• Nenhum resultado encontrado

EXPRESSãO DOS MITOS E PRECONCEITOS: A MÍDIA

No documento Cuidados de longa duração para idoso (páginas 156-159)

DOS ASILOS ÀS INSTITUIÇÕES DE LONGA PERMANêNCIA: UMA HISTÓRIA DE MITOS E PRECONCEITOS

4 EXPRESSãO DOS MITOS E PRECONCEITOS: A MÍDIA

Os mitos e os preconceitos discutidos anteriormente não são encontrados apenas na literatura especializada, mas também na mídia, no comportamento dos fami- liares, nas declarações de personalidades públicas, na propaganda etc. Pode-se dizer, também, que está em curso uma mudança de visão em relação ao cuidado institucional, o que se expressa nessas mesmas esferas.

Ressalta-se em primeiro lugar que a mídia tem uma visão negativa a respeito do envelhecer. Debert (1999), em uma pesquisa realizada em revistas e anúncios

de publicidade brasileiros da década de 1990, observou uma tentativa de se dis- seminar uma visão de idoso saudável, ativo, dono de seu tempo, independente dos filhos. Não encontrou espaço para a tradicional imagem da velhice: doença, decadência, dependência. Isso contribui para reforçar preconceitos em relação a quem não experimenta um estilo de vida ativo, a quem não se sente tão saudável ou independente. Pode resultar em que o idoso se sinta culpado por sua própria fragilidade. A ênfase colocada nas políticas de envelhecimento saudável reforça esse preconceito. De acordo com a autora, nas sociedades monetárias, em busca da eterna juventude, parece não haver lugar para a velhice frágil.

Esse preconceito às vezes se origina do próprio idoso. Um exemplo disso ocorreu em Cannes, em maio de 2010, no lançamento de um filme de Woody Allen, 74 anos. A mídia mundial – incluindo a brasileira – repetiu à exaustão a declaração do festejado cineasta: “Não há vantagem nenhuma em envelhecer. Você não fica mais esperto, mais sábio, mais doce ou mais educado. Você começa a sofrer com dor nas costas, indigestão, a visão fica pior, e vai precisar de ajuda para ouvir. É uma coisa muito ruim ficar velho. Recomendo que vocês não o façam”.

Isolamento da velhice e ocultação da morte não são exclusividades do nosso século. Todas as sociedades em maior ou menor grau enfrentaram essa questão do final da vida. E as artes de nosso tempo retratam esta questão, como, por exemplo, o cinema. A Balada de Narayama (1983), do diretor japonês Shohei Imamura, passa-se no Japão feudal do século XIX e expressa essa exclusão social como um valor cultural. Mostra, também, como é percebida pela família. Uma idosa, chegando perto da idade em que as pessoas se retiram da vida social para morrer numa montanha isolada, sendo ainda saudável, sem sinal de decrepitude, fica com vergonha da própria saúde e quebra os próprios dentes em uma pedra, para mostrar que está chegando a sua hora e poupar os filhos do peso de mais uma boca a alimentar.

Por outro lado, neste mesmo filme, como retratado por Burlá, Py e Scharsfstein neste livro, essa mulher foi carregada pelo filho para o alto da montanha. O filho aparenta enorme tristeza, pois é ligado a essa mãe por vínculos amorosos fortes. Na descida da montanha, o filho vê outro filho largando o pai em uma situação bem distinta da sua: o velho está amarrado, como um pacote, gritando e se debatendo, até que é lançado montanha abaixo. Para as autoras, o filme retrata que a subida a Narayama pode significar o cumprimento de uma exigência cultural, de forma serena e amorosa, como no caso da velha. Mostra, também, que isso pode ser cumprido de forma impiedosa, ilustrado pelo filho que atira o pai à morte de forma cruel.

Essas autoras acreditam que a dificuldade de aceitar as ILPIs no contexto da cultura brasileira em muito se assemelha à peregrinação ao topo da congelada

Narayama, na forma como o filho atira o pai montanha abaixo. Por outro lado, há de se reconhecer que outro filho conduz a mãe carinhosamente até o topo da montanha. Ou seja, residir em uma instituição pode ser uma alternativa de resi- dência adequada para várias situações. Ela pode ser vista e vivida sem temor, o que depende muito dos preconceitos, das normas culturais e das relações familiares. É de se esperar que o preconceito com relação ao envelhecimento se projete também no preconceito em relação ao asilo, na mesma lógica já exposta do espelho – “Não quero ver o que eu posso ser amanhã” – ou na autoconfrontação com a morte – “Daqui só saio para o túmulo”.

Como qualquer outro preconceito, a mídia tem um papel importante ao “alimentá-lo”, bem como ao ser alimentada por ele. Um caso memorável de preconceito no Brasil é o da Clínica Santa Genoveva, no Rio de Janeiro, onde morreram 156 idosos entre os meses de janeiro e maio de 1996 (ALVES FILhO, 1996). Apesar de ser sempre citada como exemplo, a instituição mencionada não era um asilo ou uma ILPI. Era um estabelecimento de saúde.7 Por outro

lado, as denúncias de maus-tratos, abandono e mortes ocorridas nessa instituição não invalidam a existência da modalidade de cuidado institucional. Além disso, abandono, negligência e maus-tratos também são encontrados nas famílias onde a fiscalização é mais difícil.

Em 2009, uma das mais conceituadas produtoras de animação, a americana Pixar, lançou um filme que fez enorme sucesso, chamado UP. O personagem principal era um velhinho de 78 anos, Carl, vendedor de balões, que, diante da iminência de ser internado compulsoriamente em um asilo, resolveu fugir. Amar- rou milhares de balões de gás hélio à sua casa, e alçou voo, convertendo-a em um dirigível que o conduziu a inúmeras aventuras. Ou seja, se por um lado o velhinho do desenho animado produz empatia no público de todas as idades, por outro o filme passa uma mensagem clara: o asilo é um lugar a se evitar.

Já se percebe na mídia novos olhares sobre esse tipo de instituição. Por exem- plo, a Rede Globo de Televisão transmitiu, no período de 5 de outubro de 2009 a 9 de abril de 2010, a novela Cama de Gato. Entre os seus cenários destacava-se um asilo para idosos de alta renda, apresentado como uma alternativa de moradia para idosos independentes, que não queriam morar sós. Mostrou o asilo como uma residência que propiciava integração entre os residentes – com namoro e casamento –, entre gerações e familiares, na figura, por exemplo, de uma neta que ia dormir com a avó.

A revista IstoÉ publicou, em 13 de março de 2010, uma reportagem sobre ILPIs brasileiras, intitulada Como se estivéssemos em casa. Outra reportagem do jornal

O Globo, de 8 de dezembro de 2009, aponta para a necessidade de mais institui-

ções para cuidar de um “país que envelhece”. O Jornal Nacional, em dezembro de 2006, entrevistou residentes do Abrigo Cristo Redentor e da Casa Gerontológica, ambos no Rio de Janeiro. Todos os entrevistados alegaram a vantagem de morar numa residência coletiva para não depender dos filhos.

Nos casos citados, instituições são vistas como uma residência coletiva que propicia integração social, criação de laços afetivos e não implica, necessariamente, rompimento de laços familiares. Isso foi observado no trabalho de campo descrito no artigo de Camarano e Scharfstein neste livro, bem como na pesquisa desenvol- vida por Graeff (2007).

No documento Cuidados de longa duração para idoso (páginas 156-159)