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3 A F ORMAÇÃO E G ESTÃO DAS R EDES

3.1 F ACTORES R ELACIONADOS COM A SUA F ORMAÇÃO

Uma das questões de amplo interesse nos estudos sobre redes é entender as condições, contingênciais e demais factores críticos presentes na formação e manutenção das redes inter-organizacionais. Esses factores podem ser denominados de factores de viabilização e factores de contingência.

Como factores de viabilização, podem ser indicados os elementos necessários à formação e manutenção de uma rede inter-organizacional. Segundo Marcon e Moinet (2000), para que uma rede possa ocorrer na prática, três elementos devem ser combinados:

- recursos a trocar, que constituem a base da rede, como informação, conhecimento e matérias primas. Nesse sentido, um conjunto de actores que nada tem a trocar dificilmente constituirá uma rede;

- info-estrutura, que designa o conjunto de regras de funcionamento e a ética que deverá ser observada entre os membros;

- infra-estrutura, que compõe os meios práticos da acção, tais como: orçamento, local, material, comunicação, etc.

Como factores de contingência à formação de redes interorganizacionais, Oliver (1990) apresenta seis generalizações determinantes na formação das redes:

- necessidade: uma organização frequentemente estabelece elos ou trocas com outras organizações por necessidade. Essa contingência está sustentada por estudos oriundos, principalmente, das abordagens “resource dependence

theory”, enfatizando que a formação de redes é fortemente condicionada pelos escassos recursos do ambiente;

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- assimetria: sob essa contingência as relações interorganizacionais são induzidas pelo potencial exercício de poder de uma organização sobre outra. Em contraste com os motivos de “resource dependence theory”, a abordagem da assimetria de poder explica que a dependência de recursos promove as organizações ao exercício do poder, influência ou controle por parte daquelas organizações que possuem os recursos escassos;

- reciprocidade: ao contrário da contingência da assimetria dentro das relações interorganizacionais, uma considerável parte da literatura sobre redes interorganizacionais, implícita ou explicitamente, assume que a formação das relações está baseada na reciprocidade. Motivos de reciprocidade enfatizam a cooperação, colaboração e a coordenação entre organizações, ao invés de dominação, poder e controle. Concordando com essa perspectiva, as redes interorganizacionais ocorrem no sentido da procura de interesses e objectivos comuns;

- eficiência: a eficiência é a única dessas seis contingências que apresenta uma orientação interna, uma vez que procura a performance em termos de eficiência organizacional. A perspectiva dos custos de transacção (Williamson, 1985) é consistente com o argumento de que a eficiência interna é uma questão fundamental para a formação de redes interorganizacionais;

- estabilidade: a formação de redes tem frequentemente sido caracterizada como uma resposta à incerteza ambiental. O ambiente incerto é gerado por recursos escassos e pela falta de perfeito conhecimento das flutuações ambientais. A incerteza induz as organizações a estabelecerem e gerirem inter-relações no sentido de encontrar estabilidade e predicabilidade do ambiente (Provan, 1984; Stearns et al., 1987).

- legitimidade: a legitimidade é um motivo das organizações participarem em redes. É sustentada fundamentalmente pela teoria institucional, a qual sugere

63 que o ambiente institucional impõe pressões sobre as organizações no sentido de justificar as suas actividades e resultados.

Oliver (1990) argumenta que essas contingências são a causa que induz ou motiva as organizações a estabelecerem relações interorganizacionais, isto é, elas explicam as razões pelas quais as organizações escolhem relacionar-se com outras. Embora cada determinante seja uma causa suficientemente separada para a formação dos relacionamentos, essas contingências, geralmente, ocorrerem simultaneamente.

Dessa forma, segundo a perspectiva contingencial, subjacente à formação das redes inter-organizacionais poderão estar as seguintes razões: exercer influência sobre reguladores (assimetria); promover a colectividade entre os membros por meio da partilha de informações (reciprocidade); obter vantagens económicas, como por exemplo, melhores recursos e fornecedores (eficiência); reduzir incerteza competitiva através de esforços para padronizar produtos ou serviços de cada actor da rede (estabilidade); ou, melhorar a imagem da rede e de seus actores (legitimidade).

