O declínio das escolas alemãs em Santa Catarina
11 EZA 5/428 Die deutschen Schulen und Lehrer im Ausland 12 EZA 5/429 Bd II idem
Lamprecht, discorrendo sobre o tema Deutsches Volkstum und deutsche Kultur im
Ausland.13
Este zelo pela preservação da germanidade no período em questão, pode ser claramente percebido num relato do cônsul alemão Grienke de Florianópolis datado de 14/11/1911. Neste documento o referido cônsul afirma que o grupo nativista de Joinville na realidade prestou um grande serviço à escola alemã daquela cidade, desrecomendando a matrícula de crianças lusas naquela instituição. Assim, afirma Grienke, o caráter alemão pode ser cultivado até mesmo no recreio, quando as crianças falam o alemão. Segundo este cônsul, a experiência tem mostrado que nas escolas alemãs onde estudam alunos brasileiros, como por exemplo em Curitiba e Rio de Janeiro, "o nível foi empurrado para baixo" (... dass
sofort das Niveau heruntergedrückt wid...) Informa ainda que o professor que ensinava português na escola alemã de Joinville era alemão, que fez em Florianópolis as provas exigidas.14
Deve ser destacado também que nesta época, alguns líderes (pastores e professores) alimentavam um ufanismo étnico exacerbado que encontrava guarida em instituições e autoridades do Reino alemão. Em relação a Escola Alemã de Joinville, por exemplo, o professor N. Dechent relatava para o Ministério de Relações Exteriores em 20/01/1915, que no ano anterior, nos dias 05 e 06 de maio, a escola recebera a visita dos oficiais e tripulação do navio Kônig Albert. A escola ofereceu uma recepção aos oficiais e marinheiros quando os alunos cantaram hinos
13 EZA 5/428 - idem
Neste período foram realizadas as seguintes assembléias do VDA:
1910 - Regensburg - Tema: "Alemães e Eslovenos na luta pelas terras nos alpes". 1911 - Koblenz - Tema: "Deutschtum na Bósnia".
1912 - Lübeck - Tema: "O lar e o Deutschtum no exterior".
1913 - Duisburg - Tema: "Problemas nacionais com a emigração".
1914 - Leipzig - Tema: "Os alemães do Reino e o Deutschtum no exterior". 14 BAP - AA - Nr. 38747
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pátrios (alemães) e ouviram um discurso do capitão do navio, o qual manifestou sua surpresa e alegria pelo excelente nível da cultura alemã verificado na escola. (...
eine so guter deutscher Geist herrsche, wie er in kaum in anderen Auslandschuie gefunden habe.) Estimulou também aos alunos e professores a continuar zelando
pelo Deutschtum. No dia 06 de maio, os meninos das duas classes superiores foram recepcionados a bordo do Kõnig Albert.15
Verifica-se claramente que um certo clima de animosidade foi se instalando entre as autoridades públicas brasileiras e lideranças teutas em Santa Catarina. Arthur Koehler, ligado a Neue deutsche Schule de Blumenau, chama a atenção em 1913, para o fato de que é notório o desinteresse dos jovens teuto-catarinenses pela área jurídica. Este desinteresse se justificaria pelo fato desta área ser uma espécie de "domínio dos nativistas luso-brasileiros". Para um jovem teuto atuar na área do direito, teria que sacrificar muito o deutschtum. Lamenta também o fato de que alguns jovens de Blumenau vão estudar na Alemanha e não mais retornam, ou quando o fazem, se estabelecem em centros como Rio de Janeiro e São Paulo. Assim sendo, destaca Koehler, as melhores cabeças não são aproveitadas em
Blumenau, que também precisa de médicos, engenheiros, advogados etc.16
Apesar das iniciativas diversas, visando suprir a necessidade de professores com formação, o fato é que às vésperas a Ia Guerra Mundial continuava crônica, a falta de mestres no interior das colônias. Em função desta carência verificada em Santa Catarina, eram constantes as solicitações feitas junto a
15 Jahresbericht der Deutschen Schulen zu Joinville über das 48° Schuljahr 1914 - erstattet von Oberlherer N. Dechent. Typ. Boehm - Arquivo Histórico de Joinville - Microfilme rolo 024, nr. 43. 16 BAP - AA - Nr. 38762
Em relação ao direito, exceção foi o aluno Edgar Barreto, da Neue deutsche Schule, filho de mãe alemã e pai luso, que ingressou na Academia de Direito em São Paulo com as melhores notas. Por este fato, a Neue deutsche Schule mereceu elogios por parte da Academia e também pelo brilhante desempenho de Edgar Barreto ao longo do curso. Após sua formação retomou à Blumenau onde exerceu cargos públicos.
instituições na Alemanha, para que enviassem professores. Percebe-se no entanto, que o nível de exigências para um professor alemão que se candidatasse para assumir escolas no exterior, não era tão simples. Em 1913 exigia-se os seguintes requisitos para um professor alemão atuar no exterior:
- excelente saúde
- boa formação e bom currículo
- não estar empregado em escolas na Alemanha - quitação com o serviço militar
- conhecer a língua do país (recomendado, mas não obrigatório) - ser casado
- quando acima de 30 anos ... haben Ausficht auf Verwendung im Allgemeinen nur
dann wenn sie eine weitergehende Prüfung (Mittelschullehrer; Reallehrer; Rektorprüfung) abgelegt haben.
