3 QUESTÕES LEVANTADAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO MÉTODO E
3.2 EXPLANAÇÃO E CONSTRUÇÃO PARA VALIDAÇÃO DA HIPÓTESE
A partir do levantamento bibliográfico realizado por meio de contribuições de Wheeler (2008), Burdek (2006), Dondis (2004), Gomes Filho (2004) e (2007), Niemeyer (2009), Lupton (2009), Costa (2007), Raposo (2008), Ching (2013), Wong (2010), Rinaldi (2009) e Rubim (2013), foi feito estudo sobre comunicação, leitura visual, Design de Superfície, geometrização da superfície, identidade visual e expressão visual.
Como observa Wheeler (2008, p. 25), os ideais de uma marca são fundamentais para a criação de uma Identidade Corporativa. Para detecção, utilizou- se Bürdek (2006) e Lawson (2011), que esclarecem como funciona a inserção de um plano estratégico corporativo, quando há uma necessidade específica para algumas áreas do Design ou da Arquitetura, por serem ciências multidisciplinares, que podem trabalhar a cultura corporativa de fachadas na Arquitetura.
Já o estudo de caso sobre as Edificações Corporativas de Moda permitiu maior entendimento sobre suas expressões pregnantes e perceptíveis num grupo específico, com suas características identificadoras.
Mitchell (2010) descreve que “a arquitetura é a arte de transformar e diferenciar o espaço contínuo, uma vez que trabalha com o cheio e o vazio, o interior e o exterior” e, por essas características, pode-se buscar a identidade visual.
O problema está no grau de expressão alcançado pela Identidade em uma fachada, suficiente para transmitir adequadamente os conceitos que se pretende passar da corporação aos seus potenciais consumidores.
A hipótese desta pesquisa é a possibilidade da criação de um sistema delineador que auxilie projetistas na tomada de decisões na fase de desenvolvimento de elementos arquitetônicos visando uma agregação da Identidade de uma marca corporativa.
E que isto seja possível com uma ferramenta concreta, composta de informações sistemáticas, embasadas em conceitos fundamentais da comunicação visual.
A fusão dos conceitos da Gestalt (a forma e suas geometrias) com os de Semiótica (o significar da marca) teve por razão a criação de uma interface capaz de proporcionar valores estéticos e funcionais expressivos, comunicando e delineando uma linguagem, por meio da exploração de técnicas do Design de Superfície.
Dessa forma, chegou-se a três variáveis importantes para a expressão da Identidade de uma marca em um elemento de arquitetônico: a forma (enquanto plasticidade e sensações); o significado (enquanto função e interpretação da forma); e a identidade (enquanto entendimento e lei via significado). Os parâmetros são explicados a seguir:
Forma - neste parâmetro faz-se uso da Gestalt para analisar as formas do Todo para a Parte, separando-as em três partes como visualizado no quadro de linguagem visual da forma, depois unificado-as para a detecção do fechamento e pregnância da forma.
Significado – definido com base na Semiótica Peirciana, por meio do Significante, atribuído por elementos que possibilitam a aparição da significação ao nível da percepção - fator relacionado ao objeto construído, como elementos tangíveis de significado de uma marca.
Identidade - Este parâmetro é aplicado à arquitetura corporativa por meio da expressão da marca no universo tangível da identidade (manual de identidade, fachada corporativa, arquitetura como um Todo), pois esse princípio recomenda que, para o ambiente do usuário, sejam utilizados elementos como luz natural, cor, textura, iluminação diferenciada, conforto visual, para garantir que estes se sintam
exclusivos e conotem a ideia de identidade desejada, por meio da sinestesia dos sentidos e sensações de conforto em relação ao ambiente.
Os parâmetros foram escolhidos de modo a englobar essas três variantes para a validação da hipótese. Escolheu-se trabalhar com a identidade de marcas corporativas ligadas a epicentros da Moda devido à existência de um grau considerável de expressão, contido nas fachadas de suas edificações. Depois, os parâmetros foram selecionados e organizados seguindo uma ordem definida aos epicentros selecionados para esta pesquisa.
A seguir, é apresentada a estrutura conceitual utilizada na pesquisa, embasada em Lakatos (2003, p. 150):
X Y Z
As variáveis dos parâmetros são: VX (forma) = independente VY (significado) = interveniente VZ (identidade) = dependente
Para afirmar que uma variável é interveniente, requer-se a presença de três relações assimétricas:
a) a relação original, entre as variáveis independente e dependente (X - Z);
b) uma relação entre a variável independente e a variável interveniente (X - Y), sendo que a variável interveniente atua como se fosse dependente (efeito da independente);
c) uma relação entre a variável interveniente e a variável dependente (Y - Z), atuando a interveniente como independente (causa da dependente). A relevância básica da variável interveniente é que se prende ao fato de que
[...] toda relação assimétrica entre duas variáveis é uma abstração feita a partir de uma interminável cadeia causal e quanto maior compreensão, mais conseguimos acerca dos elos dessa cadeia, e melhor será nossa compreensão acerca dessa relação. (ROSENBERG, 1976 apud LAKATOS, 2003, p. 150).
