2 As Exposições
2.1 Exposição Museu Nacional, Primórdios
Pretendo dar conta minimamente do que foram as exposições do Museu Nacional do Rio de Janeiro ou a ele ligadas nas décadas propostas. Pelos documentos até agora obtidos, podemos verificar, em primeiro lugar, que aquilo hoje denominado como exposição permanente parecia uma mistura de exposição e o que hoje denominamos reserva técnica, ou seja, com exceção do acervo nos laboratórios, tudo era exposto ao público. A quantidade prevalecia sobre a qualidade e a ordenação, como vemos neste documento já da segunda metade do século XIX:
“Doc.187
Tenho a honra de propor a V.Exa que se tire dos medalheiros todas as moedas e medalhas que existirem em número de três para cima e que sejam guardadas em deposito, convenientemente rotuladas com o nome das nações a que pertencem, mas que isso seja feito debaixo das vistas do Dr.
Ladislau Netto, já que o diretor da secção acha-se ausente.
Proponho mais que se tire da exposição pública o quadro intitulado Venus de Ticiano que pertence ao Sr. Drumond, do qual já tem havido diversas reclamações de alguns paes de família, que o julgam imoral pela posição indecente que o autor dá à uma de suas figuras.
Museu Nacional 7-08-1868 Carlos Burlamaqui
Porteiro
aceito a proposta,
Francisco Freire Allemão”
No entanto, precisamos nos lembrar do nosso olhar contemporâneo e verificar que o fato de tudo ser exposto parece não ser o que propriamente incomodava os visitantes estrangeiros, acostumados a também ver “tudo” em seus Museus, e sim a valoração dada ao acervo e a confusão entre um
material nacional exposto e a pretensão de expor um acervo que, aos olhos europeus, parecia ridículo:
“Entre os objetos que o museu expõe, alguns há que num semelhante estabelecimento da Europa, seriam talvez colocados no alto dos armários como não tendo um grau de interesse bem evidente; são eles, todavia que atraem, com mais fruto certamente, o olhar da multidão”.
O caráter de informação ao público local sobre várias as partes do mundo, inclusive da Europa, simbolizado pela presença de um pintassilgo taxidermizado no acervo chocava Dennis. Em seu trecho sobre o Museu Nacional98, o mesmo não refletia sobre a possibilidade de uma arara taxidermizada, em um museu francês, ter o mesmo efeito exótico. A reflexão de Dennis sobre as exposições abstrai a população ávida de conhecer o mundo europeu e seus pintassilgos. Também o faz pensar no Museu como um arremedo dos museus europeus e de suas tendências, embora ele próprio, Dennis, faça uma observação sobre a preferência do público por esse acervo.
As separações iniciais da exposição eram bastante abrangentes: na parte dedicada à indústria humana, já se notava uma separação inicial entre as brasileiras e as demais. A forma de expor era importada, como os arranjos denominados “Tropheos”, que vão ser característica das exposições por todo o século XIX, em várias partes do mundo, tão carregados de valores imperialistas, já que os primeiros são assim designados nos museus britânicos, por serem parte do espólio trazido das missões punitivas nas colônias.
A necessidade dos arranjos estéticos, no entanto, a meu ver faz parte da ênfase necessária a ser dada nos artefatos indígenas, que deveriam ser vistos como passiveis de contemplação estética, reforçando a noção de o indígena e seus artefatos serem integrantes, importantes no contexto histórico brasileiro em formação. Mesmo Coombes99, ao se referir às exposições do século XIX nos museus britânicos, relaciona as discussões sobre arte e
98 DENNIS,F. Brasil,São Paulo: Ed. EDUSP,1980.
99 COOMBES, Annie- Reinventing África, New Havem, London: Yale University Press, 1994.
natureza dos ornamentos às discussões sobre degeneração, geradas pelos objetos provenientes das expedições punitivas, diferentemente do que denomina de um brilho estético dos materiais vindos por meio de pesquisas antropológicas, como os bronzes do Benin. Para Price100, o caráter dos objetos
“primitivos em exposição” sempre trai uma exotização que, por vezes, pode chegar à repugnância. A autora se refere às exposições do século XX, empenhadas justamente em diluir esse exotismo. Ao pensarmos no século XIX, podemos imaginar que os efeitos visuais dificilmente caminhariam para uma não exotização dos indígenas.
Levando-se em conta o acervo do Museu, principalmente a plumária podendo ser proveniente de coletas científicas, como a procedida pela Expedição Langsdorff, e a filiação ideológica ao romantismo do primeiro curador, que relatava seus cuidados para melhor expor as vestes indígenas, a tentativa era mais próxima de dar um brilho estético, o que certamente não eliminava o caráter de exoticidade.
“Separadas as vestes dos indígenas brasileiros das de outras regiões, ficando estas colocadas em forma de Tropheos e com um arranjo artístico, mais conveniente e harmonioso para sua Exposição ao público.
