3.3 COMÉRCIO INTERNACIONAL DE MANUFATURADOS
3.3.1 Exportações mundiais da manufatura agregada para o período
A análise agregada da desindustrialização pela ótica do comércio internacional evidencia as características prematura desse processo devido a fatores internos (adoção de políticas inadequadas ao desenvolvimento do setor manufatureiro no período de 1980-1999) e fatores externos (reprimarização da pauta exportadora e doença holandesa) nos anos que se seguiram. Diante das mudanças no cenário global (globalização e fragmentação produtiva), fica evidente a necessidade da análise da desindustrialização não apenas pela ótica da produção (valor adicionado e emprego), mas também pela ótica do comércio internacional. Para tanto, foi utilizado um indicador da participação do setor manufatureiro do país em relação a esse setor manufatureiro no mundo (ver seção 3.1). Tal indicador provê indícios quantitativos e qualitativos sobre o processo de desindustrialização do Brasil pela ótica do comércio internacional.
Atualmente, a principal economia exportadora de manufaturados é a China, que possui um bem-sucedida inserção nas CGVs (ver Gráfico 09). Em 1984, a China detinha pouco mais de 1% do total exportado de manufaturados do mundo e no ano de 2018 este percentual aumentou para aproximadamente 19%. Por sua vez, os EUA, era líder mundial no ano de 1962, com quase 21% das exportações, e perdeu participação relativa nas exportações mundiais, terminando 2018 com cerca de 7%.
Segundo Heintz (2003), a mudança no padrão de comércio de produtos manufaturados que ocorreu nas últimas décadas se deve ao aumento da participação dos PEDs nas exportações mundiais, especialmente os países do Leste Asiático (China).
No pós-guerra, a Alemanha apresentou resultados positivos na sua economia, com redução das desigualdades, crescimento da produtividade e das exportações (ver Gráfico 05).Entretanto, na década de 1970, o país enfrentou dificuldades de manter o seu “modelo socialmente coordenado” e passou a perder participação relativa no comércio mundial principalmente para o Japão (GUIMARÃES,
CONSTATINO; COSTA; NATALINO; NETO, 2014). Esse processo é o resultado da adoção de um novo paradigma industrial (desintegração vertical) que se espalhou na economia mundial e foi liderado pelo Japão (MEDEIROS, 2011). Dessa forma, entre os anos de 1977 a 2018 (Gráfico 09), a Alemanha perdeu cerca de 9 pontos percentuais (20% para 11%) de participação.
No Gráfico 9, é possível observar que o Japão começou a perder participação relativa a partir da década de 1980. Isso se deu, entre outras coisas, devido à valorização da sua moeda (iene), decorrente do acordo de Plaza em 1985, que teve como consequência o deslocamento industrial e produtivo para outros países asiáticos (MEDEIROS, 1997). Dessa forma, no período de 1985 a 2018, o país perdeu cerca de 11 pontos percentuais (16% para 5%), o que evidencia uma desindustrialização pela ótica do comércio internacional.
No período de 1962 a 2018, as economias que mais perderam participação foram EUA (14 pontos percentuais), Alemanha (8 pontos percentuais) e Japão (2 pontos percentuais). Por outro lado, as economias que mais ganharam participação foram a China (19 pontos percentuais, no período de 1984 a 2018), Coreia do Sul (4 pontos percentuais) e México (3 pontos percentuais).
O comércio intra-asiático tem favorecido o desenvolvimento industrial e a divisão regional do trabalho na região, envolvendo Japão, os Tigres Asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Cingapura e Hong Kong), os quatro países mais dinâmicos da Associação das Nações do Sudeste Asiático - Asean 4 (Tailândia, Malásia, Indonésia e Filipinas), a China e o Vietnã (MEDEIROS, 2011). A articulação regional entre esses países, por meio de um “esquema dos gansos voadores” (MEDEIROS, 2011), e a ascensão chinesa – que “recentralizou” a economia asiática (MEDEIROS, 2006) e concentrou vasta parcela da produção manufatureira mundial –, possibilitaram o crescimento da participação relativa no comércio mundial da China e de países asiáticos como a Coreia do Sul (4 pontos percentuais), a Tailândia (2 pontos percentuais) e a Indonésia (1 ponto percentual). Outros países como a Índia (1 ponto percentual) e a Turquia (1 ponto percentual) também conseguiram expandir a sua participação no comércio manufatureiro global no período de 1962 a 2018.
