O prefeito Ary Vanazzi reforçou que a política de testagem massiva será mantida e ampliada. "Isso é uma forma de ter a dimensão e o controle da ampliação da pandemia, qual a região da cidade e qual o foco gerador. Nossa ação foi fundamental na constatação dos focos verificados em Garibaldi e no supermercado Rissul". Os resultados de São Leopoldo serviram de elemento para ação do Ministério Público do Trabalho (MPT) na serra gaúcha. "Isso deu possibilidade para a empresa tomar as suas medidas e nós acompanharmos os nossos moradores para que não se alastre mais nos bairros em que eles vivem. A testagem é tudo o que se precisa para fazer um trabalho sério, responsável, e evitar uma tragédia na cidade. Para nós a testagem é estratégica e deve ser também para o Governo Federal e para o Governo do Estado, mas infelizmente não é", completou Vanazzi. No total foram realizados 1037 testes no município.
Casos por bairro:
Arroio da Manteiga - 36 Campina -19
Feitoria - 19 Vicentina - 15 Santos Dumont - 10 Jardim América- 9 Centro -5
Scharlau - 4 São Miguel - 4 Campestre - 4 Duque de Caxias - 3 Cristo Rei - 2 Santa Teresa - 2 Fazenda São Borja - 2 Santo André - 2 Rio dos Sinos - 2 Morro do Espelho - 2
Rio Branco - 2 TAGS: coronavirus pandemia São Leopoldo Gostou desta matéria? Compartilhe! Encontrou erro? Avise a redação.
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07/05/2020 | Matinal | matinaljornalismo.com.br | Geral
Fa?bio Pinto: Distopia portenha, Parte III
https://matinal.news/fabio-pinto-distopia-portenha-parte-iii/
Uma breve história de O Eternauta e de seu criador, Héctor Germán Oesterheld Terceira parte - final
A sessenta e três anos do lançamento da primeira versão de El Eternauta, cinquenta e um anos do lançamento da segunda, e quarenta e três anos do sequestro e desaparecimento de seu criador, Héctor Oesterheld, um acontecimento promete acrescentar uma nova dimensão às releituras de sua historieta mais conhecida: o investimento de 15 milhões de dólares feito pela Netflix na produção de uma série baseada na saga do Eternauta.
Não é a primeira vez que a possibilidade se apresenta, mas é a que talvez tenha mais chances de concretização. Diretores como Adolfo Aristarain, o lendário Fernando 'Pino' Solanas - diretor de Tangos - o exílio de Gardel (1985) e Sur (1988) - e o espanhol Alex de la Iglesia chegaram a idealizar versões cinematográficas de O Eternauta, e quem chegou mais próxima da realização, tendo
dedicado dois anos à elaboração de um roteiro original baseado na história, foi Lucrecia Martel. Famosa por filmes de repercussão internacional como O pântano (2001), A mulher sem cabeça (2008) e Zama (2017), a diretora, natural da região de Salta, no noroeste argentino, chegou a fazer testes de efeitos especiais para o filme, mas esbarrou em restrições orçamentárias e desentendimentos com a produtora, o que levou ao cancelamento do projeto.
O realizador da vez é Bruno Stagnaro, diretor de Pizza, cerveja, cigarro (1998) e da série Okupas (2000), protagonizada pelo então iniciante Rodrigo de la Serna, destaque na temporada mais recente de Casa de Papel. O Eternauta da Netflix ainda não tem previsão de estreia. Evento de lançamento do projeto da Netflix. No palco, o norte-americano Reed Hastings, criador e CEO da plataforma, e o 'vice-presidente de Conteúdos Originais', Francisco Ramos.
As possibilidades de adaptação da série de ficção científica de Oesterheld, não só para o campo audiovisual, se devem, entre outras razões, ao fato de que se trata de um produto cultural que não chega intacto, com sentido pronto e cristalizado, ao leitor contemporâneo. A seu modo e com os recursos disponíveis, Oesterheld criou uma história em quadrinhos potencialmente interacional, prevista, de alguma maneira, para, como sugere o subtítulo da primeira versão, ser "um encontro com o futuro". Talvez venha daí a impressão, referendada por alguns pesquisadores argentinos, de que se trata de uma obra premonitória. Como afirmava Umberto Eco, em um artigo sobre outra obra aberta, Casablanca (Michael Curtiz, 1942), "se a arte reflete a realidade, é fato que a reflete com muita antecipação. E não há antecipação - ou vaticínio - que não contribua de algum modo a provocar o que anuncia".
