indígenas entre grafias
3. expressões de prestígio, a fala e a escrita
Até aqui procurei discorrer sobre os caminhos pelos quais os Xikrin foram apresentados aos grafismos dos kubẽ, dando destaque à presença dos missionários evangélicos e dos outros kubẽ que trabalham em suas escolas, no processo de aprendizagem de um conhecimento estrangeiro. Com atuações marcadas por finalidades específicas, cada um dos tipos de kubẽ priorizou o ensino dos grafismos de uma língua, português ou indígena, ambas reconhecidas pelos Xikrin como práticas fundamentais para a existência dessas alteridades.
A escrita recebe pouco uso entre os Xikrin, mesmo que as crianças a pratiquem diariamente nas escolas nos períodos letivos e que seja central nas relações com os kubẽ, que se esforçam e forçam para que ela seja indispensável. Ainda não há nenhum Xikrin capaz de elaborar documentos específicos, como projetos ou atas de reuniões que inundam as suas vidas – talvez alguns poucos saibam lê-los com certa desenvoltura. Os jovens responsáveis pelos cultos parecem conhecer bem os escritos da Bíblia, mas distinguir o que é leitura e o que é memorização, nas situações de oratória de jovens homens para um público composto de jovens e mulheres adultas, é uma tarefa que exigiria pesquisa mais atenta, o que lamentavelmente não realizei.
Além disso, como já comentei, saber ler e escrever são habilidades para os mais novos, por isso, são formas de expressão que vão sendo abandonadas ao longo da vida de uma pessoa. Aferir quem é ou não um conhecedor pode resultar em oscilações ao longo do tempo. Mas, por ser fundamental para formar as pessoas nessa fase da vida, a aquisição desse conhecimento é algo manifestado como um desejo, algo idealizado em falas que projetam futuros, uma vez que a escrita é sempre para crianças e jovens. Para posicionar os grafismos dos kubẽ nas relações xikrin, é preciso não esquecer que a escrita de nomes pessoais não deixa de ser feita com o amadurecimento dos corpos nem se restringe aos homens, como ocorre com os demais escritos, interrompidos assim que as meninas param de frequentar a escola.
Dando continuidade ao interesse por percorrer algumas das linhas traçadas pelos grafismos dos kubẽ, que se mostram nos usos xikrin e nas relações que elas afetam, neste capítulo, acionarei um outro elemento, a fala, para prosseguir o percurso. A proposta é trazer alguns casos em que os Xikrin colocam em comparação as escritas dos kubẽ ‒ da língua indígena e portuguesa ‒ e os seus modos próprios de fala, para, por meio desse
arranjo, observar a produtividade da ação no que ela ajuda a incluir novos aspectos aos grafismos estrangeiros e aos significados que lhes são concedidos pelos Xikrin. Os grafismos dos kubẽ continuam como mote central, contando, agora, com o contraponto da fala, nas situações em que foram movimentadas pelos próprios indígenas, dentro dessa disposição. As falas xikrin, ao manipularem a oralidade e a escrita, orientarão e organizarão a apresentação das informações, a fim de fazer ver outras nuances que compõem os escritos entre os indígenas.
Um primeiro contraste pode ser identificado na elaboração discursiva e prática que os Xikrin fazem ao separar o aprendizado da escrita dos seus significados, alocados em momentos diferentes e em lugares que se distinguem, como foi visto na seção anterior. São discursos indígenas que refletem sobre as suas falas e os grafismos dos kubẽ, e sobre como estes devem ser transmitidos e manipulados para adquirir sentido entre as crianças. É a fala de um adulto ou jovem xikrin que torna compreensível o que os kubẽ fazem em seus papéis, com os quais eles começam a tomar contato na escola, quando ainda são pequenos e pequenas. Pretendo, no que segue, privilegiar situações que envolvem expressões que refletem sobre a fala e a escrita como disputas e negociações, como técnicas a se mostrar ou a se esconder, a depender da posição que se ocupa em determinada relação. Esses são embates dos mais velhos, dos que já saíram da escola.