No período de 1962 a 2016, Hong Kong reduziu sua participação no comércio mundial em 1 ponto percentual. Isso é o reflexo da transferência da sua base produtiva industrial para a China continental e sua especialização em serviços,
financeiros e transportes (MEDEIROS, 2006). Essa trajetória pode ser observada no Gráfico 09, que mostra o crescimento de 145% (0,67% para 1,64%) da participação relativa de Hong Kong no comércio mundial de manufaturados, no período de 1962 a 1984Desde o amadurecimento das primeiras zonas econômicas especiais implantadas na década de 1980 na China, Hong Kong vem perdendo participação no comércio mundial.
Fonte: dados do UNCOMTRADE/WITS. Elaboração própria.
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados do UNCOMTRADE/WITS.
Entre os países da América Latina, o México obteve crescimento de 3 pontos percentuais entre os anos de 1962 a 2018 (ver Gráfico 09). Isso ocorre devido aos incentivos a indústria, promovidos pelo país desde a década de 1960, por meio da adoção de uma legislação que fomentava a implantação da indústria maquiladora no país (CANO, 2014). Com o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), em 1994, o México apresentou um aumento das suas exportações de manufaturados. No período de 1994 a 2018, o país teve um crescimento na participação relativa das exportações de manufaturados mundiais de mais 70% (1,6% para 2,8). Entretanto, o aumento da sua participação nas exportações
Gráfico 9 - Exportações de bens manufaturados (% das exportações mundiais), países selecionados, anos de 1962 a 2018
mundiais de manufaturados é caracterizado por um processo de “industrialização rasa”, com baixa absorção dos benefícios do setor manufatureiro.
No caso do Brasil, o aumento da participação das exportações mundiais de manufaturados segue uma tendência de inserção nas Indústrias de menor valor agregado, atuando como um fornecedor de matéria-prima para as demais economias, que se reflete a sua baixa participação relativa em relação as demais economias.
De acordo com o Gráfico 10, entre 1962 e 1984, o Brasil teve o seu maior crescimento no comércio mundial, variação de 1.780% (0,06% para 1,08%). O programa de substituição de importações, ao nacionalizar diversos itens industriais,
foi importante para o crescimento do setor industrial, sobretudo nas décadas de 1960.
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados do UNCOMTRADE/WITS.
De acordo com Nassif (2008), no final da década de 1970, houve uma modernização e diversificação da indústria brasileira, para os segmentos bens de capital, siderurgias, bens intermediários, infraestrutura energética.
Gráfico 10 - Exportações de bens manufaturados do Brasil (% das Exportações mundiais), 1962 a 2018
A indústria nacional foi favorecida pela Industrialização por Substituição das Importações (ISI), que utilizou expedientes como as taxas de câmbio relativamente desvalorizadas, conteúdo nacional, banco de desenvolvimento e similar nacional a fim de fomentar o crescimento do setor (TAVARES, 1972, p. 71; BONELLI; PESSOA, 2010).
Entretanto, houve perda de participação relativa das exportações manufatureiras do Brasil, como proporção das exportações manufatureiras mundiais entre 1985 e 1999 (1,04% para 0,65%). A abertura comercial e financeira teve grande impacto no desempenho industrial e nas exportações de manufaturados neste período (MORCEIRO, 2012; 2018). Para Bresser-Pereira (2020), a abertura econômica (liberalização comercial e financeira) causou uma espécie de “armadilha da liberação”, que foi uma das causas da desindustrialização precoce brasileira.
