A TRANSGRESSÃO DA ORDEM “NATURAL” ( COMERCIANTES E CRISTÃOS NOVOS )
F ESTAS REAIS : O DESFILE SIMBÓLICO DO PODER
O Antigo Regime português foi caracterizado por exibições de pompa e suntuosidade que eram evidenciadas tanto na construção de templos e palácios quanto nas celebrações e festividades. Estas características acentuaram-se no reinado de d. João V.272 Por meio desses “espetáculos” visuais, permanentes ou efêmeros, buscava-se construir uma imagem do rei capaz de transmitir aos súditos toda a sua magnificência, poder e liberalidade. Nesse sentido, as festas deviam maravilhar e arrebatar os espectadores, evidenciando o poder monárquico e a magnanimidade do rei enquanto promotor desses grandiosos espetáculos. Tais festas, sempre caracterizando a um só tempo celebrações dos poderes político e religioso, tinham como centro das atenções e da ação o rei, “primeiro actor e supremo arquiteto” (BEBIANO, 1987, p. 49). E isso, mesmo considerando que a presença real era, no mais das vezes, apenas simbólica, como era o caso, evidentemente, das festas coloniais.
Mas se as festas eram da Coroa, quem as realizava eram os súditos da América portuguesa e, nestas ocasiões, as elites locais também se esmeravam para mostrar a hierarquia social, poder e prestígio de que eram detentores, exibindo pompa, riqueza e luxo.
Por meio de cartas endereçadas aos governadores e às Câmaras coloniais, o rei comunicava eventos que deveriam ser celebrados e prescrevia o procedimento, a data, o número de dias de duração, a programação, as precedências a serem adotadas pelos colonos nas cerimônias etc.273 Celebravam-se desde nascimentos e casamentos reais até assinaturas de tratados políticos. Em 1713, o Marquês de Angeja, Vice-rei do Brasil, recebeu de d. João V carta régia, datada de 15 de maio, em que este lhe comunicava que
272 Isto dos dois lados do atlântico. As primeiras décadas do século XVIII foram marcadas, na Bahia, por uma corrida entre as Ordens religiosas, pela reforma e ornamentação de seus templos, tornando-os cada vez mais suntuosos.
273 Ordem Régia regulamentando as precedências nas cerimônias públicas. 13/07/1727. APEB. Série Ordens Régias, 1725-1730.
Por estar confirmada e ratificada a paz que celebrei com El-Rei de Castela, e ser esta nova de grande gosto é justo que como tal se festeje, e mandei publicar neste Reino no primeiro dia do mês de maio deste ano, na forma que vereis da cópia inclusa; e à Câmara desta cidade ordeno faça o mesmo, o que vos mando participar para que em a noite do dia da sua publicação e nas duas seguintes mandeis fazer salvas nas fortalezas dessa capitania.274
Por sua vez, era comum o Governador geral ou Vice-rei escrever à Coroa dando conta dos festejos:
Senhor, em vinte e oito de Novembro próximo passado se publicou nesta cidade a paz confirmada e ratificada por El-Rei de Castela e na noite do mesmo dia e nas duas seguintes, mandei fazer em todas as fortalezas desta Cidade as salvas que V. Majestade me ordenou nesta carta. O Senado dela celebrou aquele ato com todas as demonstrações de alegria que lhe tocava [...].275
Em 1751, o Vice-rei, Conde de Athouguia, escrevia a Diogo de Mendonça Corte Real, do Conselho Ultramarino, para relatar os festejos que se observaram na Bahia pela aclamação do rei d. José.276 Em 1760, quando do casamento da princesa d. Maria com o príncipe d. Pedro, o governador interino, Chanceler da Relação da Bahia, Thomas Robi, anexou também uma “Narração panegírico histórica”, escrita pelo padre Manuel Cerqueira Torres.277 Dessa forma, os colonos experimentavam sua integração no corpo místico do Estado, festejando na colônia os eventos ligados à família real e à monarquia, festas cheias de pompa e muito caras, geralmente custeadas com o concurso da população.
