CAPÍTULO I. REVISÃO DA LITERATURA
1.4 O impacto e a importância da música em crianças e jovens com NEE: estudos e iniciativas
1.4.1 A expressão sonoro-musical com crianças e jovens com NEE: Programas de
Esta secção descreve, de forma sucinta, uma série de iniciativas levadas a cabo através de programas de expressão sonoro-musical onde a aprendizagem está a ser utilizada para reforçar o bem-estar e a inclusão de crianças e jovens com necessidades educativas especiais.
O projeto espanhol LOVA (Sharon, 2002) continua o trabalho de um programa educacional que foi criado por Jo Ann Forman e Bruce Taylor em Seattle na década de 1970 e apresentado nas escolas de Nova York na década de 1980. Em 2006, o projeto chegou ao Teatro Real de Madrid, onde, durante o primeiro ano, foi dirigido por Mary Ruth McGinn sob seu nome atual (LOVA significa La Ópera, um Veículo de Aprendizagem - Opera, um veículo para aprender). A cada versão, a LOVA treina professores espanhóis do ensino primário e secundário a projetarem e produzirem uma ópera ou musical com os seus alunos. Os alunos poderão escrever o livreto, compor a música, anunciar a ópera e geralmente trabalham juntos durante o ano letivo, como uma companhia de ópera pode fazer. O projeto usa a criatividade e a música como veículos para desenvolver os conhecimentos cognitivos e emocionais dos alunos, assim com as respetivas competências para que trabalhem mais efetivamente como membros de um grupo. O sucesso nacional do projeto é um fator indicativo da necessidade de tais iniciativas.
Um outro tipo de projetos de cariz musical que está, também, a ser desenvolvido destina- se a combater os riscos de exclusão social da pessoa com deficiência. Trata-se de um programa intitulado Arte y Discapacidad, na Argentina, desenvolvido em conjunto com a orquestra infantil de necessidades especiais, a Orquesta de Niños y Niñas Especiales de Mendoza (Reyes & Totera, 2014). A orquestra oferece uma oportunidade, para os músicos e espectadores, de compartilhar a criação e apreciação da música. Outra organização que trabalha na área de necessidades especiais é a Organizacion Nacional de Ciegos Españoles (ONCE, 1988) (http://www.once.es), que apoia vários programas de música, patrocina músicos e grupos
individuais, capacita professores de música, publica notas de braille e organiza um festival de música nacional a cada dois anos (até agora, a organização realizou catorze desses festivais).
Music for All – O acesso à educação musical para pessoas com necessidades educativas especiais (Education, Culture and Sports Department of Riga City Council, Kaikkonen, Petraškeviča & Väinsar, 2011) trata-se de um projeto que surgiu em 2007, a partir de uma necessidade sentida e partilhada por dois países bálticos, Letónia e Finlândia, que por sua vez, criaram uma parceria que veio a tornar possível o financiamento e a concretização deste mesmo projeto. O programa partiu de um projeto e de uma vivência escolar partilhada e trocada entre os profissionais de educação musical especial dos dois países.
Os principais objetivos do projeto Music for All são: (1) oferecer e disponibilizar métodos de ensino e materiais aos educadores e professores de música, bem como capacitar os mesmos para o ensino de pessoas com necessidades especiais; (2) melhorar atitudes em relação às pessoas com necessidades educativas especiais. O projeto tem sido considerado pelos participantes como uma ótima oportunidade para os parceiros se encontrarem, trabalharem juntos e acumularem potencial criativo para alcançarem resultados a longo prazo (Education, Culture and Sports Department of Riga City Council, Kaikkonen, Petraškeviča e Väinsar, 2011).
Including music for all – music networking in the Nordic countries (Kaikkonen & Nilsson, 2014), trata-se de um outro projeto no campo da educação musical especial e da saúde, que surgiu em 2012, através da colaboração entre dois países, Finlândia e Suécia. O projeto foi financiado inicialmente pela Fundação Cultural Finlandesa-Sueca e pela Universidade de Kristianstad, onde professores e investigadores viram a necessidade de facilitar o acesso e a aprendizagem da música, como sendo um direito humano básico. O projeto tem como objetivos: a) identificar fatores importantes para o ensino de música inclusiva e para desenvolver novas abordagens e soluções; b) explorar possíveis consequências relacionadas com a área da saúde; e c) contribuir para a discussão e compreensão sobre "Educação Musical Especial". O suporte teórico do projeto é baseado nos fundamentos da educação sociocultural, da saúde, musicologia e da musicoterapia.
Em Portugal, o projeto Orquestra Geração (OG), destinado à inclusão e capacitação de alunos com necessidades educativas especiais, adota uma prática pedagógica diferenciada, sustentada na cooperação que o trabalho orquestral exige, e que, por isso mesmo, inclui todos os alunos, facilitando a aprendizagem e respondendo às necessidades individuais e coletivas da
orquestra. Num estudo realizado por Silveira, Piscalho, Pereira e Silva (2017), a prática artística orquestral parece favorecer a inclusão de crianças e jovens com NEE. Pelo seu caráter lúdico é uma forma de expressão, que favorece o desenvolvimento integral, a interiorização de valores e o exercício da cidadania, abrindo espaço para outras aprendizagens. A OG acolhe nas suas orquestras alunos com NEE a nível cognitivo e motor. Trabalha com todos os alunos de forma a pôr em evidência as suas competências e recursos pessoais, minimizando as suas vulnerabilidades.