Além disso, em meados da década de 1980, a indústria brasileira apresentou uma das menores taxas de crescimento econômico do mundo, que perdurou até 1998 (MORCEIRO, 2012). Os anos de 1981 a 1999 foram caracterizados por um ambiente econômico com câmbio sobrevalorizado, juros elevados e um esforço exportador para pagar a dívida externa, acompanhado pela redução do valor adicionado manufatureiro (MORCEIRO; GUILHOTO, 2019). Todos esses fatores influenciaram negativamente no desempenho do setor manufatureiro nas exportações mundiais de manufaturados.
Portanto, foi nesse período, mais especificamente entre os anos de 1985 a 1999, que o Brasil sofreu um processo de desindustrialização precoce pela ótica do comércio internacional seguindo os resultados das variáveis encontrados pela ótica da produção (valor adicionado e emprego) (OREIRO; FEIJO, 2010; MORCEIRO, 2012; 2018; MORCEIRO; GUILHOTO, 2019).
Entre os anos de 2000 a 2008, houve um aumento expressivo na participação brasileira nas exportações de manufaturados mundiais, com uma variação de mais de 22% (de 0,74% para 0,91%). Esse foi o resultado do crescimento das exportações de bens manufaturados de baixo valor agregado, intensivos em recursos naturais (NASSIF, 2008; OREIRO; FEIJO, 2010; MORCEIRO, 2012).
Entre os anos de 1999 a 2004, houve uma recuperação da produção da indústria de transformação, mas com resultados inferiores aos anos de 1930 a 1980 (MORCEIRO, 2012). Entretanto, nesse período, o país passou por um processo de
desindustrialização pela ótica da produção, com reduzida alteração na participação do valor adicionado manufatureiro (MORCEIRO; GUILHOTO, 2019).
Essas mudanças na participação do Brasil no mercado mundial de manufaturados podem ser divididas em quatro períodos. No primeiro, entre 1962-1984, o país teve um forte e intenso crescimento, resultado das políticas de fomento a indústria (CANO, 2007; BONELLI; PESSOA, 2010). No segundo, entre 1985 e 1999, houve redução da parcela exportada pelo Brasil, a fase mais aguda da desindustrialização brasileira, conforme argumentado por Morceiro e Guilhoto (2019). No terceiro, entre 2000 e 2008, o crescimento foi mais moderado com uma pauta de exportação mais concentrada em bens de baixo valor agregado (OREIRO; FEIJO, 2010; MORCEIRO, 2012). No quarto, a partir de 2009, a parcela relativa apresentou ligeira redução devido ao fim do super ciclo de expansão dos preços das commodities (Gráfico 10).
Pela ótica do comércio internacional, o Brasil apresentou dois períodos de industrialização, entre os anos de 1962-1984 e 2000-2008; e dois de desindustrialização, entre os anos de 1985-1999 e 2009-2018. Portanto, para entender melhor as características do comércio internacional brasileiro, foi realizada uma análise do saldo comercial de produtos manufaturados.
No Gráfico 11, entre os anos de 1962-1980, o país apresenta déficits persistentes na balança de bens manufaturados. Nos anos de 1981-1993 e 2003-2006, o país consegue obter superávits comerciais mesmo com câmbio valorizado. O período de 1981-1993 é marcado por constantes superávits na balança de comércio de manufaturados, resultado positivo do processo industrialização ocorrida nos anos anteriores, sobretudo durante o II PND.
O período de 1994-2002 é marcado por persistentes déficits na balança de comercial de manufaturados, principalmente concentrado nos setores da indústria de alta e média-alta tecnologia (MORCEIRO, 2012), reflexo da abertura comercial e financeira bem como da valorização da moeda, que barateou a importação de bens manufaturados e causou a substituição de insumos nacionais pelos importados (IEDI, 2007; MORCEIRO, 2018). Devido a essa abertura, houve uma regressão tecnológica na estrutura produtiva do Brasil, com o aumento da substituição de insumos nacionais por importados (IEDI, 2007). Para Bresser-Pereira (2020), o
período 2003-2006 é marcado pelo avanço das exportações brasileiras para bens não sofisticados e para as commodities.