Foi o que se deu em 1661, quando do casamento da princesa, d. Catarina, filha de d. João IV, com o rei da Inglaterra, Carlos II. Para cobrir os festejos realizados pela cidade do Salvador, a Câmara, por um termo registrado no livro de Atas, ordenou que se abrisse um “caderno numerado e rubricado por um dos juizes ordinários” no qual seria lançado o dinheiro arrecadado para custear “as festas do feliz casamento da Senhora
274 APEB, livro 9. Série Ordens Régias, 1702-1714.
275 Carta do Vice-rei, Marquês de Angeja, a d. João V, comunicando das festividades realizadas na Bahia pela paz com Castela. Bahia e Dezembro 14 de 1714. APEB. Livro 9, Serie Ordens Régias, 1702-1714. 276 “Oficio do Vice-rei, Conde de Athouguia, para Diogo de Mendonça Corte Real, relatando os festejos públicos realizados na Bahia para celebrar a aclamação de d. José I.” Bahia, 6 de abril de 1751. AHU. Doc. Bahia (Castro e Almeida): Cx. 1. Doc. 75.
277 Cf. “Ofício do Chanceler governador Thomaz Roby de Barros para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, em que lhe participa ter sido recebida com muito regosijo na Bahia a fausta notícia do casamento da Princesa da Beira com o infante d. Pedro e o informa dos festejos públicos que se realizaram para celebrar o acontecimento. Bahia, 12 de novembro de 1760”.AHU. Doc. Bahia. (Castro e Almeida): Cx. 27. Doc. 5097. Anexo a este documento, a “Narração panegírico-histórica das festividades com que a Cidade da Bahia solenizou os felicíssimos desposórios da Princeza N. Senhora com o Sereníssimo Sr. Infante d. Pedro, offerecida a El-Rei Nosso Senhor por seu autor o Reverendo P. Manuel de Cerqueira Torres, bahiense, etc.”
Infanta com El-rei da Inglaterra”. O dinheiro arrecadado, portanto, seria gasto “com as coisas que se comprarão” e com “as comédias e ditas festas” 278
Era comum também o envio de donativos para custear as celebrações ocorridas em Portugal, além de contribuição para os dotes das princesas nubentes. Assim foi neste ano de 1661, quando a América portuguesa haveria de contribuir com 140.000 cruzados, durante dezoito anos, para o pagamento do dote da Infanta, d. Catarina. Este valor incluía também a contribuição da colônia para a indenização da paz celebrada com a Holanda. O rateio proposto pelo Governador geral Francisco Barreto determinava a seguinte divisão: Pernambuco, 25.000 cruzados; Itamaracá e Paraíba, 3.000 cruzados; Rio de Janeiro, 26.000 cruzados; São Paulo 4.000 cruzados; Bahia, 80.000 cruzados.279
Também em 1727, para os casamentos dos príncipes de Portugal e Castela, a Capitania da Bahia foi chamada a contribuir. Foram estipulados 20 anos para este pagamento. Todavia, 26 anos depois, em 1753, ainda não havia sido concluído o pagamento, daí as diligências do intendente do ouro, Wenceslau Pereira da Silva:
... Em o ano de 1727 veio carta de S. M. expedida em 6 de abril do mesmo ano, para os povos desta capital contribuírem com um grosso donativo para os casamentos dos Sereníssimos Príncipes e ofereceram logo três milhões, pagos em 20 anos, à razão de 150 mil cruzados por ano, tirados dos efeitos arbitrados e declarados no termo que se fez deste estabelecimento, continuado em 30 de junho do dito ano.
Imediatamente se passou à execução desta diligência, que me foi cometida e conferindo-a repetidas vezes com os Oficiais da Câmara e os 8 árbitros adjuntos, nomeados pelos Povos, como seus procuradores, depois de feitas todas as averiguações e disposições necessárias para o regularem e acertarem os meios, se assentou por todos uniformemente, que a Cidade da Bahia e seu termo contribuiria em cada um ano com 110 mil cruzados, tirados dos gêneros seguintes.
A saber na carne de vaca se impôs 160 réis por arroba, regulando-se que se poderiam gastar em cada um ano 12 mil bois e produzir 42 mil cruzados. Na aguardente da terra 80 réis por canada e gastando-se mil pipas em cada ano renderia 12 mil cruzados. No azeite da baleia a 80 réis por canada e gastando-se mil pipas em cada ano, renderia outra tanta quantia de 12 mil cruzados. No azeite doce a 600 réis por barril, produziriam 6 mil cruzados. Pelos negros trazidos da Costa da Mina pagariam seus donos 2 mil réis por cada um, e produziriam uns anos por outros 40 mil cruzados cada ano, o que tudo faria a importância dos ditos 110 mil cruzados prometidos.280
278 DHAM. Atas da Câmara, vol 4, 1659-1669, p. 98.
279 Registro da Resolução que se tomou perante o Senhor Francisco Barreto governador deste Estado
sobre a contribuição do dote da senhora Rainha da Grã Bretanha e da paz de Holanda. Cf. DHAM. Atas da Câmara, Vol. 4, p. 136-140.
