P ERDA OU D ETERIORAÇÃO DA C OISA
2. F ACTOS C ONSTITUTIVOS E SPECÍFICOS DA P ROPRIEDADE
2.1.ACESSÃO
A acessão vem definida no art. 1325º - dá-se acessão quando com a coisa que é propriedade de alguém se une e incorpora outra coisa que não lhe pertencia. Pressupõe, assim, a verificação cumulativa:
® A união ou mistura de duas ou mais coisas;
® A inseparabilidade da coisa resultante da união ou mistura de duas ou mais coisas autónomas.
Pressuposto comum: não ser possível fazer reverter as coisas ao estado de separação ou à sua
primitiva forma, ou, sendo-o, tal implique a produção de prejuízo para uma das partes. Se for possível realizar sem prejuízo o regresso das coisas à situação anterior, deixa de se verificar acessão industrial
mobiliária. Fala-se numa inseparabilidade em sentido normativo – impossibilidade de separar as coisas sem o prejuízo de uma ou de outra coisa.
2.1.1.AD
ELIMITAÇÃON
EGATIVA DAA
CESSÃOParece haver uma clara sobreposição de objetos entre as benfeitorias da acessão: além disso, uma mera distinção conceitual não se configura como suficiente para a distinção entre os respetivos âmbitos de aplicação. De facto, o conceito de benfeitoria e o conceito de acessão são idênticos. Pergunta-se, então, como distinguir.
• Teoria da substância da coisa, defendida por Manuel Rodrigues e Manuel de
Andrade: distingue-se acessão de benfeitoria pela circunstância de a benfeitoria estar
dogmaticamente é historicamente pensada para um melhoramento da coisa; já a
acessão, por oposição, pressuporá uma inovação na coisa.
• Teoria da especialidade, defendida por José Alberto Vieira e Pires de Lima e
Antunes Varela: a benfeitoria consiste num melhoramento feito por quem está ligado à
coisa em consequência de uma relação ou vínculo jurídico; a acessão é um fenómeno que vem do exterior, de um estranho, de uma pessoa que não tem contacto jurídico com a coisa. Há que analisar se o contrato que liga o titular à coisa comporta, no seu regime legal, uma previsão específica de benfeitorias.
2.1.2.C
LASSIFICAÇÕES DAA
CESSÃOA acessão pode ser natural, quando não resulta de intervenção humana mas sim de um
acontecimento natural, e pode ser industrial, quando resulta de uma intervenção humana. Pode, ainda,
distinguir-se entre acessão mobiliária, quando apenas envolva uma relação entre coisas móveis, e imobiliária, quando envolve já uma coisa imóvel.
Em concreto, podemos distinguir vários tipos de acessão mobiliária:
• Por União: verifica-se a juncão de dois ou mais objetos num novo, não sendo possível a sua separação sem detrimento da coisa. União pura.
• Por confusão: quando se da a reunião de objetos, os quais perdem por isso a sua individualidade; a lei trata conjuntamente a confusão de boa e de má fé.
• Por Especificação: quando alguém modifica, com o seu trabalho, alguma coisa que pertence a outras. Tratada autonomamente, mas atendendo à boa é à má fé. Está em causa uma prestação de trabalho.
O regime está todo ele formatado em função das especificações do caso concreto. Especial atenção é devida à boa ou má fé do autor da união, confusão ou construção.
2.1.3.D
IREITO ÀA
CESSÃO EMD
IREITOSR
EAISM
ENORESMuitas vezes, sobre a mesma coisa, incide mais do que um direito real. Nesses casos, há que perguntar quem é o titular do direito de acessão ou, ainda, se um titular de um outro direito real de gozo pode igualmente beneficiar do regime. Afinal, a lei só menciona o proprietário.
Exemplo:
A é usufrutuário do prédio X, propriedade de B, que está afeto ao cultivo de cereais. C realiza de boa fé sementeira de trigo no prédio X, tendo, porém, trazido ao prédio um valor inferior ao que este tinha antes da sementeira. Uma vez que o usufrutuário A poderia fazer ele própria a sementeira, por estar no âmbito do seu direito de usufruto, a ele pertenceria beneficiar da acessão, e não a B.
Este exemplo ilustra o seguinte: o proprietário cujo direito está onerado pela incidência do direito real menor não pode exercer o seu direito na parte em que está comprimido pelo direito real menor, daí que a atribuição do direito de acessão ao titular de um direito real menor, enquanto decorrência da oneração.
Assim, sempre que sobre uma das coisas objeto da união ou mistura incidir um direito real menor, há que indagar se o resultado dessa união poderia ser obtido pelo titular do direito real menor
no exercício regular desse direito. Se a resposta for positiva, pelo facto de o conteúdo do direito real
menor incluir o poder de fazer a união ou mistura que estiver em causa, então o direito de acessão será atribuído ao titular desse direito e não ao proprietário.
