A partir de exposições voltadas para os povos indígenas, montadas em três museus no Uruguai – Museu de Arte Pré-colombiano e Indígena (Montevidéu), Museu do Índio e do Gaúcho (Tacuarembó) e Museu do Homem e a Tecnologia (Salto) – descreverei o conteúdo dessas coleções, ressaltando as formas como o índio é apresentado e representado nessas instituições. Das três coleções, as dos museus de Salto e Tacuarembó são permanentes,e a do MAPI foi concebida por um artista plástico uruguaio, responsável pela mostra (organizada por ocasião da data da matança de Salsipuedes).
46 Antes de comentar as coleções e exposições é importante dizer que o Museu tradicionalmente foi uma instituição associada à memória hegemônica, representante do discurso oficial e por tanto atravessada pelos discursos e narrativas oficiais sobre a identidade e seus desdobramentos. É uma instituição fortemente ocidental e moderna, e por tanto associada às práticas e estratégias de criação do sentimento nacional do Estado-nação, também modelo de organização sócio-político e econômico arquetípico da cultura ocidental moderna.
Embora hoje existam apropriações diferentes do espaço do museu (CLIFFORD:
2009) e este seja um instrumento de reivindicação e uma via de representação dos subalternizados ou marginais do discurso hegemônico17, ele nasceu ancorado numa estratégia de poder. Ali, está o passado da nação, normalmente o mais representativo e importante da trajetória coletiva. Nesses espaços museológicos tradicionais, as coisas assumem uma suposta ordem “correta” que subsidia as narrativas da identidade nacional, portanto, da nação, materializando o universo coletivo. O lugar que os povos indígenas ocupam nos três casos que vou apresentar é sempre o mesmo, antes da história, num esforço retórico que reforça a ideia da desaparição, extinção e, portanto, da inexistência.
O museu, como aparelho ideológico de cultura, assume a narrativa oficial ou oficializada e a reproduz. No caso do museu do Gaúcho e Índio de Tacuarembó, as coleções são formadas, em sua maioria, por peças arqueológicas, tais como: armas (boleadeiras, pontas de flecha, “rompecabeças”), utensílios para o trabalho dessas peças;
uma réplica de uma pintura de Debret18, uma imagem desenhada da fauna nativa, uma reprodução das pictografias que existem no território nacional além de uma placa com o sistema de numeração Charrua de um a dez. Há também uma “resenha bio-socio cultural dos Charrua e afins” sem autor identificado, que caracteriza estes povos e atribui o seu território de origem às Guianas Holandesa e Inglesa, porém há um ponto de interrogação, indicando dúvida. Quanto à língua charrua, informa-se que pertence à família linguística Arawak, mas também aparece o ponto de interrogação ao final. Com relação à descrição física, os Charrua seriam : “altos, delgados, bien formados, nariz aguileña, pelo negro
17 Citamos os casos dos Museus da Maré e dos Wajãpi como exemplo de espaços museológicos contrahegemîcos.
18 Jean-Baptiste Debret foi um artista francês que morou no Rio de Janeiro e viajou pelo interior do sul de Brasil perto da fronteira com o atual Uruguai, entre os anos de 1815 e 1830. Ele fazia pinturas de distintos aspectos de suas viagens - paisagens, povos, entre outros.
47 chato, piel bronceada...” cuja vestimenta seria o “quillapi” (manto de couro de animal, com desenhos gravados). Nesta breve resenha, são identificados como caçadores e coletores e sua organização social é descrita como “patriarcal con jefe o cacique con poca autoridade”. Destaca-se que foram grandes ginetes, hábeis na confecção de artefatos de pedra e vasilhas de barro, não possuindo religião e nem escrita. Finalmente, sem maior explicação, se afirma: “Desaparecieron de nuestro territorio en 1832”.
Entre os objetos expostos, há restos mortais, achados num “cerrito” na região de Yaguarí, junto com restos líticos, cerâmicos e de animais, datados aproximadamente de três mil anos atrás. Na informação que acompanha a descrição, não há referências à importância ou significado cultural que esses objetos têm para as sociedades.
O Museu do Homem e da Tecnologia da cidade de Salto apresenta uma perspectiva discursiva evolucionista e suas coleções estão divididas em salas, sendo a primeira destinada aos “Povoadores primitivos”. O primeiro artefato exposto também é um esqueleto humano, achado durante a construção da barragem de Salto Grande e do trabalho arqueológico prévio feito com colaboração da UNESCO, em 1979, antes do início das obras. Na explicação sobre os restos humanos, se descreve as hipóteses sobre o pertencimento étnico, muito próximos aos tipos humanos encontrados no século XVI – alto, robusto, caçador - muito parecida com a descrição dos Charrua e Minuanes, feita pelos realizadores da mostra. interessante transcrever a descrição que o Museu faz desses povos:
“Los charrúas y minuanes eran cazadores, corredores de llanuras, no selvícolas, erráticos de elemental nivel cultural, sin tejeduría y con cerámica elemental; usaban como armas el arco y la flecha, la lanza corta y las boleadoras, botas perdidas y rompecabezas. Se adaptaron muy rápidamente al uso del caballo convirtiéndose en habilísimos jinetes, lo cual aumentó mucho su capacidad guerrera. Sus tolderías entre los siglos XVIII y XIX se convirtieron en refugio de vagos y desertores, con los que se alían para depredar ganado, incendiar campos, bolear yegunos y lancear cristianos.”