280 Oficio do Intendente Geral do ouro, Wenceslau Pereira da Silva, para Diogo de Mendonça Corte Real, acerca das diligências a que procedera para a averiguação dos descaminhos e irregularidades nas
As outras vilas e comarcas da capitania da Bahia contribuiriam com 800 mil cruzados, à razão de 40 mil cruzados por ano, “tirados dos gêneros ou pelos meios que lhes parecesse”.281
Na maioria das vezes, a Coroa informava as datas em que seriam celebradas as festas. Mas, em algumas ocasiões, as autoridades locais tomavam a iniciativa, sem qualquer solicitação da metrópole. Exemplo disso ocorreu em 22 de novembro de 1645, quando a Câmara de Salvador, reunida extraordinariamente, fez voto perpétuo a Santo Antonio de Argoim de solenizar, todos os anos, o dia do aniversário da restauração de Pernambuco e das demais partes do norte do Brasil, ocupadas pelos holandeses, com festa e procissão saindo da igreja do Convento de São Francisco, assim como substituir imagem do Santo que se encontrava naquela igreja, “por outra igual feita à custa de seu cofre”, além de pagar 10$000 por ano ao capelão que todas as quartas feiras do ano celebrasse missa para o santo.282
Na América portuguesa, as festas, efetivamente, possibilitavam aos grupos sociais o confronto de prestígio e rivalidades, a exaltação de posições e valores, de privilégios e poderes. Tudo isto sublinhado devidamente pela ostentação do luxo e distribuição de generosidade. O indivíduo e o grupo familiar afirmavam, com sua participação nas festas públicas, seu lugar na sociedade e na sociedade política.
No século XVIII ocorreram várias destas suntuosas festas na Bahia, com seus aparatosos desfiles em “demonstração de pública alegria” ligadas a eventos referentes à família real.283 De algumas delas, temos apenas breves referências documentais, outras, no entanto, tiveram narradores entusiasmados que deixaram para a posteridade toda a pompa e suntuosidade daquelas festas.
O primeiro caso é exemplificado pelas festas de aclamação de d. José I, em 7 de setembro 1751. O Conde de Athouguia tomou conhecimento em 6 de dezembro do mesmo ano, por carta recebida de Diogo de Mendonça Furtado, do Conselho Ultramarino. O Vice-rei do Brasil responde ao conselheiro descrevendo suas ações logo que tomou conhecimento da aclamação:
cobranças, e pagamentos do Donativo Real estabelecido na Cidade e Capitania da Bahia em 1727. Bahia 3 de março de 1753. AHU. Doc. Bahia (Castro de Almeida): Cx. 04 doc. 480.
281 Idem.
282 Cf. DHAM. Atas da Câmara, livro 2, p. 190.
283 Isto sem contarmos as exéquias reais, como a de 1707, pela morte de d. Pedro II, narrada por Sebastião da Rocha Pitta, e a de d. João V, em 1750. E sem falar também das cerimônias fúnebres por morte de Vice-reis e governadores gerais.
Ordenei se preparassem o que era necessário para executar nesta cidade o mesmo ato, tão desejado dos moradores dela, e de todos os que temos a honra de ser empregados do Real serviço.
Com efeito, no dia 20 de fevereiro passado, veio a Câmara buscar-me, e saindo com ela processionalmente, tive a fortuna de aclamar a S. Majestade com as formalidades costumadas em semelhantes ocasiões, e os repetidos vivas com que o povo me respondeu, sai os seguros mais infalíveis do excessivo gosto com que entram no feliz domínio do mesmo Senhor.
Em todos os sítios em que a cerimônia costuma fazer-se, houve descargas da Infantaria, a que responderam com a sua artilharia todas as fortalezas que defendem a esta cidade, e seu Porto; o mesmo exemplo seguiram os Navios que se estavam de fundo nele.