Em suma, titulares de direitos reais menores podem ser, pese embora a inserção sistemática, titulares do direito de acessão.
2.1.4.OD
IREITOA
DQUIRIDO–
P
ROPRIEDADEComo já vimos, o titular de um direito real menor pode beneficiar da acessão, quando seja o
beneficiário direto da união. Pergunta-se, então, que direito adquire sobre a coisa: o direito real menor
de que é titular ou o direito de propriedade?
® Oliveira Ascensão e Menezes Cordeiro: sustentam que se podem constituir, por acessão, outros direitos reais;
® JAV: o direito adquirido é sempre a propriedade (mesmo tratando-se de direito real menor – quando o seu titular beneficia da acessão, por a união ou mistura se encontrar no âmbito do seu direito, o direito por ele adquirido é o direito de propriedade);
o Entender que um titular de direito real menor possa beneficiar da acessão não implica, logicamente, sustentar que o direito adquirido pelo beneficiário seja o mesmo que lhe permitiu a acessão – não há qualquer relação de consequência;
o Esta tese é reforçada pela circunstância de ser o superficiário a fazer
diretamente a obra/plantação/sementeira – construindo a obra, é o proprietário
do implante (assim o confirma o art. 1538º);
o O conteúdo do usufrutuário permite que este faça transformações na coisa (arts. 1439º, 1446º, 1450º, 1472º) – fazendo essas transformações, que acarretam uma união ou mistura, o usufrutuário permanece proprietário das coisas que uniu ou misturou com o objeto do usufruto, devendo ser indemnizado pelo proprietário, quando o usufruto se extinguir, pelo regime das benfeitorias (art. 1450º/2); o Não tem sentido que o beneficiário direto (aquele que paga a indemnização)
apenas adquira um direito real menor;
o A aquisição de um direito patrimonial depende do consentimento daquele em cuja esfera jurídica tal ocorre;
2.1.5.AN
ATUREZAP
OTESTATIVA DAA
CESSÃOA acessão será automática sempre que a mera união ou mistura provoque a aquisição da propriedade pelo beneficiário da acessão, sendo este o cenário que ocorre na acessão industrial.
Na acessão industrial, por outro lado, a união ou mistura constitui um pressuposto de facto para a atribuição do direito de acessão a um dos titulares de direitos reais das coisas unidas ou misturas – na provoca, assim, por si só, a aquisição da propriedade. Trata-se de um direito potestativo, a exercer
Note-se que há, ainda, lugar a indemnização àquele que realizou as obras. Está constitui uma verdadeira condição da aquisição da propriedade, ou seja, enquanto a indemnização não for paga pelo titular do direito à acessão, o direito de propriedade permanece na sua esfera jurídica.
Quanto ao momento da aquisição da acessão, algumas dúvidas têm sido apontadas ao disposto no art. 1317.º/b). Deve entender-se que na acessão natural, o momento de aquisição da propriedade é o momento da união das coisas. Já no caso da acessão industrial, há divergências: o STJ, na linha de Antunes Varela, considera o momento da incorporação; já JAV entende que o momento da aquisição
corresponde ao momento do pagamento da indemnização, na linha de Oliveira Ascensão, pois que só nesse momento é que se considera consolidados os efeitos do exercício do direito à acessão.
NOTA: José Alberto Vieira entende que todo o regime da acessão se situa no âmbito da autonomia privada, o que significa que as partes podem, conjuntamente, decidiria derrotar o
regime da acessão.
2.2.OCUPAÇÃO
A ocupação, prevista no art. 1318º, é outra forma específica de aquisição da propriedade: podem ser adquiridos por ocupação os animais e outras coisas móveis que nunca tiveram dono, ou foram abandonados, perdidos ou escondidos pelos seus proprietários, salvas as restrições dos artigos seguintes. Os imóveis não são, por isso, suscetíveis de ocupação.
São requisitos da ocupação:
(i). Que a coisa móvel/animal seja nullius: significa que a coisa não tem dono, ou porque nunca foi atribuída a ninguém pelo ordenamento jurídico ou porque a propriedade se extinguiu.
(ii). A apreensão material da coisa ou animal: tem subjacente um ato de apossamento, logo,
gera igualmente constituição da posse (art. 1263º/a) – para além de gerar, neste caso em concreto, a aquisição da propriedade.
Funciona, nestes termos, a regra geral da capacidade – qualquer pessoa, capaz de exercício ou não, pode ocupar coisas móveis e animais nullius.
