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F.W De Klerk no Poder O Discurso Histórico

O PROCESSO DE TRANSIÇÃO

O FIM DO APARTHEID

6.2. F.W De Klerk no Poder O Discurso Histórico

Ao assumir a Presidência, De Klerk teve que repensar o processo de aproximação ao ANC. Vindo do sector conservador do NP, o novo Presidente teve que lidar com uma realidade que até há pouco desconhecia. Na verdade, até finais de 1988, De Klerk desconhecia a existência de contactos entre o governo e o ANC. Tal situação deveu-se ao facto das negociações estarem a ser conduzidas fora do âmbito governamental, o que implicava que apenas o círculo mais próximo de Botha estava a par das mesmas, e De Klerk não era um deles.

Só quando assumiu a liderança do NP no Transvaal, o que fazia dele a segunda figura dentro do partido, é que passou a estar ao corrente da existência dos contactos com o ANC. Contrariando a imagem de conservador, De Klerk afirmou que cada vez tinha mais dúvidas sobre os ideais do apartheid367:

366 Cfr. F.W. De Klerk: The Last Trek. A New Beginning, pp. 137-148. 367 Allister Sparks, op. cit., p. 91.

I was often troubled in my mind, and it became more and more difficult for me as a loyal spokesman in a leading position to defend a policy which increasingly I believed had to go.

Esta posição de De Klerk não deixa no entanto de ser surpreendente uma vez que poucos anos antes, em 1985, ele próprio se opôs às reformas de Botha que visaram eliminar alguns dos pontos mais radicais do apartheid, como por exemplo a abolição do Immorality Act, que criminalizava as relações sexuais interétnicas.

De Klerk justificou o seu apoio ao apartheid afirmando que o mesmo era An Honourable Vision of Justice368, o qual iria permitir o desenvolvimento separado para os vários grupos

étnicos da África do Sul. Apenas quando se provou que era impraticável é que se tornou injusto. Mais tarde, De Klerk reconheceu publicamente o fracasso do apartheid, embora não pedisse desculpa pelo mesmo369:

What started out with idealism in the quest for justice for that was the starting point of the policy of separate development failed to attain justice for all South Africans and, therefore, had to be abandoned and be replaced by the only viable policy able to work in this country.

Mas, apesar do seu conservadorismo, foi De Klerk que iniciou o processo de transição, o que nos leva a tentar identificar as razões para uma tal atitude. Imbuído no seu espírito religioso, De Klerk aceitou o cargo de Presidente como um chamamento de Deus. De Klerk era membro da Gereformeerde Kerk in Suidlike Afrika, o ramo mais pequeno e mais calvinista da Igreja Reformada Holandesa. Para além deste ramo, existiam mais dois, o Nederduitse Gereformeerde Kerk e o Nederduitsch Hervormede Kerk. Estes três ramos da Igreja Reformada Holandesa discordavam teologicamente em alguns pontos, porém, estavam unidas no apoio ao apartheid, para o qual encontravam justificação na Bíblia370. Na sua linha de

interpretação da ideologia calvinista, os Doppers, os membros da Igreja a que De Klerk pertencia, acreditam que receberam uma chamada, a roeping, de Deus para desempenharem determinada tarefa num momento específico. De Klerk, afirmou ter sentido essa chamada e que a sua missão seria a transformação do país371:

I believe in God and I believed I am being called upon to perform a specific task at this time in this new situation.

Os primeiros sinais de mudança surgiram logo após a vitória eleitoral do NP e de De Klerk nas eleições de Setembro de 1989. Manifestações da UDF foram autorizadas e vários opositores políticos, entre eles Walter Sisulu, foram libertados. Esta mudança surgiu num

368 Idem, p. 90.

369 Speech by State President FW De Klerk delivered on the steps of Tuynhuys on the Result of the Referendum, 18/03/92, p. 1.

http://www.fwdklerk.org.za/archives/920318ref.htm.

370 Marina Ottoway: South Africa. The Struggle for a New Order, p. 38. 371 Allister Sparks, op.cit., p. 100.

momento que a própria Igreja Reformada Holandesa também se distanciou do apartheid372.

Convencido da necessidade de avançar com as negociações, De Klerk precisava de convencer os seus colegas de governo e de partido. Com esse propósito em mente, juntou, em Dezembro de 1989, o seu governo na reserva de caça de D’Nyala373 ao pé da pequena cidade de Elliras

no Transvaal. Neste encontro, a maioria dos membros do governo concordou com a libertação dos presos políticos. A legalização dos movimentos anti-apartheid, nomeadamente do SACP, enfrentou inúmeras resistências, particularmente vindas do aparelho militar. Para os militares, liderados pelo Ministro da Defesa, o General Magnus Malan, até era aceitável a legalização do ANC, mas nunca a do SACP. Porém, ambas as organizações estavam demasiadamente ligadas para que se pudesse fazer uma tal distinção. A esmagadora maioria dos membros do SACP, nomeadamente os seus líderes eram, simultaneamente, membros do ANC, tornando-se impossível legalizar apenas o ANC.