As variáveis intervenientes e as antecedentes são elos de cadeias causais que foram o ponto de partida para a formulação do processo de delineamento de fachadas com identidade e expressão visual. A base do processo
foi a junção das ideias de se projetar de Lawson (2011) com as possibilidades de se projetar de Gomes Filho (2006).
O desenvolvimento do sistema contou com os parâmetros para a análise, vinculados aos princípios das leis e conceitos da Gestalt; os princípios dos significados encontrados nas dimensões sintáticas, semânticas e pragmáticas (de ícone – índice e símbolo) da Semiótica e os princípios ambientais como efeitos proporcionados pelo jogo de luz e material diferenciado (observações feitas em cada edifício). Os parâmetros foram correlacionados e sintetizados enquanto itens de expressão da marca.
Para levantamento, delineamento e validação da hipótese buscou-se a extração de Variáveis Independentes (VX) para o desenvolvimento do sistema delineador. No entanto, é preciso conhecer quais são os parâmetros intrínsecos às variáveis independentes (VX) e que interferem decisivamente para que possa ocorrer o fenômeno (VY).
Fez-se necessária a busca pelo entendimento, por meio de uma analogia, dos contrastes e pela polaridade existente entre o abstrato e o concreto, onde se encontra a imagem observada, que pode instaurar-se por meio de parâmetros como o do estado (forma): VX; do significado (forma): VY; e da identidade (visual/funcional): VZ e nela os aspectos construtores de cada um.
Extração de VX: Alguns pesquisadores da área de comunicação visual partem de regras e conceitos embasados na Bauhaus; de regras estabelecidas pela Gestalt ou ainda estabelecidas por junção de ambos, somando-se ao empirismo próprio da profissão, conforme esclarecem Wong (2010), Dondis (2007) e Gomes Filho (2007).
Lupton e Phillips (2008) partem do princípio que os arquitetos e designers de hoje organizam os elementos visuais em menus de propriedades, parâmetros, filtros e assim por diante, criando ferramentas para desenvolver trabalhos interdisciplinares em poder descritivo.
Assim, a primeira variável VX: Estado da Forma – (ponto, linha, superfície, volume) foi detectada por meio dos estudos embasados em Wong (2001), Dondis (2007); Gomes (2007) e Lupton e Philips (2008).
Os estudos de Wong sobre o entendimento da forma em Desenho Bidimensional, Forma Bidimensional e Desenho Tridimensional embasaram a
separação para o entendimento do desenho em quatro partes: conceituais, visuais, relacionais e práticos.
Segundo Wong (2010, p.40), os elementos conceituais não existem fisicamente, mas são elementos que conseguem definir um desenho no espaço, como o ponto define um ângulo; uma linha, um contorno de um desenho; o plano, uma superfície; e um volume é definido por planos (faces) que ocupam o espaço, conforme a Figura 22, a seguir.
Figura 18 - Elementos Conceituais
Fonte: Wong (2010, p. 40).
Os elementos conceituais podem estabelecer a primeira variável, a VX. Porém o pensamento gestaltista tem mais a oferecer além da mera relação entre fenômenos psicofisiológicos e expressão visual.
Conforme os autores anteriormente citados, a base teórica da Gestalt é uma abordagem de compreensão e de análise de todos os sistemas e exige que se reconheçam suas partes em relação ao objeto/ambiente ou acontecimento, pois o Todo é formado por Partes interatuantes, que podem ser isoladas e vistas como inteiramente independentes, e depois reunidas no todo.
Devido a isso, a primeira variável tem valor independente e classificam-se como VX os elementos visuais de Wong (2010), que são formato, escala, cor e textura, e se tornam visíveis por meio de elementos conceituais, considerados elementos proeminentes, e esses são os primeiros elementos visíveis aos seres humanos, ou seja, têm correlação imediata com a variável VX.
Lupton e Phillips (2008) são categóricos em relatar que a Bauhaus apenas descreve e não interpreta a linguagem da visão de maneira universal. Por
isso, nesta primeira variável (VX), os elementos visuais primários são evidenciados para classificar uma leitura em primeira instância, que representam forças visuais estruturais, para num segundo momento significar.
