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3.1 Produtos florestais não-madeireiros (PFNM)

3.1.4 Exploração dos PFNM: implicações e perspectivas

Apesar dos inúmeros benefícios que as florestas tropicais proporcionam para a vida humana, tanto por meio da exploração dos recursos florestais múltiplos – alimentos, produtos medicinais, corantes, gomas, látex, resinas, fauna, dentre outros, contribuindo de maneira decisiva na geração de renda -, pelo usufruto de serviços ambientais - manutenção da estabilidade e qualidade do meio ambiente, proteção e manutenção da fertilidade dos solos e dos recursos hídricos, conservação da diversidade biológica, regulação climática e produção de oxigênio, isolamento acústico -, quanto pelo resguardo dos valores culturais, religiosos e recreativos, na maior parte da era moderna, de acordo com Santos et al. (2003), o desenvolvimento das perspectivas florestais se limitou aos recursos de apenas um produto: a madeira.

A atividade madeireira, tanto na escala empresarial como na comunitária, sempre apresentou a tendência de mascarar a importância dos produtos florestais não-madeireiros, os quais apresentam há séculos, usos diretos e indiretos pelas diversas comunidades, tanto rurais como urbanas (LEITE, 2004). De acordo com o mesmo autor, portanto, as avaliações raramente avançavam sobre as relações que existem entre esses produtos e a sua importância para o meio ambiente, para a manutenção das florestas e os serviços ambientais gerados pela conservação da vegetação.

Estimativas da FAO (2002) relatam que cerca de 80% da população mundial em desenvolvimento utilizam produtos florestais não-madeireiros para satisfazerem suas necessidades nutricionais e de saúde; sendo parte integrante da vida cotidiana de 500 milhões de pessoas que vivem próximas ou em florestas tropicais (ALDANA apud SOARES et al., 2002) e indicando a importância crítica desses recursos para a subsistência e uso direto, principalmente em períodos de dificuldades sazonais ou até mesmo naqueles de guerras (LÓPEZ, 2008).

Portanto, de acordo com Guerra (2008), nas últimas décadas, tem havido um interesse cada vez maior de organizações não governamentais, instituições de pesquisa e demais setores da sociedade civil sobre a utilização dos PFNM visando a geração de novas informações sobre a importância que tais produtos desempenham no contexto socioeconômico das populações que vivem nas florestas e de seus efeitos sobre a conservação e o manejo sustentável.

Além da importância inegável dos PFNM, sob todos os aspectos, segundo Sills et al. (apud BRITES & MORSELLO, 2008) o pressuposto de que a exploração desses produtos é capaz de promover o desenvolvimento socioeconômico das comunidades tradicionais que residem em florestas tropicais, acarretando na conservação das mesmas, baseia-se na lógica de que valorizar a floresta em pé, tornando-a economicamente importante estimula sua conservação; uma vez que não há a derrubada de matrizes florestais, não contribuindo, dessa forma, para a erosão genética das espécies de maior valor comercial e, por conseguinte, não comprometendo seu aproveitamento futuro (FIEDLER et al., 2005).

Para Nogueira et al. (2006), a prática ancestral da extração de PFNM, mantendo a estrutura e a funcionalidade das florestas tropicais intactas, seria um meio capaz de harmonizar os papéis conflitantes das mesmas, possibilitando alcançar o desenvolvimento sustentável dos povos das florestas por meio do desenvolvimento de mercado desses produtos, conciliando eqüidade social, valores éticos e culturais, prudência ecológica e eficiência econômica. Sendo assim, Leite (2004) afirma que os produtos florestais não-madeireiros encontram-se, atualmente, em um novo estágio.

