4 SAÍDA COMPULSÓRIA DO ESTRANGEIRO
4.4 EXTRADIÇÃO
É o ato pelo qual um Estado entrega um indivíduo a outro Estado, mediante pedido deste, em função de crime praticado no território do Estado requerente.
Hildebrando Accioly define extradição como: “o ato pelo qual um Estado entrega um indivíduo, acusado de um delito ou já condenado como criminoso à justiça que o reclama, e que é competente para julgá-lo e puni-lo”.
Para José Francisco Rezek:
Extradição é a entrega por um Estado a outro, e a pedido deste, de pessoa que em seu território deva responder a processo penal ou cumprir pena. Cuida-se de uma relação executiva, com envolvimento judiciário de ambos os lados: o governo requerente da extradição só toma essa iniciativa em razão da existência do processo penal – findo ou em curso – ante sua Justiça; e o governo do Estado requerido (ou Estado "de asilo", na linguagem imprópria de alguns autores de expressão inglesa) não goza, em geral, de uma prerrogativa de decidir sobre o atendimento do pedido senão depois de um pronunciamento da Justiça local. A extradição pressupõe sempre um processo penal: ela não serve para a recuperação forçada do devedor relapso ou do chefe de família que emigra para desertar dos seus deveres de sustento da prole. (REZEK, 2010, p. 2002)
A extradição no Brasil é regulamentada pelos artigos 76 a 84 do Estatuto do Estrangeiro, e poderá ser concedida quando o governo requerente se fundamentar em tratado, ou quando prometer ao Brasil a reciprocidade.
O juízo competente para avaliar a extradição é o Supremo Tribunal Federal (STF). Entretanto, o STF não poderá entrar no mérito da decisão que motivou o pedido de extradição pelo Estado que a solicitou, devendo apenas verificar a existência dos requisitos da extradição.
Após a autorização do STF, o Presidente da República decidirá se extradita ou não o indivíduo. Cabe assinalar que somente poderá extraditar-se o estrangeiro se houver a autorização judicial, entretanto, dada a autorização o presidente não é
obrigado a fazê-lo. Ou seja, a decisão da entrega ou não do extraditando é um ato discricionário do chefe de estado.
Sylvio Motta e Gustavo Barchet, ensinam que:
O estrangeiro é em regra extraditável. Compete ao STF, a quem cabe o processamento do pedido de extradição, definir, caso a caso, se o delito praticado pelo estrangeiro no exterior caracteriza-se como político ou de opinião, visto que não há definição legal em nosso país dos crimes desta natureza. Se a Corte entender que o delito é desta espécie, o estrangeiro é não extraditável, tendo o direito a asilo político, como determina o artigo 4º, inciso X, da Constituição Federal de 1988. (MOTTA e BARCHET, 2011, p. 136)
O supracitado artigo, elucida com clareza o fato ocorrido em 2011 com o italiano Cesare Battisti (Anexo 2), que teve a sua extradição solicitada pelo governo da Itália, mas o presidente Lula entendeu, com base no artigo 4º, inc. X da CF/88, que o fato era oriundo de crime político, e baseado nesta premissa não extraditou, e sim concedeu asilo político ao estrangeiro em questão.
Para que a medida seja concedida, o fato imputado ao extraditando deve ser considerado crime também no Brasil, consagrando assim o princípio da identidade.
Já se o crime imputado ao estrangeiro for considerado apenas contravenção
penal no Brasil, ou se este estiver prescrito, não cabe a extradição. Neste sentido, Sylvio Motta e Gustavo Barchet aduzem que:
É indispensável para a extradição a “dupla tipicidade”, ou seja, a conduta tem que caracterizar crime tanto no país estrangeiro quanto no Brasil. Se aqui ela for um indiferente penal ou mera contravenção, não será possível a extradição. Também não se admite a extradição se no Brasil o fato for tipificado como crime mas com pena prevista de até um ano de prisão. Enfim, a conduta tem que constituir crime nos dois países, mesmo se forem diferentes as tipificações (o enquadramento da conduta em determinada norma penal) e no Brasil a pena prevista para o delito deve ser igual ou superior a um ano. (MOTTA e BARCHET, 2011, p. 136)
Em contrapartida, se a pena aplicada no Estado requerente for a pena de morte ou a prisão perpétua, o Brasil somente poderá extraditar o indivíduo mediante a alteração da pena para no máximo 30 anos de reclusão (adequação da pena).
