3.2 ASPECTOS TEÓRICOS
3.2.3 Exportações industriais possuem alta elasticidade-renda
A Lei de Thirlwall (1979) lidera a tradição teórica do crescimento orientado pela demanda agregada. Ela afirma que o crescimento econômico de longo prazo depende da elasticidade-renda das importações e exportações, ou seja, é restringido pelo equilíbrio externo da economia. Essa abordagem possui vários desdobramentos.
O modelo evolui para uma abordagem multissetorial desenvolvida por Araújo e Lima (2007), que ficou conhecida como Lei de Thirlwall Multissetorial (LTMS). Esta indica que a composição setorial é importante para o crescimento, visto que o aumento da participação de produtos com maior elasticidade-renda da demanda nas exportações – ou a redução dessa participação nas importações – condiciona uma maior taxa de crescimento à economia, ainda que a taxa de crescimento global se mantenha constante (GABRIEL; MISSIO, 2019).
Para a melhor compreensão sobre essa questão envolvendo o papel das exportações no custeamento das importações, é preciso antes de tudo entender o conceito de elasticidade-renda.
Krugman e Wells (2007) descreve-o da seguinte forma:
A elasticidade-renda da demanda é a mudança percentual na quantidade demandada de um bem quando a renda do consumidor muda, dividida pela mudança percentual na renda. A elasticidade-renda da demanda indica o
quanto a demanda de um bem responde a mudanças na renda [...]
(KRUGMAN; WELLS, 2007, p. 113).
Nesse sentido, um produto com alta elasticidade-renda é aquele que, diante de um aumento da renda, sofre um aumento relativamente maior em sua demanda.
Medeiros e Serrano (2001) fazem um resgate dos ideais da escola cepalina, especialmente do pensamento prebischiano original, que considerava o crescimento das exportações como fator indispensável ao desenvolvimento econômico efetivo. Na visão dos autores, as exportações de produtos agrícolas e minerais, que possuem baixa elasticidade-renda, são parte fundamental das restrições externas brasileiras. A atual polarização sobre a melhor forma de crescimento – liderado pelas exportações ou pelo mercado interno – se distinguiria, por sua obscuridade, daquela apresentada por Prebisch.
A visão neoclássica difundida pelo Banco Mundial enfatizaria, na verdade, a importância da abertura externa pelo lado das importações, sendo justificada pela ideia de que o crescimento liderado pelas exportações é resultado de políticas, nas palavras dos autores,
“amigáveis aos mercados”. Algumas abordagens keynesianas, por sua vez, teriam generalizado a ideia de exportações como componente principal da demanda, o que acaba por desconsiderar as diferenças estruturais entre as economias. No outro extremo, estariam generalizações que consideram restrito o papel das exportações enquanto componente de demanda (MEDEIROS;
SERRANO, 2001).
Ao se aproximarem das formulações originais de Prebisch, os autores buscam um equilíbrio, se opondo a visões que, de um lado, subestimam, e, do outro, superestimam o papel das exportações no crescimento, adotando como alternativa o entendimento de que a relevância das exportações varia de acordo com uma série de características estruturais de cada economia.
O que seria global – com a exceção dos EUA, que emitem moeda de circulação internacional – é o papel fundamental das exportações no financiamento e relaxamento da restrição externa ao crescimento.
Partindo da abordagem estruturalista de Prebisch a respeito dos problemas das economias latino-americanas, Medeiros e Serrano recuperam a ideia central de que as importações são induzidas pelo nível de produto e renda doméstico, o que faz das exportações de um país em específico resultado do nível de atividade e renda do conjunto dos demais países do mundo e autônomas em relação ao nível de produto doméstico. Como componente autônomo da demanda, as exportações deveriam, no longo prazo, pagar as importações.
Thirlwall (2005) vai na mesma direção, vendo o papel das exportações no crescimento sendo subestimado pelos ortodoxos. Ele defende que, se fosse feita uma análise do crescimento
econômico por meio da soma ponderada do crescimento das mesmas variáveis as quais, segundo a teoria macroeconômica estática, formam a produção nacional – soma de consumo, investimentos e saldo entre exportações e importações –, o papel das exportações seria imediatamente evidenciado.
Para o economista, o papel das exportações na demanda se difere de outros componentes em três aspectos:
Primeiro, elas são o único verdadeiro componente da demanda autônoma em um sistema econômico, no sentido de a demanda provir de fora do sistema.
[...] Segundo, as exportações são o único componente da demanda capaz de custear os requisitos de importação para o crescimento. [...] O terceiro aspecto importante das exportações é que as importações (permitidas por elas) podem ser mais produtivas que os recursos internos, uma vez que alguns bens cruciais necessários ao desenvolvimento (como os bens de capital) não são localmente produzidos. Esse é o argumento do lado da oferta para o crescimento impulsionado pelas exportações (THIRLWALL, 2005, p. 51-52).
Segundo Medeiros e Serrano (2001), o aviso de Prebisch seria o de que a especialização das economias latino-americanas em suas vantagens comparativas, em virtude da baixa elasticidade-renda das exportações de produtos básicos, resultaria necessariamente em taxas relativamente menores de crescimento:
[...] se os países latino americanos se mantivessem, à guisa de supostas
“vantagens comparativas”, especializados em exportar produtos agrícolas de baixa elasticidade renda e em importar produtos industriais de alta elasticidade, a necessidade de fechar as contas externas tornaria inevitável que os países crescessem a longo prazo a taxa menores que os países industrializados. Tal constatação decorria da diferença das elasticidades-renda das importações, que tinham uma tendência estrutural a se acelerar em relação às exportações. Nestas condições, a única maneira de adequar o montante de importações à chamada “capacidade de importar” dada pelas exportações era através da redução do ritmo de crescimento da economia. (MEDEIROS;
SERRANO, 2001, p. 3-4)
Dessa forma, a defesa das exportações industriais consiste no fato de elas possuírem maior elasticidade-renda da demanda em comparação aos produtos básicos e serem responsáveis por um relaxamento da restrição externa relacionado à estrutura produtiva, ao contrário do relaxamento provocado pelas flutuações dos preços internacionais dos produtos básicos, o qual não está relacionado a transformações estruturais internas.
Sendo a demanda pelas exportações definida pela atividade externa, elas são entendidas como um componente autônomo em relação à atividade doméstica. Do outro lado, temos uma situação diferente, com a demanda por importações dependendo do nível de atividade doméstica, logo não sendo autônoma e, inclusive, sofrendo influência do componente autônomo da demanda representado pelas exportações.
Dito isso, se as exportações de um país se baseiam em produtos intensivos em recursos naturais (com baixa elasticidade-renda), as importações (de maior elasticidade-renda) estarão limitadas pelas tendências a déficits e crises de balanço de pagamentos. Mais uma vez fica nítida a importância do tipo de estrutura produtiva para o desenvolvimento.