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A EXPLOSÃO DA FINITUDE

No documento Lebrun, Gerard. A Paciencia Do Conceito (páginas 177-200)

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Em filosofia, entreve-se o que é o h orizon te da Finitude por m eio da figura da “falsa h u m ild ad e” cristã e do sortilégio de que é vítim a, então, a consciência. Q ue se h u m ilh e o quanto quiser, ela é im potente para despo- jar-se de si m esm a e sem pre ressurge do nada em que pretende se abismar.

Tal é o p o n to extrem o da subjetividade. D á a aparência de ren unciar ao Finito, m as ela é o lu g ar em que a F initud e com o tal ainda se afirm a ... É p reciso, portan to, m ostrar qu e há um p onto de vista em que o Eu, em sua singularidade, renuncia, de fato e efetivam ente, a si. Eu devo ser a su b jetivid a­ de particu lar suprim ida de fa to .1

Ora, é difícil operar essa verdadeira renúncia no interior do cristian is­ mo. Entre os filósofos clássicos, M alebranche é, sem dúvida, quem m elhor

nos faz tom ar consciência dessa dificuldade. “ Em todas as outras religiões” , escreve ele, “ supõe-se que um a pura criatura possa, por iniciativa própria, ter acesso a D e u s” , e, “ com parada a D eus, a criatura conta até certo p o n ­ to ” .2 A pen as o cristão consegue realizar sua aniquilação de outra m aneira que não em palavras. Ele é o único a pronunciar sobre si “o m esm o ju ízo que D eus em ite sobre sua infinidade e sobre nosso nada” . O dogm a da Encarnação atesta, com efeito,

que não p od em os ter acesso a D eu s nem n os relacionar com Ele senão por m eio de Jesus C risto , seu único Filho. O culto dos cristãos pronuncia, p o rtan ­ to, que D eu s é in fin ito e, diante d ’Ele, a criatura é nada.

A ssim a vida religiosa ganha em profundidade. A prece, endereçada a Jesus Cristo, e a ele som ente, deixa de ser interpelação de D eus com o a de um igual para sim bolizar, doravante, a desproporção do Finito e do Infini­ to, palavra na superfície de um silêncio que ela já não perm ite m ais esq u e­ cer. Todavia a renúncia suprem a, de que o culto de Jesus é o em blem a, não nos dispensa de com preender com o, no próprio Jesus, o Verbo se fez carne. Recusada ao hom em , seria m ais inteligível a síntese do Finito e do Infinito por ter-se realizado, em um a noite, em Belém ? Se, graças ao Mediador, a infinidade do Verbo vem realçar a obra e torná-la digna de glorificar a Deus, a obra não deixa de m anter sua lim itação, e o próprio Jesus foi só um h o ­ m em , com “ capacidade de p en sar” lim itada.

D eu s sabe que, com parad o consigo, o Finito nada é e não con ta em nada. Julga, portanto, que não pod em os ter relação nem nos ligar a Ele. Ora, D eu s

não pode criar u m m un do que com Ele não tivesse n en h u m a relação .3

M as essa relação dos opostos preserva seu enigm a e é um ser finito (Cristo vivo) que, em últim a instância, se torna o tabernáculo e a “figura do im utável” .4 Esse fracasso é exem plar da infelicidade da consciência cris­ tã. D ividida entre a piedade cega e a tentação teológica, é sem pre a esta últim a que cede; em virtude do próprio fato de falar d'E le, sem pre acaba

2 M aleb ran ch e, Conversations chrétiennes, VI, p .152-3.

3 Sob re a sín te se do Infin ito e do F in ito em M aleb ran ch e, cf. G u é ro u lt, Malebranche, III, p .3 4 3 ss .

4 Cf. a ap resen taçã o crítica do d o g m a da E n carnação n a Fenomenología do espirito, trad. fr., I, p . 178 -9; trad. br., I, p . 125-6.