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados do UNCOMTRADE/WITS.
A partir de 2007, o país apresenta constantes déficits na sua balança comercial de manufaturados devido à sobrevalorização da taxa de câmbio que barateou os bens manufatureiros importados e dificultou as exportações de produtos manufaturados (BRESSER-PEREIRA; MARCONI, 2008; BRESSER-PEREIRA, 2012; OREIRO; FEIJÓ, 2010; NASSIF; BRESSER-PEREIRA; FEIJÓ, 2016; BRESSER-PEREIRA; 2020; OREIRO; AGOSTINI; GALA, 2020). Além disso, houve um efeito China, que reduziu os preços dos produtos manufaturados em dólares e ajudou a aumentar as suas importações (DIEGUES, 2020).
Diante disso, houve uma piora na composição das exportações (aumento do peso dos produtos básicos e redução dos manufaturados) e as importações ficaram concentradas nos produtos de maior intensidade tecnológica, acompanhado pela reprimarização da pauta de exportações (MORCEIRO, 2012; DIEGUES, 2020) e por déficits nos setores de média-alta e alta intensidade tecnológica (SQUEF, 2012).
Segundo Morceiro (2018), houve um aumento nos déficits no período de 2007 a 2018, devido ao aumento da dependência estrutural da importação de insumos intermediários e bens finais dos setores de maior conteúdo tecnológico.
Esses resultados negativos no saldo da balança comercial de manufaturados também foram acompanhados pelo aumento nas exportações de produtos de baixo valor agregado. Essa diminuição resultou na perda de potencial de crescimento econômico do país, aprisionando-o em uma “armadilha da renda média”, com reduzido e irregulares níveis de crescimento econômico.
Diante desses resultados, fica evidente as características negativas da desindustrialização precoce que ocorre no país, ao dificultar a manutenção da produção, emprego e a obtenção de saldo positivo da balança comercial de manufaturados, como também a obtenção de um nível próximo ao pleno emprego com crescimento econômico sustentado, conforme já enfatizado pelos autores da visão de Cambridge (ver seção 1.2.1).
O aumento da concorrência manufatureira entre os PEDs nas CGVs e o aumento nos preços e na demanda por matéria prima resultaram no ciclo vicioso de baixo crescimento do Brasil, marcado pela desindustrialização precoce e reprimarização da pauta exportadora. Portanto, de acordo com a visão de Cambridge, o Brasil também sofre do processo de desindustrialização precoce pela ótica do comércio internacional, agravada pelo processo de reprimarização das exportações.
Segundo Diegues (2020), o fenômeno da doença holandesa que ocorre no Brasil é explicado pela apreciação da moeda causada pelo aumento das exportações de commodities e dos ingressos de capitais especulativos (diferença de juros internos e externos) e a maior atratividade (lucro) dos setores diferentes ao do setor manufatureiro.
Entretanto, a perda de importância da indústria de transformação pela ótica da produção (valor adicionado e emprego) e do comércio internacional (BRESSER-PEREIRA; MARCONI, 2008; BRESSER-PEREIRA, 2012; OREIRO; FEIJÓ, 2010; BRESSER-PEREIRA; NASSIF; FEIJÓ, 2016; MORCEIRO, 2012, 2018), acompanhado pelo processo de reprimarização da pauta de exportações (OREIRO; FEIJÓ, 2010; MORCEIRO, 2012, 2018) e o aumento da substituição de insumos
nacionais por importados (IEDI, 2007; MORCEIRO, 2018), demonstram que a desindustrialização do Brasil tem causas que vão além da doença holandesa.
Na próxima subseção, será realizada uma análise setorial das exportações do Brasil, para identificar e qualificar os setores da indústria que ganharam e perderam participação no comércio internacional e quais seus reflexos sobre o crescimento da economia brasileira.