Os sentidos ainda em rotação de O Eternauta são construídos a partir da convergência de diversas narrativas - formuladas, em diferentes mídias e espaços de circulação. Vejamos algumas delas. Em 2001, durante a grande crise econômica do governo De la Rúa, começa a surgir nas paredes e muros de Buenos Aires a imagem do Eternauta, geralmente acompanhada da palavra 'Resiste'.
estêncil no bairro Palermo, em Buenos Aires
Em 2007, o grupo Carne de Cañon estreia na Sala Beckett, em Buenos Aires, a peça Zona Liberada, inspirada na série de Oesterheld. Em 2010, a Radio Provincia, de La Plata, apresentou El Eternauta - vestígios del futuro, adaptação da série para o radio-teatro. Em 2011 é lançada Los Ellos, coletânea com 18 bandas de estilos diferentes e 10 artistas plásticos responsáveis pelas várias capas do disco. Todas as composições e capas inspiradas na série. Em 2014, desenhistas de todo o mundo são convidados a participar de uma homenagem coletiva a O Eternauta, cada um desenhando uma tira da história original e postando no Facebook.
Até 2018, quase trezentos artistas já haviam participado e esses trabalhos ainda estão disponíveis na rede social. Esses são apenas alguns exemplos ilustrativos da circulação da série em diferentes mídias e níveis de elaboração, o que há em comum é que cada adaptação explora, à sua maneira, a abertura do referente a novas leituras, abordagens e olhares. Mapear esse espaço intersticial composto de mediações é descobrir um produto cultural massificado, comprometido com o mercado editorial de sua época, mas que transita em outras instâncias expressivas, ou seja, um clássico.
As apropriações - não confundir com adaptações ou versões - mais conhecidas e de amplo alcance são as de caráter político-militante. Como a do grupo da juventude peronista e kirchnerista La Cámpora, que cria, em 2010, um personagem, o Nestornauta, associando a icônica imagem de Juan Salvo com seu traje isolante, caminhando em meio à neve radioativa, à do ex-presidente Néstor Kirchner. Bóton comprado na Praça de Maio e bandeiras do La Cámpora com a efígie do Nestornauta Bóton comprado na Praça de Maio e bandeiras do La Cámpora com a efígie do Nestornauta
Foi Oesterheld o primeiro a abrir precedentes para esse tipo de apropriação, demonstrando que sua criação poderia ser também uma ferramenta crítica voltada para a ação social e política revolucionária. E o fez em pelo menos duas ocasiões: ao incluir um prefácio na reedição da série, em 1976, em que dá a entender que o compromisso humanista, coletivista e libertário já estava intencionalmente presente na versão dos anos 50, e ao transformar Juan Salvo em líder guerrilheiro, em O Eternauta II. Sobre essa continuação, vale um breve comentário.
Em 1976, Héctor Oesterheld e Solano López retomaram a parceria e realizaram uma continuação de O Eternauta. Essa segunda parte foi publicada entre 1976 e 1978, na revista Skorpio. Quando os leitores argentinos conheceram seus últimos episódios, Oesterheld já estava desaparecido. Foi na clandestinidade que ele escreveu, ou melhor, ditou por telefone, para Solano, o roteiro. Solano o considerou indigno do que haviam feito anteriormente, mas para não desamparar Héctor, que sabia estar em dificuldades financeiras, o desenhista repassou o desenho dos cenários e dos corpos dos personagens a uma equipe de apoio, e desenhou apenas as cabeças e rostos dos personagens principais. Isto explica a qualidade duvidosa da parte gráfica. Quanto ao conteúdo, trata-se de uma alegoria panfletária, resultado de um deliberado esforço de legitimação da guerrilha. Juan Salvo, em O Eternauta II, já não viaja no tempo
atrás da mulher e da filha, motivações da primeira versão. A sobrevivência delas interessa menos que a da coletividade. De acordo com os ideais e com a ética que movem o protagonista, é preciso vencer os invasores e seus agentes utilizando todos os meios necessários, inclusive o sacrifício dos companheiros e o auto-sacrifício. Em O Eternauta II, Juan Salvo assume o papel de super-herói guerrilheiro, como um Che Guevara com superpoderes. De acordo com a pesquisadora argentina Laura Fernández, "o mais próximo de uma construção superpoderosa nos quadrinhos de Oesterheld é o que se encontra em O Eternauta II, de 1976: Juan Salvo/Eternauta descobre em si uma força anormal para um humano e a capacidade de ver o futuro, poderes que trazem consigo, segundo sugere o narrador (Germán), certa frieza e distanciamento". A sequência de O Eternauta corresponde a um momento em que a produção do roteirista se torna parte de uma missão determinada pelo compromisso com os Montoneros. Não se trata mais de um processo de criação, mas de um projeto de natureza doutrinária em que se perde o caráter polissêmico da série, justo o que segue permitindo a construção da obra junto aos leitores, em diferentes temporalidades.