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citando, perante ela, o D eus no qual gostaria de se aniquilar. D ecerto, o sen­ tim en to que experim enta de não contar em nada é sincero. O m undo da “ aparência” parece-lhe apenas um ponto de partida e é em outro lugar que ela sitú a o “fu n dam en to” , no “m undo eterno, com o aquilo que é indepen­ dente em si e para si” . M as assim que ela em preende rem ontar a tal “fu n ­ dam en to” , renega essa convicção. D isso dá fé a própria form ulação da p ro ­ va cosm ológica:

A satisfação, toda fundamentação, qualquer que seja ela, encontra-se si­ tuada antes no mundo eterno como o que é independente em si e para si. P e lo co n tr á r io , na forma do silogismo, o ser dos dois [mundos] é expresso da mes­

ma maneira: tanto na primeira proposição do raciocínio (se h á u m m u n d o f i n i t o , e n tã o h á u m ser a b s o lu ta m e n te n e c e s s á r io) quanto na segunda, em que se exprime

o pressuposto de que h á um mundo contingente, assim como na conclusão (h á portanto um Ser absolutamente necessário).5

Por um lado, “o ser do contingente tem um valor inteiram ente dife­ rente do ser necessário em si e para si” ; por outro lado, o ser é, entretanto, “o que h á de com um aos dois lados, o que continua de um até o ou tro ” . Pouco im porta, portanto, que eu viva na certeza da separação, visto que m inha linguagem m e dá a garantia de que ela é transponível. É verdade que a “ antiga M etafísica” não tom ava consciência desse desm entido, o que, pelo em prego am bíguo da palavra ser, era infligido ao raciocínio que devia nos confirm ar na certeza da transcendência de D eus. E xem plo entre m il outros do perigo que há em raciocinar sobre as “coisas” , sem ter passado pelo crivo das significações “por si m esm as” . A ssim , acom odavam -se com o fato de que D eus havia aparecido sucessivam ente com o o além absoluto, em seguida com o um term o que, ao m enos com o contingente, partilhava a categoria com um do “ S er” , sob a insígnia da qual se alojavam , lado a lado, o Finito e o Infinito, tal com o no Sophiste [Sofista], o M ovim en to e o R e­ pouso. Q uanto a estas duas postulações - D iferença m ínim a e C om un ida­ de m ínim a - , o m etafísico devia apenas cuidar para não fazê-las entrar em contradição ou não acentuar um a a expensas da outra. Tarefa freqüen te­ m ente custosa, pois, se as palavras "realidade” , “ se r” etc. convêm tanto a D eus quanto às criaturas, a postulação da diferença corre o risco de se anu­ lar. Por isso, A rnauld, nas 4“ Objections [Quartas objeções] é tão atento ao

criticar a tese “D eus é de algum a m aneira por si com o por um a causa” : “O que m e parece um pouco audacioso, e não verdadeiro ... C oncluam os, por­ tanto, que não podem os conceber que D eus seja por si positivam ente, se­ não por causa da im perfeição de nosso espirito, que concebe D eus à m a­ neira das coisas criadas” . M alebranche escreve:

A exten são é u m a realidade, e, no infinito, todas as realidades ali se en ­ contram . D eu s é portan to extenso, tanto quanto os corpos, visto que D eu s p o s­ sui todas as realidades absolu tas ou todas as p erfeições ...

Por essa via, a separação é reabsorvida e aum enta a som bra do espino- sism o. E, no entanto, não. Pois o autor se corrige logo em seguida:

... m as D eu s não é exten so como os corpos, p ois Ele não tem as lim itações e as im p erfeições de suas criatu ras.6

E D escartes, aínda, a M orus:

Eu não ten h o o co stu m e de d isp u tar acerca das palavras; p o r isso, se q u i­ serem que em certo sen tido D eu s seja e xten so p orqu e está p o r to d a a parte, adm ito-o; m as negó que em D eu s, n os anjos, em n ossa alm a, enfim em toda su bstân cia ou tra que não é corpo, haja um a verd adeira exten são e tal com o todo o m u n d o a co n ceb e.7

Basta, portanto, cham ar a atenção para o u so analógico ou até fran­ cam ente h o m o n ím ico qu e se faz das palavras, para restabelecer, com a distinção sem ântica, a das regiões ontológicas. O u ainda, para acusar a clivagem , aplicar-se-á ao infin ito a prosa do finito, de m aneira que sur­ jam os paradoxos:

O s que agregam os elevados d iscu rsos da filosofia às su b lim es co n tem ­ plações da teo lo gia dizem , santa e divinam ente, que D eu s está dentro do m undo sem nele estar enclausurado, que ele está fora d o m un do sem dele estar exclu so, que ele está p o r sobre o m u n d o sem estar m ais elevado ... 8