O partido que se pode tirar da disposição arquitetônica da sala (...) a péssima luz que oferece o edifício, pois não foi construído para museu e nem mesmo na parte nova se procurou este meio tão eficaz e profícuo para realçar todos os objetos que aí se deviam colocar.
26 de Janeiro de 1947
Manoel de Araújo Porto Alegre”101
Um marco das exposições parece ser a dupla exotização dos indígenas. Apesar de serem “os nossos indígenas”, eram tão desconhecidos e exóticos como os povos asiáticos ou polinésios. Essa exotização expressa também através da miscelânea visual que compunha os desfiles comemorativos da época. A curiosidade e a representação desses povos pode
100 PRICE, Sally. Arte primitiva em centros civilizados. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2000.
101 PORTO-ALEGRE,op.cit.
ser medida por uma descrição de um desfile comemorativo transcrito por Silva102, na Gazeta do Rio de Janeiro de 1810:
1- Carro da América acompanhado por dança de índios 2- Carro representando o império da China
3- Carro da imortalidade, dança “Heróis Portugueses”
4- Carro representando as ilhas do pacífico com índios próprios 103
Os carros e as danças eram oferecidos por associações de negociantes e de oficiais vários, como: pedreiro, carteiro, carpinteiro e outros, além dos serventuários, como os do matadouro. Esses desfiles marcam dois pontos de referência com o Museu, o primeiro por serem realizados no Campo da Aclamação ou Campo de Sant’Ana, e o segundo por marcarem uma visão expositiva não muito distante da presente na exposição permanente do Museu, onde objetos indígenas, representações dos heróis portugueses e artefatos provenientes das ilhas do pacífico conviviam, talvez com mais harmonia do que podemos avaliar contemporaneamente.
Para melhor demonstrar o quadro das exposições, além das breves descrições que podemos obter sobre a exposição do Museu, as primeiras retiradas dos relatórios de Manuel de Araújo Porto Alegre, em que o mesmo descreve os trophéus, como junções harmônicas e decorativas de um mesmo grupo de objetos, como, por exemplo, as armas dos indígenas brasileiros, fazendo supor que os conjuntos, até a sua intervenção na década de quarenta do século XIX, estivessem bastante misturados. Porto Alegre havia tido uma experiência com exposições, em sua viagem a Paris, acompanhando o retorno de Debret, provavelmente lidou com as necessidades estéticas de uma exposição.
Entre as primeiras notícias de preocupação interna com a exposição, encontradas no AGMN104, vemos um pedido de planta, alternativo ao enviado pelo Museu, visando à reforma da mesma e ao envio do engenheiro e lente de
102 SILVA, op.cit.
103 Idem
104 Doc. número 148 pasta 1840-1844 AGMN.
Belas Artes Grandjean de Montigny105 para sua execução. A apresentação do anteprojeto para a reforma se dá em 1842. Ladislau Netto106, em sua publicação sobre o Museu datado de 1870, coloca a reforma em execução no relatório de 1844, no qual Custódio Serrão, então diretor da instituição, reivindica sua conclusão:
“Esta harmonia que não deve achar-se na distribuição dos objetos e na forma dos armários como também na construção do edifício, (...) As três galerias projetadas na parte do edifício que se está em começo, e que são de maior simplicidade e economia, podem, de mais, concluir-se com muito pequeno sacrifício, (...)A sessão de numismática e artes liberais, arqueologia e usos e costumes das nações modernas acha-se em uma sala cujo teto ameaça ruína.”107
No relatório de 1844108, Porto Alegre também reclama do andamento das obras, observando que pouco se avançou no trabalho com as coleções e exposições, devido às coleções estarem amontoadas em armários e gavetas por causa das obras, e alerta para o perigo que correm as coleções, principalmente as brasileiras, que incluíam “desde os aborígines até a invasão do homem civilizado e seus progressos.”
No relatório subseqüente, Porto Alegre já descreve o novo arranjo das salas, no qual aponta que já estariam separadas as vestes dos indígenas brasileiros dos de outras regiões, ficando as mesmas colocadas na forma de troféus e com um arranjo mais artístico, mais conveniente e harmonioso para sua exposição ao público, Porto Alegre atenta para detalhes da exposição, como “a péssima luz que oferece o edifício, pois não foi construído para Museu e nem mesmo na parte nova se procurou esse meio tão eficaz e profícuo para realçar todos os objetos que aí se deviam”, guardadas as proporções devidas
105VAINFAS, Ronaldo.Dicionário do Império,RJ:OBJETIVA,2002 p.347.
106NETTO, Ladislau, Investigações sobre o Museu Nacional- RJ: Instituto Philomático, 1870, p.81/82.
107Idem
108Doc. Número 35 pasta 1845 AGMN.
às escaramuças internas da Escola de Belas Artes, da qual tanto Porto Alegre como Montigny eram professores.
Lacerda109 data de 1856 a conclusão da parte nova do edifício correspondente à sua ala esquerda. As salas foram pintadas pelo cenógrafo João Ignácio da Silva Freitas, e comprados móveis da importância de 7$000 para guarnecer os salões.