A entrevista com a diretora da Escola 2 revelou questões importantes para os objet ivos do trabalho. Como na Escola 1, a diretora da Escola 2 teve sua trajetória profissional majoritariamente construída na mesma instituição, tendo formação específica para atuar junto às funções inerentes da direção.
Entrevistador: (...) Você pode começar contando um pouquinho da sua formação. Como é que você chegou aqui?
Entrevistada: Então, primeiro eu fiz magistério. Dei aula na educação infantil por uns 15 anos. Paralelo à educação infantil eu já trabalhava geografia, também dava aula de geografia. E um período eu trabalhei também na orientação educacional por quatro anos, no período noturno, aqui mesmo nesta escola (...) Trabalhei quatro anos, cinco anos aliás, no município, mas a minha trajetória mesmo é aqui. Terminei o magistério, já em seguida fiz a Pedagogia e fiz Geografia, e depois eu fiz Pós Graduação em na área de Pedagogia, e tenho (curso de pós graduação latu sensu) Supervisão e Orientação Educacional que eu fiz em Guarulhos, na UNG.
Então é uma formação bem voltada mesmo pra trabalhar com pessoas, né? (Diretora da Escola 2)
Nesse sentido, podemos afirmar que do ponto de vista curricular e com base nas experiências profissionais, a diretora da Escola 2 apresenta um perfil apropriado ao cargo de gestão escolar. Ainda assim, seu relato curiosamente apontou que a gestão da Escola 2 aconteceu por um acaso, não sendo pretendido por ela inicialmente:
Entrevistada: E a direção ela surgiu por um acaso mesmo, não era minha pretensão. Gostava muito da área de orientação educacional, por quatro anos trabalhei nessa área, fui vice-diretora por um ano também, mas essa questão de direção, de poder, não era meu objetivo. Quando foi 2003 teve eleição pra diretor (...) Nós participamos de uma certificação, que é uma prova, e depois vem para o processo seletivo, democrático mesmo, de eleição (...) nós montamos a chapa, e eu não tive concorrente, então foi chapa única, o colegiado que aclama, e eu assumi a direção em meados de março ou abril de 2004.(Diretora da Escola 2)
Por ser a maior escola entre as envolvidas nesta pesquisa, a Escola 2 trouxe também talvez as questões cotidianas que mais se identificaram com aquelas encontradas no referencial teórico deste trabalho. O ponto alto da entrevista com a diretora da Escola 2 se deu no seu relato sobre as mudanças que sucederam na instituição após o início de sua gestão. Logo no início da entrevista, a diretora expôs as principais dificuldades que enfrentou em sua experiência naquele contexto. Segundo ela, em 2004, quando assumiu a direção da escola através das eleições, a instituição estava desacreditada, com indicadores de qualidade do ensino abaixo do esperado, o que segundo ela contribuía para formação de um estereótipo negativo da instituição entre a comunidade local. Além disso, a instituição sempre recebeu um público diversificado de alunos, de bairros com perfis de vulnerabilidade social e famílias de trabalhadores que chegavam na cidade a trabalho e por isso, tinham uma cultura distinta daquela encontrada na maioria das famílias locais e consequentemente dos jovens no interior da escola.