A concessão da extradição encontra-se fundada na solidariedade que deve prevalecer entre os membros da comunidade internacional e na cooperação com vistas ao combate da criminalidade.
Os casos em que a lei brasileira não concede a extradição estão elencados no artigo 77 do Estatuto do Estrangeiro, a saber:
Art. 77. Não se concederá a extradição quando:
I - se tratar de brasileiro, salvo se a aquisição dessa nacionalidade verificar-se após o fato que motivar o pedido;
II - o fato que motivar o pedido não for considerado crime no Brasil ou no Estado requerente;
III - o Brasil for competente, segundo suas leis, para julgar o crime imputado ao extraditando;
IV - a lei brasileira impuser ao crime a pena de prisão igual ou inferior a 1 (um) ano;
V - o extraditando estiver a responder a processo ou já houver sido condenado ou absolvido no Brasil pelo mesmo fato em que se fundar o pedido;
VI - estiver extinta a punibilidade pela prescrição segundo a lei brasileira ou a do Estado requerente;
VII - o fato constituir crime político; e
VIII - o extraditando houver de responder, no Estado requerente, perante Tribunal ou Juízo de exceção.
§ 1° A exceção do item VII não impedirá a extradição quando o fato constituir, principalmente, infração da lei penal comum, ou quando o crime comum, conexo ao delito político, constituir o fato principal.
§ 2º Caberá, exclusivamente, ao Supremo Tribunal Federal, a apreciação do caráter da infração.
§ 3° O Supremo Tribunal Federal poderá deixar de considerar crimes políticos os atentados contra Chefes de Estado ou quaisquer autoridades, bem assim os atos de anarquismo, terrorismo, sabotagem, seqüestro de pessoa, ou que importem propaganda de guerra ou de processos violentos para subverter a ordem política ou social.
Conforme se observa,a extradição refere-se a crimes com alguma gravidade,
e não submete à jurisdição brasileira, mesmo que não prescrito pelas legislações do país requerente e do Brasil.
José Francisco Resek observa que:
A exigência de que se demonstre que o fato constitui crime segundo o direito do Estado o requerente tem a virtude de ressaltar que a extradição pressupõe processo penal, não se prestando a migração de acusado em processo administrativo, de contribuinte relapso ou de alimentante omisso.
Interessante salientar a exigência contida no Estatuto do Estrangeiro, nos artigos 86 e 87,da Lei 6815/80 :
Art. 86. Concedida a extradição, será o fato comunicado através do Ministério das Relações Exteriores à Missão Diplomática do Estado requerente que, no prazo de sessenta dias da comunicação, deverá retirar o extraditando do território nacional.
Art. 87. Se o Estado requerente não retirar o extraditando do território nacional no prazo do artigo anterior, será ele posto em liberdade, sem prejuízo de responder a processo de expulsão, se o motivo da extradição o recomendar.
Concedida a extradição, e uma vez disto dando-se ciência por via diplomática, o Estado requerente deverá retirar o extraditando do território nacional no prazo máximo de 60 (sessenta) dias, sob pena de, não o fazendo, ser cancelada a extradição, sem prejuízo do extraditando ser submetido a processo de expulsão (artigos 86 e 87 do Estatuto). Por seu turno, o artigo 91 da Lei 6815/80 estabelece outras hipóteses em que esta não se efetivará:
Art. 91. Não será efetivada a entrega sem que o Estado requerente assuma o compromisso:
I - de não ser o extraditando preso nem processado por fatos anteriores ao pedido;
II - de computar o tempo de prisão que, no Brasil, foi imposta por força da extradição;
III - de comutar em pena privativa de liberdade a pena corporal ou de morte, ressalvados, quanto à última, os casos em que a lei brasileira permitir a sua aplicação;
IV - de não ser o extraditando entregue, sem consentimento do Brasil, a outro Estado que o reclame; e
V - de não considerar qualquer motivo político, para agravar a pena.
O estrangeiro extraditado, diferentemente do que ocorre na expulsão, pode retornar ao Brasil, desde que tenha cumprido a pena.