Foto 43: Chegada na feira de Maracanã
4 O CONJUNTO DE ATIVIDADES E A DIVISÃO DO TRABALHO
4.2 O EXTRATIVISMO VEGETAL
Dos quatro tipos de famílias identificadas, em três tipos consta o extrativismo, com maior ou menor importância na geração de trabalho e renda. Mesmo as famílias que não identificaram esta atividade a praticam, principalmente para o consumo. Nesse caso geralmente são os filhos que a desenvolvem.
Durante todo o ano a população da comunidade Espírito Santo exercita o extrativismo vegetal (quadro 3). Os produtos vegetais com maior representatividade econômica são a mangaba e o bacuri, vendidos fora da comunidade e com bastante aceitação no mercado municipal e estadual. As frutas muruci e taperebá também, mas apenas duas famílias as comercializam, geralmente na sede do município. A grande maioria dos entrevistados usa estas frutas para o consumo. O açaí é um produto com muita aceitação no mercado local, municipal e estadual, mas a produtividade local é baixa, inviabilizando a comercialização.
Quadro 2: Calendário de oferta natural das frutas que são utilizadas pelos extrativistas. Fonte: Fernandes, 2009.
O calendário extrativista está baseado nas informações obtidas localmente com os moradores da comunidade Espírito Santo. A série que se segue em cada mês, está disposta de acordo com a produção. Como pode ser vista, no mês de janeiro, o fruto com maior produção é o bacuri, que está no pico da safra, seguido da mangaba, que já está no fim. O bacuri permanece no pico da safra entre os meses de janeiro a março.
O trabalho extrativista é feito por todos dependendo do produto, por exemplo, o extrativismo do bacuri é feito principalmente por homens. A explicação que recebi para tal
Jan Fev Mar Abr Maio Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Bacuri Bacuri Bacuri Taperebá Taperebá Muruci Açaí Açaí Açaí Mangaba Mangaba Mangaba
Mangaba Mangaba Muruci Bacuri Bacuri Bacuri Caju Caju Caju Açaí Bacuri Muruci Tucumã Muruci Muruci Mangaba
fato é que os melhores36 bacurizais37 encontram-se em áreas isoladas, de floresta e por isso os homens são os que extraem o produto, mas acredito que a predominância masculina está relacionada também com o valor do produto no mercado. Os homens geralmente predominam nas atividades mais economicamente compensadoras. Simonian (2001) identificou algo parecido no caso do extrativismo da castanha do Pará:
Embora no passado os homens tenham-se envolvido com a produção dos castanhais e com a economia e cultura que deles resultaram a sua maior
participação ocorreu com a inserção desta produção nos circuitos mercantis de exportação (SIMONIAN, 2001, p. 75).
Uma das mulheres me confessou, em baixo tom de voz, que: “na safra do bacuri dá
muita ganância no povo (B. C. D., moradora local, 43 anos)”. Durante o período de safra os moradores quebram as regras de manejo do bacuri, tirando frutas verdes das árvores antes que estas amadureçam e caiam naturalmente, pois a oferta é menor que a demanda e dá-se uma disputa pela fruta, que é muito apreciada e tem um alto valor econômico no mercado.
Não estive presente na comunidade Espírito Santo no período de safra do bacuri,
portanto não observei esta ―ganância que dá no povo‖, e a informante não me deu maiores
detalhes sobre os conflitos que envolvem esta atividade.
No caso da mangaba o trabalho extrativista é feito por homens e mulheres, realizado em vários arranjos, nos quais em alguns casos, as mulheres apanham, beneficiam e comercializam, em outros o casal participa de todas as etapas do trabalho. Ainda há casos em que a mulher apanha e beneficia, e o homem comercializa, e em outros que a mulher pratica todas as etapas da atividade sozinha. Irei descrever detalhadamente as atividades relacionadas ao extrativismo da mangaba no capítulo seguinte.
36 Com maior produção de frutos.
Gráfico 7: Calendário produtivos, agricultura e extrativismo (vegetal, animal). Fonte: Fernandes, 2009. Formatação: Morais, 2011.
Em relação ao muruci e ao taperebá que são frutas muito apreciadas regionalmente, mas pouco comercializadas pela população de Espírito Santo, principalmente por ter um valor baixo no mercado, encontrei apenas duas famílias que a comercializavam vendendo na sede do município. O extrativismo destas frutas envolve toda a família, a coleta e beneficiamento são feitos pela mãe e pelos filhos, e a comercialização é feita pelo pai. Nestas duas famílias, o pai é sempre quem comercializa, seja no caso do bacuri, mangaba, muruci ou taperebá. De acordo com a mulher entrevistada, desta família, ela não tem interesse em praticar a atividade de comercialização, pois a identifica como uma atividade desgastante, onde tem que se carregar os recipientes com as frutas, ou polpas, e ainda negociar com o comprador, por isso ela acha que o marido é mais apto a realizar esta tarefa. Além do que, segundo a entrevistada, o marido entrega para ela o dinheiro da venda ou compra produtos que ela solicita.
O tucumã é incluído na dieta alimentar, mas é uma fruta pouco apreciada pelas pessoas da comunidade. Em consequência nenhuma família ou indivíduo comercializa a fruta, que é de ocorrência abundante em todo o município, porém, possui baixo valor no mercado.
Fotos 25: Mãe e filhos despolpando o fruto do taperebá. Fonte: FERNANDES, Thiara, pesquisa de campo, abr/09.
Como já descrevi anteriormente o açaí é um produto muito apreciado pela população municipal e regional, por isso tem boa aceitação no mercado, mas na comunidade Espírito Santo a quantidade de plantas abastece apenas a demanda interna, não havendo produção suficiente para ser comercializada na sede do município.
Os membros de três famílias investiram na produção do açaí fazendo o manejo das plantas nativas além do plantio de mudas. Essa atividade foi iniciada no ano de 2008 e, em
2009, as famílias coletaram e beneficiaram o fruto utilizando uma máquina de “bater açaí38”
de propriedade de uma das famílias envolvidas. Durante o período da safra, as três famílias trabalharam juntas e dividiram o produto beneficiado, também venderam o excedente na própria comunidade.
Outro fruto identificado foi o caju, produto utilizado apenas para o consumo local. Alguns indivíduos das comunidades vizinhas a Espírito Santo também praticam a venda da cabeça de caju para indústrias beneficiadoras. A safra do caju é muito produtiva, uma das
moradoras me informou que “[...] estraga caju no pé que não tem gente pra pegar [...]” (R.R,
moradora local, 29 anos). Não identifiquei nenhuma família que comercializa o caju na comunidade estudada.