CAPÍTULO 4 A LEITURA DE DOCUMENTOS OFICIAIS – OS PRIMEIROS
4.1 As leituras do professor e o texto oficial
4.1.2 Explorando mais aprofundadamente o objeto: “segundas” impressões
Ao entrar em contato com o material do Programa Gestar e tendo ainda que aplicá-lo em sala de aula, não há como desconsiderar a forma com que o material faz referência aos docentes e ao seu trabalho. A representação de professor presente nesse material fez com que questões fossem suscitadas e para quais se precisaria de respostas que, pelo menos, ajudariam a perceber a representação pela qual a instância governamental superior, que rege o trabalho do profesor, constrói a seu respeito.
Essas questões serviram de base para a geração da pergunta da pesquisa, a qual traz, no seu escopo, a abrangência do objetivo geral do trabalho. Dessa forma, a indagação que serve de base para o desenvolvimento da pesquisa e é considerada como o elemento desencadeador para analisarmos as representações de professor contidas no material de divulgação do programa Gestar é:
Como é representado o professor e os elementos constitutivos de seu trabalho nos textos provenientes das instâncias governamentais?
Os dados selecionados para análise trazem os conceitos e representações sobre o professor presentes no material de uma forma geral, ou seja, na apresentação do Programa, elaboração, apresentação e desenvolvimento das sequências de aula. Os textos do material, de forma geral, trazem prescrições acerca do trabalho docente, de forma que nos levam a entender que os textos que veiculam as prescrições do trabalho devem ser um elemento essencial para a
apreensão das propriedades do trabalho educativo (MACHADO e ABREU- TARDELLI, 2009).
Considerando que o texto que serve de base para esse análise pode ser caracterizado como um texto prescritivo, uma vez que busca orientar ou prescrever o trabalho do professor, justifica-se também a necessidade de estudo sobre esse tipo de texto. Isso se deve prioritariamente ao fato de que, muitas pesquisas, com foco no trabalho do professor, deixam de considerar a questão das prescrições sobre o “funcionamento” do professor. Amigues (2003) destaca ainda que, ao contrário do que ocorre em outros domínios de atividade profissional, as prescrições para o trabalho do professor são bastante vagas e imprecisas.
O estudo dos textos justifica-se, então, pelo fato de que, para Bronckart (1997; 2008), os textos se apresentam como manifestações empíricas das atividades linguageiras que constituem as atividades sociais. Portanto, para que se possa interpretar qualquer atividade social, o papel da linguagem nesse processo é central, posto que é somente por meio de uma manifestação textual concreta e complexa, seja oral ou escrita, que podemos dar sentido ao agir.
Com base nesse pressuposto, Bronckart e Machado (2004) afirmam que a análise de documentos do Ministério da Educação e de outras instâncias que se constituem como observadores externos à atividade docente, que prescrevem ou avaliam o trabalho do professor, podem trazer nova compreensão sobre essa atividade, tanto em relação a seu agir concreto quanto em relação a alguns dos aspectos das representações que socialmente se constroem sobre ele.
Ao ler o material entregue pela SMED (Secretaria Municipal de Educação) aos professores participantes do Programa de formação, e levando em conta todo o panorama da educação, as notas alcançadas pelos alunos, as práticas docentes que se quer modificar, pode-se concluir, de acordo com di Pietri (2007, p. 264):
que esse texto tenha como seu leitor principal o professor em atividade [...] e que muito do texto seja voltado para informar sobre concepções de linguagem e ensino que entram em confronto com concepções que se pretende modificar ou substituir.
Nesse sentido, podemos entender que o que é proposto, à medida que é apresentado um “novo” material de trabalho para o professor, é que esse mude ou que no mínimo entre em contato com novas teorias que possam modificar ou
complementar suas aulas. Ainda de acordo com o referido autor, podemos depreender que é possível caracterizar a proposta do Gestar com o objetivo de promover a formação em serviço, ou a educação continuada. A forma de interação que se estabelece entre produtor e receptor do texto do Gestar segue princípios comunicativos que visam fazer com que o professor se “convença” de que o Programa traz uma proposta real e significativa para seu trabalho pedagógico.
No que diz respeito à identificação dos tipos de discursos presentes no material analisado, podemos dizer que, na apresentação do Guia Geral do Programa
Gestar, há o predomínio do discurso teórico-interativo, portanto um discurso misto.
Essa análise possibilita o desvelamento da posição do enunciador, de proximidade ou de distanciamento, em relação ao tema e também a relação estabelecida aos interlocutores.
Podemos identificar o discurso teórico (caracterizado pela ausência de marcas de referência aos participantes da interação e a presença do presente genérico) em vários segmentos do texto. O mundo discursivo teórico é conjunto ao mundo ordinário do enunciador, o que se evidencia pelo uso de frases declarativas, verbos no presente do indicativo, mas geralmente com valor genérico, ausência de qualquer origem espaço temporal. Como explica Bronckart (1999), no quadro desse mundo conjunto, determinados temas podem ser objeto de um EXPOR autônomo, visto que, nesse caso, a relação do mundo discursivo com os parâmetros físicos da ação de linguagem de que o texto se origina é de total independência. Isso se caracteriza pela ausência de referências dêiticas desses parâmetros (agente- produtor, interlocutor eventual).