Na sequência destas decisões, De Klerk encontrou-se, pela primeira vez, com Mandela. Tal como já tinha acontecido antes do seu encontro com Botha, Mandela preparou e apresentou um documento374 a De Klerk. Neste documento, Mandela agradeceu os gestos de boa vontade

efectuados por De Klerk, nomeadamente a libertação, por razões humanitárias, de vários presos políticos. Para Mandela estes gestos eram entendidos como sinais da disponibilidade do regime para criar um clima de aproximação. No sentido de aproximar as partes, Mandela surgeriu um processo negocial em duas fases. Uma primeira serviria para o governo e o ANC criarem as pré-condições para as negociações, para que, numa segunda fase, se iniciassem as negociações.

Para o ANC, qualquer processo negocial sério com o governo, tinha de ser feito no cumprimento do estipulado na Declaração da OUA de Harare de Agosto de 1989. Antes do início de qualquer processo negocial, a OUA defendia que governo sul-africano deveria criar as seguintes condições375:

1. Libertação incondicional de todos os prisioneiros políticos. 2. Levantamento de todas as restrições a movimentos e pessoas. 3. Retirada das tropas das townships.

4. Fim do Estado de Emergência e toda a legislação destinada a condicionar a vida política. 5. Fim das execuções políticas.

372 A partir dos anos 80, começaram a ser visíveis os primeiros sinais de distanciamento. Em Novembro de 1990, num encontro ecuménico com o Arcebispo Anglicano Desmond Tutu, os representantes da Igreja Reformada Holandesa reconheceram os erros e pediram perdão pelo passado.

373 Este local acabou por servir de retiro para De Klerk e para o seu governo durante as negociações. Em D’Nyala realizaram-se várias bosberaad, conferências no mato. A sua localização isolada favorecia o clima de trabalho, livre de pressões ou interferências externas.

374 A Document to Create a Climate of Understanding, 12/12/89, p. 1.

http://www.anc.org.za/ancdocs/history/mandela/nm891212.html

375 Declaration of the OAU. Ad-hoc Committee on Southern Africa on the Question of South Africa, 21/08/89, p. 2.

Os meses de Dezembro e Janeiro de 1990 foram decisivos para a consolidação da evolução do pensamento do Presidente sul-africano.

Quando De Klerk se preparava para fazer o discurso de abertura do Parlamento, a 2 de Fevereiro de 1990, ninguém esperava que o seu alcance fosse tão ousado e que fosse um marco histórico na história do país. Mesmo aqueles que esperavam algumas reformas estavam algo cépticos, uma vez que não esqueciam a desilusão que tinham sofrido cinco anos antes com o Rubicon Speech de Botha.

O Presidente sul-africano surpreendeu todos com o seu discurso. Ninguém podia prever que De Klerk, tendo em conta o seu passado conservador e os laços familiares com o sector mais tradicionalista do regime376, ousasse tomar tal decisão. De Klerk estava de tal maneira

associado aos ideiais do apartheid que era conhecido como Mr. National Party377. Em menos

de uma hora, o regime sul-africano ficou sentenciado para desaparecer, e os velhos mitos da nação africânder foram quebrados. De Klerk desfez o mito de que uma África do Sul branca era pertença dos africânderes por direito divino, e era condição indispensável para a sobrevivência da nação africânder. As palavras de De Klerk faziam prever a possibilidade de o pior pesadelo dos africânderes, uma África do Sul dirigida pela maioria negra, se podia tornar uma realidade. Embora não fosse, de início, essa a intenção de De Klerk, a verdade é que o seu discurso assim foi entendido.

No dia 2 de Fevereiro de 1990, De Klerk estava em condições de anunciar ao país as grandes transformações que se iriam iniciar. No seu discurso378, De Klerk começou por fazer uma

análise da situação internacional, interpretando as grandes alterações que se estavam a fazer sentir com o fim do bloco soviético, e as consequências destas alterações para a África Austral. Grande parte do seu discurso centrou-se na análise da situação sul-africana e as condições para as negociações. Para De Klerk, o processo negocial a iniciar visava o seguinte objectivo379:

The aim is a totally new and just constitutional dispensation in which every inhabitant will enjoy equal rights, treatment and opportunity in every sphere of endeavour – constitutional, social and economic.

376 Frederik Williem De Klerk pertencia a uma família muito ligada quer ao nacionalismo afrikander, quer ao apartheid. O seu pai Jan, tinha sido Ministro do primeiro governo do NP em 1948; a sua tia foi casada com o Primeiro-Ministro Hans Strijdom. O próprio Frederik tinha feito toda a sua educação e carreira política ligada ao NP.

