O Parecer CNE/CEB n.º 5/2008, traz concretamente a questão da formação do professor que trabalha com os estudantes com deficiência. É um parecer demandado pelo Instituto Nacional de Educação de Surdos, o qual está vinculado ao Ministério da Educação. O parecer traz a proposta de substituir o Curso de Estudos Adicionais, destinado ao atendimento da demanda de capacitação de professores para atuar na área de surdez, pelo Curso de Capacitação de Professores da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental na área da surdez, com 400 (quatrocentas) horas de duração, com as seguintes justificativas:
a) a maioria dos professores que leciona na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental (...) possui formação em nível médio;
b) o afastamento dos professores de suas unidades (...) para uma capacitação com carga horária de oitocentas horas, prejudica (...) a estrutura escolar;
c) a redução da carga horária do curso ampliará o conhecimento dos professores sobre a área da surdez, sem (...) causar prejuízo ao alunado;
d) o curso possibilita a efetiva inclusão da pessoa surda no sistema de ensino, de ampliar os conhecimentos dos que atuam em todo o território nacional, mas possuem formação apenas em nível médio na modalidade Normal. (PARECER CNE/CEB Nº:
5/2008).
O curso de 400hs é estruturado com os seguintes conteúdos: Educação Especial e Surdez – 20 horas; Prevenção, Diagnóstico e Etiologia da Surdez – 30 horas; Implicações da Surdez –
30 horas; Fundamentos Teóricos e Metodológicos em Educação – 20 horas; Introdução à Linguística – 25 horas; Educação com Bilinguismo – 25 horas; Prática Pedagógica – 250 horas.
O parecer foi aprovado em 12/3/2008 e o relator faz referência ao artigo 63, inciso III, da Lei n.º 9.394/96 – LDBEN, que coloca como dever dos institutos superiores de educação manter programas de educação continuada para os profissionais de educação dos diversos níveis.
Observa-se, neste parecer, como o conteúdo do curso ainda se centra na perspectiva da integração e da deficiência no modelo biomédico.
A formação do professor é um investimento, observa-se muitas vezes que o Estado, com o objetivo de reduzir custos, opta por cursos de curta duração. O esforço das agências multilaterais é minimizar os custos, conforme Michels (2011, p. 81):
Em relação à formação, o Banco Mundial (1995) aponta a formação em serviço (ou continuada) como a estratégia mais eficaz para qualificar os professores. Já a CEPAL (1995) indica a modalidade à distância como a mais adequada. Esses dois encaminhamentos juntos (formação em serviço e à distância) seriam para essas agências os mais viáveis economicamente.
O Parecer CNE/CEB n,º 12/2015 demandado pelo Conselho Municipal de Educação de Belford Roxo, consulta sobre o enquadramento funcional dos profissionais intérpretes de Libras. Questiona se eles são considerados membros do magistério público ou técnicos, se podem possuir duas matrículas como intérpretes de Libras, se a exigência do edital deve ser a de apresentar apenas diploma de curso, como proceder quanto ao enriquecimento funcional dos mesmos.
A Câmara de Educação Básica, após debate preliminar da matéria, busca apoio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação (SECADI/MEC) para melhor estudar o tema. A SECADI/MEC considera o tema complexo e, de forma sucinta, argumenta que tradutor é o profissional que lida com os textos escritos, traduzindo as palavras e as ideias de uma língua para outra/um idioma para o outro, enquanto o intérprete é o profissional que interpreta os diálogos entre pessoas que utilizam línguas/idiomas diferentes, por meio de interpretações simultâneas ou consecutivas que ocorrem em salas de aula, em congressos nacionais e internacionais, em reuniões governamentais ou outros.