Já o significado é interatuante, pois é impossível modificar qualquer unidade do sistema sem que, com isso, se modifique também o Todo. Dondis (2007, p.22) observa que o estímulo visual e o nível de inteligência visual em geral levam a um significado que “[...] pode encontrar-se não apenas nos dados representacionais, na informação ambiental e nos símbolos, inclusive a linguagem, mas também nas forças compositivas que existem e coexistem com a expressão factual e visual”.
Portanto, o significado seria a variável interveniente VY: Significado da forma. Para Dondis (2007), qualquer acontecimento visual é uma forma com conteúdo, e sabe-se que esse é altamente influenciado pela importância das partes constitutivas, como tom, cor, textura, dimensão, proporção e relações compositivas com o significado.
Sob esse ponto de vista, os elementos visuais podem ser trabalhados num segundo momento, porém ocorre a interpretação dos acontecimentos visuais, pois são parte da comunicação como um todo.
Em Wong (2010), percebe-se que os elementos relacionais (direção, posição, espaço e gravidade) também podem ser considerados nesta pesquisa, como variável interveniente VY, pois são elementos que governam a relação com a localização e com a inter-relação da forma do desenho. Dessa maneira, alguns são diagnosticados por meio da direção e posição e outros são sentidos como o espaço e a gravidade, ou seja, são elementos mediadores.
Dondis (2007) relata o funcionamento da visão, de como é entendida e o que pode contribuir para a compreensão de como pode ser aplicado à comunicação, assim como a comunicação acontece na arquitetura corporativa.
Já a variável VZ é dependente (seria o caminho para a busca da identidade), pois ter uma identidade é sinônimo de uma identificação com o que está estabelecido na cultura e no meio social.
Niemeyer (2009) contribui com o percurso da identidade quando informa que, de acordo com a teoria da informação, quanto mais um produto informar, mais forte é sua identidade.
Os elementos da variável VZ em Wong são: os elementos práticos, pois estão subjacentes ao conteúdo e à extensão de um desenho; são eles: representação, significado e função.
Silva (2004) comenta que a identidade e a diferença fazem parte do mesmo processo de constituição e de expressão de cada indivíduo. Tanto a identidade quanto a diferença são produzidas nos processos sociais e na relação da qualidade subjetiva e da contextualização.
Segundo Sawaia (2001 apud Silva, 2004), o aspecto dual que há na identidade, que tanto serve para identificar e respeitar a alteridade quanto para classificar e regular o outro, poderá ser constatado quando se aprende a detectar as intenções que levam a indagar pela identidade. Id (2004) relata que a identidade pessoal passa pela mediação do contexto, com os grupos em que cada um se faz pertencente.
Então, as identidades vão se dando na práxis social dos sujeitos (como a relação e identificação com os epicentros de Moda). Nesse processo, vão sendo inseridas as possibilidades de expressão dos sujeitos (marcas - símbolos), enquanto partes integrantes, pertencentes ao seu contexto. Portanto, uma variável Z é dependente das variáveis X e Y.
Assim, para se chegar a um sistema de verificação de identidade e expressão visual de um edifício corporativo, foi realizado o seguinte procedimento:
a) Por meio dos quadros de alfabetização visual, acrescidos de um fichamento e de informações referentes às fachadas dos epicentros selecionados e detalhados, chegou-se a um quadro de equiparação de seguimentos de Moda e por meio dele detectaram-se alguns parâmetros para uma melhor análise;
b) Para tal detecção, usou-se os critérios vinculados aos princípios da Gestalt; os significados encontrados nas dimensões sintáticas, semânticas e pragmáticas da Semiótica e princípios de conforto, como geografia (topologia), iluminação natural, o conforto visual, sistema dinâmico, seriado, material diferenciado e a sustentabilidade. Esses parâmetros foram correlacionados e sintetizados para uma melhor expressividade enquanto marca;
c) Os parâmetros utilizados nos seguimentos de Moda tiveram por foco as características de expressão visual e identidade da imagem corporativa.
Por meio de estudos de campo claramente interpretados via Gestalt e Semiótica construiu-se, considerando a hipótese e suas variáveis, uma matriz de percepção e detecção do Todo para a Parte e vice-versa, para a detecção de identidades nas fachadas selecionadas e aqui analisadas.
A partir daí, gerou-se um sistema de morfologia visual, com base em relações análogas triádicas da Gestalt e da Semiótica, incorporadas num método de encadeamento de variáveis independentes, intervenientes e dependentes, descritas em Rosenberg (1976 apud LAKATOS, 2003, p. 150).