377 Para além das ligações familiares, toda a formação académica de De Klerk foi feita em instituições profundamente ligadas ao apartheid. De Klerk licenciou-se na Potchefstroom University for Christian

Higher Education. Esta Universidade, situada no Transvaal, era dominada pelos ideais calvinistas e afrikanders.

Patti Waldmeir: Anatomy of a Miracle. The End of Apartheid and the Birth of the New South Africa, p. 109.

378 Ver o texto integral do discurso de F.W. De Klerk em anexo.

379 Address by the State President, Mr. F.W. De Klerk, at the opening of the second session of the ninth Parliament of the Republic of South Africa, Cape Town, 2/02/90, p. 1.

Para o Presidente sul-africano, a agenda das negociações deveria incluir toda uma série de questões380:

The agenda is open and the overall aims to which we are aspiring should be acceptable to all reasonable South Africans. Among other things, those aims include a new, democratic constitution; universal franchise; no domination; equality before an independent judiciary; the protection of minorities as well as of individual rights; freedom of religion; a sound economy based on proven economic principles and private enterprise; dynamic programmes directed at better education, health services; housing and social conditions for all.

Considerando a negociação como a grande prioridade do seu governo, F.W. De Klerk decidiu tomar várias medidas destinadas a afastar uma série de obstáculos com o objectivo de facilitar o início das mesmas. As principais decisões foram a legalização do ANC, PAC, SACP e mais 33 organizações anti-apartheid. Entre estas destacava-se a UDF; a libertação dos presos políticos, desde que não tivessem estado envolvidos em crimes de sangue; as medidas de controlo nos meios de comunicação social e na educação foram abolidas. Porém, o Presidente sul-africano não levantou o Estado de Emergência, justificando-se com a necessidade de controlar a violência que se fazia sentir no país.

Na parte final do seu discurso, De Klerk referiu-se a Mandela, reconhecendo a sua importância e a sua disposição de contribuir para uma transformação política e pacífica na África do Sul. Nesse sentido, o Presidente sul-africano anunciou a libertação incondicional de Mandela.

Curiosa é a referência que é feita a Buthelezi. De Klerk agradeceu a todos aqueles que ao longo dos anos, e apesar de se oporem ao governo, sempre rejeitaram a luta armada. Porém, embora se refira a várias pessoas no abstracto, referindo líderes políticos, membros de organizações da sociedade civil, o único nome que refere é o do líder do Inkatha. Este pequeno detalhe pode ser entendido como o primeiro indício na tentativa de cativar Buthelezi para integrar uma aliança anti-ANC.

Internacionalmente, o discurso foi recebido com enorme optimismo, uma vez que o mesmo foi entendido como a sentença de morte do apartheid. Internamente as reacções foram diversas. Para muitos foi uma sensação de alegria, mas havia também aqueles, nomeadamente no seio da população africânder, que consideraram que De Klerk tinha traído a sua nação. Apesar das decisões publicitadas, De Klerk referiu claramente que não estava disposto a aceitar um governo de maioria negra. Segundo ele, não se podia esperar a adopção de um sistema político caracterizado pela fórmula do Winner Takes All, uma vez que tal coisa significaria o domínio da maioria negra. Na perspectiva do NP, o modelo a adoptar deveria basear-se num sistema de partilha de poderes, em que as decisões seriam tomadas através de consensos entre os líderes dos vários grupos raciais. Para o NP, a RAS era um país de minorias, em que a população negra estava dividida em dez grupos nacionais, o que implicava

que nenhum grupo constituia a maioria da população. Portanto, ninguém podia exigir governar sozinho.

O sistema político a criar, seria constituído por uma Câmara de Representantes, eleitos através de um sufrágio universal; um Senado em que estariam representados, em pé de igualdade, os líderes dos vários grupos raciais; finalmente, deveria existir uma Presidência rotativa, onde também as decisões deveriam ser tomadas por consenso. Na prática, este sistema permitiria à população negra ter a maioria na Câmara dos Representantes e legislar de acordo com os seus interesses, no entanto, a população branca teria sempre a possibilidade de vetar essas decisões, quer no Senado, quer no governo.

Porém, esta intenção inicial de De Klerk rapidamente foi alterada, uma vez que, ao legalizar os movimentos anti-apartheid e libertar os presos políticos, o regime deixou de conseguir controlar os acontecimentos. De qualquer das maneiras, estas intenções iniciais do regime chocaram desde logo com a firme oposição dos líderes da maioria negra que rejeitaram a ideia de partilha de poder proposta pelo NP, a qual a caracterizaram como Looser Keeps All381.

Gradualmente, o próprio regime foi deixando cair este modelo de partilha de poder.

As decisões anunciadas por De Klerk, em Fevereiro de 1990, não foram tomadas de ânimo leve, representando sim o culminar de vários anos de contactos discretos entre o ANC e o Governo.

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