A interpretação de Paul Ricoeur estará completa quando se realizar a dialética entre explicação e compreensão, para tal trabalho de articulação, ele projeta sua hermenêutica no encontro do sentido na referência do discurso.
Inicialmente é possível descrever que a interpretação de Ricoeur (1931) não se limita a interpretar o autor, e para tal superação ele objetiva investigar a referência do sentido do autor, ou seja, as posições de mundo descortinadas pelos referencias do texto, de um sentido em um referente.
Então é preciso estabelecer qual é este referencial que se procura descortinar com sua interpretação, para se adentrar em uma compreensão hermenêutica de explicação e compreensão.
Para o autor compreender um texto então é partir do sentido para referência daquilo do que diz para o que é dito, ou seja, um referencial daquilo que o autor falou. O texto aborda um mundo possível e um modo possível de alguém se orientar.
Vai além da mera função de apontar e mostrar ostensivamente, para criar um novo modo de ser que se é mostrado nesta análise de profundidade.
É relevante esclarecer que este referencial é produzido pela ausência de uma situação comum ao escritor e ao leitor. Sendo assim, excede a simples designação ostensiva do horizonte da realidade, os textos escritos não podem mostrar aquilo a que se faz referência. Este espaço interpretativo, destas características do discurso escrito, não se fecha no contingente significativo interno do texto. Por conseguinte o que se busca na referência não é somente um sentido ideal intentado pelo locutor, mesmo que afastado e não imediato, o objetivo é a “realidade efectiva visada pela enunciação”. (ibid., p. 91).
Em outras palavras, mesmo que não se tenha um referencial direto, descritivo e imediato, se abrindo a possíveis mais profundos, este referencial surge da interpretação do próprio ser no mundo.
O autor expõe que na linguagem do texto não se tem mais uma situação de diálogo reduzida ao autor e leitor, mais se tem o mundo, ou seja, dimensões mais profundas radicadas do ser no mundo.
Para se compreender mais profunda e concretamente esta dialética de explicação e compreensão, utiliza-se um exemplo ao qual o autor recorre para fundamentar sua análise.
Ricoeur (1931) usa “o estudo estrutural do mito” de Levi-Strauss, para exemplificar como se dá a dialética da explicação para compreensão, na passagem do sentido para referência. Estruturalmente o mito é uma interação de relações, constituído por mitemas que é o nome dado por Levi-Strauss às unidades da estrutura do mito, eles têm valores opositivos ligados a várias frases individuais, que formam um feixe de relações, e somente em um feixe de relações que se pode usar e combinar de modo a produzir um sentido, este sentido. Este sentido é a disposição dos próprios mitemas, ou seja, a estrutura do mito.
Não se irá adentrar no conteúdo significativo da análise do mito de Levi- Strauss, pois isso, não se enquadra no objetivo desta pesquisa. O que se visa é a
estrutura de análise que o autor retira como base para sua hermenêutica, a qual
serviu como subsídio de análise para este estudo.
mito em quatro colunas com critérios específicos de categorização, tais como, parentesco, monstros, tradições e nomes próprios. E com isso o autor intentou fazer uma comparação correlativa das colunas.
Com esta estruturação do mito Ricoeur (1931) expõe que:
o mito surge assim como uma espécie de instrumentos lógicos que aproxima as contradições de maneira a superá-las (…) podemos, sim dizer que explicamos o mito, mas não que o interpretamos. Mediante a análise estrutural, extraímos a lógica das operações que relacionam entre si os quatro feixes de relações. (p. 95).
Ao se estabelecer a lógica das operações das relações dos feixes explicou-se o mito porém não o compreendeu, pois isto, necessita mais do que uma concepção formal como esta álgebra de unidades constitutivas.
Ainda na análise de Levi-Strauss, Ricouer (1931) demonstra este avanço, pois as unidades que ele chama de mitemas expressam-se ainda como frases que tem sentido e referência. Por exemplo, a análise estrutural do mito em suas relações de parentesco significa algo que possui profundos suportes existenciais. O mito demonstra oposições significativas em relação à morte, ao nascimento e à sexualidade, e sem tais conflitos existenciais, não haveria contradições a vencer. Sendo assim, vão além de uma análise fechada nas relações das unidades internas do texto, para se lançar ao referente do texto, o mundo que se revela na obra.
Adiante da explicação estrutural observam-se referenciais não ostensivos, como projetos de seres no mundo. Como Ricoeur (1931) elucida, a explicação não exclui o seu sentido enquanto narrativa das origens. O mito não funcionaria como operador lógico se não apontasse para situações limites. Esta análise estrutural, longe de suspender este questionamento radical, restaura-se em um nível mais elevado de radicalidade. A análise estrutural é um estado entre a interpretação ingênua e uma interpretação crítica, entre uma interceptação de superfície e uma interpretação em profundidade, a explicação e compreensão são dois estádios diferentes de um arco hermenêutico único.
Portanto, esta análise de profundidade é a chegada à referencia não ostensiva, é o tipo de mundo desvendado, uma descoberta do sentido do texto. Este sentido não está por detrás do texto mais adiante. O que se propõe a descobrir não
é a situação inicial do discurso, mas o que aponta para um mundo possível.