4 O FACEBOOK E O SEU IMPACTO SOCIAL
4.2 FACEBOOK
pelos estudantes Mark Zuckerberg, Eduardo Saverin, Dustin Moskovitz e Chris Hughes, em 2003, a partir das habilidades de Zuckerberg de invadir o sistema de segurança da Universidade de Harvard, que conseguiu acessar os arquivos com fotos dos estudantes e criou perfis na nova rede. Era conhecido como Facemash.
Em razão da invasão ao sistema da universidade, o site foi tirado do ar.
Mas o sucesso da rede já havia se instalado. Posteriormente foi relançado, já com o nome de Facebook, permitindo o acesso de outras universidades. Com a entrada do investidor anjo Sean Parker, criador do Napster, site de compartilhamento de arquivos, o Facebook se transformou em uma sociedade empresária que adentrou gradativamente, em outros países194. De acordo com o filme “A rede social”195, que conta o conflito entre Mark Zuckerber e o brasileiro Eduardo Saverin, sob o ponto de vista deste último, a popularidade do Facebook se deve à busca das pessoas por exclusividade, de algo que as diferencie das demais. Ter um perfil no Facebook indicava destaque e popularidade.
Assim como nas demais redes sociais, é permitido o compartilhamento de fotos, vídeos, informações, pensamentos, ideias. E o que tem o Facebook que mereceu destaque no recorte deste trabalho? O alcance. Tendo usuários em todas as partes do mundo, a referida rede social construiu seu espaço e a sua importância. Os mais diversos relacionamentos se desenvolvem no Facebook: profissionais, afetivos, comerciais.
Visando a um público sempre maior e também mantendo a ideia de exclusividade, o Facebook adquiriu outras redes sociais e aplicativos de comunicação. É o caso do Instagram e do Whatsapp.
Em que pese seja uma incrível forma de aumentar e manter laços sociais, o mero uso do Facebook, enquanto sistema de compartilhamentos, implica na autolimitação dos direitos da personalidade, ressalvando-se, mais uma vez, que não se trata de renúncia a nenhum direito. Da leitura do contrato de adesão196 para a criação do
194 TEIXEIRA, Carlos Alberto. A origem do Facebook. O Globo. Disponível em
<http://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/a-origem-do-facebook-4934191#ixzz321HU90lh>.
Acesso em 12 maio 2014.
195 FINCHER, David; RUDIN, Scott; BRUNETTI, Dana; DE LUCA, Michael; CHAFFIN, Céan. A Rede Social. Filme. Produção de Scott Rudin, Dana Brunetti, Michael De Luca e Ceán Chaffin. Direção de David Fincher. Estados Unidos, Columbia Pictures, 2010. Cor, 121 minutos.
196 FACEBOOK. Declaração de Direitos e Responsabilidade. Disponível em
<https://www.facebook.com/legal/terms>. Acesso em 21 abril 2014
perfil e da política de privacidade197, observa-se que há inúmeros dispositivos que implicam na autorização do usuário para que o Facebook colete dados e que os utilize. Por fim, o Facebook ainda inclui uma cláusula – nula de pleno de direito – que o exime de qualquer responsabilidade por danos causados pela mau uso desses dados.
Passando ao largo da validade de contratos de adesão que impliquem em diminuição de direitos, é de se observar que o redimensionamento ocorre não só pela aceitação desses termos, mas pelos atos do próprio usuário que passar a publicar fotos, vídeos e informações pessoais. Ocorre que os atos de redimensionamento não partem somente do próprio usuário – que, na medida da boa-fé e dos seus próprios interesses, deve se responsabilizar pelos próprios atos –, mas também de terceiros e do próprio Facebook. E é com base nos atos de terceiros que se analisa os riscos que a utilização dessa rede social pode trazer.
4.2.1 Dispositivos polêmicos
Partindo das informações supracitadas, tratar-se-á, daqui em diante, de alguns dispositivos e aplicativos do Facebook que ultrapassaram quaisquer interpretações de boa-fé do contrato de adesão da rede social.
4.2.1.1 Reconhecimento facial e Caso Snowden
Espionagem. Depois que Edward Snowden, ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos – NSA (do original National Security Agency) resolveu contar ao mundo parte das atividades da sua empregadora, a menção do seu nome remete imediatamente às práticas nefastas.
197 FACEBOOK. Política de Privacidade. Disponível em <https://www.facebook.com/about/privacy>.
Acesso em 21 abril 2014.
Escudando-se sobre a desculpa da segurança estadunidense, o referido país invadiu as telecomunicações de vários países, atingindo autoridade públicas198 e demais civis, bem como recolheu os dados dos usuários do Facebook – o que obviamente foi feito sem autorização dos usuários199.
Nesse ínterim, passou a vigorar, na rede social em questão, um novo dispositivo de reconhecimento facial. Identificado os traços faciais dos usuários através das próprias fotos publicadas nos perfis pessoais, o Facebook consegue filtrar todas as fotos postadas com a presença do usuário e envia aos seus contatos o seguinte convite: “deseja marcar seu amigo nessa foto?”.
Primeiramente, é de se observar que, no contrato aderido pelos usuários, não há nenhuma permissão para que o Facebook colete os dados faciais de ninguém.
Depois, nota-se que, ao enviar notificações aos demais contatos do usuário sobre a presença deste em fotos e vídeos, o Facebook está incitando a violação dos direitos à imagem e à privacidade que não foram renunciados, foram tão somente redimensionados. Mais ainda, após a ciência de que os dados do Facebook são utilizados pelos Estados Unidos para coleta ilegal e injustificada de dados, é altamente questionável o desenvolvimento desse dispositivo.
Sendo assim, para que tal dispositivo pudesse ser veiculado no Facebook, seria preciso um novo contrato, uma nova autorização do usuário. Embora o contrato de adesão afirme que o uso contínuo após alterações signifique consentimento tácito, essa cláusula é obviamente abusiva, não se aplicando ao caso, principalmente quando o direito tutelado é a própria personalidade, a dignidade da pessoa humana.
Por tais motivos, conclui-se que este dispositivo viola não somente o contrato assinado, como o imperativo de boa-fé, a confiança gerada e os direitos da personalidade dos usuários.
198 O Brasil e as autoridade brasileiras foram alvos dessa espionagem, gerando medidas de proteção e investigações sobre o tema. Recentemente, o Senado divulgou o resultado da CPI da Espionagem, que, como o nome explicita, não considerou a atitude dos Estados Unidos uma atitude irrelevante.
Para mais, é possível ter acesso ao conteúdo completo em
http://www.senado.leg.br/atividade/materia/getPDF.asp?t=148016&tp=1. Acesso em 23/05/14, às 00:21.
199 Entenda o caso Edward Snowden, que revelou espionagem dos EUA. GLOBO. São Paulo, 2013.
Disponível em <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/07/entenda-o-caso-de-edward-snowden-que-revelou-espionagem-dos-eua.html.> Acesso em 12 maio 2014