2.2. Um breve histórico da burocracia segundo Weber
2.3.4. Faces do Poder
O poder propala uma lógica de organização e do organizar enraizada analiticamente em concepções estratégicas de poder social e intervenção humana que são sensíveis à dinâmica dialética existente entre as limitações estruturais e a ação social, à medida que molda as formas institucionais reproduzidas e transformadas pela prática social. Giddens (1985).
As análises baseadas em Weber (1982) enfatizam o caráter relacional do poder como recurso ou capacidade distribuídos de forma diferenciada e que, se empregado com o devido grau de habilidade estratégica e tática pelos atores sociais, produz e reproduz relações hierarquicamente estruturadas de autonomia e dependência. Isto leva à priorização das formas institucionais e aos mecanismos por meio dos quais o poder é alcançado, convertido em rotinas e contestado.
A “ênfase está nas restrições mais amplas e nos determinantes do comportamento: as formas de poder que derivam de estruturas de classe e propriedade, o impacto dos mercados e profissões, e finalmente a questão do gênero, que vem despertando cada vez mais interesse”. Fincham (1992 p.742).
Assim, a análise weberiana da dinâmica e das formas de poder burocrático na sociedade moderna enfatiza a interação complexa que há entre a racionalização da sociedade e a da organização, ambas reproduzindo estruturas institucionalizadas sob o controle de “especialistas” e “peritos”. Silberman. (1993).
O diálogo entre as conceituações de poder weberianas, levaram a uma compreensão muito mais sofisticada da natureza multifacetada das
relações e processos de poder, bem como de suas implicações para a estruturação das formas organizacionais.
O conceito de poder, concentra-se nos conflitos de interesse que se observa entre atores sociais identificáveis e seu encontro com objetivos opostos, particularmente em processos de tomada de decisão. A visão “manipulativa” concentra-se nas atividades de “bastidores”, por meio das quais grupos que já detêm o poder manipulam o processo de tomada de decisão a fim de destacar questões que têm o potencial de perturbar, ou ameaçar, seu domínio e controle.
2.4. Carisma
Ao contrário da estrutura burocrática, a estrutura carismática não tem nenhuma ligação com nomeação, demissão promoção, salário, mas ao contrário o portador do carisma assume tarefas em virtude de sua missão. Se aqueles aos quais se sente responsável o reconhecem, esse líder carismático passa a ser o seu senhor enquanto sabe manter seu reconhecimento mediante “provas”, caso não for reconhecido, sua missão fracassa.
O carisma pode ser, qualitativamente singular e, por isso determina- se por fatores internos e não por ordem externas, o limite qualitativo da missão e do poder de seu portador. Segundo seu sentido e conteúdo, a missão pode dirigir-se, a um grupo de pessoas determinado por fatores locais, étnicos, sociais, políticos, profissionais ou de outro tipo qualquer.
Embora o poder carismático viva numa sociedade capitalista, ele não depende e não tem esse funcionamento. Em sua forma pura, o carisma não significa possibilidade de ganhos, lucros, remuneração de serviços; sua missão acontece independente disso, a remuneração acontece para a sobrevivência e manutenção.
O herói carismático Weber (1999) deve fazer milagres, se pretende ser um profeta, e realizar atos heróicos, se pretende ser um líder guerreiro. Mas sobretudo deve “provar” sua missão divina no bem estar daqueles que a ele devotamente se entregam. Caso contrário, ele evidentemente não é o senhor enviado pelos deuses.
O poder do carisma, fundamenta-se na fé em revelações e heróis, na convicção emocional da importância e do valor de uma manifestação de natureza religiosa, ética artística, cientifica, política, etc. Esta fé revoluciona o homem de dentro para fora, e embora essas idéias sejam divergentes do ponto de vista psicológico elas surgiram de uma maneira essencialmente idêntica.
Weber explica que a organização da autoridade carismática existe e não se faz ausente como pode parecer, por ser antagônica à burocracia. Aparece como uma forma estrutural social claramente definida, com órgãos pessoais e um aparato de serviços e bens materiais que se adaptam à missão do portador do carisma. As prestações em bens materiais, ainda que formalmente voluntárias, não baseadas em estatutos e inconstantes, são consideradas, na medida exigida pela satisfação das necessidades, um dever de consciência dos carismaticamente dominados e entregues de acordo com a necessidade e capacidade.
