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I. Fundamentação Teórica

1.3 Facebook: espaço de relacionamentos e trocas

O Facebook é uma rede social online na qual o usuário constrói seu personagem, real ou fictício, por meio de um perfil, o que lhe permite a interação com outros usuários. Para isso eles se utilizam de ferramentas para expressar opiniões, comentários, e, no caso do Facebook, simular gestos, como o curtir e compartilhar conteúdo, expondo dessa maneira publicamente o perfil de cada ator envolvido na rede.

As redes sociais online se diferem das outras formas de comunicação mediada pelo computador por permitir a manutenção de laços sociais construídos no espaço off-line (RECUERO, 2010). Os atores no uso das redes, pessoas que possuem perfil na rede, constroem as características da rede de maneira geral e na singularidade de cada grupo, setorizados pelos gostos e aptidões. As práticas da vida social, “principalmente aquelas organizadas dentro de um estabelecimento” (GOFFMAN, 1989, p. 9), descrevem aspectos formando um quadro de referências aplicáveis a “qualquer estabelecimento social concreto” (GOFFMAN, 1989, p. 9). O termo concreto nessa dissertação não está empregado apenas com algo tangível, mas como algo que permite o disfrute e uso por meio de códigos e programações instalados na internet de maneira geral, como os sites e os aplicativos de relacionamento. O Facebook é considerado um

31 estabelecimento concreto, pois possui uma estrutura para o desfrute e uso dos recursos disponíveis, distribuindo informações, auxiliando e tornando capaz o conhecimento prévio e antecipado do que esperar ao usufruir da plataforma.

Recuero (2010, p.104) define rede social na internet: “São sites cujo foco principal está na exposição pública das redes conectadas aos atores, ou seja, cuja finalidade está relacionada à publicação dessas redes”. A exposição pública envolve uma prática social de expressão dos afazeres rotineiros das pessoas no meio social de vivência. Tal exposição pública está hoje na internet, mas já se dava de outras formas e em outros meios, como magazines de fofoca, colunas sociais em jornais, diários públicos infanto-juvenis, patrocínio de programas e de pessoas para comentar algumas situações da vida do pagante, entre outros. Estas exposições públicas se dão em cenários que compreendem elementos de suporte ao palco onde a encenação é executada (GOFFMAN, 1989, p.29).

O Facebook pode ser encarado como sendo constituído de cenários e palcos para as representações humanas. Neles ocorrem realizações dramáticas, ilustradas por ações e sinais que expressam e acentuam a interação dos atores e as ideias, pessoais e ou coletivas, compartilháveis a todos os integrantes das redes de amigos. Essas ações se caracterizam pela utilização dos recursos disponíveis na plataforma.

O objetivo de uso de cada rede é determinado pelo usuário, podendo ser para conhecer pessoas novas, rever amigos antigos, estabelecer uma relação com pessoas que moram longe, ter objetivo comercial, mercadológico e institucional. Existem diversos motivos para justificar o uso das redes sociais. Os mais citados, conforme pesquisa realizada por Recuero (2010, p.105) são: “a) criar espaço pessoal; b) gerar interação; c) compartilhar conhecimento; d) gerar autoridade; e) gerar popularidade”. Os valores gerados pelo uso de ferramentas de comunicação das redes sociais também podem variar com a idealização de cada grupo de atores. Idealização para Goffman (1985, p. 40 e 41) indica uma prática executada para atender as exigências, mesmo que de fachada, dos expectadores: “quando o indivíduo se apresenta diante dos outros, seu desempenho tenderá a incorporar e exemplificar os valores oficialmente reconhecidos pela sociedade e até realmente mais do que o comportamento do indivíduo como um todo”.