Quando os Xikrin justapõem a escrita dos kubẽ a suas falas, pode-se melhor apreender a atuação dos grafismos como meio de produção de diferenciação ou de identificação. A escrita, em certas situações, atua como um elemento que é acionado para aproximar ou afastar temporariamente pessoas e coletivos. Esse empenho comparativo elaborado pelos Xikrin também se destaca nos embates que eles travam com os kubẽ em negociações e reuniões, sendo, cada uma – fala e escrita–, acionada como instrumento de luta pelos diferentes lados do confronto. Como demonstrado no capítulo anterior, a escrita tem concedido algum prestígio aos jovens homens, aparecendo, ao lado das falas dos mais velhos, cada vez mais como um distintivo pessoal. O prestígio96 é, aliás, um valor que atravessa todas as situações anteriores, porque se trata de discursos indígenas que mobilizam um conhecimento estrangeiro, junto com reflexões sobre os seus modos de fala, para reforçar ou reposicionar relações. É necessário ter prestígio, ou estar almejando-
96 A palavra “prestígio” é usada como um qualificativo para pessoas que recebem – ou por transmissão ou
porque adquirem por diferentes meios – elementos materiais e imateriais, conferindo-lhes diferenciação. É o que singulariza a pessoa, característica fortemente relacionada com outro valor mẽbêngôkre, a beleza. Os dois adjetivos, prestígio e beleza, têm recebido atenção nos estudos desses povos, demonstrando a centralidade que ocupam para os mẽbêngôkre.
o ou arriscando-se por ele, para tomar a palavra e a iniciativa de circunscrever, publicamente, relações e coletivos.
Procurarei trazer, ainda, alguns apontamentos sobre as correspondências que existem entre fala e escrita, a partir de uma perspectiva xikrin, para tentar amarrar os exemplos anteriores e, novamente, criar uma imagem que saliente a posição que a escrita ocupa em suas vidas.
Quando se busca investigar a escrita entre povos que não desenvolveram uma escrita alfabética é comum que uma comparação com a oralidade seja estabelecida, de modo a mostrar as dinâmicas nas quais elas se comunicam ou no que se diferenciam. Devo notar que a articulação entre fala e grafismos dos kubẽ, provavelmente, não seja a principal ação que os Xikrin procedam para conceder significados aos últimos, mas é, certamente, uma delas. E ela nos permite observar melhor algumas posições e relações que se dão entre os Xikrin e aquelas que envolvem os Xikrin e a alteridade – os não indígenas, os outros subgrupos mẽbêngôkre ou até mesmo as distinções criadas temporariamente entre os moradores das aldeias na Trincheira-Bacajá. Por isso, é interessante trazê-la para a discussão, com a ressalva de que o contraponto entre fala e escrita não esgota as possibilidades de manejo dos grafismos dos kubẽ, da maneira como é feito pelos Xikrin. O próximo capítulo será importante para demostrar essa afirmação, quando a condição material da escrita, a sua existência como objeto, será a questão em debate.
***
Alguns esclarecimentos precisam ser feitos. O primeiro é, na verdade, um lembrete. Continuando com a proposta da tese, não irei me atentar para os conteúdos dos escritos; meu olhar se dirige para os efeitos provocados pelas expressões. Nessa disposição, as situações de uso da fala e da escrita serão privilegiadas, assim como o comando discursivo que os Xikrin executam para evidenciar encontros entre elas, que podem ser de embates, disputas ou de (des)ajustes momentâneos de relações. O discurso xikrin ao qual me refiro é a fala dos homens, mais novos ou mais velhos. A escolha por focar nas falas masculinas, dentro de tantas possibilidades de falas a que a escrita poderia ser aproximada, justifica-se pelo fato de que é com esse tipo de fala que os grafismos dos kubẽ foram colocados pelos Xikrin para comunicar e negociar. É nessa posição que eles estabelecem ligações, logo, é esse o emaranhado que permite melhor observar o campo
que pretende se dedicar a tal tipo de junção. O que será abordado da escrita diz respeito ao que é produzido pelos jovens homens nos diferentes cursos que participam sob a orientação dos kubẽ, podendo ser em português ou na língua mẽbêngôkre. Sinalizo, ainda, que os Xikrin só escrevem quando há uma demanda para isso, não fazendo parte das relações que não alcançam os kubẽ.
Considerando isso, não vou me debruçar sobre o processo de aprendizagem da escrita pelas crianças na escola, porque, como expus anteriormente, nesse espaço os estudantes aprendem sobre os grafismos, não sobre os significados das palavras, ou seja, o seu entendimento e uso oral. Fala e escrita não são postas em negociação aqui, pois o silêncio é mais valorizado nessas relações. Na escola, a fala deve ter uma expressão reduzida, tanto por parte dos professores, que precisam escrever mais e falar menos, quanto pelas crianças, que são duramente repreendidas pelos próprios Xikrin quando desviam o comportamento de silêncio. Essas situações foram observadas, por exemplo, em salas onde os professores eram não indígenas e as mulheres adultas, indo para as roças, faziam rápidas aparições do lado de fora das janelas da escola e cobravam mais atenção nas atividades. Eram intervenções espontâneas que geravam os efeitos de mudar as posturas das crianças, as quais, com as cabeças baixas, voltavam a escrever nos seus cadernos, e também dos professores, que, sem entender o que estava sendo falado e com a rispidez da pronúncia verbal, acabavam modificando as maneiras de conversar com os estudantes, nem sempre tão amistosas.
Espiar rapidamente as aulas é um comum nas escolas xikrin. As mesmas janelas também são brechas utilizadas por jovens homens nas aldeias para ajudar os estudantes a fazer as atividades escolares. Esporadicamente, eles aparecem, olham o que está sendo pedido e dão as respostas aos que não compreendem o que é para ser feito. Os jovens, como já foi notado em trabalho anterior (Cohn, 2000, p. 116), sempre se colocaram como indispensáveis para o funcionamento das escolas na TITB, ao atuar como mediadores entre os professores não indígenas e as crianças durante as aulas, fazendo traduções necessárias para o andamento e a execução das atividades. A mediação, no entanto, é mais ampla do que isso. É entre os conhecimentos dos kubẽ e dos Xikrin, por isso, não se limita ao espaço da escola, já que os jovens podem ensinar em suas casas os significados das palavras em português, o que não deixa de ser uma contribuição ao trabalho dessa instituição. Com os professores xikrin em sala de aula, parece haver uma relação de respeito, pia´àm, por serem mais velhos (Cohn, 2000, p. 76), por conta disso, as crianças
tendem a ficar mais quietas, sem a necessidade de muitas recriminações97. Na escola, a cópia dos grafismos para o aprendizado é vista como importante pelos Xikrin. Esse aprendizado extrapola os papéis e vai parar nas paredes, portas e janelas de sua estrutura física, numa manipulação livre das orientações dos professores.
No que se refere ao recorte analítico, devo esclarecer que, ao trazer as falas masculinas, não pretendo diminuir a importância das falas das mulheres, que, assim como a dos homens, podem ser públicas, como demonstrado por Lea (1986, 2004 e 2007), rompendo com o pressuposto anterior que delimitava às mulheres ao que era identificado com esfera doméstica, submetida, numa relação de assimetria, ao espaço público e político dos homens (Turner, 1979). O choro das mulheres adultas, tomados como rituais ou cerimônias de lamentação, é expressão de uma oratória pública feminina, correspondente à oratória masculina (Lea, 1986, p. 246 e 1994, p.112). Ele congrega um importante conjunto de conhecimentos específicos, que são acionados não somente quando um parente morre, ou quando vem à memória as lembranças dos que não estão vivos, mas também quando um parente parte em viagem, permanecendo por muito tempo longe, ou quando retorna de uma condição de ausência. Em suas lamúrias, as mulheres versam sobre as lembranças e as saudades que carregam dos que estão distantes. Falam de outros para falarem de si, de seus próprios sentimentos (Lea, 2007, p.26). Esse tipo de oratória se manifesta por meio de um vocabulário particular, o que sugere, segundo Lea (2004, p.115), um domínio reduzido por parte dos homens e das crianças do que está sendo dito. Não apenas as palavras fogem do uso corriqueiro, mas também a forma como são ditas: um tom em falsete é articulado pelas mulheres nessas ocasiões. Além disso, as lamentações exigem certa postura corporal e autoflagelação, como quedas subsequentes
97 Ouvi algumas crianças menores utilizando termos de parentesco para chamar o professor indígena. A
palavra era em português, seguida de um apelido: vovô Koka. As aulas estavam ocorrendo na língua indígena e as crianças pareciam mais à vontade na relação com o professor e com os ensinamentos que transmitia. Os avós são os responsáveis por ensinar várias coisas para seus netos e netas, além de sempre demonstrarem muita afetuosidade nestas interações. A tradução do termo de parentesco também é usada largamente em outras situações na aldeia, não sendo restrita ao espaço escolar. Outros termos são, corriqueiramente, ditos em português, como papai e mamãe. Na língua indígena, os correspondentes para os vocativos são ngêtê (vovô), tuia (vovó), djunuwa (papai) e nhiruwa (mamãe). Coloco esta nota para indicar que o início dos trabalhos dos Xikrin como professores produz alterações em diversos níveis das relações que ocorrem na escola. Elas não se resumem somente em mudanças na perspectiva pedagógica, importante por sinal, uma vez que é a atuação de professores indígenas que possibilitam a efetivação do que os kubẽ costumam chamar de “interculturalidade curricular”, ideia que deveria ser problematizada para cada caso em particular. Na minha impressão, o quesito pedagógico é um ponto que os Xikrin ainda demonstram pouca vontade de modificar, sendo, por isso, mais interessante, atentar-se para outras tantas relações que o ambiente escolar proporciona na vida das pessoas. E, para finalizar, esclareço sobre o uso de outros vocativos na escola: os professores não indígenas são chamados pelos estudantes por seus nomes pessoais, e vice-versa.
no chão ou cortes na cabeça com um facão, formando uma dramática cena que pode mobilizar outras mulheres que estão por perto. Quando o choro é pelo trânsito de parentes, os envolvidos são dois, a mulher e a pessoa a quem ela se dirige. Vale dizer, ainda, que são as mulheres mais velhas as que realizam com maior frequência esses rituais (Lea, 1986).
Em minhas estadias entre os Xikrin, não observei o choro ritual das mulheres com a impressionante e contagiante comoção que produz, da forma como descrito por Vanessa Lea. Ela mesma explicou que alguns de seus elementos, como a autoflagelação, têm sido reprimidos pelos homens Mẽtyktire (Lea, 2004 e 2007). Como nunca presenciei um enterro na aldeia, quando essas manifestações são mais enérgicas, a minha visão sobre o ritual feminino é reduzida, salvo pelas chegadas e partidas de parentes, sempre constantes. Nesses momentos, o choro das mulheres, que, por vezes, flui como um canto triste de que nada se entende, são sons ecoados nos caminhos, como se quisessem, pela sua posição no espaço, indicar trânsitos; ele também paralisa, por alguns minutos, a mulher e a pessoa a quem o choro se destina.
Contudo, não somente esses rituais formam o conjunto de falas públicas das mulheres. Em tempos recentes, as vozes delas têm ganhado o espaço do ngà e de outras reuniões com os kubẽ (Mantovanelli, 2016b e Tselouiko, 2018a e 2018b), embora seus pronunciamentos aconteçam em situações pontuais e não sejam tão recorrentes como os dos homens. Assim, as falas públicas das mulheres, não como um choro ritual, são ainda um pouco acanhadas, algo que vem sendo organizado no sentido de deixá-las cada vez mais fortes. As mulheres almejam a criação de espaços deliberativos sobre assuntos que envolvem as relações com os kubẽ exclusivos para elas, portanto, espaços de falas públicas e negociações, como é expresso na vontade de ter uma associação e projetos só das mulheres.