O processo de releituras, homenagens, adaptações a apropriações de O Eternauta e da história de Héctor Oesterheld alcança, em 2009, talvez o seu ponto mais alto. Trata-se da criação do Día de la historieta. Cabe dizer que há efemérides semelhantes em outras partes do mundo. O dia 30 de janeiro, por exemplo, é o Dia do Quadrinho Nacional Brasileiro, uma homenagem a Ângelo Agostini, que publica, nesse dia, em 1869, As aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma viagem à Corte. O Dia do Quadrinho Nacional é instituído em 1984, pela Associação dos Cartunistas de São Paulo. Em 1996, também como marco de valorização da linguagem e do papel formativo dos quadrinhos, o CBBD (Centre Belge de la Bande Dessinée) celebrou os 100 anos das histórias em quadrinhos tomando como referência a publicação de The Yellow Kid and His New Phonograph, de Richard F. Outcault, no New York Journal.
O francês CNBDI (Centre National de la Bande Dessinée et de l'Image), por sua vez, organizou uma exposição em homenagem aos 150 anos das HQs a partir de outra referência, o aniversário da morte de Rodolphe Töpffer, que, em 1827, escreveu L'Histoire de Monsieur Vieux Bois.
A diferença básica com relação a essas outras homenagens é que, na Argentina, o Día de la Historieta não é definido por uma associação ou por um centro especializado em quadrinhos: ele é sancionado, em 2009, com força de lei, pela Legislatura da Ciudad Autónoma de Buenos Aires - ou seja, trata-se de uma homenagem estabelecida pelo estado. No dia 4 de setembro, o poder executivo argentino se compromete, de acordo com o texto oficial do projeto de lei, a promover "a realização de atividades públicas e gratuitas vinculadas à arte da história em quadrinhos argentina" e "o desenvolvimento da história em quadrinhos como arte e indústria cultural". Encaminhado em 2005, o texto do projeto argumenta que sua aprovação seria "um sinal claro do quão fundamental são as histórias em quadrinhos na vida cultural argentina, como indústria que gera trabalho baseado em talento e inovação e como motor de leitura para milhões de pessoas no país". Diante dessa compreensão dos quadrinhos simultaneamente como uma arte maior, produto cultural e porta de entrada para o mundo da leitura, espera-se, não só do poder público, mas de desenhistas, roteiristas e editores, o reconhecimento do compromisso com a criação de um repertório cultural e o estímulo à construção de uma visão crítica da realidade. A escolha do dia 4 de setembro é alusiva ao lançamento, em 1957, da revista Hora Cero Semanal, onde estreia uma certa história de ficção científica sobre uma invasão alienígena à cidade de Buenos Aires.
Tudo que foi contado aqui nessas últimas três semanas dá uma ideia da importância, para os hermanos, não só de Héctor Oesterheld e do Eternauta, mas dos quadrinhos. Na Argentina, eles são considerados literatura, ou seja, ultrapassam a noção de entretenimento descartável que, muitas vezes, é a categoria atribuída a esse tipo de produção. Trata-se de um conceito ampliado de literatura, que incorpora o popular e corresponde a uma concepção igualmente ampliada de cultura. E talvez vá mais além. Naquele momento pós-ditadura militar, que ainda podemos chamar de recente, a reboque da revalorização da historieta argentina e da trajetória de Oesterheld, sua obra prima já havia deixado de ser uma história em quadrinhos. A nevasca radioativa já havia se tornado uma dessas imagens recorrentes que cabem em diversos contextos históricos e serve como metáfora, por exemplo, da pandemia que enfrentamos. os flocos da neve radioativa, no traço de Solano López
Confinados no pequeno de chalé de Juan Salvo, confeccionando trajes isolantes para sair à rua e evitar esses flocos de neve que Solano López desenha em 1950, tão semelhantes à imagem do vírus que invadiu a realidade de 2020, estão a família Salvo, seus amigos, assim como aqueles jovens argentinos do final dos anos 70, vivendo à sombra e lutando uma luta inglória contra a paranoia e a fome de poder dos militares, também estão lá, confinados, aqueles que foram para as ruas a cada crise econômica e social, nos anos 90 e no início deste século. E junto com toda essa gente estamos nós, os latino-americanos que assim se reconhecem, esperando o momento em que possamos sair do eterno retorno de nossa condição precária e da redenção de "nossa amorosa miséria atarantada".
¹ Para mais detalhes sobre o roteiro de Lucrecia, sugiro a leitura da entrevista que realizei com ela em 2018, para minha tese de doutorado, "Notícias de uma invasão - um estudo sobre El Eternauta, de Héctor Germán Oesterheld", disponível em http://www.repositorio.jesuita.org.br/handle/UNISINOS/8701
² Em https://www.facebook.com/Grupo-de-dibujantes-Homenaje-a-El-eternauta-811655432198541/
³ Trecho de "Zero grau de Libra", crônica de Caio Fernando Abreu publicada no jornal O Estado de São Paulo, em 24 de setembro de 1986.
Fabio Bortolazzo Pinto é professor e revisor, mestre em literatura e doutor em comunicação. Também é aficionado por cinema, quadrinhos, música, garimpador de obscuridades e pai do António.
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