Existem inúmeras redes sociais disponíveis na internet atualmente. Neste estudo damos atenção especial ao Facebook, objeto dessa dissertação. E queremos concordar

32 com Recuero (2010), para quem o Facebook é um espaço de sociabilidade, proporcionando a construção de diferentes tipos de capitais sociais nas relações com o outro, difíceis de serem produzidos no espaço off-line. Um exemplo para essa afirmação é a quantidade de conexões possíveis de serem estabelecidas no Facebook, dificilmente exequível na vida off-line. Essas conexões estabelecidas na rede online influenciam suas conexões off-line, pois as impressões construídas nas redes mediadas pelo computador podem ser empregadas na vida off-line por amigos que estão presentes em ambas as situações: “os sites de redes sociais ampliam a expressão da rede social e a conectividade dos grupos sociais” (RECUERO, 2010, p.108). O Facebook é encarado nesta dissertação como um espaço na plataforma web que possibilita a idealização das representações, nele executadas por atores que levam suas experiências de vida para a web, desenvolvendo contextos similares e/ou criando novas possibilidades para práticas sociais idealizadas.

O Facebook permite a construção de alguns capitais sociais, tais como: 1. Visibilidade: quanto mais tempo conectado, mais ampla é a exposição para um número maior número de pessoas; quanto maior o tempo de conexão, maior a chance de enviar e receber informações e na manutenção dos laços sociais; 2. Reputação: entendida como a percepção que um constrói sobre o outro ator, implicando três elementos: o eu, o outro e a relação entre ambos, dando vasão a uma percepção qualitativa sobre as qualidades e defeitos de cada um dos envolvidos; 3. Popularidade: valor relativo à posição do ator na rede social, podendo ser medida pela quantidade de comentários, números de curtidas e visitas no perfil; 4. Autoridade: valor referente ao poder de influência de um perfil na rede social, que pode ser percebido pelos processos de difusão de informação julgadas relevantes na percepção dos atores contido na rede (RECUERO, 2010).

Os atores no Facebook são usuários que criam perfis representando atores sociais, atuando, compondo e formulando as estruturas sociais. Por serem constantes a construção de estruturas e relações sociais, os atores são interpretados e percebidos pelos conteúdos que compartilham, pelo uso ou não das ferramentas que o Facebook oferece para a interação.

Recuero (2010, p.29) explica “que essas representações são possíveis graças à possibilidade de interação dos ambientes no ciberespaço. Através da comunicação entre autores no ciberespaço, (...), é que a identidade desses é estabelecida e reconhecida

33 pelos demais”. As representações acontecem de maneira performática por utilizar de gestos e do corpo para estabelecer uma relação social. Para isso acontecer é fundamental o ator possuir pelo menos um interlocutor. Nos termos do Facebook, é fundamental que o conteúdo representado esteja direcionado a outra pessoa, ou seja, o ator representa para seus amigos, suas conexões, constituindo os laços sociais na rede. Segundo Goffman, o ator deve estar capacitado para observar e entender que a impressão de realidade criada na representação é delicada e frágil, podendo ser quebrada a qualquer momento: “as impressões alimentadas pelas representações cotidianas estão sujeitas a rupturas” (GOFFMAN, 1989, p. 66).

A comunicação é estabelecida por intermédio da interação entre partes, “a interação representa sempre um processo comunicacional, (...), é, portanto, aquela ação que tem reflexo comunicativo entre os indivíduos e seus pares como reflexo social” (RECUERO, 2010, p.31). Na prática cotidiana de relacionamento os indivíduos se reúnem em equipes que cooperam entre si na encenação da vida e de suas rotinas particulares: “os companheiros de equipe tendem a se relacionar uns com os outros por liames de dependência reciproca e recíproca familiaridade” (GOFFMAN, 1989, p. 81). No Facebook essa interação se realiza nas percepções dos atores, pois é a percepção positiva ou negativa que dará o motivo de ação para o ator. As equipes podem ser entendidas como os grupos de amigos ou de pessoas interessadas num determinado assunto, rede de amigos em que é permitida a visualização de postagens rotineiras. Essas relações comunicativas são também estabelecidas entre as subjetividades dos atores em cena (SODRÉ, 2006).

