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2 ENQUADRAMENTO TEÓRICO

2.8 FACES INTERNAS DO PARTIDO

Durante o século XX emerge uma perspectiva de análise na qual os partidos são desagregados em faces internas que interagem entre si. Com tal recurso, torna-se possível distinguir de forma mais rigorosa onde o partido passa por mudanças e se o eventual declínio em uma das faces é compensado pelo crescimento das outras (MAIR, 1994). Katz e Mair (1995) identificam três faces: base partidária, face pública e direção nacional.

A face pública (party in public office) é o setor do partido situado nos Poderes Executivo e Legislativo. É composta pelos ocupantes de cargos eletivos e pelos nomeados para cargos de confiança (assessores, secretários, ministros, etc.). Essa face acumula recursos com base no desempenho eleitoral, dado que através das eleições consegue acesso aos recursos estatais. Quanto maior o êxito do partido na esfera eleitoral, maior a possibilidade desta face se fortalecer dentro do partido (RIBEIRO, 2008).

A base partidária (party on the ground) compreende os militantes, os filiados e, potencialmente, os simpatizantes. Funciona como o elo central entre o partido e a sociedade civil. No âmbito do partido, atua nos congressos, encontros, comitês e demais mecanismos decisórios estabelecidos pelos regimentos internos. Recursos como a militância política,

contribuição financeira e interlocução com segmentos da sociedade estão associados a tal face. A principal restrição enfrentada é a incapacidade de interferir diretamente nas decisões governamentais (AMARAL, 2010).

A direção nacional (party in central office) consiste nos integrantes das instâncias de comando do partido – tanto os dirigentes internos eleitos quanto os funcionários não-eleitos da burocracia. Busca sedimentar a posição de liderança a partir da aprovação junto à base partidária e aos integrantes de cargos eletivos. A direção nacional costuma agregar lideranças que também fazem parte das outras faces.

A figura a seguir resume os componentes de cada face interna:

Figura 5 – Faces internas do partido

Face pública Direção nacional

Base partidária

Fonte: elaboração própria a partir de Mair (1994).

A sobreposição de uma face varia em cada modelo de partido. Diversas combinações entre as faces são possíveis em função de fatores como:

(…) the different phases of the electoral cycle (campaign, election, legislative term, end of legislature); the political-institutional positions of parties (government, opposition); and the party organizational level (national, regional, local and, we could add, European) (BARDI; BARTOLINI; TRECHSEL, 2014, p. 154).

O domínio da face pública nos partidos contemporâneos torna-se evidente pelo controle exercido na distribuição dos principais recursos de patronagem partidária (VAN BIEZEN; KOPECKÝ, 2014) e pela mudança no núcleo decisório (KATZ; MAIR, 2009). Dado que a ocupação de cargos públicos passou a ser o “centro de gravidade do partido” (MAIR, 2003), a vinculação da face pública a esses incentivos seletivos forneceu-lhe condições de sobrepor-se às demais faces.

Dirigentes internos eleitos Funcionários não-eleitos da burocracia Ocupantes de cargos eletivos

Nomeados para cargos de confiança

Nas democracias emergentes, a organização da esfera governativa e a formação das instituições políticas assumem particular relevância para os partidos. Nestas circunstâncias, a arena parlamentar e governamental adquire um caráter central nas atividades partidárias. Como consequência, a face pública assume papel importante na organização partidária como um todo desde a fase inicial (VAN BIEZEN, 1998).

Nesse quadro da correlação de forças internas, o principal perdedor foi a base partidária. Desde a década de 1950 está em vigor uma queda do número de filiados partidários nos países da Europa Ocidental (IGNAZI, 2014). O declínio do número de filiados em termos percentuais e absolutos, associado com outras evidências, demonstra a redução da força da base partidária (MAIR, 2003).

A direção nacional, por sua vez, não ficou imune a esse processo de fortalecimento da face pública e declínio da base partidária. No modelo do partido de massa, os dirigentes eram tidos como os porta-vozes da base e o meio pelo qual se poderia responsabilizar a face pública perante a base. Essas características em torno dos dirigentes foram dissipadas (MAIR, 1994).

Atividades anteriormente desempenhadas pela direção nacional foram delegadas para profissionais e/ou consultores externos ao partido. A composição da direção nacional também passou por alterações. Nos partidos cujos estatutos carecem de limites rigorosos para inserção de representantes da face pública nos postos diretivos, ocorre uma tendência das instâncias diretivas serem preenchidas por membros e/ou ex-membros da face pública em detrimento de filiados oriundos da base partidária (MAIR, 1994).

Esta inserção dos ocupantes de cargos eletivos nos postos de comando não implica necessariamente um crescimento da influência da face pública sobre a liderança partidária. Dependendo do caso, pode significar justamente o contrário. Ou seja, inserir os ocupantes de cargos eletivos nos postos diretivos aparece como meio de controle pelos dirigentes (MAIR, 1994).

Recursos analíticos adicionais foram incorporados ao debate da desagregação do partido em faces internas. A inserção do partido na esfera do governo possibilita a subdivisão da face pública em duas: parlamentar e governante. Conforme Cotta (1999), a face governante (ou partido governante) só existe durante o período em que o partido encontra-se na condição de incumbent no Poder Executivo. Os membros desta face terminam por retornar para as faces de origem após o término do governo. A força da face governante está relacionada ao tempo de duração do partido à frente do Poder Executivo e ao papel desempenhado na partilha dos cargos. A face governante sobrepõe-se diante das demais quando perdura bastante tempo no governo e controla cargos importantes (COTTA, 1999).

A figura abaixo retrata essa configuração:

Figura 6 – Subdivisão da face pública

Partido na Oposição Partido no Governo

Fonte: elaboração própria a partir de Cotta (1999).