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3 A FORMULAÇÃO DO PROBLEMA E A METODOLOGIA DA PESQUISA

3.1 EXPLORANDO O OBJETO E A ORIGEM DO DESEJO DA PESQUISA

A origem do desejo desta pesquisa está ligada, inicialmente, ao contato com as conferências de divulgação do Programa Sociedade da Informação em 2000 e a literatura sobre a problemática da sociedade da informação com foco na inclusão digital.

O contato com estas conferências fez com que esta pesquisadora se inquietasse quanto à esperança de “ágora digital”, onde todos poderiam ter acesso ao universo de informações, possibilidades científicas e profissionais, além da interação com o Estado. Naquela ocasião, soavam de maneira tão brilhante as propostas e objetivos do Livro Verde, que pouco se perguntou como seria possível concretizá-las.

No decorrer do tempo de graduação no curso de Biblioteconomia e Documentação da Universidade Federal da Bahia, o interesse pelo tema começou a ganhar atenção e todas as atividades de final de semestres estavam sempre voltadas para o eixo tecnologia e sociedade. Com o interesse, veio a necessidade de ampliação de leituras sobre a inclusão digital de indivíduos nesse novo contexto que se revelava. Até que surgiu a oportunidade de participar de um grupo de pesquisa na Escola de Administração no ano de 2005. Como membro fundador do Laboratório de Análise Política Mundial (LABMUNDO) foi possível colaborar

na formação das linhas de pesquisa, podendo sugerir uma linha na qual se pudesse estudar a problemática da inclusão digital e sociedade da informação. Um resultado positivo para esta pesquisadora foi a formulação da linha de pesquisa denominada Globalização e novos atores

do sistema mundo contemporâneo, em que seria possível observar estas questões da inclusão

digital em um contexto transnacional. Com o contato mais direto e sistemático da pesquisa, proporcionado pelo Laboratório, começou-se a formular questões e a procurar objetos sobre inclusão digital que fossem passíveis de problematização no contexto internacional. Até que em 2006, ao visitar a Biblioteca da Faculdade de Educação (FACED), observou-se um PID frequentado por estudantes de escola secundária sem nenhum tipo de monitoramento. Percebeu-se que não era possível olhar somente para o âmbito internacional se ao lado se tinha problemáticas interessantes sobre o tema e que careciam de respostas. Foi quando se decidiu desenvolver um estudo sobre os aspectos de inclusão digital e perfil dos usuários daquele PID, em âmbito local, que se começou a perceber que, embora existissem iniciativas, bem intencionadas, em locais variados para inclusão digital não se percebia um elemento que deveria ser essencial para a inclusão social, o mediador.

Essa primeira interação com o campo e com o tema inclusão digital fez com que brotassem os primeiros questionamentos: O que é de fato inclusão digital? Quais são seus

reais objetivos? Como garantir que essa seja efetiva? E com a ampliação das leituras

surgiram outras questões: Os PID baianos mapeados pela FGV como os de maior inclusão

digital desenvolvem que tipo de inclusão digital? Ela é efetiva? Esta inclusão é baseada em abordagem cognitiva? A mediação é importante neste processo? Daquele momento em

diante, não foi mais possível desvincular a inclusão digital das questões tanto da educação quanto da cognição.

Até que se foi selecionada para este mestrado, possibilitando estudar o que tanto intrigava desde 2000, mas com foco na abordagem cognitiva baseada na convergência de recursos que tem a mediação como fator determinante para inclusão digital. Dessa forma, formulou-se o seguinte problema de pesquisa:

“Os modelos de acesso que estão sendo utilizados nos pontos de inclusão digital (PID) em municípios baianos, mapeados pela FGV como os mais incluídos digitalmente, vêm adotando uma abordagem cognitiva baseada na convergência de recursos?”

Em resposta ao problema colocado, levantou-se como hipótese que os modelos de acesso adotados pelos PID, localizados nos municípios mais incluídos digitalmente no estado da Bahia, não vêm adotando uma abordagem cognitiva baseada na convergência de recursos.