Sodré (2006, p. 21) explica o agir comunicativo atrelado ao juízo estético, “entendido como um juízo reflexivo, isto é, referente ao estado do sujeito e não à objetividade realística e universal da coisa”, conceito este presente nas relações estabelecidas no Facebook, pois ao reproduzir conteúdo e/ou curtir e comentar essas ações gestuais ilustram o sentimento envolvente na relação de afeto estabelecida entre os atores.

Como campo de subjetividade, o Facebook carrega nas produções de conteúdos muito do ator que participa das relações de trocas. Essa subjetividade explicada por Sodré (2006, p. 56) é o “aproveitamento das competências desenvolvidas na própria vida cotidiana dos indivíduos, (...), agora diretamente produtora de capital humano”.

34 A produção de conteúdo no Facebook tem raiz nos recursos culturais, abrangendo as relações não computáveis, “cuja motivação é a alegria espontânea na colaboração livre, no convívio e na doação livres” (SODRÉ, 2006, p.63). Sem a produção de conteúdo não é possível a criação de redes, de laços. Sem o estabelecimento de relações, não existiria interação entre as partes, afetando a sociabilidade que a rede ocasiona.

É importante salientar que a sociabilidade designa espontaneidade na interação, o que que na internet possui centro na imagem e na performance. Para Sodré (2006, p. 66), “no lugar de uma comunidade argumentativa e consensual, produtora de normas e sentido, (...), emerge uma comunidade afetiva de base estática, onde a paixão dos sujeitos mobiliza a discursividade das interações”.

O Facebook permite a troca de diferentes tipos de conteúdos, podendo ser apenas textual, apenas imagem, imagem e texto e audiovisual: “as informações e tipos de interação trocados e estabelecidos, (...), são complexos e particulares a cada campo no qual se desenvolvem” (FALCÃO, SILVA, AYRES, 2009, p. 5). Se tomarmos como exemplo uma empresa com o objetivo de utilizar o Facebook como espaço de troca com seu público alvo, visando estabelecer uma proximidade e intimidade maior com seus clientes e possíveis clientes, as mensagens trocadas seriam diferentes em seu contexto se comparadas a um perfil pessoal onde as publicações não possuem uma estratégia comercial planejada.

O Facebook representa um ambiente capaz de unir a participação dos usuários para a produção de conteúdo com base numa cultura de comunicação aberta e colaborativa. Como exemplo dessas ações temos a produção de “memes”3, em que um interlocutor produz e compartilha em sua rede. A partir dessa ação, esse “meme” está sujeito a uma livre circulação em outros perfis que julgarem pertinente manter o compartilhamento. Esse “meme” pode ser alterado em fonte, efeito especial – luz e cor - e em legenda, não sendo necessária a obrigatoriedade da referência de quem o produziu.

Existem conteúdos na internet que possuem a obrigatoriedade de referência autoral, como por exemplo alguns tipos de virais. O viral feito para a divulgação de um filme compartilhado no Facebook sempre fará referência à sua origem, ocorrendo da

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Recuero (2007, p. 23) explica que o “meme é o gene da cultura que se perpetua através de seus replicadores, as pessoas”.

35 seguinte maneira: o viral será publicado por algum perfil contratado para tal; a referência acontece nas imagens do vídeo e/ou na legenda; todos os interlocutores que quiserem fazer parte da brincadeira sabem automaticamente que precisam respeitar essa regra; a postagem perde seu sentido original de interação e trabalho colaborativo na propagação do viral se não for feita a referência. Todo esse trabalho em grupo não descarta ou inibe os motivos individuais e singulares que levam as pessoas a compartilharem conteúdos, “que se relacionam a representação de si mesmos frente aos outros e à autoafirmação” (ROCHA, PEREIRA, 2011, p.2). Pelo contrário, a motivação individual combina e de certa maneira assume em parte a motivação e objetivo do grupo.

