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2.2 EXPRESSIVIDADE ORAL

2.2.2 Expressividade oral e a sensação do ouvinte sobre o

Se a produção natural da voz denuncia características sobre a identidade do falante e se este é capaz de gerar ajustes, conscientes ou inconscientes, de forma a produzir efeitos que expressem os mais íntimos sentimentos, emoções e atitudes deliberados pela natureza ou por sua intenção, mas também são transformados pela interação entre os interlocutores, pelo contexto e por outras variáveis de ordem sociolingüísticas, essa transformação da voz pode ser potencializada no uso profissional. Por conseqüência, ouvintes podem identificar diferentes profissões e julgar se estão ou não de acordo com o estereótipo esperado/construído, aceitando ou rejeitando o profissional.

PITTAM (1994), ao discorrer sobre a comunicação vocal da identidade nas ocupações, levanta vários estudos que mostram que a primeira impressão é bastante importante na caracterização das mesmas, principalmente quando a

voz é a chave da resolução dos negócios. Existe relação entre um alto status profissional e a produção vocal em muitas profissões, caracterizadas pelo uso público e freqüente da voz; existem tipos de voz usados e, portanto, esperados como estereótipos. Os profissionais da voz necessitam de ajustes em qualidade e dinâmica da voz específicos para, não apenas caracterizá-los como tal, mas tornar sua comunicação agradável ao interlocutor, que tem cultural e socialmente um estereótipo formado desse profissional (PITTAM, 1994; BARROS FILHO, 2005).

Não se vai discutir aqui se o melhor seria nomear tal fenômeno como gênero ou estilo, estética da voz ou performance, mas sim partir do pressuposto de que existe um padrão esperado ou desejado para cada profissão, ou pelo menos para algumas profissões intimamente dependentes do uso da voz.

BEHLAU (2001, p.10) refere que existem vozes preferidas para cada profissão e que essas dizem respeito às condições de saúde vocal e, mais ainda, ao uso funcional dessa, o que inclui as “opções, feitas pelo indivíduo, de

parâmetros respiratórios, vocais, articulatórios, psicodinâmicos e

comportamentais, de acordo com sua profissão e a necessidade de inserção na sociedade em que ele vive”.

Pesquisas recentes demonstram o como locutores (CAVALCANTI, 2000; DINIZ, 2002; MEDRADO, 2002; BORREGO et al., 2004), professores (DRAGONE, 2000; SERVILHA, 2000; ARRUDA, 2003) e políticos (PANICO, 2001; SANTOS, 2006) utilizam a expressividade durante o desempenho de seus papéis profissionais e são reconhecidos dentro de suas categorias profissionais pela forma como utilizam a qualidade e ajustam a dinâmica vocal.

A expressividade oral não está apenas correlacionada ao contexto social ou ao tipo de profissão desempenhada, mas para cada situação comunicativa profissional há um estilo específico, cujas características vocais são utilizadas de modo diferente, dentro de um padrão próprio que é, inclusive, esperado pelo ouvinte.

No que se refere à locução de telejornal, CAVALCANTI (2000) destaca a utilização diferente de parâmetros vocais de acordo com o texto interpretado e sua intenção. Ao submeter trechos de locução ao julgamento de 100 ouvintes, constatou que esses conseguem diferenciar quando a intenção do locutor é

transmitir uma notícia triste e quando seu objetivo é noticiar um fato alegre. Influenciaram nessa análise as seguintes características da análise fonético- acústica: os contornos descendentes da freqüência fundamental para a identificação da intenção de tristeza; e os contornos ascendentes contribuindo para a percepção de alegria.

Ao estudar os padrões de locução publicitária, DINIZ (2002) analisa diferentes recursos fônicos utilizados por locutores comerciais e alunos do curso de locução, com o intuito de persuasão em propagandas. Um grupo de ouvintes realizou a análise perceptivo-auditiva e identificou os locutores profissionais de maior persuasão, aqueles cujas vozes apresentavam as seguintes características: variação da entoação ascendente-descendente, pausas bem marcadas, aumento da freqüência fundamental, prolongamento como recurso de ênfase e duração de segmentos.