Ao focalizar a abordagem cognitiva baseada na convergência de recursos, se está partindo das seguintes premissas (P) com base nas leituras exploratórias: (P1) para que um modelo de acesso tenha características inerentes ao letramento, e assim possa ser chamado, é necessário que o PID adote uma série de recursos além do suprimento de equipamentos e conectividade; (P2) a abordagem cognitiva está respaldada no uso da TIC associada ao letramento como modelo de acesso, envolvendo artefatos físicos, conteúdos, habilidades e apoio social; (P3) a ausência de mediação para acesso a informação descaracteriza a proposta da abordagem cognitiva, desprovendo o uso eficaz das TIC para geração de inclusão digital e promoção da inclusão social.

Em decorrência, este estudo teve como objetivo geral analisar se os modelos de acesso, desenvolvidos nos PID em municípios no estado da Bahia, considerados como os de maior inclusão digital, vêm privilegiando a abordagem cognitiva baseada na convergência de recursos.

Para conseguir cumprir o objetivo geral desta pesquisa foi necessário construir objetivos específicos que contornassem seu objeto, considerando seus eixos mais significativos. Então, procurou-se:

a) mapear os modelos de acesso utilizados nos PID selecionados;

b) identificar quais os recursos (físicos, digitais, humanos e/ou sociais) utilizados nos PID;

c) analisar as possíveis causas do não desenvolvimento da abordagem cognitiva baseada na convergência de recursos.

Para que fosse possível a “[...] ruptura dos preconceitos e das falsas evidências [...]” (QUIVY; CAMPENHOUDT, 1995), visando qualidade de informação e formulação de uma problemática de investigação, foram feitas as escolhas e organização das leituras (busca, leitura e resumo) como também a realização de entrevistas exploratórias com especialistas no domínio implicado pela pergunta de partida do projeto.

Para chegar às leituras necessárias à fundamentação e se fazer à ligação possível com o núcleo duro (epistemologia da ciência da informação) foi pertinente seguir os seguintes passos:

- localizar outros estudos em artigos de revistas e em um grupo de trabalho (GT) da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação (ANCIB);

- desenvolver entrevistas exploratórias com especialistas; - e realizar as leituras especializadas.

Esse momento da pesquisa foi especial para se ter acesso às referências e, assim, partir para o próximo passo que tratou da sondagem sobre a viabilidade do tema, ou seja, entrevistas exploratórias com especialistas, visando identificar aspectos do fenômeno em estudado, orientando a investigadora, principalmente, por se tratar de um tema ainda pouco explorado. (QUIVY; CAMPENHOUDT, 2003).

As entrevistas realizadas com peritos e especialistas sobre o tema, pessoas ligadas às políticas de inclusão digital em nível nacional e internacional, se constituíram em importante referência para esclarecimento quanto à pertinência das leituras realizadas até então. O posicionamento dos entrevistados alargou os aspectos levados em consideração nas leituras. Também serviu para ampliar o leque de referências e ter acesso a outros pesquisadores que estão trabalhando com temas correlatos e/ou afins, corroborando com a formação da grade de leitura específica. Os entrevistados, especialistas envolvidos com projetos de inclusão digital, nesta fase exploratória foram Carol Lucena (IBICT), Cecília Leite (IBICT), Cossette Castro

(IBICT), Emir Suaiden (IBICT), Pedro Demo (UNB), Rodrigo Assunção (Ministério do Planejamento) e Saadia Sanchéz (SELA).21

Para o desenvolvimento das entrevistas exploratórias foram confeccionadas cartas de solicitação, termo de autorização e um roteiro estruturado com questões abertas que procuravam observar a importância da mediação e dos aspectos cognitivos para inclusão digital na perspectiva destes especialistas (APÊNDICES A, B e C). A maioria das entrevistas foi realizada no âmbito do II Congresso Ibero-Americano de Gestão do Conhecimento e Inteligência Competitiva (GeCIC) e no Ministério do Planejamento entre o período de 27 a 1 de agosto de 2008, em Brasília. Algumas entrevistas foram realizadas em julho de 2007. A entrevista com o professor Pedro Demo foi realizada em dezembro de 2009 em Salvador. O conteúdo das entrevistas foi incluído na própria revisão de literatura para embasar a pesquisa.