2.2.1C
ASOSE
SPECIAISHá três regimes específicos para a ocupação, a saber:
® Art. 1320º - ocupação de animais selvagens que habitem em determinado local por
ação humana: havendo uma deslocação espontânea dos animais do local em que viviam
para outro, pertencente a dono diverso, este pode tornar-se o seu proprietário desde que não exista possibilidade de reconhecimento individual do animal; se o proprietário do local, eventualmente, tiver induzido intencionalmente a deslocação dos animais, o dono do anterior locam pode reivindica-los; em caso de impossibilidade de determinação do animal, o novo proprietário deve indemnizar o proprietário anterior no montante de
três vezes o seu valor;
o José Alberto Vieira: dificilmente está em causa uma ocupação em sentido técnico, pois que não há nenhuma apreensão material dos animais; para além disso, nem os animais são coisas nullius;
® Art. 1321º - animais selvagens ferozes mantidos em cativeiro: qualquer pessoa pode matar esses animais ou ocupá-los, desde os animais se evadam da clausura em que se encontravam;
o Numa parte contém um regime de ocupação e noutra parte contém um regime excecional á regra geral do art. 1318º, permitindo a ocupação de animal com dono.
® Art. 1322º/1: o proprietário de exame de abelhas enxameado pode perseguir as abelhas no prédio para onde elas fugiram;
o Tem dois dias para o fazer; não o fazendo no prazo de dois dias, o proprietário do prédio onde o enxame se encontra pode ocupá-lo ou consentir que um terceiro as ocupe (art. 1322º/2);
o Art. 1322º/2: outra exceção à regra do art. 1318º (ocupação de animais com dono);
2.2.1E
FICÁCIA DAO
CUPAÇÃO EM
OMENTO DEA
QUISIÇÃOA ocupação é um facto aquisitivo do direito de propriedade (art. 1316º e 1317º/d)) e só a
propriedade pode ser adquirida por intermédio de ocupação. Trata-se de uma ocupação originária do
direito de propriedade – é assim constituído um direito novo.
Quanto ao momento de aquisição, nos termos do art. 1317º/d), entende-se que esta ocorre no
momento da verificação do facto respetivo. JAV entende que o facto aquisitivo é o apossamento, ou
seja, a apreensão material da coisa ou animal.
2.3.A
CHAMENTOO achamento não se reporta a coisas ou animais nullius. O achamento opera, antes, relativamente a coisas móveis ou animais perdidos, logo, com dono. Engloba, ainda, as coisas ou animais escondidos,
desde que não constituam tesouros, no caso dos animais (art. 1323º e 1324º).
É um modo de aquisição originária da propriedade, sendo o direito adquirido um direito novo.
Em termos reais, é um facto complexo de produção sucessiva, que assenta primariamente numa
apreensão material de coisa ou animal perdido ou escondido, supõe o cumprimento dos deveres de comunicação, anuncio e aviso, mas só findo um ano sem que a coisa ou animal sja reclamado pelo seu dono permite o achador adquirir a propriedade.
José Alberto Vieira entende que o art. 1323º/1 deve ser alvo de interpretação
extensiva/aplicação por analogia, abrangendo as coisas ou animais escondidos que sejam encontrados por alguém e não possam ser qualificados como tesouros no sentido do art. 1324º.
Note-se que a aquisição não ocorre por mero apossamento, mas pelo cumprimento das
formalidades do art. 1323º/1324º.
O achador tem direito de retenção e ode envolver o pagamento de prémios (arts. 1323º/3 e 4).
2.3.A
CHAMENTO DEC
OISAV
ALIOSA–
T
ESOUROReporta-se, nos termos do art. 1324º, a coisas com valor considerável, que foram escondidas
pelo seu dono.
(i). Podendo saber quem é o proprietário da coisa valiosa escondida: deve avisar este
último de que a encontrou ou restituí-la. Se o dono não reclamar no prazo de um ano, o achador faz sua a metade da coisa achada.
a. Interpretação feita por JAV: por via do art. 1323º/2, não se justificando a
distinção de regime;
a. (1) se não foi escondido há mais de 20 anos, deve comunicar o achado ao proprietário da coisa móvel/imóvel onde foi encontrado, para que este último possa exercer o direito atribuído pelo art. 1324º/1, de ficar com metade do tesouro;
b. (2) se foi escondido há mais de 20 anos, deve anunciar o achado nos termos do art. 1323º ou avisar as autoridades; se aparecer o proprietário, deve o tesouro ser-lhe entregue, sem prejuízo de indemnização (art. 1323º/3 e 4)
Em caso de aquisição de metade-metade, a aquisição será a título originário – trata-se de um
verdadeiro direito constituído ex novo.
Já quanto ao momento da aquisição do direito de propriedade:
® Se o tesouro houver sido escondido/enterrado há menos de 20 anos e o achador
fizer a comunicação ao proprietário: art. 1324º/2; adquire a propriedade de metade do
achado um ano depois da comunicação, do anúncio ou do aviso (art. 1323º/2);
® Se o tesouro foi enterrado ou escondido há mais de 20 anos: o achamento e consequente apreensão material determinam a aquisição automática de metade do tesouro pelo achador; o dono da coisa onde o tesouro estava escondido ou enterrado adquire, querendo, a outra metade.
Mais uma vez, esta forma específica apenas permite adquirir a propriedade.