3.3.2 Análise setorial do processo de desindustrialização no Brasil pela ótica do comércio internacional
Nessa subseção foi realizada uma avaliação setorial e por categorias de intensidade tecnológica da OCDE, com o objetivo de quantificar e qualificar a desindustrialização do Brasil pela ótica do comércio internacional. Para essa avaliação, foram utilizados os dados da OCDE17 e, a partir desses dados, foi possível construir um indicador de desindustrialização setorial pela ótica do comércio internacional (conforme exposta na seção metodológica 3.1).
Conforme as quatro categorias por intensidade tecnológica, classificadas hierarquicamente, pode ser observado no Gráfico 12 que a categoria que obteve a maior perda de participação nas exportações mundiais foi a de média intensidade tecnológica (MRD), com uma perda de 0,54 ponto percentual (1,77% para 1,23%) no período de 1990 e 2018. Alta (HRD) intensidade tecnológica, teve uma leve queda na participação de 0,04 ponto percentual (0,30% para 0,26%) e média-baixa (MLRD) intensidade tecnológica, teve uma perda de 0,24 ponto percentual (1,78% para 1,54%).
A única categoria tecnológica que não perdeu participação no período foi a de média-alta intensidade tecnológica (MHRD), com ganho de 0,01 ponto percentual (0,67% para 0,69%). Entretanto, desde 2006 essa categoria vem apresentando uma constante redução na participação, acumulando uma variação negativa de 31% (0,99% para 0,69%) no período de 2006 a 2018.
17 A disponibilidade de dados desagregados da OCDE tem início em 1990, e a coleta de dados foi
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da OCDE. Nota: M = importação. X = exportação.
De acordo com Dosi, Riccio e Virgillito (2020), a desindustrialização nos setores de maior intensidade tecnológica afeta diretamente a capacidade de crescimento dos países. Segundo os autores, os países que se especializam nas categorias de setores de maior capacidade de inovação conseguem evitar a desindustrialização. De acordo com os autores, para aumentar a renda per capita é essencial aumentar a participação dos setores de maior conteúdo tecnológico (baseados em ciência e fornecedores especializados). Entretanto, esse não é o caminho trilhado pelo Brasil quando se observa a desindustrialização pela ótica do comércio internacional nos seguimentos de alta (HRD) intensidade tecnológica como também nos de média-baixa (MLRD) e média intensidade tecnológica (MRD). Além disso, o país acumula um reduzido crescimento nos setores de média-alta intensidade tecnológica (MHRD) que não compensa a perda das demais categorias, Gráfico 12 - Participação do Brasil nas exportações (X) e importações (M) mundiais
mas sugere que, ao menos neste segmento, o país tem conseguido evitar a desindustrialização.
Por outro lado, há um aumento na participação relativa das importações brasileiras no período de 1990 a 2018, em todas as categorias por intensidade tecnológica HRD (0,01 ponto percentual), MHRD (0,45 ponto percentual), MRD (0,72 ponto percentual) e MLRD (0,38 ponto percentual), que evidencia a trajetória de aumento da importação de insumos produtivos bem como o de produtos acabados, expressando a dependência do país por produtos manufaturados em setores chaves capazes de promover inovações.
Outra característica, destacada no Gráfico 12, é que Brasil apresenta uma maior participação relativa nas importações em relação as exportações nas categorias de maior intensidade tecnológica (HRD e MHRD), no período de 1990 a 2018 (exceto atividade MHRD no período de 2004 a 2006). A ausência de indústrias nacionais em setores de maior intensidade tecnológica capazes de concorrer internacionalmente fez com que o do desempenho das exportações no total mundial ficasse igual ou abaixo de 0,5% na HRD e 1% na MHRD, no período de 1990 a 2018.
Entretanto, o inverso ocorre na atividade de menor intensidade tecnológica (MRD e MLRD). Nas categorias de menor intensidade tecnológica, o Brasil possui um desempenho relativamente melhor do que os de maior intensidade tecnológica, com a participação das exportações acima de 1% na MRD e 1,5% na MLRD, no período analisado.
