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Delineamento Experimental: Objetivos e Ciladas

EXPERIMENTOS BEM PLANEJADOS

Agora que o leitor sabe como planejar um experimento e conhece alguns problemas que devem ser evitados, vamos examinar um experimento bem plane­ jado, um delineamento experimental “verdadeiro”. O delineamento experimental

mais simples possível tem duas variáveis: a variável independente e a dependente. A variável independente tem dois níveis: um grupo experimental e um grupo de controle. Os pesquisadores precisam esforçar-se para assegurar que os dois gru­ pos difiram apenas em relação à variável manipulada. Lembre que o método ex­ perimental envolve controle de variáveis estranhas, seja mantendo essas variáveis constantes (controle experimental), seja por meio de randomização, para garan­ tir que qualquer variável estranha afete igualmente os dois grupos. O delineamen­ to experimental simples pode assumir uma de duas formas: um delineamento com pós-teste apenas ou com pré-teste-pós-teste.

Delineamento com Pós-teste Apenas

Um pesquisador que usa o delineamento com pós-teste apenas .deve: (1) obter dois grupos equivalentes de participantes, (2) introduzir a variável inde­ pendente e (3) medir o efeito da variável independente sobre a variável depen­ dente. O delineamento assume a seguinte forma:

Variável Variável

independente dependente

Assim, o primeiro passo consiste em escolher os participantes e distribuí-los pelos grupos. Os procedimentos utilizados devem resultar em grupos equivalen­

tes, para eliminar o problema de diferenças de seleção. Pode-se obter equivalên­

cia dos grupos designando os participantes ao acaso para as duas condições ou fazendo com que os mesmos indivíduos participem das duas condições. O C no diagrama significa que os participantes são distribuídos casualmente pelos dois grupos.

Em seguida, o pesquisador deve escolher dois níveis da variável indepen­ dente, ou seja, um grupo experimental que recebe o tratamento e um grupo de controle que não recebe. Assim, um pesquisador pode estudar, por exemplo, o

De l i n e a m e n t o Ex p e r i m e n t a l: Ob j e t i v o s e Ci l a d a s 1 7 9

efeito da recompensa sobre a motivação para brincar, oferecendo uma recom­ pensa a um grupo de crianças antes de um jogo e não oferecendo qualquer recompensa às crianças do grupo de controle. Um estudo que teste o efeito de um método para reduzir o comportamento de fumar poderia comparar um gru­ po que recebe o tratamento com um grupo de controle que não recebe. Outra possibilidade seria usar duas quantidades diferentes da variável independente - isto é, usar mais recompensa num grupo do que em outro ou comparar os efei­ tos de quantidades diferentes de treino de relaxamento. Qualquer uma dessas abordagens poderia fornecer uma base para a comparação dos dois grupos.

Finalmente, mede-se o efeito da variável independente. O mesmo procedi­ mento de mensuração é usado para os dois grupos, o que permite a comparação entre eles. Como os grupos são equivalentes de partida, vários fatores - tais como história ou maturação - afetam ambos igualmente. Assim, qualquer dife­ rença entre os grupos na variável dependente pode ser atribuída ao efeito da variável independente. O resultado é um delineamento experimental que tem validade interna. De fato, um teste de significância estatística poderia ser usado para avaliar a diferença entre os grupos. No entanto, não precisamos preocu- par-nos com a estatística neste momento. Devemos planejar bem o experimento e eliminar as variáveis confundidas. Se isso não ocorrer, os resultados serão inú­ teis e a estatística não poderá ajudar.

Delineamento com Pré-teste-Pós-teste

A única diferença entre o delineamento com pós-teste apenas e aquele com pré-teste-pós-teste é que neste último se aplica um pré-teste antes de introduzir a manipulação experimental. Esse delineamento toma possível assegurar que os grupos sejam realmente equivalentes desde o início. No entanto, em geral essa precaução é desnecessária se os participantes tiverem sido distribuídos ao acaso pelos grupos. Com uma amostra suficientemente grande de participantes, a distri­ buição casual produz grupos praticamente idênticos em todos os aspectos.

O leitor provavelmente está-se perguntando quantos participantes são ne­ cessários em cada grupo, para assegurar que a distribuição casual tomou os grupos equivalentes. Quanto maior a amostra, menor a probabilidade de os gru­ pos diferirem sistematicamente antes da manipulação da variável independen­ te. Ao mesmo tempo, aumenta a probabilidade de que qualquer diferença entre os grupos quanto à variável dependente seja devida ao efeito da variável inde­ pendente. Há procedimentos formais para determinar o tamanho da amostra necessário para detectar um efeito estatisticamente significativo, mas uma nor­ ma prática recomenda 20 participantes por condição. O Capítulo 13 descreve outras questões envolvidas na determinação do número de participantes neces­ sário num experimento.

1 8 0 Méto d o sdeP e s q u i s a e mC i ê n c i a s d o C o m p o r t a m e n t o

Vantagens e Desvantagens dos Dois Delineamentos

Cada delineamento tem vantagens e desvantagens que influenciam a deci­ são de incluir ou não um pré-teste. O primeiro fator de decisão refere-se à equi­ valência dos grupos no experimento. Embora a randomização tenda a produzir equivalência entre os grupos, é possível que no caso de amostras pequenas os grupos não sejam iguais. Então, um pré-teste permite ao pesquisador determi­ nar se os grupos eram equivalentes desde o início.