De acordo com Weber (1999), os ajudantes pessoais que formam também dentro do grupo um tipo específico de aristocracia carismática, constituem um grupo limitado de partidários, reunido segundo o princípio do discipulado e da fidelidade, selecionado também segundo a qualificação carismática pessoal.
Carisma significa literalmente “graça divina’’, isto é, uma qualidade excepcional, em virtude da qual alguém se torna líder. O líder carismático, seja ele um herói, ou um profeta ou um demagogo, justifica sua
dominação por suas capacidades e façanhas extraordinárias. Seus discípulos aceitam sua dominação por terem fé em sua pessoa.
Modernamente, Weber e outros usaram o termo com o sentido de uma qualidade extraordinária e indefinível de uma pessoa. É aplicável a grandes líderes políticos, como Hitler, Kennedy, etc., a capitães de indústria, como Matarazzo, Ford, etc. O poder carismático é um poder sem base racional, é instável e facilmente adquire características revolucionárias. Não pode ser delegado, nem recebido em herança, como o tradicional.
Nas sociedades em períodos revolucionários, como a Rússia em 1917, ou a Alemanha nazista em 1933, os partidos políticos revolucionários ou líderes, como Jânio Quadros ou Getúlio Vargas, constituem exemplos de autoridade carismática. O líder se impõe por ser alguém fora do comum, possuindo habilidades mágicas ou revelações de heroísmo ou poder mental de locução e não devido à sua posição ou hierarquia. É uma autoridade baseada na devoção afetiva e pessoal e no arrebatamento emocional dos seguidores em relação à sua pessoa. Mouzelis (1971 p. 23-26).
Sob a dominação carismática, quando há seguidores em grande número, o aparato administrativo é muito inconstante e instável e os discípulos mais leais geralmente desempenham o papel de intermediários entre o líder e a massa.
Nas sociedades carismáticas, o pessoal administrativo é selecionado de acordo com o carisma e devoção pessoal. A seleção não leva em conta a qualificação especial, nem tampouco a posição ou função como na administração estatal, nem aspectos domésticos ou outras dependências pessoais como na estrutura patriarcal. A seleção considera decisivas para a autenticidade do seguidor apenas a missão do “senhor” e as qualidades carismáticas pessoais dos seus seguidores.
Weber vê a dominação carismática como uma qualidade individual que se atribuiu a alguém com o papel de líder de um grupo.
“O modo objetivamente ‘correto’ como esta qualidade teria de ser avaliada, a partir de algum ponto de vista ético, estético ou outro qualquer, não tem importância alguma: o que importa é como de fato ela é avaliada pelos carismaticamente dominados ou adeptos”. Weber (1999 p. 159)
A validade desse carisma estará estreitamente ligado à confiança neste líder, depositada pelo reconhecimento que acontece através de provas e revelações. Existe a possibilidade desta dominação desvanecer, caso a força mágica ou heróica de sua liderança não mostrar mais provas concretas, pois este é o sentido carismático genuíno da dominação “pela graça de Deus”.
A nomeação deste líder é feita pela, inspiração carismática. Todo líder genuíno, anuncia, cria, exige mandamentos novos, no sentido originário do carisma, em virtude de sua inspiração reconhecida pela comunidade religiosa.
A dominação carismática é irracional no sentido de não conhecer regras, só é legítima quando encontra reconhecimento, o carisma pessoal, sendo alheio à economia, pois se refere a vocação.
Weber (1999 p. 161) afirma que a dominação carismática é de caráter especificamente extracotidiano e representa uma relação social estritamente pessoal, ligada à validade carismática de determinadas qualidades pessoais. Existem motivos para a legalização deste poder carismático, e de acordo com Weber:
a) o interesse ideal ou material dos adeptos na persistência e reanimação contínua da comunidade;
b) o interesse ideal e o material, ambos mais fortes do quadro administrativo, dos discípulos, homens de confiança de um partido etc., em: