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114«d) Expressões que desrespeitem ou se aproximem ilegitimamente de símbolos

No documento Direito Comercial - Menezes Cordeiro.pdf (páginas 115-117)

nacionais, personalidades, épocas ou instituições cujo nome ou significado seja de salvaguardar por razões históricas, patrióticas, científicas, institucionais, culturais ou outras atendíveis».

A alínea b) do artigo 32.º, n.º4 RNPC reporta-se ao que, no Direito Civil, se diria: contrário à lei, aos bons costumes e à ordem pública. A moral deve ser aproximada dos bons costumes em sentido técnico, enquanto bons costumes têm a ver com a ordem pública. Quando muito, poderíamos retirar da alínea c) e jogo que os bons costumes e a ordem pública, a ter em conta na composição da firma, são mais rigorosos do que os que se jogarão na generalidade dos negócios jurídicos. Uma firma é publicitada e está patente a todos, incluindo menores: bem fica, ao Direito Privado, defendê-los. A alínea c) reporta-se a liberdade de opção política, religiosa ou deológica. Parece-nos que se deve ir mais longe: não são admissíveis firmas que contundam com valores constitucionais básicos ou cuja existência, só por si, ponha em crise direitos fundamentais. Pense-se em firmas racistas ou em firmas destinadas, objetivamente, a prejudicar ou a atingir alguém. A alínea d) funciona como cláusula geral de bom senso e de bom gosto. Sendo um ato de autonomia privada, a escolha de uma firma tem, após determinada tramitação, eficácia erga omnes. Há, pois, que respeitar os valores histórico-culturais, particularmente os ligados à Nação cujo Direito esteja em jogo.

Obrigatoriedade e normalização

: o princípio da obrigatoriedade decorre, desde logo,, do artigo 18.º, n.º1: os comerciantes são especialmente obrigados a adotar uma firma. O RNPC não prescreve, expressamente, a obrigatoriedade de adoção de firma: mas ela resulta, entre outros, dos seguintes preceitos:

 Da sujeição a inscrição dos factos referidos os artigos 6.º a 10.º, factos esses que, direta ou indiretamente, incluem a firma;

 Da cominação de coimas a quem não cumpra «a obrigação de inscrição no FCPC» ou não faça «nos prazos ou nas condições fixadas no presente diploma» - artigo 75.º, n.º1, alínea b) RNPC;

 Da necessidade de exibição do certificado de admissibilidade da firma para realizar diversos atos de registo comercial – artigo 56.º RNPC – atos esses cuja inscrição é obrigatória – artigo 15.º CRC.

O incumprimento desta obrigação não envolve, só por si, a invalidade dos atos comerciais que venham a ser praticados pelo faltoso: vigora, como base, o princípio da correspondência entre a capacidade civil e a comercial – artigo 7.º. Tal invalidade só ocorre quando a lei o diga. Todavia, o comerciante que não adote firma sujeita-se a uma cascata de efeitos secundários nocivos, designadamente por se lhe fecharem as portas do registo comercial. Além da obrigatória, a firma deve obedecer a certos ditames que a tornem reconhecível como firma. Desde logo, a firma deve ter uma expressão verbal, suscetível de comunicação oral e escrita: não podem ser adotados sinais, desenhos ou outras figurações. De seguida, a firma deve surgir em caracteres latinos. Tratando-se de uma firma de fantasia, podemos admitir que ela assuma siglas, letras ou números, dentro dos limites da seriedade e da ordem pública. Em compensação, entendemos que a firma, quando tenha algum significado, deve assumir em língua portuguesa correta:

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 Nos atos notariais, deve usar-se, igualmente, a língua portuguesa: artigo 58.º CN;

 As informações ao consumidor devem ser prestadas em português: artigo 7.º, n.º3 LDC;

 Os contratos que tenham por objeto a venda de bens ou produtos ou a prestação de serviços no mercado interno, bem como a emissão de faturas ou recibos, devem ser redigidas em língua portuguesa: artigo 3.º DL n.º 238/86, 19 agosto;

 A indicação da sociedade deve ser corretamente redigida em língua portuguesa – artigo 11.º, n.º1 CSC.

De todos estes preceitos podemos retirar uma regra geral que funcionará, também, perante o RNPC.

Os comerciantes pessoas singulares

: a normalização das firmas leva, depois, a prescrever regras próprias para as diversas categorias de comerciantes. As firmas das sociedades comerciais têm um tratamento autónomo – artigo 37.º, n.º1 RNPC. Pertente, hoje, ao Direito das Sociedades Comerciais. Cumpre analisar a firma dos comerciantes pessoas singulares. Segundo o artigo 38.º RNPC:

«1. O comerciante individual deve adotar uma só firma, composta pelo seu nome, completo ou abreviado, conforme seja necessário para identificação da pessoa, podendo aditar-lhe alcunha ou expressão alusiva à atividade exercida».

Como se vê, o núcleo da firma do comerciante em nome individual deve ser composto pelo seu nome, completo ou abreviado. A lei permite que, ao núcleo da firma do comerciante pessoa singular – portanto e pela lei vigente: firma necessariamente pessoal ou sujeita –, seja aditada alcunha ou expressão alusiva à atividade – artigo 38.º, n.º1, in fine. Também pela lei positiva, a lei – artigo 38.º, n.º2 – permite que, ao núcleo da firma, seja somada a indicação sucessor de ou herdeiro de e a firma do estabelecimento que tenha adquirido. Desta feita, pela negativa - «não pode… salvo» - o artigo 38.º, n.º3 permite que o comerciante faça anteceder o seu nome por expressões ou siglas correspondentes a títulos académicos, profissionais, nobiliárquicos a que tenha direito. Em qualquer dos casos, a lei impõe que se trate de títulos legítimos. A legitimidade deve ser provada pelos requerentes – artigo 49.º, n.º1 RNPC – devendo os competentes elementos serem-lhe oficiosamente solicitados, quando não o tenham feito – artigo 49.º, n.º2 RNPC. No tocante a títulos, a pertinência resulta de certidões emitidas pela universidade respetiva; quanto a profissões, de certidão ou atestado produzido pela câmara, pela ordem ou por entidade com competência para a passagem de carteiras profissionais; quanto a títulos nobiliárquicos, de atestado elaborado e autenticado pelo Instituo da Nobreza; trata-se de uma ocorrência que em nada prejudica a natureza republicana do Estado, uma vez que o título nobiliárquico equivale hoje, apenas, a uma designação semelhante ao nome. Numa disposição paralela, mando o artigo 33.º, n.º4 que a incorporação, na firma, de sinais distintivos registados de prova do seu uso legítimo. O artigo 38.º, n.º4 RNPC vem dispor sobre o âmbito de tutela da firma dos comerciantes em nome individual.

A verdade e a exclusividade

: a firma deve retratar a realidade a que se reporte; ou, pelo menos: não deve transmitir algo que lhe não corresponda. Surge aqui, em formulações positiva e negativa, o princípio da verdade. A lei admite firmas de fantasia. Quando isso suceda, da

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