A vasta existência, a nível internacional, de projetos artísticos, onde a música desempenha um papel fulcral, com sucesso comprovado ao nível da inclusão e do desenvolvimento (muitos mais projetos poderiam ser aqui mencionados), proporcionam formas alternativas de observação, avaliação e desenvolvimento dos seus participantes.
Os métodos de avaliação tradicionais raramente reconhecem o progresso feito pelos alunos com NEE (Faux, Finch & Featherstone, 2012). É essencial desenvolver formas complementares de avaliação que capturem as aquisições de competências com autenticidade, equidade e validade.
Se considerarmos as avaliações como oportunidades de aprendizagem onde os alunos aprendem através das suas respostas e, se aceitarmos que isso faz parte integrante de qualquer processo de avaliação, então devem ser desenvolvidas abordagens de avaliação que ajudem os alunos a concretizar este feito (Faux, 2015). Embora a avaliação com recurso a material eletrónico se tenha tornado comum para a aprendizagem credenciada, é necessária uma ferramenta semelhante que forneça informações confiáveis, e medidas de avaliação para uma aprendizagem não formal. Os métodos tradicionais de avaliação são raramente apropriados para esta população, e muitas vezes não reconhecem que os alunos com NEE façam progressos de forma diferente (mesmo entre si), que podem incluir competências como o aumento da confiança ou da interação social. É provável que os métodos tradicionais de avaliação destaquem o que os alunos com necessidades especiais não conseguem fazer, em vez de salientar o que conseguem. Este facto não só é inútil no apoio ao desenvolvimento dos alunos, como também afeta negativamente as suas famílias, que necessitam de observar que estão a ser feitos progressos (Faux, 2015).
Dado o papel importante de avaliação nas necessidades educativas especiais, é essencial desenvolver formas adicionais de avaliação que capturem as conquistas e a consolidação de
competências em alunos sinalizados com dificuldades de aprendizagem, com autenticidade, objetividade e validade (Faux, 2015).
O recurso a tecnologias na avaliação não credenciada, não menos importante, está a ganhar cada vez mais impulso. Por exemplo, evidenciar a progressão é benéfico quer para funcionários como para alunos, dando indicações claras para futuras necessidades de desenvolvimento que podem ser facilmente compartilhadas com toda a equipa multidisciplinar, pais e entidades, mas ainda é necessária mais discussão em torno do desenvolvimento e implementação dessa avaliação (Faux, 2015).
Em 2011, foi realizada uma pesquisa pelo National Star College e a Escola de Eletrónica e Ciência da Computação, Universidade de Southampton, financiada pelo JISC - TechDis Service, no sentido de investigar formas de desenvolver um sistema de avaliação flexível e especializado. O objetivo da investigação foi avaliar objetivamente o desenvolvimento do aluno através de um período contínuo de avaliação, usando uma taxonomia da aprendizagem, onde os aspetos pedagógicos da implementação de tal ferramenta melhoram o desenvolvimento do aluno, informando sobre a progressão e realização do mesmo (Faux et al., 2012).
Os resultados da investigação demonstraram que a capacidade de o aluno ver o seu próprio progresso promoveu a confiança e a autoestima, bem como a possibilidade de mostrar o progresso do aluno aos pais e órgãos externos. Tal como acontece com o projeto Sounds of Intent, os sistemas necessitam de fornecer evidências de progresso contra uma escala pré- determinada de aquisições e manifestações comportamentais. O que os projetos InStep e Sounds of Intent destacam é a importância em medir-se os pequenos progressos, que anteriormente não foram medidos, e que são essenciais para a competência dos alunos, de forma a evidenciar o progresso dos mesmos (Faux, 2015).
Ambos os programas, InStep e Sounds of Intent, utilizam um contínuo de avaliação robusto, que reconhece o processo de desenvolvimento contínuo, etapas de gravação no desenvolvimento do aluno, onde a conquista é vista como um ponto de partida para um maior desenvolvimento, e ambos são baseados em domínios de aprendizagem.
Contudo, Faux (2015) alerta para a importância da confiabilidade das avaliações e para a diferença subjetiva na interpretação dos dados. A padronização pode ser realizada através de discussões de moderação, facilitando a negociação e o acordo sobre os julgamentos de avaliação, mas também os próprios alunos serem parte integrante de qualquer processo de
avaliação, fazendo julgamentos de valor sobre os seus próprios comportamentos e aprendizagens.
Quer o programa Instep como o Sounds of Intent oferecem abordagens estruturadas para melhorar o desenvolvimento da aprendizagem e uma aprendizagem verdadeiramente personalizada, onde as atividades de avaliação são uma parte integrante do processo de ensino e aprendizagem.