Somados a essas características, no discurso teórico, há ainda a presença de múltiplos organizadores com valor lógico argumentativo e modalizações lógicas, além de procedimentos de referência a outras partes do texto. Tais aspectos são reconhecidos na carta de apresentação do Guia Geral(GG) nos trechos que seguem:
verbos no presente do indicativo e frases declarativas
- o foco do programa é a atualização dos saberes profissionais...(Guia Geral, p. 14)
- a formação docente demanda o desenvolvimento das competências pelo professor no desempenho de seu papel... (p. 24).
organizadores argumentativos
-nas situações-problema, os conceitos aparecem (...) Assim, o currículo em rede(...) Assim, a avaliação passa a ser a primeira ação concreta para se aderir às metas (...) p. 26.
modalizações lógicas
- Ele coordena todas as atividades, discute formas de implementá-la e avalia o desenvolvimento dos professores cursistas. Por isso, ele deve conhecer profundamente todos os materiais de ensino aprendizagem e saber conduzir toda a execução (p. 15).
procedimentos de referência
- Socializando as suas reflexões para o grupo todo, você poderá analisar criticamente as condições de suas escolas e todos se ajudarão (p. 58).
- E, além de você, seus alunos também escrevem e fazem acontecer o Gestar (p. 63).
- Por tudo isso, (modalização lógica), o que é importante para nós é não perdermos de vista a sua formação permanente (Apresentação do Guia Geral).
A partir dos excertos de textos acima, podemos entender que a representação de professor expressa pelo material é a de um professor que precisa se atualizar. Assim, levando-o a entender que todo o grupo que participa do Programa está na mesma situação (“condições de suas escolas”), sendo necessária a formação permanente dos mesmos.
Em relação ao discurso interativo, o mesmo aparece no início do texto e no encerramento de cada unidade. Esse discurso implica na presença dos participantes da interação (enunciador e destinatário) e pronomes correspondentes, os quais estabelecem uma relação de implicação.
De acordo com Bronckart (1999), assim como no discurso teórico, no interativo temos, entre outros aspectos, o sistema temporal baseado no presente do indicativo acompanhado do pretérito perfeito e/ou do futuro perifrástico. Esse sistema verbal dá ao texto valor de simultaneidade, ou seja, uma relação simultânea entre o momento dos acontecimentos verbalizados (expostos) e o momento da tomada de palavra. Portanto, esse mundo discursivo também é conjunto ao do mundo ordinário do agente. No entanto, nesse caso, determinados temas são objeto de um expor que se caracteriza pela implicação dos parâmetros físicos da ação de linguagem em curso.
Assim, o discurso interativo apresenta unidades que remetem às coordenadas da situação de linguagem em curso, ou seja, a própria interação, havendo, ainda, referências diretas aos protagonistas da interação verbal, pela presença de verbos e pronomes de primeira e segunda pessoa do singular e plural. Dessa forma, o mundo discursivo criado é conjunto ao ordinário e caracteriza-se pela relação de implicação dos parâmetros físicos da ação de linguagem. Tais características ficam evidentes nos seguintes trechos do Guia Geral:
Verbos no presente do indicativo – simultaneidade:
- O formador é um representante do Programa Gestar. Ele coordena todas as atividades, discute formas de implementa-las e avalia o desenvolvimento dos professores cursistas (p. 15).
Referência direta aos destinatários:
-Ei, professor! Não vá embora ainda não! (p. 72).
- Você reconheceu que o Gestar está chegando exatamente no momento em que vocês, na escola, precisam de ajuda? (p. 58).
Referência direta aos enunciadores:
- O nosso trabalho no Programa gestar tem se orientado para a criação de uma nova escola (...) (Apresentação do Guia Geral)
- Por tudo isso, o que é importante para nós é não perdermos de vista a sua formação (Apresentação).
Observamos também que assinam o documento os responsáveis pela elaboração do mesmo, como aparece registrado: MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO; SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA; DIRETORIA DE POLÍTICAS DE FORMAÇÃO, MATERIAIS DIDÁTICOS E DE TECNOLOGIAS PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA; COORDENAÇÃO GERAL DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES.
Após a identificação dos tipos de discurso presentes no material de pesquisa, com o intuito central de analisar as representações sobre o professor presentes, foi gerada uma categoria de análise, a qual será estudada levando-se em consideração os excertos de texto e o conteúdo temático que emergiu a partir do mesmo. Além disso, será demonstrado como o professor é conduzido pelo material do programa no desenvolvimento de atividades prescritas e destinadas à aplicação em sala de aula. O intento, portanto, é perceber a concretização da representação sobre o professor na forma como o mesmo é tratado/designado/(ou representado) no material do programa.