6 M alebranche, Entretiens M étaphysiques, VIII, § 7.

7 C arta de D e scartes a M orus, 5 /2 /1 6 4 9 (Éd. Lew is, p . 113-5).

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Tantos artifícios para lem brar que, sob certa relação, D eus está próxim o de nós, que, sob outra relação, sua alteridade é absoluta, que, sob certa relação, Ele e eu p erten ce m o s ao Ser, que, sob outra relação, C riad o r e criatu ra retornam à sua incom ensurabilidade. A ssim é m antida a tensão entre a D iferen ça e a N ão-diferença, graças a um velho procedim ento que Platão, no Parménide [Parm ênides], atribuía à m ais grosseira heurística: que há de m aravilhoso em m ostrar que, por um lado, sou uno, e, por outro, m ú lti­ p lo?9 A consciência perceptiva da Phênoménologie [Fenom enología] excele nesse exercício:

Em cada momento singular, ela só está consciente de uma dessas determinabilidades como do verdadeiro, e em seguida ela está novamente cons­ ciente do oposto ... O entendimento recalcitrante tenta resistir com os apoios do enquanto e da diversidade dos pontos de vista ...10

A verdadeira sín tese consistiria em acabar com esse jogo dos “pontos de vista ” e se perguntar se há verdadeiram ente pólos opostos, no lugar de desdobrar e em seguida redobrar entre eles um a distância retórica. Só en­ tão seria p ossível pensar conjuntamente o Finito e o Infinito, com todo o d i­ reito, enfim , e sem precauções de estilo. Pensá-los conjuntam ente, não por m eio de um a acrobacia ontológica, m as para liberar-se da linguagem fixadora da ontologia. Pensá-los conjuntam ente, não porque sem pre estejam ju sta ­ p ostos nem fundidos um no outro, com o o pão, o vinho e os A p ó sto lo s que os consom em na bela unidade descrita por LEsprit du christianisme [O esp í­ rito do cristian ism o].11 N o prim eiro caso, tratar-se-ia de conciliar a união com a d iferen ça subsistente, no segundo, de tornar a união subsistente a expensas da diferença: o que equivaleria a manter, aqui e ali, a oposição das categorias de “ Identidade” e de “ D iferença” . O que tam bém eq u ivale­ rá, nos detratores da dialética, a julgá-la com o se deixasse am bos su b sisti­ rem (o Finito identificado ao Infinito, o Finito separado do Infinito), e nos dessem o direito de passar incessan tem ente de um a outro desses incon ci­ liáveis, ou pô-los sim ultaneam ente (zugleich, e não zusammen): o dialético aceitaria de direito a separação e, de fato, a transgrediria. Ora, enquanto a

9 Cf. P latão, Parm énide [P arm ên ides], 129 a-e.

10 Fenomenología do espírito, trad, fr., I, p .107; trad, br.. I, p .94.

11 Cf. Esprit du C h rist. [O e sp írito do c ristian ism o e seu d e stin o ]; trad, fr., p .7 2; D ifferen z

[D iferen ça en tre o s siste m a s filo só fic o s de Fich te e de S c h ellin g ], I, p . 123-4; trad, fr., p . 140.

separação é sem m ais escrúpulos posta com o subsistente, a R eflexão "faz a le i” e “tem o direito de só fazer valer um a unidade formal, visto que sua obra foi concedida e adm itida, a cisão entre o Finito e o Infinito” .12 A ver­ dade é que nós, então, ao falarm os do Finito e do Infinito, quer para cindi- los, quer para unificá-los, quer para m anter a am bos esses m ovim entos “ sim ultaneam en te” , não sabem os sequer o que é a “Identidade” e o que é a “ D iferen ça” . É na direção dessa crítica das “ puras essen cialidades” que se orientava Platão:

C ada u m é U no, m as tam b ém é M últiplo; ele tem m u ito s m em bros, ór­ gãos, propriedades ... é U n o e tam b ém M ú ltip lo. A ssim , sim u ltan eam en te diz- se de Sócrates que ele é U no, igual a si m esm o, e tam b ém o O utro, desigual para con sigo. A í se dá um a visão, um a exp ressão que se encon tra na co n sciên ­ cia com um . Ele é U no, adm ite-se, m as, sob ou tra relação, é tam b ém u m M ú l­ tiplo, e assim se d eixam am bos os p en sam en to s caírem u m fora do outro. O ra, o p en sam ento esp ecu lativo co n siste em reu n ir [z u s a m m e n b r in g e n] os p en ­ sam entos; reuni-los, é isso o que im porta. E ssa reu n ião dos d iferen tes [Ser e N ão-ser, U n o e M ú ltip lo] [efetuada] d e ta l m a n e ir a q u e s im p le s m e n te n ã o h a ja p a s s a g e m de u m a o o u tr o , eis o que há de m ais p rofu n d o e de verd adeiram ente grande na filo so fia p latô n ic a.13

D eixarem o s p ortanto de fazer cintilar, de m odo alternado, as duas p ostulações exclusivas para deixá-las com o interm ediárias. Im possível acei­ tar que o Finito e o Infinito difiram e se sobreponham simultaneamente. A dialética não perm itirá dizer os opostos simultaneamente. Se não, por que H egel diria que o zugleich é o defeito que afeta a Lógica da Essência, assim com o a “p assagem ” afeta a do Ser? A dialética criticará os pressupostos desse zugleich.