Esses resultados demonstram uma mudança importante com aumento da participação relativa do país nas importações mundiais em todas as categorias por intensidade tecnológica (HRD, MHRD, MRD e MLRD) e redução na participação relativa do país nas exportações mundiais nas categorias HRD, MRD e MLRD. Isto configura, portanto, uma desindustrialização pela ótica do comércio internacional. Dessa forma, há um aumento na distância da participação relativa entre as exportações em relação as importações nas categorias de maior intensidade tecnológica (HRD e MHRD). Isso demonstra uma tendência de aumento nos déficits nas categorias de maior intensidade tecnológica. Já nas categorias de menor intensidade tecnológica (MRD e MLRD) há uma redução na distância da participação relativa entre as exportações em relação as importações no período. A
redução das exportações, acompanhada do crescimento das importações nas categorias de menor intensidade tecnológica (MRD e MLRD), no período de 1990 a 2018, resulta em uma tendência de diminuição dos superávits nessas categorias.
As variações na participação relativa das exportações são menos reativas às variações na taxa de câmbio, no período de 1990 a 2018. Todavia, as importações, em todas as categorias por intensidade tecnológica (HRD, MHRD, MRD e MLRD), são mais reativas as alterações na taxa de câmbio.
Nos períodos de sobrevalorização do câmbio (1995-1998 e 2004-2011), as categorias HRD, MHRD, MRD e MLRD aumentaram a sua participação nas importações mundiais (exceto MLRD, no período de 1995-1998). E, nos períodos de desvalorização (1999-2003 e 2012-2016), todas as categorias perderam participação nas importações mundiais. Entretanto, a participação do país nas exportações das categorias HRD, MHRD, MRD e MLRD não reagiu da mesma forma nos períodos de desvalorização cambial.
Oreiro, Agostini e Gala (2020), mostram que a desindustrialização do Brasil é explicada, em menor parte, pelas alterações na taxa de câmbio e, em maior parte, pela redução do nível de complexidade da economia. Dessa forma, as sobrevalorizações na taxa de câmbio resultaram no aumento das importações, que impactaram negativamente no desenvolvimento bem-sucedido do setor manufatureiro. Dito isto, uma avaliação desagregada dos setores demonstrará quais são aqueles setores do Brasil que estão perdendo ou ganhando participação relativa no comércio mundial, e quais as implicações para o crescimento econômico do país.
No Gráfico 13, consta os três setores que compõe a categoria de alta intensidade tecnológica (HRD), dois deles tiveram perda no período de 1990 a 2018, a saber o setor Farmacêuticos (D21) diminuiu 0,02 ponto percentual (0,21% para 0,19%), e o de Eletrônicos e Óticos (D26) reduziu em 0,16 ponto percentual (0,22% para 0,06%). Entretanto, no setor de Aeronave e componentes relacionados (D303), o país obteve crescimento, variação de 139,48% (0,68% para 1,63%).
No entanto, nesse setor D303, a participação do país nas importações mundiais também é elevada (com tendência a acompanhar as exportações). Mesmo assim, no período analisado, as importações do setor reduziram 0,33 ponto percentual (0,75% para 0,42%). Isto pode ser explicado pelo fato de que o país importa muitos insumos e componentes nesse setor e não consegue avançar na
produção interna de muitos componentes essenciais (como as turbinas e toda a electrónica a bordo dos aviões) (MORCEIRO, 2018). Nesse setor (D303), o país possui uma elevada participação no comércio internacional. Portanto, a despeito da alta importação de componentes e insumos, pode-se dizer que é um caso de setor que apresenta uma trajetória de industrialização pela ótica do comércio internacional.
Diante do exposto, o resultado nos setores de maior intensidade tecnológica (D21 e D26) evidencia a incapacidade do país em avançar para setores de maior conteúdo tecnológico, que proporcionam melhores salários. Esses setores são
também aqueles que conseguem evitar ou retardar a desindustrialização prematura.
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da OCDE.
Pela ótica do valor adicionado, esses setores apresentam uma trajetória de industrialização inferior ao esperado para o nível de renda per capita do Brasil (MORCEIRO; GUILHOTO, 2019). Sendo assim, reforça a dificuldade que os setores possuem em industrializar e aumentar a sua participação relativa nas exportações