Os candidatos que preenchessem os requisitos deviam apresentar-se no Escritório de Assuntos para o Exterior em Berlim, munidos de:
- currículo (Lebenslauf)
- atestado de 1° e 2° exame para o magistério
- atestado da escola (se já trabalhou como professor)
- atestado de saúde, incluindo, se possível, um atestado über Tropendienstfãhigkeit - uma fotografia
Uma vez aprovado, a passagem de III classe normalmente era paga pela associação escolar que requisitava o professor. Em situações especiais podia ser paga pelo Escritório de Assuntos para o Exterior. Até 200 kg de bagagem era livre de taxas. Bebidas não eram incluídas no preço da passagem, no entanto, o professor recebia um pequeno auxílio para despesas a bordo, que variava de 150 a 300 marcos.
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0 efetivo emprego, enfatiza o documento, depende de escolas vagas no país escolhido. Em 1912, por exemplo, foram enviados 66 professores
(Volkschullehrer) para 23 países, assim distribuídos:
Argentina = 2; Chile = 8; Brasil = 7; Bulgaria = 2; China = 4; Grécia = 2; Costa Rica = 1; Inglaterra = 2; Pérsia = 2; Perú = 2; Portugal = 1; Romênia = 5; Rússia = 4; Espanha = 4; Turquia =5; Egito = 5; Hungria =1; Venezuela = 1; Guatemala = 1; Itália = 3; Colombia = 1; México = 1; Paraguai = 2.
Salienta-se ainda que o professor que demanda para algum país estrangeiro, não é empregado do Reino (grifado no original), mas sim da escola ou instituição que o contratou. Apontava-se também para o fato de que o regime de trabalho seria semelhante ao das escolas na Alemanha (28-30 horas semanais), mas que os salários são muito variados, sendo que normalmente a moradia do professor era fornecida pela associação escolar.
O Escritório de Assuntos para o Exterior esperava do professor alemão enviado para o estrangeiro, que se envolvesse em atividades diversas, desde que fortalecessem o Deutschtum.17
Percebe-se, portanto, que nos primeiros anos deste século, as escolas alemãs em Santa Catarina, apesar de suas deficiências e carências, viviam um momento bastante favorável, se comparado ao desamparo quase total do início.
Esta realidade, porém, sofreu drástica mudança com o advento da Ia Guerra Mundial na Europa. Considerando que a Alemanha estava no epicentro do conflito, toda a germanidade no exterior foi afetada, em primeiro lugar com a diminuição substancial do envio de recursos e em segundo, pelo fato da declaração de guerra do Brasil à Alemanha (26 de outubro de 1917) lançar os alemães e seus descendentes na vala comum da suspeita de serem inimigos ou traidores da pátria
brasileira. 0 problema foi se tornando gradativamente mais intenso a medida que o conflito se desenrolava no velho continente, culminando com a declaração de guerra.
2 - Os efeitos da Primeira Guerra Mundial e os esforços de reerguimento
Ao se iniciar a primeira guerra, três eram as grandes questões com as quais os poderes públicos se debatiam em Santa Catarina: a questão indígena, a questão dos limites e o sistema escolar. As duas primeiras tinham sido resolvidas na administração do governador Felipe Schmidt, enquanto a questão escolar se desenrolava há alguns anos, desde o governo Vidal Ramos, que havia iniciado a reforma educacional sob a orientação do professor Orestes Guimarães. Num contexto de animosidades contra os alemães e teuto-brasileiros, a escola alemã, a despeito de seus relevantes serviços em prol da modernização catarinense, passou a ser vista como mais uma manifestação do propalado "perigo alemão".
O início da guerra praticamente não alterou o ritmo das escolas alemãs em Santa Catarina. O que se verificava, na maior parte delas, era um vivo interesse pelos acontecimentos que se desenrolavam nos campos de batalha e que envolviam a Alemanha.
Em março de 1915 o jornal Mitteilungen publicava um relatório assinado por Marie Deggau, professora da escola da comunidade Velha Nova - Blumenau, no qual afirma:
Ao eclodir a Guerra Mundial na Europa, passou por nossa escola uma lista de arrecadação para auxílio da Cruz Vermelha. Entre pais e alunos, foi arrecadado a soma de 35$000. Se analizarmos bem, o Reino Alemão faz enormes sacrifícios ao enfrentar inúmeros inimigos. Também nós, alemães no estrangeiro, não devemos ficar inertes, mas ajudarmos com o que pudermos. Sabemos todos: a