2 METODOLOGIA
3.2 Currículo, atores sociais da escola e políticas de currículo: Ball e
3.2.1 Explicando o ciclo de políticas de Ball e Mainardes
A abordagem do ciclo de políticas formulada pelo sociólogo inglês Stephen Ball e seus colaboradores é uma referencial-teórico de análise de políticas e programas educacionais muito útil para a compreensão de como as políticas são feitas, de como elas chegam e acontecem nas escolas, de maneira contextualizada e adotando uma postura crítica em relação aos discursos delas decorrentes em diferentes contextos de análise. É preciso enfatizar alguns aspectos das ideias centrais de Ball antes de explicar aqui do que se trata este ciclo de políticas.
Mainardes (2006, p. 48) relata que a abordagem do “ciclo de políticas” formulada por Stephen Ball e os seus colaboradores, Richard Bowe e Anne Gold “vem sendo utilizada em diferentes países como um referencial para analisar a trajetória de políticas sociais e educacionais”. Através de uma perspectiva pós-moderna que destaca os aspectos controversos e complexos da política educacional, enfatiza-se o papel dos diferentes atores envolvidos na política e recomenda-se que haja a necessária articulação entre os aspectos macro e micro no estudo da política em atuação. Com o ciclo de políticas é possível caracterizar três facetas do processo: o da política como proposta, da política como fato e da política em uso. Portanto, nesta abordagem, o processo político é entendido como multifacetado, dialético, necessitando articular perspectivas macro e micro. A política como proposta é entendida como oficial e se refere tanto às intensões para as quais foram elaboradas pelos diferentes atores envolvidos (governantes, departamentos educacionais, etc.) que visam a “implementação” das políticas, como também “as intensões das escolas, autoridades locais e outras arenas onde as políticas emergem” (MAINARDES, 2006, p. 49). A política de fato são os textos políticos e legislativos que modelam a política proposta e são as bases iniciais para pô-las em prática e a “política em uso” são os discursos e práticas das instituições que surgem da implementação das políticas pelos profissionais que atuam no nível da prática. Para uma mesma política há diferença entre aquilo que é
formulado, ideal, assim como é proposto, por exemplo, nas câmaras legislativas, nos partidos, nas agencias educacionais; que é diferente da política que está escrita de fato ou está instituída através dos dispositivos legais, isto é a política que circula e se legitima e outra diferença entre aquela política em uso, que traz as marcas e efeitos da prática e que traz discursos e práticas que por vezes é bem diferente da proposta ou do documento oficial. Em sua trajetória a política se torna um processo multifacetado e complexo porque envolve diferentes aspectos.
A abordagem do ciclo de políticas é um método, uma maneira de pesquisar e teorizar e há uma continuidade dos contextos de produção, de influência e da prática enquanto ciclos contínuos, que não deve ser desconsiderado na pesquisa.
A teoria do Ciclo de Políticas (MAINARDES & BALL, 2011), contribui para a compreensão de que as políticas não são simplesmente implementadas nas escolas, mas obedecem a um ciclo contínuo de formulação e recriação servindo como modelo de análise para compreensão de como estas, de fato, atuam nas instituições. Tal teoria elabora contextos de análises que versam sobre diferentes níveis pelos quais a política circula até chegar de fato em uma escola real (nível macro, meso ou micro). Os contextos de influência, de produção textual e da prática não são considerados lineares e estão inter-relacionados. Estes apresentam “arenas, lugares e grupos de interesse e envolve disputas e embates”. (BALL & MAINARDES, apud MAINARDES, FERREIRA & TELLO, 2001, p.157).
a) O contexto da prática como palco da pesquisa
É possível analisar o contexto escolar e identificar, por exemplo, o contexto da prática como palco em que as políticas e programas educacionais são encenados ou interpretados pelos diferentes atores e como os textos das políticas são interpretados e traduzidos para as reais circunstâncias da escola, pelos diferentes atores da política.
b) O contexto de influência como descrição do discurso da política
As políticas são iniciadas nos contextos de influência em que os discursos políticos são construídos em meio a disputas entre diferentes finalidades sociais da educação.
A abordagem do ciclo de políticas é importante na análise do contexto de influência a respeito de conceitos relacionados à política global com relação aos diferentes acordos firmados entre organizações e países que acabam por homogeneizar a cultura pelo viés da globalização, determinando discursos em torno da criação, por
exemplo, de um currículo nacional, parte de um projeto mais amplo, ou projetos mesclados de interesses diversos. A análise do contexto inclui fatores econômicos, políticos, sociais, contemporâneos e históricos.
c) O contexto de produção textual como base documental da pesquisa
Os textos das políticas são escritos no chamado “contextos de produção textual”, são resultados de disputas e acordos e precisam ser lidos em relação ao tempo e ao local em que foram produzidos.
Considerar os diferentes contextos na pesquisa torna-se importante no sentido de tentar compreender o ciclo pelo qual foram formulados os programas e políticas educacionais até chegarem ao chão da escola. Com relação ao contexto de produção textual, através da análise dos textos oficiais, dos documentos orientadores dos programas é possível compreender como a escola traduziu tais textos de políticas e como os contextualizou para a sua realidade material, política e social.
Para esta pesquisa o que se pretende é analisar a interpretação ativa que os profissionais da prática fazem sobre a política na escola pesquisada. Analisando, nas narrativas dos profissionais do ensino, as resistências, acomodações, subterfúgios, conformismos, conflitos e disparidades existentes entre as políticas em atuação.
3.2.2 Contexto da prática – Ideias principais de Ball, Maguire e Braun (Como as