Recolheu-se a Procissão à Sé, aonde se cantou o Te Deum
Laudamus, em ação de graças a Deus Nosso Senhor pelo grande
benefício, que nos fez em conservar a Real Pessoa de S. Majestade até este tempo, em que o veneramos exaltado no trono de seus Avós; e a noite findou esta solenidade com as iluminações e repiques que houve em toda a cidade. E para segurar V. Excelência que se a duração do presente governo se medir pelos desejos destes Povos, viverá S. Majestade muitos e felicíssimos anos, que Deus queira conceder-lhes para a felicidade de seus Vassalos. Deus guarde a V. Excelência. Bahia, 6 de abril de 1751.284
Para o segundo caso, a primeira grande festa aconteceu em 1727, pelos casamentos dos príncipes de Portugal e Castela. d. José, príncipe do Brasil, futuro duque de Bragança e futuro rei de Portugal, casou-se com a Infanta de Castela, d. Maria Ana Vitória; e o Príncipe das Astúrias, d. Fernando, casou-se com d. Maria Bárbara. Das festas que se realizaram em Salvador por este duplo casamento, ficaria um “Diário Histórico”, escrito pelo licenciado José Ferreira de Matos, Tesoureiro mor da Sé da Bahia, oferecido ao Arcebispo de Salvador, d. Luis Álvares de Figueiredo285.
A intenção declarada do autor, ao redigir o “Diário Histórico”, era deixar registrada a sua experiência no cargo. O Arcebispo pretendia que “na ocasião de função tão régia se visse egregiamente majestosa” a Catedral da Sé, por isso tomou “à sua conta muito do que se viu no dia da ação de graças e Procissão”. E como a ornamentação dela era uma das funções do tesoureiro mor, resolvera deixar registro para seus sucessores.286 Como declara o próprio autor, não era outro o seu intento, senão descrever a armação da
284 Ofício do Vice-rei, Conde de Athouguia, para Diogo de Mendonça Corte Real, relatando os festejos
realizados na Bahia para celebrar a aclamação de d. José I. Bahia, 6 de abril de 1751. AHU. Doc. Bahia (Castro e Almeida): Cx. 1. Doc. 75.
285 Matos, José Ferreira. Diário histórico das celebridades, que na cidade da Bahia se fizeram em ação de
graças pelos felicíssimos casamentos dos sereníssimos príncipes de Portugal e Castela, ... daqui em diante referido apenas como Diário Histórico.
286 Cf. Diário Histórico. “Dedicatória”. As páginas do “Diário Histórico” só começam a ser numeradas a partir do “Diário”, efetivamente, ou seja, a “Dedicatória”, os poemas que trazem e as licenças do Santo Ofício não são numeradas.
Igreja e a Procissão “destas celebérrimas festas para utilidade dos sucessores da minha dignidade de Tesoureiro mor; porém por não ficar mutilada a narrativa de toda esta ação de graças, a descrevo por modo de Diário” (MATOS, 1727, p. 5). Todavia, lendo um trecho da dedicatória compreendemos que havia algo mais que simples zelo para com seus sucessores:
[...] E se o que obrei nesta ocasião por mandado de Vossa Ilustríssima, mereceu uma geral plausibilidade, mais que tudo o agrado de Vossa Ilustríssima; justamente me resolvi a escrever com toda a singeleza, e verdade este rascunho destas grandiosas festas, assim para me servir de exemplar para as ocasiões de seu maior agrado, como para que meus sucessores não experimentem a indigência, que até agora experimentava na falta de notícias de muitas coisas próprias desta dignidade (MATOS, 1727. Dedicatória).
Além dessa intenção manifesta do autor, o Diário tinha também a função de manifestar a presença real nos lugares mais distantes, visto que os sinos que o autor fez repicar nestas festas, “tem limitada esfera para seus sonoros sons, e só por esta maneira podem chegar a partes remotíssimas, substituindo aquela falta com a narração deste Diário Histórico” (MATOS, 1727. Dedicatória). Esta função da narração das festas ficará evidente também no parecer do padre Mestre Frei Lucas de Santa Catarina, acadêmico real, para a obtenção de licença do Paço. Não achando “nada que se oponha ao Real serviço de Vossa Majestade”, diz o padre que
Antes reconheço no autor o bem meditado acerto (não faltando aos que pedem um Diário) de empregar a pena em tão nobre assunto (a que os Homeros e Lívios lusitanos deviam sacrificar os seus rasgos) que intenta que por meio da estampa se eternize, e se entregue às atenções da posteridade, protestando a mais rendida, e afetuosa sujeição daqueles nobres Estados aos seus Soberanos, nos dispêndios, e aparatos de uma ação suntuosamente festiva, em que com singular glória, se viu luzir o zelo, e lealdade portuguesa (MATOS, 1727, Licenças. Do Paço).