Na avaliação da diretora da Escola 2, as principais ações que contribuíram para uma mudança positiva na instituição se deram com a responsabilização dos profissionais da gestão pela melhoria na vida institucional da Escola. Nesse sentido, a diretora da Escola 2 atribui estas mudanças ao maior envolvimento da direção no conhecimento do seu público de alunos e famílias, ao estabelecimento de metas e planejamentos para progressos dos alunos nos
resultados de avaliações sobre a qualidade do ensino, como o IDEB e o PROEB13, além da importância do maior envolvimento dos pais e familiares na escolarização das crianças e jovens através do Conselho Escolar. Quando perguntei a diretora que ações foram fundamentais para a mudança que a escola passou em todo esse período, destacou ela:
Entrevistada: (...) Nós somos profissionais, todos competentes, todos bons e depende de nós essa mudança aqui dentro, ela tem que vir de dentro pra fora, então tem que vir da nossa parte, do que nós queremos. Começamos praticamente um novo projeto político pedagógico. Fazendo levantamento de dados, como que a escola está, que escola queremos, qual é o perfil do nosso alunado, o perfil dos profissionais que trabalhavam aqui dentro, perfil de pais, e a gente teve um apoio forte do colegiado (Conselho Escolar) nesse momento, que no nosso estado de Minas é muito atuante né? Que é formado por pais, servidores e alunos. E era uma escola assim, gostava de ta envolvida em todos os projetos. Mas tudo isso tinha que ser direcionado pra crescimento mesmo educacional (...) Fomos entendendo melhor o que era o IDEB, o que era PROEB (...) então fomos tomando ciência de tudo isso, traçando meta, traçando objetivo. Não é essa escola que a gente quer é essa que nós queremos, então eu acho que esse foi o grande salto e as mudanças foram acontecendo, os resultados foram aparecendo. A escola no ano seguinte já teve uma maior procura de matrícula (...). (Diretora da Escola 2)
O discurso da diretora evidenciou sua crença na capacidade que as estruturas organizacionais das instituições de ensino públicas podem ter na melhoria do processo de ensino aprendizagem dos estudantes. De acordo com PARO (2010; p.765), todos os processos que constituem a organização interna das escolas, sobretudo aquelas relacionadas à gestão escolar, podem ser entendidas como atividades que devem estar em sintonia com o objetivo último da escola, que é a qualidade do processo de ensino aprendizagem. Assim, seu trabalho nos orienta que a lógica de gestão predominante nas empresas e que responde as exigências de mercado, não podem ser transpostas acriticamente para a organização interna de uma escola na medida em que os fins que a administração empresarial buscam são outros,
13 O PROEB é uma avaliação externa e censitária que busca diagnosticar a educação pública do estado de Minas Gerais. O PROEB em 2000 avaliou os conteúdos de Português e Matemática; em 2001 de Ciências Humanas e da Natureza; em 2002, Português; em 2003, Matemática, e, em 2006, avaliou os conteúdos de Português e Matemática. Participam os alunos da IV fase do Ciclo Complementar de Alfabetização (4ª série) e 8ª série do Ensino Fundamental e do 3º ano do Ensino Médio de todas as escolas estaduais e municipais (dos municípios que aderiram ao PROEB). O resultado de cada escola é publicado em forma de relatório no Boletim. Cada escola recebe seu resultado individualmente. Tem como objetivo fornecer subsídios ao governo estadual e prefeituras municipais para a tomada de decisões relativas às políticas públicas educacionais e, às escolas para a reflexão quanto ao direcionamento de suas práticas pedagógicas.
marcados pela busca constante do lucro, aumento da produtividade pelos trabalhadores e pelas máquinas e equipamentos e redução de custos. Nesse sentido, as práticas de gestão escolar são classificadas pelo autor como “atividades que são meios” para se atingir um fim mais importante, que no caso da escola é a qualidade na escolarização dos jovens.
O perfil profissional e a experiência da diretora da Escola 2 denotam uma profissional com formação acadêmica específica voltada para trabalhos de supervisão e coordenação pedagógica, que trabalha na mesma escola desde o início de sua atuação profissional e que está na gestão escolar há quase uma década, tendo sido empossada através de um processo de eleição. Em seu relato, ficou claro a valorização de sua equipe de trabalho para os processos de mudanças que acompanharam a escola desde o início de seu trabalho na direção. Além disso, a diretora também chamou atenção para o envolvimento dos pais e familiares através do conselho escolar. Ainda assim, não é possível afirmar que a Escola 2 tenha realmente passado por mudanças significativas desde o início da gestão da diretora em 2004, na medida em que isso exigiria um levantamento acerca do histórico da vida institucional da Escola 2, que envolveria uma avaliação dos indicadores de ensino, o cumprimento de metas e programas do poder público, além da credibilidade atestada à gestão pelos profissionais, professores, alunos e pais, e tudo isso como se percebe, foge dos objetivos deste trabalho.