De acordo com o mesmo, o recente interesse de empresas de diferentes setores da economia – de alimentos, cosméticos, fármacos e biotecnologia - por produtos tradicionalmente utilizados pelas populações habitantes de florestas tropicais tem criado uma súbita demanda de mercado para tais produtos. O marketing dessas empresas associando tais produtos à proteção do meio ambiente e com o respeito às populações tradicionais cria uma nova demanda para a produção extrativista, já que muitos desses produtos são de difícil domesticação e cultivo (LEITE, 2004). Nas últimas décadas o renascimento pelo interesse nos alimentos, artesanatos e medicamentos naturais tem funcionado como um vetor de mudança que provoca o aumento do comércio de uma gama de produtos florestais (LÓPEZ et al., 2008).

Entretanto, a correta utilização e valorização dos produtos florestais não- madeireiros devem ser realizadas levando-se em consideração diversos fatores, muitos deles, inerentes aos próprios PFNM. Cada produto possui características e especificidades ecológicas, econômicas, sociais e etnobotânicas diferentes (PASTORE JR. & BORGES, 1998), culminando em capacidades de absorção de

mão-de-obra, ciclos de extração, necessidades de beneficiamento, dimensões de estoque, mercados, perecibilidades e organizações sociais e econômicas diferentes (HOMMA, 2000; GUERRA, 2008).

Geralmente, de acordo com López (2008), produtos florestais não- madeireiros são colhidos de maneira não sustentável e seu valor raramente é apropriado de maneira eqüitativa por todas as pessoas envolvidas na sua coleta, processamento e comércio. Para o mesmo, a possibilidade de um recurso florestal continuar a satisfazer as necessidades dessas populações depende, então, da colheita sustentável e das práticas de manejo a ele aplicadas.

Para Santos et al. (2003), a correta quantificação e projeção do valor dos produtos não-madeireiros para transformá-los em alternativas comerciais, sociais e ecológicas viáveis ainda não foi possível. Algumas dessas iniciativas têm obtido êxito em atingir objetivos sociais, econômicos ou de conservação (LÓPEZ et al., 2008). No entanto, os resultados gerais, têm sido mistos, em parte devido à grande diversidade de condições e às diferentes circunstâncias sob as quais os recursos florestais são coletados, processados e comercializados (LÓPEZ et al., 2008). Além disso, de acordo com os autores, o curto prazo de duração de muitos projetos não tem permitido o aprofundamento no conhecimento necessário para uma gama de produtos tão complexos como os PFNM, assim como para a elaboração de intervenções efetivas.

Segundo Coutinho (apud HOMMA [s.d.]), estudos afirmam que em 2050, a Amazônia seria capaz de produzir 1,28 trilhão de dólares, ou seja, o equivalente a dois PIBs atuais do país. De acordo com o mesmo, o valor da produção em dólares se distribuiria da seguinte forma: petróleo – 650 bilhões; medicamentos e cosméticos – 500 bilhões; agricultura e extrativismo – 50 bilhões; minérios – 50 bilhões; carbono – 19 bilhões; turismo – 13 bilhões; e madeira – 3 bilhões. Considerando-se 2000 como ano base, que reflete a tendência verificada nos últimos anos, as importações de PFNM pelo Japão, Estados Unidos, Argentina, Holanda e Bélgica (países que respondem por mais da metade das importações de tudo o que é produzido na Amazônia) correspondem a apenas 1,13% (HOMMA, [s.d.]), desmistificando, de acordo com este, a imagem associada à Amazônia de que a biodiversidade é o maior filão para as exportações.

Portanto, devido à extrema complexidade que os PFNM apresentam e pelos indicadores econômicos apresentados, segundo Fiedler et al. (2005), algumas organizações defendem, então, que a exploração dos mesmos não contribui efetivamente para a redução dos níveis de pobreza das comunidades florestais. Para o mesmo, nos dias atuais, esses produtos já receberam a alcunha de armadilhas da pobreza, significando que a realidade sobre o sonho de uma vida melhor com o uso econômico desses produtos pode não ser mais do que uma mera ilusão. Além disso, relatórios de organizações ligadas à temática ambiental, tais como WWF, CI, CIFOR, UNEP e IUCN apontam para o aumento da ameaça de extinção de espécies devido ao super uso destas pelas comunidades (FIEDLER et al., 2005).