A oportunidade de trabalhar colaborativamente com a participação direta na produção dos conteúdos torna o Facebook uma ferramenta de conexão com outras pessoas. Não é apenas como um sistema de rede: “o consumidor dessas tecnologias digitais vem-se transformando em produtor de informações, contribuindo desse modo para a elaboração de renomadas narrativas, como de outro modo antes se fazia pela narração oral da história” (ROCHA, PEREIRA, 2011, p.11). O Facebook representa hoje um espaço de socialização e de sociabilidade para as pessoas, local que como vimos permite a aplicação de práticas sociais experenciadas ao logo da vida, permite também a introdução de novas práticas sociais vivenciadas tanto no ambiente online como no off-line.

Por ser um local de socialização, os indivíduos inseridos nesse espaço formam uma sociedade. Beneficiando-se de Norbert Elias (1994) sobre a formação da sociedade, é possível dizer os indivíduos formam na internet a sociedade e que toda sociedade é uma sociedade de indivíduos que deve ser observada e compreendida pela ótica do todo em sua amplitude, sem descartar ou desmerecer o singular do indivíduo, direcionando o olhar analítico por unidade, unidades maiores e menores para a compreensão das relações e funções determinantes na postura dos indivíduos, frutos das experiências passadas e/ou presentes com outros indivíduos.

Como toda sociedade possui uma ordem invisível de vida em comum, oferecendo aos usuários “uma gama mais ou menos restrita de funções e modos de comportamento possíveis” (ELIAS, 1994, p. 21), no Facebook não parece ser diferente. Ao se inscreverem na plataforma os indivíduos devem se ajustar à política empregada,

36 informar vários aspectos de sua vida pessoal para se relacionar com os outros indivíduos e também para fazer parte de várias ações de integração ofertadas pela plataforma, como por exemplo promover um vídeo utilizando as fotos e informações gerais dos perfis para parabenizar um aniversariante.

Os seres humanos vivem de relações móveis, envolventes: “cada pessoa que passa por outra, como estranhos aparentemente desvinculados na rua, está ligada a outras por laços invisíveis” (ELIAS, 1994, p.22). Tais relações também ocorrem no Facebook. São conexões estabelecidas por laços de trabalho, interesses comuns e afetos. Cada pessoa desempenha um papel social relacionado a si e a outros indivíduos, em que ambos são dependentes. Por existir essa dependência, as ações dos indivíduos precisam vincular-se, estar de alguma maneira associadas, seja no ato de curtir, reagir a alguma postagem ou postar conteúdos na plataforma, formando uma longa cadeia de ações singulares e conjuntas. Dessa maneira, a vida social no Facebook pode ser pensada ao modo da vida social explicada por Norbert Elias (p.23, 1994): “(...) cada pessoa singular está realmente presa, está presa por viver em permanente dependência funcional de outras, ela é um elo na cadeia que ligam outras pessoas, assim como todas as demais, direta ou indiretamente (...)”.

É possível perceber no Facebook a incidência de fenômenos reticulares, explicado por Norbert Elias (1994, p.29) ao tratar da vida em sociedade, pelo “fato de as pessoas mudarem em relação umas às outras e através de sua relação mútua, de se estarem continuamente moldando e remoldando umas às outras”. A conversa ali estabelecida pelos indivíduos os mantem nesse constante processo de mudança e transformação. Seja ditado por modismos ou não, o fato é que as pessoas se identificam e se aproximam nos comportamentos, opiniões e nas formas de utilizar os recursos digitais da plataforma. Cada um dos interlocutores forma ideias que antes não possuía e/ou reafirma proposições que já fazia parte das suas experiências: “muitos fatos decisivos estão além do tempo e do lugar de interação, ou dissimulados nela” (GOFFMAN, 1985, p.12).

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