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EXPLICAÇÃO E COMPREENSÃO

CAPÍTULO V DIREITO E MORAL

EXPLICAÇÃO E COMPREENSÃO

Não será demais, porém, lembrar uma diferença entre as ciências naturais e as ciências humanas no que se refere ao problema dos valores e dos fins. Bastará dizer que as leis físico-naturais são cegas para o mundo dos valores; não são boas, nem mais prudentes ou imprudentes, belas ou feias, mas podem ser apenas certas ou não, conforme a sua correspondência adequada aos fatos que

explicam. Explicar consiste em ordenar os fatos segundo nexos ou laços objetivos

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"Valorar" é apreciar algo sob prisma de valor, ao contrário de "avaliar" que consiste em determinar o valor ou valia de alguma coisa.

e de causalidade ou de funcionalidade, que terão tanto mais rigor científico quanto

maior for a neutralidade de quem os estuda e enuncia.

No mundo humano, ao contrário, como os fatos sociais fazem parte da vida, dos interesses e dos fins do observador, este, por mais que pretenda ser cientificamente neutro (íamos quase dizendo, "heroicamente" neutro...) não os vê apenas em seus possíveis enlaces causais. Há sempre uma tomada de posição

perante os fatos, tomada de posição essa que se resolve num ato valorativo ou axiológico. A bem ver, pode e deve existir objetividade no estudo dos fatos

jurídicos, mas não é possível uma atitude comparável à pretendida "neutralidade avalorativa" de um analista em seu laboratório, ante uma reação química. Daí Dilthey ter afirmado, e depois dele o problema tem logrado outros desenvolvimentos, que "a natureza se explica, enquanto que a cultura se compreende".

Compreender é ordenar os fatos sociais ou históricos segundo suas conexões de sentido, o que quer dizer, finalisticamente, segundo uma ordem de valores.

É a razão pela qual os juízos, ou seja, os enlaces lógicos que o jurista estabelece entre os fatos, atribuindo a alguém um poder ou dever de agir, ou, dando certa estrutura ou organização aos fatos, se desenvolvem como juízos de

valor, compondo-se com juízos de realidade. Em última análise, a experiência

jurídica não é (não está aí, diante de nós, como uma pedra) nem tampouco deve

ser (não deve ser como uma entidade angelical, ou um arquétipo transcendente)

mas é e deve ser ao mesmo tempo, ou como costumamos sintetizar: é enquanto

deve ser.

Não concordamos, por conseguinte, com aqueles que, embevecidos com as conquistas das ciências naturais, pretendem reduzir o Direito a esquemas ou modelos físicos, sem levar em conta a distinção lógica (e não ontológica, ou metafísica, entendamo-nos) entre ser e dever ser. A alegação de que tudo é Ser (partindo-se da abstração máxima de que Ser é o que é) não inquina a distinção entre "ser" e "dever ser" que é de ordem lógica, perceptível na estrutura elementar

do juízo, que é o ato de atributividade necessária de uma qualidade a um ente, consoante o enunciado básico S é P, ou S=P.

Geralmente, quando se faz a distinção entre ser e dever ser, esquece-se de que esses termos, como verbos que são, exprimem tanto estado como atividade e movimento, não se devendo confundir o verbo "ser" com o substantivo "Ser" que é a estática indeterminação. No plano do ser situa-se tanto a realidade que está aí, diante de nós, no instante em que é observada, como a que flui ou se desenvolve. As leis da evolução da espécie, por exemplo, são leis do mundo do ser, isto é, do

ser em seu evolver, o que desfaz o equívoco de sua redução a algo estático.

O que caracteriza o mundo do ser, em confronto com o mundo do dever

ser, não é a ausência de movimento, mas sim a origem deste, que, no primeiro

caso, resulta de causas; no segundo, ao contrário, é conseqüência de motivos, ou, consoante feliz expressão de Husserl, de causas motivacionais.

Ser e dever ser são, por conseguinte, duas posições lógicas perante o real, e não duas interpretações ontológicas do Ser, no plano metafísico, como penso ter demonstrado em meu livro Experiência e Cultura.

A teoria da cultura, que se baseia nessa distinção entre "ser" e "dever ser", é uma teoria positiva e não metafísica da realidade social e histórica. Mas também não é pelo seu simples enunciado, uma teoria fisicalista ou naturalista da sociedade e da história.

Estas considerações permitem-nos concluir que, sendo o Direito um fato histórico-cultural, que é e, concomitantemente, deve ser, a sua ciência não pode deixar de ser "compreensiva". Veremos, mais tarde, que, mais precisamente, é "compreensivo-normativa".

É a razão pela qual, embora reconheçamos a importância da Lógica Jurídica moderna, que procura dar às formas lógicas do Direito a axiomatização das Matemáticas, não cremos que o Direito possa se transformar numa Álgebra de enunciados normativos. Os resultados da formalização matemática só poderão tornar mais rigorosos os juízos de valor, mas jamais arredá-los do mundo do Direito.

Não compartilhamos, em suma, da teoria que traça quatro graus crescentes no aperfeiçoamento do saber científico, absolutizando o valor da Matemática, como se esta fosse a ciência perfeita. Tais graus seriam o descritivo, o indutivo, o dedutivo e o axiomático. Só quando um conhecimento atingisse a forma dos

axiomas matemáticos teria atingido o seu desenvolvimento pleno...

Essa concepção, tão cara aos chamados neopositivistas, isto é, àquela corrente que só atribui sentido científico a expressões ou proposições de cunho físico-matemático, ou, então, a relações entre enunciados lingüísticos, elimina da esfera da ciência todo o vasto campo dos conhecimentos que versarem sobre as coisas humanas, não lhes conferindo senão um valor de natureza moral ou artística.

Pensamos, ao contrário, que há diversos tipos de ciência, igualmente legítimos, cada qual fiel a seus métodos e processos em função da natureza daquilo que estudam. Nesse sentido, isto é, no quadro de um pluralismo metodológico, o Direito é uma ciência tão legítima como as demais.