(Ficha descritiva do povo Charrua e Minuan no Museu do Homem e a Tecnologia da cidade de Salto, Uruguai).
A carga negativa, o preconceito e a intencionalidade desta descrição não precisa de muito esclarecimento. Após esta (des) informação, se apresenta um fragmento do diário de Gonzalo de Doblas sem muita contextualização da citação. A mostra dos
“povoadores primitivos” continua com uma réplica, uma escultura do cacique Vaimaca Perú, cujos restos humanos foram repatriados em 2002 como já foi dito. Há também uma
48 representação de um casal em um “toldo”, e na descrição da cena se diz que tenta representar o “...grupo étnico cultural charrúa–minuan”. Mencionam-se algumas características culturais como as tatuagens corporais da mulher charrua, a importância do fogo e a dieta animal.
Em seguida, a exposição monstra o tempo dos guarani-missionados, informando à localização das reduções, destacando os conhecimentos agrícola e o costume de criar gado, assim como ser a suposta origem dos gaúchos, fenótipo considerado arquetípico do médio rural uruguaio. A sequência narrativa continua com a “introdução do gado” no território, enfatizando que os animais precederam ao homem no campo uruguaio, reforçando a ideia de “deserto” inabitável dessas terras, nunca antes habitada por humanos.
O caso do Museu de Arte Pré-colombiano e Indígena é um pouco diferente. A exposição é formada por diferentes evidências arqueológicas dos povos indígenas do continente, parte do acervo permanente do Museu e outra que é resultado do trabalho do artista plástico uruguaio Gustavo Tavares, intitulada “Charrua”.
A exposição permanente expõe todo tipo de utensílios, ferramentas e, é acompanhada de uma descrição sobre cada povo: os andinos, os mesoamericanos, da Amazônia e da região do Rio da Prata. Para estes, as informações discorrem sobre as características socioeconômicas, tecnologias e as formas de assentamento. Não trás nenhuma novidade sobre o jeito de ser e viver dos Charrua.
A mostra de Gustavo Tavares é bem interessante porque apresenta uma posição crítica a respeito das narrativas tradicionais, discutindo o conceito de extermínio dos Charrua que impera no Uruguai. A mostra é mais conceitual, recriando a partir de objetos uma narrativa crítica questionando a ideia de extermínio, a apropriação nacional dos Charrua pelos uruguaios a partir da imagem da “garra charrua” e relata alguns episódios sobre os quatro Charrua levados para Paris - Tacuabé, Senaqué, Guyunusa e Vaimaca Pirú. Esses objetos são todos criados pelo artista, distanciando-se das mostras tradicionais de objetos arqueológicos. Alternando textos com objetos (esculturas e pinturas), o artista consegue identificar os núcleos básicos da narrativa oficial sobre os Charrua e questionar alguns pontos. O apelo, creio, é para estimular a reflexão sobre as perspectivas estabelecidas e ditas sobre o povo Charrua. O primeiro texto diz:
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“La sociedad uruguaya ha crecido con la versión del “exterminio” de los Charrúas, una construcción no muy fiel a la realidad, un error histórico generado desde el Poder. Desde la llegada de los europeos al Rio de la Plata, los Charrúas fueron sometidos a las más atroces violaciones de los derechos humanos, fueron robados, saqueados, violados, torturados, asesinados, contagiados de enfermedades que no conocían, esclavizados y engañados sistemáticamente hasta hacer perder su cultura.” (TAVARES, “Charrúa”
mostra exibida no MAPI, abril, 2016).
Para reafirmar a ideia da falsidade do relato do extermínio, o autor conclui em seu texto de apresentação “Actualmente se calcula que en Uruguay, Brasil y Argentina hay entre 160.000 y 300.000 descendientes de charrúas, todos ellos mestizos. No se puede hablar más de extermínio”. (TAVARES, 2016)
Da mostra vale a pena destacar que tenta desconstruir a ideia do Charrua como o
“índio uruguaio” trazendo dados sobre os Charrua na Argentina e no Brasil.
Após analisar as três mostras, podemos afirmar que o papel do museu - na qualidade de aparelho ideológico cultural do Estado - não necessariamente é de mero reprodutor. No caso dos museus de Salto e Tacuarembó, se cumpre com a função tradicional da instituição, já que replicam o que Reginaldo Gonçalves chama de intencionalidade dos objetos, tendo em vista que são parte da seleção patrimonial feita pelo poder: os objetos aparecem descontextualizados, despojados da função e o valor cultural atribuído pelo povo que o criou. Por outro lado, as explicações e informações, que os acompanham reforçam essa ideia de “atraso” e “passado” dos povos indígenas, com informações parciais, tendenciosas e reprodutoras do discurso da identidade uruguaia. Para o caso da exposição de Tavares, é interessante ver como esses aparelhos podem ser também agentes de câmbio, gerando posições críticas e reflexivas sobre o instituído.