proverbiais. Por sua vez, o contexto discursivo, ou seja, os referentes e as predicações acionadas por enunciados prévios (cf.: LAMBRECHT, 2004), também atua na configuração das construções linguísticas, delineando gradativamente a forma com o sentido é construído. A ocorrência de itens lexicais com alta frequência de token, como o juntivo “mas”, parece favorecer a existência de relações semânticas específicas independentemente do contexto discursivo mais amplo.
Quanto ao contexto situacional mais amplo (Situational Context), de Lambretch (2004), nas ilustrações, os artefatos focalizados pelos informantes também influenciaram a construção do sentido, o que evidenciou a relevância dos cenários, scripts, taxonomias e categorias na produção / compreensão de textos. Os testes de preenchimento de lacunas revelaram que a maneira como os informantes constroem a
113
segunda cláusula é influenciada pelos frames acionados pelos itens lexicais da cláusula anterior.
114 CONCLUSÕES
Após investigarmos possíveis explicações para a categorização de construções linguísticas extraídas do romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, como proverbiais, chegamos a algumas conclusões importantes.
Verificamos que os compreendedores recorrem à frequência e a conhecimentos acerca das estruturas construcionais de provérbios conhecidos para categorizarem provérbios inéditos. Por outro lado, também recorre a sua bagagem experiencial, afetiva e circunstancial para atribuir sentido às coisas a partir daquilo que está no seu campo perceptivo. Nesse sentido, além de serem influenciados pela recorrência de determinadas estruturas prototípicas de provérbios, os informantes acionam estruturas relacionadas à corporalidade e estruturas conceptuais de conhecimento de mundo, como esquemas imagéticos e frames, acionados via simulação mental.
Cumpre esclarecer que a variação no grau de idiomaticidade das expressões ditas proverbiais - existência de expressões fechadas, abertas e intermediárias - reforça a noção de contínuo, uma vez que os idiomatismos não existem a priori, mas são forjados por meio da interação e configurados pelo acionamento de esquemas imagéticos e frames. Quanto ao acionamento de esquemas, notamos que os informantes foram motivados, em alguns casos, por esquemas subjacentes às ilustrações utilizadas nos testes e, em outros, por artefatos salientes dessas figuras. Isso evidencia que a maneira como o compreendedor atribui sentido depende de focalização. De forma geral, os atributos mais salientes parecem mais relevantes para a compreensão.
Acreditamos que os frames são fundamentais para a construção de sentido dos provérbios. Esses mecanismos de base cultural levam o compreendedor a distinguir as construções linguísticas em função de suas inserções culturais e contextuais. Nesse sentido, durante o processo de categorização das construções linguísticas, esquemas e frames ativados resultam em simulações mentais. Sendo assim, as experiências corpóreas e culturais são decisivas para a efetivação dos processos de construção de sentido de expressões proverbiais. Cumpre salientar que frequências de type e de token (BYBEE, 2001) desempenham importante papel no processo de categorização dessas construções.
115
a) Por que alguns itens lexicais são mais atraídos para determinadas construções, muitas vezes, tornando-as expressões cristalizadas?
b) Como funcionam os dispositivos de indexação de palavras a referentes e como os seus affordances participam da construção do sentido das expressões linguísticas?
c) De que modo operam os mecanismos de derivação de affordances dos referentes?
Apesar dos relevantes resultados obtidos nessa pesquisa, o processamento linguístico online é um desafio que exige um aparato de técnicas e equipamentos de observação dos processos de construção de sentido simultaneamente à realização dos testes, o que não foi possível neste trabalho devido à limitação do tempo e ao próprio caráter preliminar da proposta apresentada nesta dissertação. Além disso, a implementação de grupos de controle em testes futuros podem favorecer o desenvolvimento de análises mais refinadas acerca dos mecanismos de categorização de expressões linguísticas. Admitimos a necessidade de aprimoramento da aplicação de entrevistas a fim de coletarmos informações fornecidas pelos informantes durante os procedimentos de coleta de dados. Tais informações podem contribuir para a elaboração de protocolos.
