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3. CONTEXTO GEOLÓGICO

3.3. F ORMAÇÃO H OBBS G LACIER

A Formação Hobbs Glacier é a unidade basal do Grupo Vulcânico Ilha James Ross, e representa o principal depósito sedimentar do grupo. A contemporaneidade ou penecontemporaneidade da deposição da formação com o vulcanismo responsável pela deposição de outros estratos do grupo é atestada pelo fato de grande parte dos clastos vulcânicos que compõe seus diamictitos possuírem a mesma idade e serem petrograficamente idênticos aqueles de outras unidades do Grupo Vulcânico Ilha James Ross (Pirrie et al., 1997a).

A Formação Hobbs Glacier foi formalmente descrita por Pirrie et al. (1997b), a partir do mapeamento dos “conglomerados tufosos” descritos por Nelson (1975) para os afloramentos da costa sul da Ilha James Ross. Nesta área, os depósitos atingem 4,3 metros de espessura, com uma porção inferior composta por diamictitos maciços ou laminados e por uma porção superior composta por tufos vulcânicos arenosos grossos ou finos (Figura 9). Estratificações cruzadas são relativamente comuns nos tufos, indicando uma paleocorrente com sentindo predominante e persistente em direção à nordeste e à leste durante toda a deposição.

Marenssi et al. (2010) reconheceu a Formação Hobbs Glacier também na Ilha Seymour, onde a unidade tem espessura total de aproximadamente 15 metros, sendo que em outro perfil levantado pelos autores ela apresenta pouco mais de 7 metros de espessura (Figura 10), o que sugere que a unidade possui uma geometria lenticular. As fácies definidas por Pirrie et al (1997b) para os afloramentos da Formação Hobbs Glacier no sul da Ilha James Ross encontram equivalentes virtualmente idênticos na Ilha Seymour, sendo a porção inferior, com fácies de diamictitos, sempre mais espessa que a porção superior, caracterizada por fácies de arenitos tufosos. As fácies serão descritas a seguir, de acordo com suas definições por Pirrie et al. (1997b). Os diamictitos da porção inferior da formação possuem duas fácies distintas. A primeira, denominada Fácies 1, é maciça, descrita como um diamictito argiloso com clastos mal selecionados, com a média de clastos com tamanhos superiores a 2 mm, sendo comuns os seixos e raros os clastos com aproximadamente 2 metros. A segunda, denominada Fácies 2, consiste de diamictitos laminados e intercalados com arenitos com estratificações cruzadas.

A porção superior da formação é composta por arenitos e siltitos tufosos, com quatro fáceis distintas, descritas a seguir na ordem de empilhamento: (1) Fácies 3, correspondendo às intercalações de arenitos finos e siltitos tufosos, com arenitos com estratificações cruzadas e siltitos

maciços; (2) Fácies 4, composta por arenitos tufosos finos com marcas onduladas assimétricas, com predominância de fluxos para nordeste e leste; (3) Fácies 5, caracterizada por arenitos grossos tufosos mal selecionados, com laminação paralela ou marcas onduladas pouco definidas; e (4) Fácies 6, composta por arenitos finos e médios tufosos, com clastos com granulometria entre areia muito grossa e seixo.

Cabe ressaltar a presença de pavimentos de matacões estriados, formados principalmente por calcários da Formação La Meseta, em estrato da porção inferior da formação (cf. Rocha Campos et al., 2017). O estrato representaria um depósito residual, gerado pelo joeiramento promovido por correntes aquáticas, e sua superfície teria sido estriada pelo atrito com plataformas de gelo flutuante, indicando assim um contexto deposicional bastante raso.

A idade da unidade foi aferida bioestratigráfica e isotopicamente. A ocorrência de cistos de dinoflagelados e, principalmente, do briozoário Microporella (que evoluiu durante o Mioceno Inicial), sugerem deposição durante o Mioceno (Pirrie et al., 1997b). Por sua vez, os dados isotópicos obtidos a partir das carapaças de cracas indicam idade de 9,9±0,97 Ma, refinando a idade de ao menos parte da formação para o andar Tortoniano do Mioceno Superior (Dingle & Lavelle, 1998). Assim, a idade miocênica é indicada por duas linhas de evidência independentes.

Quanto ao conteúdo fossilífero, os macrofósseis mais comuns consistem de dispersos fragmentos de conchas de bivalves não identificados e de verenoides do gênero Thyasira, além de briozoários (Pirrie et al., 1997b), que são relativamente comuns (Marenssi et al., 2010). Concheyro et al. (2007) relatam também ocorrências de poliquetos serpulídeos e braquiópodes terebratulídeos. Dessa forma, tanto os lofoforados briozoários e braquiópodes quanto os poliquetos atestam o contexto marinho da formação.

Os únicos microfósseis conhecidos para a unidade são formas com paredes orgânicas relatadas por Pirrie et al. (1997b). Essas assembleias de palinomorfos são relativamente abundantes, compostas por esporos e grãos de pólen de plantas terrestres e por cistos de dinoflagelados. Todavia, a maior parte deles consiste em espécimes retrabalhados dos depósitos cretácicos subjacentes, enquanto os palinomorfos contemporâneos à deposição da formação são raros, representados principalmente por cistos de dinoflagelados. A distinção entre eles pode ser feita não apenas pela identificação de alguns como espécies exclusivas de depósitos mesozoicos, mas também pelo grau de maturidade termal da matéria orgânica, que se apresenta mais escura e

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quimicamente matura nos espécimes mais antigos, enquanto restos mais recentes e quimicamente imaturos tendem a apresentar cores amareladas.

Ivany et al. (2006) relataram um diamictito pretensamente datado da transição Eoceno- Oligoceno ou do Oligoceno Inicial, sotoposto pela Formação La Meseta e sobreposto pela Formação Weddell Sea, na Ilha Seymour. Todavia, a presença do diamictito, com a litologia e contexto estratigráfico descritos por Ivany et al. (2006), não foi confirmada por estudos posteriores (e.g., Marenssi et al., 2009). Além disso, Concheyro et al. (2007) sugerem que os dinoflagelados utilizados como evidência de idade oligocênica por Ivany et al. (2006) foram na verdade exumados da Formação La Meseta, e redepositados com os sedimentos que viriam a ser atribuídos à Formação Hobbs Glacier por Marenssi et al. (2010); e, de fato, a predominância de dinoflagelados retrabalhados de depósitos mais antigos poderia ser considerada uma características típica da formação, tendo em vista que isso foi relatado por Pirrie et al. (1997b) ao descrever formalmente a unidade. O perfil de Ivany et al. (2006) é ainda similar aquele de Gazdzicki et al. (2004) e aquele de Rocha Campos et al. (2017), que corresponde ao perfil Sey-03 desta tese, ambos localizados dentro das mesmas coordenadas indicadas por Ivany et al. (2006); sugerindo, portanto, que as diferenças observadas ao se comparar os perfis (i.e., litologia, espessura dos estratos e conteúdo fossilífero) sejam de natureza subjetiva ou decorrentes de pequenas variações laterais dos depósitos.

Figura 9. Formação Hobbs Glacier na Ilha James Ross. Notar a predominância de diamictitos sob os tufos.

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Figura 10. Formação Hobbs Glacier na Ilha Seymour. Consideravelmente mais espessa que na Ilha James

Ross, a unidade também possui pacotes de diamictitos mais espessos na base e pacotes de tufos vulcânicos mais delgados no topo. (Modificado de Marenssi et al. [2010].)

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