Logo que chegou à Bahia a notícia dos casamentos reais, o Senado da Câmara determinou aos moradores de Salvador, enquanto “Cabeça do Estado do Brasil, fazer uma demonstração de pública alegria” rendendo graças a Deus e mostrando-se “do modo possível” agradecidos a seu soberano “em lhes procurar por meio destes casamentos a dilatação de Príncipes nacionais para o estabelecimento do seu Reino e governo de seus domínios.” (MATOS, 1727, p. 3-4). As festividades foram ordenadas e coordenadas respectivamente pelo Arcebispo, d. Luis Álvares de Figueiredo, pelo Vice- rei d. Vasco Fernandes César de Menezes, futuro Conde de Sabugosa, e pelo Senado da Câmara. Desde o seu anúncio, a festa mostrou-se grandiloqüente ao exaltar que a
oportunidade de realizá-la era proporcional à necessidade de demonstração do empenho da Coroa para o sucesso das relações entre a comunidade e o Estado. Também aqueles que saíram pelas ruas da cidade anunciando o evento, estavam próximos do poder, indicando que a festa era propriedade do Estado. Foi assim que, a 23 de julho de 1727, fez-se a publicação e rompimento das festividades e, pelas luxuosas vestimentas dos pregoeiros, adivinhava-se uma faustosa festa:
Saiu da casa do Senado o Meirinho Miguel Cardoso de Sá vestido de gorgorão preto, bandada a capa de glacê de ouro, chapéu de plumas levantadas, meias reclamadas de ouro, e com ele o porteiro da Câmara vistosamente trajado, com maça de prata, e com eles o pregoeiro do Conselho vestido de crepe, bandada a capa de primavera carmesim; montavam a cavalo com seis trombeteiros de librés encarnadas, e um terno de Charameleiros a pé: desta sorte discorreram por toda a Cidade, fazendo saber a seus moradores a pública demonstração de alegria, o fim dela, e anunciando o dia de 25 do presente mês para dar princípio a esta celebridade (MATOS, 1727, pp. 5-6).
O povo era, portanto, “convidado” a participar da festa, e os pregões marcavam de fato o início dela, representando uma importante propaganda da qualidade, fausto, importância e riqueza que elevariam ou rebaixariam, diante da sociedade local, aqueles que a propunham ou patrocinavam. Quanto mais divertida e imaginativa fosse a atuação dos arautos, mais provável seria que a notícia da festa se espalhasse e circulasse no interior da comunidade, chamando toda a população.
Por outro lado, do ponto de vista da maioria dos moradores da cidade estes antecedentes da festa seriam talvez mais animados do que a própria solenidade final, pois, no aparatoso desfile de carros alegóricos de inspiração barroca, a participação popular só poderia ser de espectador passivo. Mas, nos bandos anunciadores do programa da festa, a presença de “máscaras” garantia, por certo, a diversão.
As festividades duraram de 25 de julho até 20 de agosto. Foram vinte e oito dias de oportunidades para a exibição de luxo e gala não apenas pelas elites, autoridades civis e eclesiásticas, “nobreza, e mais pessoas de distinção”, mas igualmente pelo “mais povo” que também “se vestiu de finíssimos panos bernes287, e outras vistosas cores, com véstias de seda e ouro, e prata; e não houve finalmente quem neste dia se não trajasse de nova gala”. Os ministros da Relação trajavam “garnachas de gorgorão preto, bandadas de tessús, rissos, glacês, e telas de ouro, e prata”. Os oficiais da Câmara, e todos os seus “cidadãos”, vestiam-se “do mesmo gorgorão preto com véstias, canhões, e forros das capas dos mesmos rissos, tessús, telas, e glacês de ouro, e prata, com meias reclamadas,
e chapéus bordados de ouro”. Os oficiais de guerra, nobreza, e demais pessoas de distinção “com casacas de estofos de ouro, e prata, véstias de tela, meias reclamadas, chapéus de plumas, e todo o mais ornato de igual custo; outros com casacas de seda lisa bordadas de ouro”; outros ainda com “casacos de seda lisa bordadas de ouro”. Um espetáculo de cores (MATOS, 1727, p. 7). Além das vistosas roupas, foram exibidas também “muitas carruagens da nova moda, guarnecidas de ouro, e forradas de damasco e de outras ricas sedas288. Até os escravos que serviam aos senhores nas festas vestiram- se “custosamente”, pois “não houve quem neste dia não trajasse seus lacaios, pajens, e carregadores das carruagens de vistosas librés” (MATOS, 1727, p. 8).
Nas ocasiões festivas, a população era conclamada a adornar a cidade, aumentando mais ainda o ambiente artificial para o desenrolar da festa. As ruas eram