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M as que rosto terá a verdadeira “ sín tese” que cum prir essa tarefa? Não se corre um a vez m ais o risco de jogar com as palavras, outorgando ao Finito

12 D ifferen z [D iferença entre o s siste m a s filo só fico s de Fichte e de Sch elling], I, p. 127; trad. fr., p . 142.

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e ao Infinito um a com unidade um a vez m ais artificial? E não seria m elhor seguir o conselh o de Kant, preferir, a toda conciliação entre conceitos d e­ m asiado h eterogêneos, a certeza definitiva da “diferença real” ?

D eve-se deplorar que a penetração desses h om en s ... ten h a sido in fe liz­ m ente em pregada para b uscar identidade entre co n ceito s extrem am en te d ife­ ren tes ... M as era con form e ao esp írito d ialético de seu tem p o, e agora isso ainda sed u z esp íritos sutis, su p rim ir n os prin cípios diferenças essen ciais e ja ­ m ais u nificáveis, bu scand o transform á-las em querelas de p ala vras.14

Fixados em seu “se r” e em sua identidade consigo, então, Finito e In­ finito nunca m anterão outra relação que não a de vizinhança, e o Ser infin i­ to - sem pre de acordo com Kant - será pensado com o “ um indivíduo entre todas as coisas p o ssív e is” , um a coisa “ entre todas as co isas” .15 O que é com prom eter-se bem pouco. Pois este denom inador com um : Ding, que vale ele? D e fato é preciso renunciar, sob pena de incoerência, a abrir cam inho do ser-do-finito ao ser-do-infinito: esses dois genitivos tornam seus sujeitos hom ônim os. “O ser do fin ito é unicam ente o seu próprio ser.” 16 Im possível doravante im aginar a ousia com o o estofo em que toda presença deva se recortar: fora da Prim eira A nalogia, a palavra “ substância" não é m ais que conveniência. E Kant o notifica em um a linha, no final de um a nota da 3e

Critique [Terceira C rítica]: nenhum a propriedade dos seres m undanos “p o ­ deria ser transferida para um ser que com eles não tivesse em com um n e­ nhum conceito genérico, a não ser o de C o isa em geral” .17

D e resto, a m etafísica do Infinito esteve com freqüência prestes a re­ conhecer essa dura verdade. Testem unha Descartes:

Para falar propriam en te, o n om e substância con vém u n icam en te a D eus. Por isso, na Escola, têm razão quand o d izem que o n om e su b stân cia não é un ívoco com respeito a D e u s e às criaturas, ou seja, não há nenhuma significação

dessa palavra qu e con cebam os d istin tam en te e convenh a, no m esm o sen tid o, a

ele e a elas ...18

14 Kant, K P V [C rítica da razão p rática], A k, V, III, p .2; trad, fr., p .121.

15 K ant, K R V [C rítica d a razão p u ra], B, p .408-9.

16 P h. R eligion [F ilo so fia d a religião], XV I, p .4 8 6 ; trad, fr., Preuves, p . 152.

17 K ant, K U [C rítica do ju ízo ], § 90, V, p .464.

C onfissão im portante, mas logo em seguida corrigida: "... porém , por­ que, entre as coisas criadas, algum as são de tal natureza que não podem subsistir sem outras, nós as distinguim os daquelas que só têm necessidade do concurso ordinário de D eus, denom inando estas últim as substâncias A o preço de um a liberdade tom ada com as palavras, é concedido portanto o direito de pensar um a m edida em com um entre os opostos. Estranha deci­ são, que só visa a fazer ressurgir esse m ínim o de sim ilitude, sem o qual o princípio de causalidade não poderia se exercer do Finito ao Infinito. Por sua vez, Leibniz, para m elhor assentar a analogia, chega a ponto de apresen­ tar a desproporção ontológica com o diferença de grandeza: “ O s espíritos criados só diferem de D eus do m enos ao m ais, do finito ao in fin ito ” .19 M alebranche, por fim: “C oncebem os o Ser infinito apenas por conceberm os o ser, sem pensar se ele é finito ou infin ito” .20 M as basta “ pensar n isso ” para que reapareça a disjunção; e basta que o Ser infinito deixe de ser colocado com o aquilo que engloba todos os conteúdos, para retom ar o lugar de outro conteúdo isolado. E o que H egel reconhece:

Se con vierem que o ser do F inito é u n icam en te seu p róp rio ser, ... com isso está declarado que não há passagem p o ssível do F inito ao In fin ito .21

A í estam os nós, portanto, para sem pre afundados, ao que parece, na “ diferença real”; para sem pre im poten tes, portanto, para flagrar K ant em erro. Em sum a, nessa frase, Flegel designa com precisão o obstáculo que deverá ser superado por quem cum prir legitimamente a reconciliação do Finito e do Infinito. N a expressão “ O Finito é” há um sentido que torna tal con ci­ liação injustificável. C om o descobrir outro sentido que seja com patível com o projeto teológico? Em todo caso, pela leitura das palavras “ O Finito é ” , agora está suspensa a validade do projeto da teologia racional. N ão seu destino, decerto: este já está decidido.

Em que consiste exatam ente o obstáculo? Para localizá-lo m elhor, é preciso voltar às noções im precisas (res, substantia, m s...) de que se servia o pensam ento clássico, para preservar um a m edida em com um (segundo Kant, puram ente verbal) entre am bos os dom ínios. A ceitem os que o “Ser" seja um a categoria com um ao Finito e ao Infinito. Logo encontrarem os, obser­

19 Leibniz, A A rnauld, Ger., II, p .125.

2 0 M alebranche, Recherche de la Vérité, III, II, 6.

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va H egel, um a contradição, e a tese na qual se pode resum ir o argum ento cosm ológico será tida por um absurdo.

A expressão mais precisa da proposição Se o Finito é, o Infinito também é, inicialmente, é a seguinte: o ser do Finito não é somente o seu ser, mas tam­ bém o ser do Infinito ... O ser contingente é ao mesmo tempo o ser de um outro que é o ser absolutamente necessário. Esse ao mesmo tempo aparece como contraditório.

Ora, a contradição provém deste subentendido: “o ser do Finito é u n i­ cam ente o seu próprio se r” .

Se o Finito fosse esse afirmativo, a maior se transformaria na proposição: o ser finito é, como finito, infinito, pois sua finitude subsistente encerraria em si o Infinito.22

Em sum a, se eu m e obstinar em sustentar a validade da prova, a um só tem po adm itindo que o ser do Finito é unicam ente o seu próprio ser, m e­ reço ser levado tão a sério quanto D ionisodoro anunciando a Sócrates que seu próprio pai era tam bém pai de todos os viventes, visto que não se pode ser sim ultaneam ente pai e não-pai. N a realidade, é preciso escolher um a ou outra destas duas proposições:

1) o Ser é com um ao Finito e ao Infinito; 2) o Finito possui um ser próprio.

N u n ca será p ossível assum ir um a dessas teses após ter sustentado a outra. E isso que, no entanto, a M etafísica efetuava sub-repticiam ente. A p ós ter sustentado a segunda tese (ser próprio do Finito), isto é, a indepen dên­ cia do Finito e do Infinito, ela form ulava a questão de sua unificação. Per­ guntava - sob um a form a disfarçada, é verdade: com o o ser finito, com o

finito, é infinito? Ora, H egel sobretudo não nos diz que a dialética é a única capaz de responder, enfim, a essas questões; ao contrário, ele as form ula de m aneira que m ostre, enfim, o quanto elas eram aberrantes. A dialética não realiza procedim entos forçados; ela traz à luz do dia os sofism as latentes. E vale a pena reler um dos textos em que H egel, contra sua lenda, tom a o partido do bom senso e da inteligibilidade com um .

A respo sta à q u estão - Como o Infinito se torna Finito? - é, portan to, a se­ guinte: não há u m Infinito que seja in icialm ente Infinito e, em seguida, o b ri­ gad o a se to rn ar F inito, sair de si para ir até a F initud e, m as, para si m esm o, ele já é tan to finito quanto in fin ito. V isto qu e a qu estão adm ite que o Infinito é para si, de um lado, e o Finito, que se destacou ao separar-se dele (ou q u a l­ q u er que seja a su a p roven iên cia), dele cindido, é verd ad eiram en te real, seria m elh o r d izer que essa separação é in concebível [unbegreiflich]. N e m tal Infini­ to n em tal F in ito têm verdade; ora, o não-verd ad eiro é in conceb ível. ... A o

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