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CAPÍTULO 1- DE ESTADO DE COISAS À POLÍTICA PÚBLICA: A TRAJETÓRIA DA

1.1. b.c Expressões do Trabalho Escravo no Brasil e no mundo

Feitas as ponderações acerca da tipificação passo agora a demonstrar evidências de modo como os crimes se expressam na contemporaneidade. Em diversos países em todo o mundo existem casos de trabalho escravo e tráfico de pessoas revelados. Seja por estudos, pesquisas e pela mídia. Entretanto, os dados globais sobre esses crimes ainda são parcos e as metodologias utilizadas por organismos internacionais, como a OIT, o Escritório das Nações Unidas sobre drogas e o crime

46 organizado (sigla em inglês: UNODC), ONGs locais e governos ainda divergem, o que impede uma visão global e translúcida da manifestação desses fenômenos, em todo o mundo.

Os organismos das Nações Unidas trabalham na perspectiva que o tráfico de pessoas, em todas as suas formas, aí inclui-se o trabalho escravo, é a terceira modalidade de crime transnacional mais lucrativa do mundo, perdendo apenas para o tráfico de armas e de drogas. Em âmbito global as mulheres e meninas constituem a maioria das vítimas identificadas e internacionalmente a exploração sexual é apontada como a finalidade mais comum do tráfico de pessoas (UNODC, 2013, p.03).

A dificuldade em quantificar os casos está na própria natureza desses crimes. Eles ocorrem na marginalidade e a exploração de pessoas, diferentemente do tráfico de drogas e de armas pode não deixar rastros e nem ser dotada de prova material. Se a vítima não quiser comunicar as autoridades, por exemplo, o caso não será quantificado.

Para atender as diretrizes da Lei de Proteção às Vítimas do Tráfico de Pessoas, desde 2000, o governo dos Estados Unidos elabora anualmente o Trafficking in Persons Report (TIP) (em livre tradução: Relatório sobre Tráfico de Pessoas) que contém informações sobre o Tráfico de Pessoas em mais de 180 países em todo o mundo (UNITED STATE, 2012, p.32).

As informações contidas no TIP demonstram que escravidão contemporânea não é uma peculiaridade de países subdesenvolvidos ou com sistemas não democráticos. Países europeus, como França, Portugal e Espanha e o próprio Estados Unidos são considerados rotas finais e de passagem do tráfico internacional de pessoas para fins de exploração sexual. A França, por exemplo, tem apresentado altos índices de escravidão doméstica, em que mulheres e meninas são traficadas de países do Leste Europeu e forçadas a exercer trabalhos domésticos involuntários em residências francesas. Segundo o TIP um grande número de mulheres e crianças brasileiras, muitas delas do Estado de Goiás, encontram-se em situação de prostituição forçada no exterior. Os principais países de destino são: Espanha, Itália, Portugal, Reino Unido, Holanda, Suíça, França, Alemanha, Estados Unidos e Japão.

Números divulgados no relatório norte-americano estimam que, de modo geral, 12,3 milhões de adultos e crianças estariam em situação de trabalho forçado e prostituição forçada, o governo norte-americano supõe que esta prática gere, em todo o mundo, um lucro de 32 bilhões de dólares por ano (UNITED STATE, 2012, p.33).

Os estudos produzidos pela OIT nos diversos países em que mantém escritórios são responsáveis pela maior parte do conhecimento produzido sobre o trabalho escravo no mundo.

47 Segundo levantamentos feitos pela OIT (2010, p.16) a América Latina seria a segunda região com maior número de trabalho escravo no mundo. As estimativas indicam que nessa localidade há pelo menos 1.320.000 pessoas submetidas a essa condição. As dimensões do problema seriam superiores somente na região da Ásia, onde 9,5 milhões de trabalhadores estariam em situações que podem configurar-se como formas de escravidão contemporânea.

No Peru, por exemplo, a OIT encontrou indicativos que a população indígena é a mais submetida ao trabalho escravo. O problema estaria relacionado, principalmente, ao comércio da exploração de madeiras na região da Amazônia peruana. Estima-se que existam cerca de 20 mil índios peruanos em situação de trabalho escravo. Segundo informações da OIT, o problema no Peru chegou ao tal ponto que os aliciadores aprisionam famílias inteiras de índios para forçá-los a trabalharem, em períodos que duram de seis meses a um ano (OIT, 2010, p.21).

Na Bolívia, a OIT também observou indícios que a população indígena é a mais prejudicada. O trabalho escravo ocorre principalmente na agricultura canavieira e faz com que os índios cumpram jornadas diárias de trabalho exaustivo. Além da gravidade do problema interno, a Bolívia seria o país que mais exporta trabalhadores escravos para a América Latina; esses trabalhadores migram a procura de melhores condições de vida e trabalho, mas acabam submetidos ao trabalho forçado em países como o Brasil e a Argentina (OIT, 2010, p.21).

No Brasil, ainda que a magnitude da questão social não esteja plenamente conhecida. Existem casos conhecidos que indicam que a situação é complexa, manifestando-se em três dimensões, quais sejam: tráfico interno e o tráfico internacional: ocorrendo nos dois sentidos, exportando e importando vítimas.

No que condizem as finalidades desse tráfico internacional, existem diversas modalidades reveladas, sendo as mais comuns para fins de trabalho escravo e a exploração sexual.

Quanto ao tráfico internacional envolvendo brasileiros e brasileiras, o maior número casos identificados são de exploração sexual, seguidos do trabalho escravo. Um diagnóstico lançado em fevereiro de 2013, realizado pelo UNODC em parceria com o Ministério da Justiça, revelou que entre os anos de 2005 e 2011 (período analisado na pesquisa) 475 vítimas foram identificadas pelo Ministério das Relações Exteriores em seus consulados e embaixadas. Dessas, 337 sofreram exploração sexual e 135 foram submetidas ao trabalho escravo. Os países de maior incidência foram: Suriname, Suíça, Espanha e Holanda. No Suriname foi registrado o maior número de vítimas, 133 (cento e trinta e três), seguido da Suíça com 127 (cento e vinte e sete), da Espanha com 104 (cento e quatro) e da Holanda, com 71 (setenta e um casos) (UNODC, 2013, p. 33-35).

48 Os números do diagnóstico ainda indicam que, nos seis anos analisados, foram instaurados o total de 514 inquéritos pela Polícia Federal, dos quais 13 de tráfico interno de pessoas e 344 de trabalho escravo. Quanto às prisões e indiciamentos, a pesquisa demonstrou que no período analisado, 381 pessoas foram indiciadas por tráfico internacional de pessoas pela Polícia Federal e somente 158 foram presas. Sendo possível perceber que menos da metade dos crimes levou os perpetradores à punição (UNODC, 2013, p. 36).

Diversas pesquisas feitas pela OIT, apontam que a escravidão contemporânea no país não está ligada a grupos étnicos específicos como no em outros países da América Latina, mas sim à pobreza e afetando principalmente o trabalhador em meio rural (OIT, 2010 e 2011).

A OIT aponta que o trabalho escravo no Brasil é majoritariamente facilitado pelo distanciamento de trabalhadores de suas redes de proteção primária, por meio de falsas promessas de emprego, feitas por um aliciador (o gato) a jovens, que embarcam em meios de transporte precários em busca do sonho de conseguir um bom trabalho e melhorar suas vidas e de suas famílias. Suas forças de trabalho são aproveitadas em serviços pesados, onde se estabelece uma relação não contratual de trabalho, em que se cria um sistema no qual os trabalhadores devem custear os gastos com a viagem, acomodação, alimentação e com instrumentos utilizados na própria atividade laboral e, para pagar suas dívidas, são submetidos a jornadas exaustivas, coagidos e, em muitos casos, impedidos de abandonar o local do trabalho. Essa prática é conhecida como servidão por dívida, ou seja:

o estado ou a condição resultante do fato de que um devedor se haja comprometido a fornecer, em garantia de uma dívida, seus serviços pessoais ou os de alguém sobre o qual tenha autoridade, se o valor desses serviços não for equitativamente avaliado no ato da liquidação da dívida ou se a duração desses serviços não for limitada nem sua natureza definida (BRASIL, 2011, p.19).

Há evidências de trabalho escravo em todos os estados brasileiros, entretanto, a localidade mais prejudicada é a região da fronteira agrícola amazônica. O maior número de trabalhadores são oriundos das regiões norte e nordeste do país. O estado em que a questão do trabalho escravo é mais crítica é o Pará e as localidades nas quais há um maior índice de aliciamento de trabalhadores são: Maranhão, Piauí, e Tocantins. As atividades de maior incidência são ligadas à pecuária, ás lavoras de algodão, milho, soja, arroz, feijão, café, extração do látex e de madeira, à criação de porcos e à produção de carvão (OIT, 2010, p. 33 e 108).

Na prática, a identificação do trabalho escravo interno no Brasil tem conseguido ser revelado devido as operações de fiscalização do trabalho que são realizadas pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel (Grupo Móvel) do MTE, nessas operações tem se conseguido atingir

49 localidades rurais de difícil acesso. Segundo dados do Quadro Geral das Operações de Fiscalização para a Erradicação do Trabalho Escravo, da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), no período de 1995 (quando começaram as ações de repressão ao trabalho escravo no Brasil) à 2011, 41.755 pessoas estiveram submetidas ao trabalho escravo interno no Brasil (ver gráfico 01, no Capítulo 05).

Após a explanação sobre o que é o trabalho escravo contemporâneo e das peculiaridades de sua manifestação no país e no mundo, discorro, na sessão seguinte, sobre os principais fatos da história da luta pela visibilidade da questão no Brasil e pela construção de políticas públicas voltadas à sua superação.

1.2- A LUTA PELA FORMAÇÃO DE UMA POLÍTICA NACIONAL

PARA A ERRADICAÇÃO DO TRABALHO ESCRAVO.

Queiramos ou não, prejudicando ou não a imagem do Brasil no exterior, afetando ou não o superávit das exportações, atingindo ou não os interesses econômicos da cadeia produtiva escravocrata, para podermos abolir de vez esta vergonha temos de, em primeiro lugar, admiti-la (KAIPER, 2008, p. 160).

Para se compreender o processo de construção de políticas públicas voltadas ao enfrentamento do trabalho escravo no Brasil, é preciso lembrar que, apesar deste país ter restabelecido o seu processo democrático, a formulação de suas políticas sociais ainda se dá em um campo de desigualdades, no qual é tangível a baixa capacidade do Estado em conviver com demandas advindas de formas diferenciadas daquelas tradicionais, determinando formas plurais de representação de interesses (LOBATO, 2006, p.289).

Deste modo, os atores que alcançam maior nível de organização e penetração política, conseguem fazer com que seus interesses sejam mais bem representados. A consequência da baixa capacidade de governos em ampliar os espaços democráticos é que, nem sempre grupos historicamente excluídos conseguem representar seus interesses, com isso, suas demandas não são compreendidas, tampouco consideradas no momento em que governos tomam suas decisões. Como será abordado adiante, essa característica do Estado brasileiro foi determinante para que o trabalho escravo permanecesse, por muitos anos, fora de sua agenda e a mobilização entidades

50 não-governamentais foi essencial para dar visibilidade a esta questão e tirá-la de um estado profundo de inobservância social.