Fachada composta por um pano central de dois andares com en-trada axial, a que corresponde interiormente uma nave única, sendo la-deado por duas torres com os eixos rodados 45 graus relativamente ao plano central.
Por volta de meados do séc. XVIII, surge um tipo invulgar de fachada, cuja característica mais curiosa é o facto das torres esta-rem rodadas 45 graus em relação ao plano da fachada. A primei-ra igreja a apresentar este tipo de fachada foi a capela de Nossa Sra. da Graça na Atouguia da Baleia, pertencente à Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, sendo conhecida impropriamente pela invocação de S. José. Este templo, finalizado em 1747, é da autoria provável do engenheiro militar José Francisco de Abreu, natural de Torres Vedras, cidade não muito distante da Atouguia. A fachada da capela é composta por um pano central de dois pe-quenos andares, coroada por um frontão curvo, e entrada axial encimada por uma janela, sendo este pano ladeado por duas tor-res rodadas 45 graus com sineira no andar superior, uma das quais, a do lado direito, não foi terminada (o campanário nunca se construiu). A planta, de nave única, apresenta-se com os cantos cortados – onde se adossam as duas torres. O claro dos muros caiados de branco contrasta com o escuro da pedra, utilizada para demarcar os cunhais, o friso e as molduras dos vãos.
Fig. 273 e 274 – Reconstituição da capela de Nossa Sra. da Graça, Atouguia da Baleia (acrescento da torre incompleta) segundo o antor
Fig. 275 – Capela de Nossa Sra. da Gra-ça, Atouguia da Baleia, concluída em 1747, José Francisco de Abreu
Em 1758, foi concluída a capela de Nossa Sra. da Assunção em Messejana, sobre uma pequena ermida existente. Apesar de se desconhecer a autoria do projecto, conhecem-se os oficiais canteiros que lá trabalharam, Diogo Tavares Rodrigo, Miguel da Costa e José Manuel da Costa. A fachada é semelhante à da ca-pela na Atouguia, embora com escala maior, mas a diferença si-tua-se sobretudo ao nível da planta: o facto da nave ter cobertura em abóbada, obrigou as paredes a suportar o seu peso, tornando-as mais espesstornando-as. Daí que, apesar dtornando-as torres rodadtornando-as se ados-sarem nos ângulos da fachada, interiormente não têm expressão, sendo a planta um rectângulo perfeito. Outro exemplo é o santuá-rio do Sr. Jesus da Piedade em Elvas (1753/1779), da provável autoria de José Francisco de Abreu, tal como no templo da Atou-guia. Uma vez mais, a fachada assemelha-se (tirando a escala, que é maior) à pequena capela estremenha, ainda que com algu-mas derivações: as arestas das torres são chanfradas por pilas-tras lisas, e ao nível da planta, os cantos em vez de serem corta-dos, são arredondacorta-dos, dissimulando assim as torres no interior (Athayde, 1989).
Também no Brasil se encontra um caso onde as torres são rodadas. A igreja de Nossa Sra. da Conceição da Praia, em S. Salvador da Baía, foi iniciada antes dos exemplos portugueses, em 1739, mas só em 1749 é que as obras começaram efectiva-mente a desenrolar-se, tendo sido consagrada em 1765 e con-cluída em 1813. O projecto deve-se ao engenheiro militar Manuel Cardoso de Saldanha, e a igreja foi executada em Portugal pelo pedreiro Eugénio da Mota, tendo sido posteriormente transportada para o Brasil em blocos. Tal como as suas congéneres em Portu-gal, as características são semelhantes à capela da Atouguia mas a escala é muito maior. Também apresenta algumas inovações, como as janelas e portas nas torres, para além de possuir capelas colaterais e estar implantada numa frente urbana. Esta última cir-cunstância tornou a inserção das torres problemática, devido ao facto dos seus ângulos não se coadunarem com o plano da fa-chada, formando reentrâncias estranhas entre ambos.
Fig. 276 e 277 – Capela de Nossa Sra. da Graça, Atouguia da Baleia, concluída em 1747, José Francisco de Abreu
Fig. 278 – Igreja do Menino Deus, Lisboa, 1711/1737, João Antunes
A fachada de torres rodadas é um tipo muito invulgar, ins-crevendo-se no âmbito das numerosas experiências que os arqui-tectos portugueses fizeram, ainda que, neste caso, a maior parte tenha sido projectada por engenheiros militares. Contudo, este tipo de fachada específico deriva certamente das preocupações construtivas relacionadas com as plantas de cantos cortados que, na esteira da igreja do Menino Deus em Lisboa (1711/1737), teve
larga utilização em Portugal. Aliás, desde meados do séc. XVIII que era habito colocar altares triangulares nos cantos das naves rectangulares, transformando-as assim em plantas poligonais oi-tavadas. A planta octogonal, todavia, levantava problemas na ar-ticulação da nave com a fachada, sobretudo se esta possuía duas torres. No entanto, essa dificuldade adicional logo foi resolvida, com a solução natural (para um engenheiro militar com sentido prático) de encostar um dos lados da torre ao ângulo cortado, mantendo-a solidária com a nave. As torres apresentam-se ao observador frontal, desse modo, como um diedro e não uma face, parecendo comprimir o pano central da fachada, que assim ganha em enorme sentido vertical. Aliás, existem casos de torres roda-das (com carácter distinto do português) na Europa central, cer-tamente influenciadas pela arquitectura barroca italiana, apesar de nesta última as torres rodadas serem inexistentes. Por outro lado, na arquitectura manuelina, encontram-se casos de botaréus roda-dos nos extremos da fachada, como na ermida de S. Jerónimo em Lisboa, pelo que esta disposição não é inteiramente inovadora.
Fig. 279 e 280 – Santuário do Sr. Jesus da Piedade, Elvas, 1753/1779, José Francisco de Abreu
Fig. 281 e 282 – Capela de Nossa Sra. da Assunção, Messejana, concluída em 1758
Fig. 283 e 284 – Igreja de Nossa Sra. da Conceição da Praia, S. Salvador da Baía, 1749/1813, Manuel Cardoso de Saldanha