A curiosidade das mulheres pelas reuniões e conversas no ngà, entre Xikrin e kubẽ, está longe de ser novidade e aparece, por exemplo, na etnografia de Gordon (2006, p. 207), ao descrever que, no Cateté, as mulheres não costumam participar das reuniões, porém, eventualmente, acercam-se do ngàbê, junto com suas crianças, para observar o que se passa. O interesse delas, de acordo com o autor, não se manifesta em expressões orais durante as reuniões que são acompanhados mais de perto, pois não há nenhuma menção a suas falas. Vidal (1977, p.166) já havia notado que as mulheres no Cateté jamais falavam em público na ocasião de suas pesquisas. Trazendo uma informação um pouco diferente, Lea (1994, p.99) diz que as mulheres velhas Mẽtyktire, por serem consideradas
tão sábias quanto os homens velhos e por deterem o mesmo prestígio, podem falar em reuniões no ngà.
Já em outras aldeias kayapó, as mulheres começam a ocupar, surpreendentemente, o papel de lideranças (Passos, 2018, p. 126), ao lado de homens, pois a função costuma ser repartida por pelos menos duas pessoas em cada aldeia. Em A’ukre, onde há três lideranças, uma delas é uma mulher, que, entre outros afazeres, comanda uma turma de homens em trabalhos coletivos, como assim fazem as pessoas que estão nessa posição. Ela, porém, diferente dos homens, não permanece o mesmo tempo que eles no ngà, mas se desloca para lá para discutir assuntos importantes (Passos, 2018). Sua presença em conversas para discutir “assuntos importantes” sugere que ela toma a palavra nessas ocasiões, palavra que se dirige a um público masculino que ocupa o centro da aldeia.
Em minhas passagens pelas aldeias, vi que, quando há curiosidade pelas reuniões que ocorrem durante o dia no ngà, podendo envolver os kubẽ além dos homens xikrin, as mulheres sentam ao lado de suas casas para ouvir e compreender o que é discutido, explicando o interesse por meio da expressão kabẽn mari. Não ficam no pátio, ou próximas do ngà, pois este é um lugar onde não se permanece durante o dia, em qualquer circunstância, sendo ocupado apenas à noite. Em uma única ocasião, vi uma mulher entrar no ngà no meio de uma reunião, ocupar a palavra e, ao finalizar, deixar o local. Isso foi durante as conversas sobre o PPP das escolas xikrin; a mulher em questão argumentou no sentido de querer exercer o cargo de merendeira da escola, o que não lhe foi concedido, tendo sido atribuído a um jovem homem. É relevante dizer que essa mulher, Ngrenhgri, embora tenha feito sua fala na língua indígena, como todos os demais ali presentes, é uma boa conhecedora do português, algo que não é tão comum entre as mulheres xikrin e que mostra que ela tem um bom conhecimento dos assuntos dos kubẽ. Aliás, ela era a liderança das mulheres, pois seu marido, naquele momento, era uma das lideranças da aldeia Bacajá, local onde acontecia a reunião. Por tudo isso, o evento pode ser considerado extraordinário.
A participação de mulheres em reuniões no ngà, junto com os homens, também pode ocorrer quando há demanda pela presença delas por parte dos kubẽ que organizam o encontro. Ainda dentro do conjunto de conversas organizadas nas aldeias para a discussão do PPP, o que presenciei, num cenário que congregou homens e mulheres para discutir a escola, foram falas de mulheres feitas em português, em aldeias em que as pessoas falam correntemente, mas não exclusivamente, esse idioma, como os casos de
Pykajakà e Kamôktikô98. As conversas se desenrolaram nessa língua o tempo todo, com exceção das falas dos velhos. As mulheres que falaram não foram mais do que duas ou três por aldeia, reproduzindo a forma de fala dos homens, na qual nem todos se manifestam. Não consegui perceber um critério de idade ou de quantidade de filhos/as exercer influência em suas falas, como se verifica entre os homens. O que me pareceu ter um peso nas participações foi o maior conhecimento da língua portuguesa pelas mulheres e a forma como usam a língua em outras situações de comunicação com os kubẽ, sem constrangimentos e cautelas, como é comum entre as mulheres xikrin.
Buscando por outras manifestações de falas de mulheres xikrin em reuniões, o trabalho de Mantovanelli (2016b) traz informações sobre a questão a partir do relato da assembleia final do projeto Mẽnire, desenvolvido em 2015. O projeto – o primeiro das