Outro factor crítico na formação das redes inter-organizacionais está relacionado com a necessidade de flexibilização das organizações, provocado pelo crescente processo de competição e instabilidade que exige das empresas velocidade e adaptabilidade. Assim, o modelo de redes surge como uma alternativa. Esse facto, segundo Galbraith (1995), foi fortemente condicionador das formas organizacionais em rede. Da mesma forma, Quinn et al. (1996) argumentam que a forma organizacional em rede prevalecerá como a estrutura dominante por se adaptar a ambientes hiper competitivos.

Deve-se destacar, também, que três outras características sociológicas estão associadas com a formação de redes, observadas por Marcon e Moinet (2000), a partir das orientações de Crozier e Ehrard (1977):

- uma rede ocorre sobre uma campo de acção colectivo estruturado, assim, para Crozier e Ehrard (1977) não existe um campo de acção neutro, não estruturado. Nenhum actor está em posição neutra dentro do campo de acção da rede. Essa

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característica geral do campo de acção colectivo conduz ao início da dinâmica da estratégia em rede: a criação de uma rede de actores resulta de uma lógica de transferência, isto é, “não surge do nada”.

- não existe nenhum modelo universal de rede, logo a sua forma é dependente do campo de acção colectivo, dentro do qual ela pretende operar. Para Crozier e Ehrard (1977), a solução dos problemas de acção colectiva é sempre casual, não existindo uma só e perfeita maneira de a fazer. A estratégia não é uma ciência exacta. A cultura própria de cada campo de acção (económico, social, cultural, político, etc.) induz às várias formas possíveis de redes;

- a rede é o centro do processo de aprendizagem colectivo que funciona dentro do campo de acção também colectivo. Dessa forma, o campo de acção evolui sem cessar ao ritmo da aprendizagem colectiva que ocorre entre os seus actores. Ebers integra ambas as perspectivas, a económica e a social. O autor apresenta oito dimensões de análise, três sob a perspectiva das contingências da formação das redes inter-organizacionais, enquanto as restantes cinco permitem avaliar o funcionamento desta solução organizacional, quer do ponto de vista da relação entre actores, quer do ponto de vista da coordenação das suas relações. Ao nível das contingências considera que "a investigação tem tentado explicar a formação das redes inter-organizacionais

em três níveis de análise: o nível do actor, o nível das relações preexistentes entre actores e o nível institucional. Ao nível do actor, a investigação tem-se concentrado principalmente em discernir as motivações dos actores associados para forjarem relacionamentos em rede, enquanto ao nível relacional e institucional, os académicos têm procurado identificar as condições que facilitam e constrangem (as diferentes formas de) a cooperação inter-organizacional" (Ebers 1999, p.6 in Corvelo, Moreira e Carvalho, 2001). Estas condições que facilitam ou dificultam a formação das redes inter-organizacionais podem ser analisadas a partir das relações preexistentes entre actores (nível relacional), tendo em conta o conteúdo das relações entre actores individuais e organizacionais, ou ainda, ao nível institucional, a partir das particularidades do ambiente institucional, nomeadamente, as condições políticas,

65 legais, industriais, regionais e o papel desempenhado por câmaras do comércio, sindicatos, centros de formação, bancos, parques de ciência e tecnologia, universidades, etc. Apesar de constituírem "diferentes níveis de análise, ambas as abordagens à

análise das redes inter-organizacionais partilham a perspectiva de que o contexto social e económico dentro dos quais as organizações estão envolvidas influenciam significativamente a formação de redes inter-organizacionais" (Ebers 1999, p. 8 in Corvelo, Moreira e Carvalho, 2001).

