3 TEMPO E MODALIDADE: CATEGORIAS FUNCIONAIS COMPLEXAS
3.2 A EXPRESSÃO DO TEMPO
Para tratarmos de questões referentes à expressão do tempo na língua, destacamos como base teórica Comrie (1985), em função do aprofundamento do tratamento dispensado pelo autor à questão dos tempos verbais, dentre outros autores, como Klein (2009), Fleischman (1982; 1989), Givón (2001) e Mateus et al. (1989).
A seção obedece à seguinte organização: primeiramente é realizada uma distinção entre as duas dimensões que envolvem a noção de tempo, isto é, a categoria linguística tempo verbal (tense) e o conceito extralínguistico de tempo (time), depois apresentamos o conceito básico de tempo verbal. Num segundo momento, direcionamos a discussão para a questão da multifuncionalidade dos tempos verbais, principalmente quando se analisam contextos sintáticos complexos. Num terceiro momento, tratamos de certas especificidades da categoria tempo verbal, destacando sua natureza dêitica, bem como as diferenças entre tempos verbais absolutos e relativos.
3.2.1 A codificação do tempo e os tempos verbais
Em muitas línguas neolatinas, como o português, há somente um termo, oriundo do latim tempus, para se referir a duas noções distintas – time e tense –, o que pode levar à ideia equivocada de que é possível expressar o tempo somente através do tempo verbal (tense), argumenta Klein (2009). Enquanto time (tempo) é um conceito extralinguístico, tense (tempo verbal)64trata-se de um fenômeno linguístico, isto é, uma categoria gramatical cuja função é codificar diferentes tempos numa língua. Mais precisamente, time é uma entidade experiencial, um constructo mental, ao passo que tense é “uma das diversas estratégias desenvolvidas para o propósito de mapear o tempo através da linguagem, ou mais precisamente, através da gramática”, segundo Fleischman (1982, p. 8).65
A percepção de que o tempo verbal é uma noção distinta de tempo é fundamental, pois permite compreendermos que tense não é o
64Neste estudo, utilizaremos tempo verbal como equivalente a tense.
65“[...] tense is a grammatical category, one of the several strategies developed
for the purpose of mapping time onto language or, more precisely, onto Grammar.” (FLEISCHMAN, 1982, p. 8)
único meio para a expressão do tempo, até porque existem línguas que nem possuem a expressão de tempo verbal e, mesmo nas que o têm, este se apresenta como uma categoria redundante, às vezes, defende Klein (2009).
As línguas possuem meios variados para codificar o tempo, uma vez que se trata de um conceito fundamental para a cognição e ação humana, sendo que esses meios podem ser distribuídos em seis ferramentas principais para a sua expressão: (i) os tempos verbais (tense); (ii) os advérbios de tempo; (iii) a categoria aspecto; (iv) o aspecto lexical (aktionsart)66; (v) certos princípios discursivos67; (vi) além do caso específico de alguns particípios temporais (no chinês), de acordo com Klein (2009, p. 1). Dentre esses, tratamos especialmente dos tempos verbais nesta seção, em virtude da natureza do nosso fenômeno, além de apontarmos definições relativas ao aspecto lexical, haja vista que será investigado nos dados.68
Em consonância à descrição acima, Comrie (1985, p. 8) afirma que a marcação do tempo nas línguas não é uma função exclusiva dos tempos verbais, uma vez que é realizada também através de itens lexicais. Dessa forma, o autor distingue as categorias que expressam o tempo em lexical e gramatical, diferentemente de Klein. Como lexical, estão incluídos os itens lexicais, como ontem, hoje e amanhã, por exemplo, e as expressões lexicalmente compostas, entendidas como um grupo infinito formado pelas diversas composições entre os itens lexicais que funcionam como marcadores de tempo, como a expressão ano passado. Já a categoria gramatical é representada pelas formas verbais gramaticalizadas para situar o tempo, como os tempos verbais: presente; passado; pluperfect; futuro e futuro perfeito do inglês.69
66
O autor esclarece que ‘aktionsart’ é o termo tradicional para englobar a subdivisão dos tipos verbais segundo as propriedades temporais da situação descrita e que, atualmente, a maioria dos estudos baseia-se em Vendler (1957) para classificar as quatro classes aspectuais do verbo em state, activity, accomplishment, achievement (Cf. KLEIN, 2009, p. 22).
67Com o termo princípios discursivos, o autor se refere aos casos em que a
expressão temporal é expressa por vários meios, como a ordem das sentenças no discurso, e não especificamente através de palavras, como os verbos.
68Retomaremos o temaadvérbios temporais no capítulo de metodologia, posto
que será um fator controlado na análise.
69 Comrie (1985) complementa ainda que é possível distinguir quando a
localização/marcação do tempo é do tipo gramaticalizada, isto é, expressa pelas categorias gramaticais, de quando é da forma lexicalizada, ou seja, realizada através das expressões lexicais. Isso porque as noções mais
Entretanto, apesar da existência de vários elementos lexicais que denotam referência temporal, é através do verbo que a maioria das línguas localiza o tempo, seja pela própria morfologia verbal – como no inglês loved (passado), versus loves (não passado) –, seja ainda por meio de palavras gramaticais adjacentes ao verbo, como é o caso dos auxiliares, observa Comrie (1985, p. 9). Logo, a diferença, em inglês, entre John sang (John cantou) e John sings (John canta) é temporal, ou melhor, de tempo verbal – diferentemente da oposição entre John sings (John canta) e John is singing (John está cantando), que se trata de uma diferença de aspecto. E essa oposição entre passado e não passado seria um caso claro de oposição gramaticalizada, visto que parece impossível construir uma sentença em inglês contendo um verbo finito que seja neutro em relação aos dois pólos dessa oposição, defende o autor.
Em resumo, a expressão do tempo verbal (tense) é um meio, uma forma gramaticalizada para localizar, ou seja, marcar o tempo nas línguas, na perspectiva de Comrie. Do ponto de vista canônico, o tempo verbal é ainda entendido como uma categoria relativa, pois indica uma relação temporal entre a situação descrita pela oração e algum outro intervalo de tempo dado, que normalmente é o momento de fala, afirma Klein (2009). Por conseguinte, ficam estabelecidas as três principais relações temporais, anterioridade, posterioridade e simultaneidade, ao se tomar o momento/situação de fala, como o ponto de referência zero, também denominado de âncora ou centro dêitico, como descrevemos na próxima subseção.
Tal argumento fica mais claro se visualizado através do que se chama linha do tempo, que seria uma linha reta geralmente utilizada para a representação do tempo. Nela há um ponto zero ocupado pelo momento presente e, por consequência, o passado fica à esquerda do ponto zero (como se fosse anterior a ele), enquanto o futuro situa-se à direita do ponto zero (posteriormente):