Algumas vezes, um pré-teste é necessário para selecionar os participantes do experimento. A aplicação de um pré-teste pode ser necessária para que o pesqui­ sador encontre os escores mais baixos e os mais altos numa medida do comporta­ mento de fumar, num teste de ansiedade em relação a matemática ou numa me­ dida de preconceito. Uma vez identificados, os participantes poderão ser distri­ buídos ao acaso pelos grupos experimental e de controle. Além disso, o pesquisa­ dor que usa um pré-teste pode medir o grau de mudança em cada indivíduo. Se um programa de redução do comportamento de fumar parece ser efetivo para alguns indivíduos mas não para outros, pode-se tentar descobrir o porquê.

Também há necessidade de um pré-teste quando há uma possibilidade de os participantes abandonarem o experimento, especialmente se o estudo for longo. Denomina-se m ortalidade o abandono de um experimento. As pessoas podem ir embora por motivos não relacionados às manipulações experimentais, tais como doenças. Algumas vezes, no entanto, a mortalidade está relacionada à manipulação experimental. Mesmo que os grupos sejam equivalentes no início, diferentes níveis de mortalidade podem tomá-los desiguais. Como a mortalidade poderia afetar um programa planejado para reduzir o comportamento de fumar? Os fumantes mais pesados do grupo experimental poderiam abandonar o programa. Conseqüente­ mente, no momento da aplicação do pós-teste somente teriam permanecido os fu­ mantes leves, e a comparação entre os grupos experimental e de controle revelaria menor freqüência de fumar no grupo experimental, mesmo que o programa não tivesse efeito. O uso de um pré-teste permite a avaliação dos efeitos da mortalidade. Podem-se examinar os escores no pré-teste das pessoas que abandonaram o experi­ mento e verificar se a mortalidade afetou os resultados finais.

Assim, os pré-testes podem oferecer algumas vantagens no delineamento experimental. Uma desvantagem de um pré-teste, no entanto, pode ser o gasto de tempo e o incômodo da aplicação, no contexto dos procedimentos experi­ mentais particulares utilizados. Talvez o mais importante seja considerar a pos­ sibilidade de o pré-teste sensibilizar os participantes em relação aos objetivos do estudo, permitindo-lhes adivinhar as hipóteses testadas. Eles poderiam, então, reagir à manipulação diferentemente do que fariam se não tivessem sido sub­ metidos ao pré-teste. Quando um pré-teste afeta a reação dos participantes à manipulação, é difícil generalizar os resultados para pessoas que não passaram pelo pré-teste. Isto é, a variável independente poderia não ter efeito no mundo

D e l i n e a m e n t o Ex per im en ta l: O b j e t i v o s e C i l a d a s 1 8 1

real, em que é rara a aplicação de pré-teste. Trataremos desse assunto em mais profundidade no Capítulo 14.

Se a consciência de um pré-teste representa um problema, pode-se disfar­ çar o pré-teste. Uma forma de fazer isso é a aplicação por outro experimentador numa situação completamente diferente. Outra possibilidade é inserir o pré- teste num conjunto de medidas irrelevantes, para que o interesse do pesquisador num tópico particular não fique evidente.

Também é possível avaliar diretamente o impacto do pré-teste, com uma combinação dos delineamentos com pós-teste apenas e com pré-teste-pós-teste. Nesse delineamento, submetemos metade dos participantes apenas ao pós-teste e a outra metade, tanto ao pré-teste quanto ao pós-teste. Esse delineamento, que é denominado formalmente um delineamento de quatro grupos de Solomon e per­ mite avaliar diretamente o efeito do pré-teste, será mais detalhadamente discutido no Capítulo 14. Finalmente, pode-se observar o comportamento dos participantes sem seu conhecimento no pré-teste, embora esse procedimento deva ser objeto de considerações éticas. Ao ler o relato de um experimento que utilizou um delinea­ mento de pré-teste-pós-teste, o leitor deve tentar verificar se o pré-teste pode ter criado um problema para a interpretação dos resultados.

A Tabela 8.1 resume os vários delineamentos descritos neste capítulo. O leitor deve familiarizar-se com os delineamentos, com as ameaças à validade interna e com as justificativas para a eliminação dessas ameaças, quando utiliza delineamentos realmente experimentais.

Tabela 8.1 Resumo dos delineamentos experimentais.

Tipo de delineamento Problema (s)

1. Estudo de caso instantâneo Falta de grupo de comparação 2. Pré-teste-pós-teste com um grupo Efeito de história

Efeito de maturação Efeito de teste

Efeito de desgaste do instrumento Efeito de regressão estatística Mortalidade

3. Grupo de controle não equivalente Diferenças de seleção Mortalidade

4. Experimento verdadeiro com pós-teste apenas Nenhum, talvez mortalidade

5. Experimento verdadeiro com pré-teste-pós-teste Nenhum, talvez mortalidade, mas que pode ser avaliada com informação do pré-teste. Um problema potencial é a sensibilização dos participantes em re­ lação à hipótese

1 8 2 Mé t o d o sdh Pe s q u i s a e m Ciê n c i a sd o Co m p o r t a m e n t o

DISTRIBUIÇÃO DOS PARTICIPANTES PELAS CONDIÇÕES

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