Ainda sobre locutores publicitários, MEDRADO (2002) submeteu trechos de fala de locutores profissionais e não profissionais à análise perceptivo- auditiva de 40 ouvintes leigos em locução comercial, e constatou que a maioria dos falantes foi identificada dentro de sua habilidade ou não para a locução. A autora mostrou que o ouvinte, mesmo não sendo profissional da área, tem um padrão pré-estabelecido sobre o que é uma locução comercial e que os recursos comunicativos, quando produzidos de acordo, podem ser determinantes da identificação de um profissional por parte do ouvinte. A mesma autora demonstra, ainda, que as diferenças principais entre textos interpretados por locutores e não-locutores estão expressas nas escolhas de ajustes vocais para pausas e freqüência média.

Leituras de locutores de rádio, pré e pós-treinamento, foram analisadas por ouvintes leigos e fonoaudiólogos no trabalho de BORREGO et al. (2004). As autoras observaram que leigos e fonoaudiólogos destacam parâmetros diferentes para relacionar a uma boa locução, mas ambos os grupos de ouvintes conseguem distinguir os profissionais avaliados após o treinamento.

Entre professores, DRAGONE (2000), em entrevistas com esses profissionais, faz referência que eles próprios assumem usar conscientemente variações no comportamento vocal, a saber: intensidade, entoação, freqüência, ritmo, ressonância e articulação, sendo o primeiro (intensidade) a variação de

maior destaque, importante para o controle da disciplina na sala de aula e para manter e chamar a atenção do aluno. Para o professor sua voz é um recurso didático que estabelece um elo nas relações estabelecidas com os alunos (DRAGONE, 2000,).

SERVILHA (2000), quando analisou três professores, observou que eles realizavam modulações vocais específicas com diferentes intenções comunicativas, procurando gerar certos efeitos na interação com os alunos. Foram pontuadas pela autora modulações diferentes para momentos de explicações ou solicitações, de súplica para redução de ruído ambiental, uso de interrogativas, não com o sentido de obter respostas, mas para manter a atenção dos alunos, entre outros.

Ainda sobre professores, os padrões de expressividade oral também interferem no julgamento de alunos, conforme constatou ARRUDA (2003), que submeteu exemplos de fala de professores à análise de ouvintes, sendo estes capazes de atribuir características psicológicas e físicas aos docentes por meio da análise de trechos de fala. A autora conclui que “velocidade de fala, o emprego de pausa, a qualidade da voz e a intensidade vocal foram aspectos valorizados pelos alunos, e determinantes na escolha da ordem de preferência das professoras” (ARRUDA, 2003, p.94).

Num estudo com profissionais da política, PANICO (2001) submeteu trechos de discursos de senadores à análise de ouvintes, perceptivo-auditiva e gestual, no intuito de detectar quem havia proferido um bom discurso. A autora não conseguiu delimitar um único ou um conjunto único de parâmetros que definissem um bom discurso, visto que os recursos selecionados pelos profissionais foram individuais. No entanto, conseguiu mostrar que para o ouvinte, além dos aspectos de expressão gestual, as características da voz são importantes: intensidade para marcar ênfases, entoação descendente ou ascendente-descendente ao final do contorno e duração.

Ao associar os efeitos da atratividade física e vocal na impressão sobre a competência, a credibilidade, a qualificação e a liderança de possíveis candidatos à política, SURAWSKI e OSSOFF (1998) submeteram à análise de 90 adultos fotos e vozes de tais candidatos. Os autores confirmaram que a atratividade física é mais forte que a vocal. Contudo, a atratividade vocal foi

impactante na percepção do candidato, baixando a taxa de atratividade daqueles que apresentaram alta agradabilidade física, mas uma voz não atrativa.

Num trabalho mais recente com políticos candidatos à vaga de prefeito em época de campanha eleitoral (SANTOS, 2006), os ouvintes, na condição de prováveis eleitores, analisaram imagens de um debate televisivo. A autora verificou que a comunicação, gestual e vocal, dos candidatos influenciou a avaliação dos ouvintes. Em relação à voz, foram importantes para o julgamento positivo dos candidatos a qualidade de voz, a velocidade de fala, a precisão articulatória e o emprego de pausa, além do uso equilibrado de gestos.

O conhecimento que se tem de cada uma das profissões ligadas à comunicação oral, o convívio ao longo da vida e a exposição a situações de interação com tais profissionais proporciona a construção de um padrão ou estereótipo de agradabilidade, o que faz com que ouvintes sintam-se mais ou menos atraídos por certos padrões de fala profissional. Como o telemarketing não é uma área recente no setor de prestação de serviços, a maioria das pessoas já deve ter experienciado um contato com teleoperador, seja por telemarketing ativo ou receptivo. Pretende-se, portanto, compreender como ouvintes reagem à expressividade oral do teleoperador.