Em relação às atribuições do tradutor e intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras), a SECADI/MEC informa as seguintes leis específicas sobre a matéria: a Lei n.º 11.091/2005 dispõe sobre a estruturação do Plano de Carreira dos Cargos Técnico-Administrativos
(PCCTAE) em Educação, no âmbito das Instituições Federais de Ensino; a Lei nº 12. 319/2010 regulamenta a profissão de Tradutor e Intérprete de Libras; e a Lei n.º 12.677/2012 dispõe sobre a criação de cargos efetivos, cargos de direção e funções gratificadas no âmbito do Ministério da Educação, destinados às Instituições Federais de Ensino.
Nenhuma das legislações citadas referem-se, especificamente, às funções de “instrutor, tradutor/intérprete de Libras e guia-intérprete”, conforme prevê a PNEEPI (BRASIL,2008).
Diante deste contexto o questionamento é se o profissional tradutor e intérprete de libras não deveria ser necessariamente do quadro do magistério e como a formação do professor deveria atender à demanda de comunicação para os estudantes surdos. O relator não se pronuncia, orientando apenas que o Conselho Municipal de Educação de Belford Roxo envie proposta para que o prefeito municipal encaminhe à Câmara de Vereadores um projeto de lei que disponha sobre a criação do cargo de tradutor e intérprete de Libras, nível médio e superior, entre os técnico-administrativos em educação, para distribuição nas diferentes instituições públicas municipais de ensino.
As normas, mesmo não especificando a formação do profissional, referenciam-se à necessidade de um profissional para atuar como tradutor e intérprete de libras para os estudantes surdos, público-alvo da educação especial. Ressalta-se que o que está sendo colocada não é a necessidade de qualquer profissional tradutor-intérprete, mas um profissional capaz de se integrar ao campo da educação. A PNEEPI (BRASIL,2008), por exemplo, é assertiva ao colocar que a atuação do profissional deve estar articulada com a proposta pedagógica do ensino comum.
Desde 2015, nesse contexto, o inciso 4° da Resolução n.º 02/2015 Conselho Nacional de Educação/Conselho Pleno CNE/CP compreende como profissionais do magistério os profissionais da docência e atividades pedagógicas atuantes nas diversas etapas e modalidades de ensino, ficando o seu reconhecimento enquanto profissionais do magistério que atuam na educação especial como no disposto a seguir:
§ 4° Os profissionais do magistério da educação básica compreendem aqueles que exercem atividades de docência e demais atividades pedagógicas, incluindo a gestão educacional dos sistemas de ensino e das unidades escolares de educação básica, nas diversas etapas e modalidades de educação (educação infantil, ensino fundamental, ensino médio, educação de jovens e adultos, educação especial, educação profissional e técnica de nível médio, educação escolar indígena, educação do campo, educação escolar quilombola e educação a distância), e possuem a formação mínima exigida pela legislação federal das Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 2015, p. 4)
De acordo com a Resolução n.º 02/2015, a docência abarca a ação da educação como um todo, relacionada aos processos de escolarização, que envolve todos os públicos, reconhecendo suas diferenças linguísticas, culturais e sociais que possuem relação direta com o ensinar e aprender.
[...] a docência como ação educativa e como processo pedagógico intencional e metódico, envolvendo conhecimentos específicos, interdisciplinares e pedagógicos, conceitos, princípios e objetivos da formação que se desenvolvem entre conhecimentos científicos e culturais, nos valores éticos, políticos e estéticos inerentes ao ensinar e aprender, na socialização e construção de conhecimentos, no diálogo constante entre diferentes visões de mundo (BRASIL, 2015, p. 2)
Observa-se que os dois pareceres desta categoria temática, embora com demandas distintas, referem-se à questão da formação do profissional que trabalha com a comunicação dos surdos. Um, referente ao curso oferecido pelo INES aos professores, e outro solicitando o enquadramento funcional dos profissionais.
O parecer de ambos relatores não ampliam o direito à educação na perspectiva inclusiva.
Um coaduna-se com pleito de diminuição da carga horária da formação do professor e o outro tem um posicionamento omisso, sugerindo o encaminhamento do pleito ao Conselho Municipal.