No que diz respeito à avaliação do funcionamento da rede inter-organizacional, o autor discrimina dois planos de abordagem: o nível micro e o nível institucional. O primeiro focaliza-se nos fluxos de relações entre os actores (nós da rede) e comporta três dimensões. O nível institucional, por sua vez abrange o modo como os fluxos de relações entre os actores são coordenados e inclui duas dimensões.

Ebers refere ainda a este propósito que "as cinco dimensões subjacentes à estrutura

conceptual incluem três dimensões que captam aspectos do conteúdo das relações entre os actores, isto é, a natureza de nível micro dos seus laços, nomeadamente, fluxos de recursos, expectativas mútuas e fluxos de informação. As outras duas dimensões decorrem do nível institucional no qual os actores coordenam as suas relações, isto é, aspectos de gestão da estrutura, nomeadamente, a distribuição de direitos de propriedade sobre recursos e os mecanismos de coordenação" (Ebers 1999, p.17 in Corvelo, Moreira e Carvalho, 2001).

As evidências teóricas apresentadas neste item indicam uma série de factores que podem exercer algum tipo de relação com a formação e performance de uma rede inter- organizacional. Como o nosso interesse recai sobre os aspectos relacionados com a sua formação, tentaremos sistematizá-los no seguinte quadro:

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Quadro 5 – Factores que podem exercer algum tipo de influência na formação de uma rede inter- organizacional.

Factores Descrição dos factores Contribuições

Teóricas Subjacentes Referências Bibliográficas

Viabilizadores (elementos necessários à formação e sua manutenção)

- recursos a trocar (informação,

conhecimento e matérias primas). - Visão baseada no conhecimento.

Marcon e Moinet (2000) - info-estrutura (conjunto de regras

de funcionamento e ética que deverá ser observada entre os membros).

- Sociologia organizacional. - infra-estrutura (meios práticos da

acção, tais como: orçamento, local, material, comunicação.

- Visão relacional, nomeadamente KBV, RBT eTCE. Críticos - flexibilidade (organizações flexíveis com rápida capacidade de

adaptabilidade a novos ambientes).

- Economia Organizacional. Galbbraith (1995); Quinn et al. (1996). Associados à formação

- posição do actor no campo de acção colectivo estruturado (que conduz ao início da dinâmica da estratégia em rede) - Sociologia Marcon e Moinet (2000); Crozier e Ehrard (1977)

- forma da rede depende do campo de acção colectivo onde opera (a cultura própria de cada campo de acção - económico, social, cultural, político, etc. - induz ás várias formas possíveis de redes).

- a rede é o centro do processo de aprendizagem colectivo que funciona dentro do campo de acção colectivo, dessa forma, o campo de acção evolui sem cessar ao ritmo da aprendizagem colectiva que ocorre entre os seus actores.

Contingênciais

- necessidade (organização frequente-mente estabelece elos ou trocas com outras organizações por necessidade).

- Resource

dependence theory.

Oliver (1990) - assimetria (exercício de poder de

uma organização sobre outra). - Resource dependence theory.

- reciprocidade (motivos de reciprocidade enfatizam a cooperação, colaboração e a coordenação entre organizações).

- Troca Social - eficiência (procura a performance

em termos de eficiência organizacional).

- Teoria dos Custos de Transacção.

- estabilidade (resposta à incerteza ambiental a partir da gestão de inter- relações).

- Biologia/Ecologia da População.

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- legitimidade (pressões sobre as organizações no sentido de justificar as suas actividades e resultados).

- Teoria Institucional.

- ao nível do actor (com a investigação a centrar-se nas motivações dos actores em forjarem relacionamentos em rede).

- Teoria Económica e

social Mark Ebbers (1999) - ao nível das relações preexistentes

entre actores - nível relacional - (ou seja, analisando o conteúdo das ligações entre actores, entre

indivíduos, grupos ou organizações). - nível institucional (a partir das particularidades do ambiente institucional, nomeadamente, as condições políticas, legais, industriais, regionais e o papel desempenhado por câmaras do comércio, sindicatos, centros de formação, bancos, parques de ciência e tecnologia, universidades, etc.). Fonte: Elaboração própria.