116 REFERÊNCIAS
BARDDAL, J. Case in Icelandic: a Synchronic, Diachronic and Comparative Approach. Lund studier I Nordisk sprak veten skap A 57. Lund: Department of Scandinavian Languages, 2001.
BARSALOU, L. W. Grounded cognition. Annual Review of Psychology, n. 59, p. 617- 645, 2008.
BERGEN, B. K. Embodied Grammar and Humor. In: BRONE, Geert; VEALE, Tony; FEYARTS, Kurt (Ed.). Cognitive Linguistics and Humor Research. Mouton de Gruyter: With Kin Binsted, 2010.
BERGEN, B. K.; CHANG, N. Embodied Construction Grammar in simulation-based language understanding. In.: ÖSTMAN, J. O.; FRIED, M. (Ed.). Construction Grammar(s): Cognitive and Cross-Language Dimensions. Johns Benjamins, 2005. BERGEN, B. K.; FELDMAN, J. Embodied concept learning. In: CALVO, Paco; GOMILA, Toni (Ed.). Handbook of Cognitive Science. Elsevier. 2008.
BERGEN, B. K.; WHEELER, K. Grammatical aspect and mental simulation. Brain & Language, 2005.
BYBEE, J. Phonology and language use. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.
CÂMARA, Fernando Portela. Coluna psiquiatria contemporânea: introdução ao conexionismo. Psychiatry online Brasil, v. 17, set. 2012.
CHANG, N. Constructing grammar: a computational model of the emergence of early constructions. 2009. Dissertation (Ph.D.) – UC Berkeley, Berkeley, CA, 2009.
CHOMSKY, N. O conhecimento da língua. Sua natureza, origem e uso. Lisboa: Caminho. Coleção universitária - Série Linguística, 1994.
CPDDPEDIA WIKI. Compreensão. Disponível em: <http://pt-
117
COSTA, M. A.; DUQUE, P. H. Identidade, integração e imaginação: investigando a literatura fantástica. In: CONFERÊNCIA DE LINGUÍSTICA E COGNIÇÃO, 5., 2010, Florianópolis. Anais... Florianópolis, 2011.
COSTE, D. École normal esupérieure de Saint-Cloud. – C.R.E.D.I.F. “Lire lesens” (extrto). Trad. Prof.ª Sidnei Cursino Guimarães Romão unicamente para a disciplina: Língua Portuguesa – Lingüística Textual, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Patos de Minas-MG. In: Le Français dans le Monde – L’Écrit. In: Le français dans le Monde 109, 1974. In: AMORIM; CASTRO, R. M de C. Crátilo: Revista de Estudos Lingüísticos e Literários, Patos de Minas: UNIPAM, ano 1, n. 1, p. 70-78, 2008.
COWIE, A. P. R.; MACKIN, I. R.; MCCAIG. Oxford Dictionary of Current Idiomatic English. Oxford: OUP, 1984. (General Introduction, v. I-II).
CROFT, W. e CRUSE, D. A. Cognitive Linguistics. Cambridge: Cambridge University Press. 2004.
CULICOVER, P.; JACKENDOFF, R. Simpler Syntax. Nova Iorque: Oxford Univ. Press., 2005.
DAMÁSIO, A. R. E o cérebro criou o Homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
DUQUE, P. H. Introdução à Teoria Neural da Linguagem. No prelo.
______. Teoria dos protótipos, categoria e sentido lexical. In: MOLLICA, M. Cecília; RONCARATI, Cláudia (Org.). Anais do III congresso internacional da ABRALIN. Rio
de Janeiro, 2003. Disponível em:
<http://www.filologia.org.br/revista/artigo/7(21)13.htm>. Acesso em: 27 out. 2012.
DUQUE, P. H. Modelo baseado em regras. Linguagem e Cognição: mistérios da mente
corporificada: blog, 1 jan. 2012. Disponível em:
<http://cognicaoelinguagem.wordpress.com/2012/01/01/modelo-baseado-em-regras/>. Acesso em: 27 set. 2012.
DUQUE, P. H.; COSTA, M. A. Contribuições para uma Análise Construcional do Discurso. No prelo.
118
______. Cognitivismo, corporalidade e construções: novas perspectivas nos estudos da linguagem. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Linguagens em diálogo, n. 42, p. 87-