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Füsun não mora mais aqu

No documento Orhan Pamuk - O Museu da Inocência (páginas 140-142)

Corri o caminho todo até a casa dela. Mesmo antes de passar pela esquina onde ficava a loja de Alaaddin, já estava eufórico só de imaginar como me sentiria ao vê-la. Quando sorri para um gato que cochilava, protegido do sol de julho, perguntei-me por que não me ocorrera antes simplesmente ir até a casa dela. A dor no quadrante superior esquerdo do meu estômago já estava cedendo; o peso nas minhas pernas e a fadiga em minhas costas tinham passado de todo. Quando me aproximei da casa dela, contudo, o medo de não a encontrar fez meu coração disparar: o que diria a ela, e o que diria se fosse a mãe quem abrisse a porta? A certa altura, pensei em voltar para ir buscar o velocípede da infância dela. Mas sabia que, no momento em que nos encontrássemos, não haveria a necessidade de pretextos. Como um fantasma, entrei no saguão fresco do pequeno edifício da rua Kuyulu Bostan, subi os degraus até o segundo andar e toquei a campainha. Os visitantes do museu talvez queiram apertar o botão aqui instalado para ouvir o mesmo som de gorjeio — tão na moda em Istambul naquele tempo — que escutei enquanto meu coração esvoaçava inquieto como um passarinho, preso entre a minha boca e a minha garganta.

Foi a mãe dela que atendeu a porta. O corredor estava tão escuro que num primeiro momento ela franziu o nariz diante daquele desconhecido resfolegante, como se pudesse ser um vendedor incômodo. Então ela me reconheceu, e seu rosto se iluminou. Vendo nisso um sinal de esperança, a dor em meu estômago diminuiu um pouco.

“Oh! Kemal Bey! Queira entrar!”

“Eu estava só de passagem por aqui, tia Nesibe, e aí pensei em entrar”, disse eu, soando como o adolescente esforçado da casa vizinha de alguma novela de rádio. “No outro dia, fiquei sabendo que Füsun não trabalha mais na loja. E então pensei comigo: ‘Ela nunca apareceu para me dizer como se saiu no vestibular’.”

“Ah, Kemal Bey, meu pobre rapaz, entre para eu poder dividir nossos problemas com você.”

Sem parar para refletir sobre o que ela podia querer dizer com “dividir nossos problemas”, entrei naquele apartamento precário que minha mãe jamais visitara, a despeito de todas aquelas sessões tão íntimas de costura em nossa casa e de todas as conversas sobre o parentesco que nos unia. Poltronas com um forro de pano por cima do estofado, uma mesa, um bufê tendo em cima uma tigela para doces, e uma televisão coroada por um cachorro de louça adormecido — achei todas essas coisas magníficas, porque tinham contribuído para a criação do milagre prodigioso que era Füsun. Num canto, vi um par de tesouras de costura, cortes de tecido, linhas de muitas cores, alfinetes, as partes de um vestido que vinha sendo costurado à mão. Então tia Nesibe ainda trabalhava como costureira. Füsun estava em casa? Parecia que não, mas ali estava a mãe dela, de pé, esperando, como se pretendesse negociar comigo ou me apresentar uma conta, e disso eu extraía alguma esperança.

“Sente-se, por favor, Kemal Bey”, disse ela. “Vou lhe fazer um café. Você está pálido. Precisa relaxar. Quer um pouco de água gelada também?”

“Nããão. Nããão”, respondeu a mulher, num tom de quem diz “você nem imagina o que aconteceu!”. “Como o senhor quer o seu café?” Dessa vez ela me tratou de “senhor”, com mais cerimônia.

“Com pouco açúcar”, respondi.

O que percebo agora, tantos anos mais tarde, é que ela foi para a cozinha não para fazer o café, mas para preparar uma resposta. Naquele momento, porém, mesmo com meus sentidos em alerta total, minha cabeça rodava por se encontrar numa casa onde o cheiro de Füsun estava em toda parte, e eu estava tonto com a esperança de poder chegar a vê-la. E lá estava em sua gaiola meu amigo, o canário da boutique şanzelize; seu gorjeio impaciente acalmava meu coração como um unguento, o que só me deixava mais confuso. Na mesa de centro à minha frente havia uma régua de madeira de trinta centímetros, de fabricação turca, com sua bela borda branca. Eu é que a dera de presente a Füsun em nosso sétimo encontro, segundo meus cálculos, para que usasse em seus estudos de geometria. E ficou claro que agora era a mãe de Füsun quem usava a régua em suas costuras. Peguei a régua, aproximei-a do nariz e, exatamente como eu recordava o cheiro da mão de Füsun, ali mesmo, diante dos meus olhos, ela adquiriu vida. Quando tia Nesibe voltou da cozinha, enfiei a régua no bolso do paletó.

Ela pousou o café na mesinha e sentou-se à minha frente. Acendeu um cigarro, enquanto alguma coisa em seus gestos lembrava que era a mãe de sua filha, e então disse: “O exame de Füsun não correu nada bem, Kemal Bey”. A essa altura, ela já decidira de que maneira devia dirigir-se a mim. “Ficou tão nervosa... Saiu da prova chorando antes mesmo de terminar — e nem fomos buscar o resultado. Ficou num estado terrível. Coitada da minha filha, nunca mais vai poder estudar na universidade. Ficou tão traumatizada que largou o emprego. Essas suas aulas de matemática realmente fizeram mal a ela. O senhor deve ter visto como ela estava na noite da sua festa de noivado… Foi demais para ela. O senhor não é o único responsável, claro… Ela é uma moça frágil. Acabou de fazer dezoito anos. Mas ficou com o coração partido. Então o pai dela a levou para longe, longe daqui. Bem longe daqui. O senhor precisa se esquecer dela. Ela também vai se esquecer do senhor.”

Vinte minutos mais tarde eu estava estendido em nossa cama no edifício Merhamet, olhando para o teto, enquanto as lágrimas escorriam lentas e silenciosas para o travesseiro, e me lembrei da régua. Eu usava uma igual quando era criança, o que talvez explique por que dera de presente a Füsun uma régua-padrão de liceu como aquela, de modo que não é nada surpreendente que tenha se transformado numa das primeiras peças significativas de nossa coleção. Era um objeto que me lembrava de Füsun, o primeiro que a angústia me motivou a subtrair do seu mundo. Pus a ponta onde aparecia o número “30” na boca, mantendo-a ali por muito tempo, apesar do gosto amargo que deixava depois. Passei duas horas deitado na cama manuseando aquela régua, tentando recompor as horas que passara nas mãos dela, o que me produzia um alívio, uma felicidade quase comparável à de vê-la.

No documento Orhan Pamuk - O Museu da Inocência (páginas 140-142)