Capítulo I – A PESSOA IDOSA
2. FACTORES DE RISCO
O homem é um ser social por excelência e para entender as suas atitudes, os
seus comportamentos, a sua maneira de ser e de agir, é necessário entender como o
indivíduo vive e experimenta as situações e os acontecimentos que imperam no seu
ambiente social. Portanto, existem factores associados à personalidade, à
socialização e à vida do indivíduo, que num determinado contexto sociocultural,
viabilizam um comportamento violento como modo de expressão e ou de acção, face
a uma determinada situação ou acontecimento (Karli, 2008).
Para Wolf e McCarthy (1991) referenciado por Dias (2004), são três os perfis,
quer as pessoas idosas vítimas de maus tratos quer dos agressores, que as tornam
vulneráveis ou potenciam, o mau trato. O primeiro perfil refere-se às vítimas de maus
tratos físico e psicológico, as quais são, geralmente pessoas independentes nas suas
actividades de vida diárias, mas com problemas emocionais, enquanto os agressores,
são normalmente pessoas com antecedentes de alcoolismo e/ou doença mental,
vivem com a vítima e dependem financeiramente desta. Um segundo perfil diz
respeito às vítimas de negligência, na maioria das vezes pessoas com idade
avançada, com incapacidade mental e física e que usufruem de insuficiente apoio
social, as quais causam um efeito de grande desgaste e stress no cuidador. Quanto
ao terceiro perfil reporta-se às vítimas de abuso material ou financeiro, o qual afecta
as pessoas idosas solteiras e com limitados contactos sociais e redes de apoio. Neste
perfil o agressor possui dificuldades financeiras e, por vezes, tem antecedentes de
consumo de drogas e/ou álcool.
Nesta linha de pensamento, Dias (2004) citando Barnett, Perrin e Perrin
(1997), confirma que os agressores têm uma relação de parentesco (cônjuges ou
filhos, geralmente do sexo masculino), vivem com a vítima durante algum tempo e,
normalmente, dependem financeiramente da vítima. As pessoas idosas mais
vulneráveis aos maus tratos, pelo agravamento das suas faculdades funcionais,
cognitivas e de mobilidade são nomeadamente as mulheres e os designados “grandes
idosos” (Dias, 2004, citando Pagelow, 1984).
O estudo de Vinton (1992) citado por Dias (2004), concluiu que 58% dos
sujeitos são os cônjuges, sendo que as mulheres idosas apresentam uma maior
tendência a serem agredidas pelos maridos. Concluiu também que o mau trato
cometido pelos filhos assumem a primeira posição.
Como nos diz Dias (2004) citando Vinton (1992), o mau trato é três vezes
superior entre as pessoas idosas que vivem com outra pessoa relativamente às que
vivem sós. Contrariamente, para Barnett, Perrin e Perrin (1997) referenciado por Dias
(2004), as mulheres idosas que vivem sós constituem um factor de risco para serem
maltratadas, particularmente por agressores isolados socialmente, dependentes de
substâncias como o álcool e as drogas, com problemas com a justiça e
desempregados.
Neste sentido Magalhães (2010), descreve alguns factores de risco referentes
ao abusador, à vítima, ao contexto familiar e ao contexto sociocultural.
Relativamente ao abusador, o autor refere os seguintes factores de risco:
“ser do género masculino e jovem; ser dependente de substâncias (e.g., álcool, drogas de abuso); ter doença física ou mental (e.g., depressão, burnout, perturbação da personalidade); ter personalidade imatura e impulsiva, baixo auto-controle e baixa tolerância às frustrações, apresentando grande vulnerabilidade ao stresse, baixa auto-estima, expectativas irrealistas e indiferença ou excessiva ansiedade face às responsabilidades perante a vítima; ter carências socioculturais e económicas, estando financeiramente dependente da vítima (…); estar desempregado ou, ao invés, ter uma vida social e/ou profissional muito intensa, que dificulte o estabelecimento de relações positivas com os membros da família; ter antecedentes de comportamentos desviantes; apresentar antecedentes pessoais ou familiares de abuso; não conseguir admitir que a vítima foi ou esteja a ser abusada, nem compreender quais as reais necessidades e eventual situação clínica daquela, sendo incapaz de lhe oferecer protecção; ser inexperiente em termos de prestação de cuidados “ (Magalhães, 2010,pp. 71-72).
Quanto à vítima:
“ser do género feminino; apresentar características de vulnerabilidade em termos de idade (…) e de necessidades (…); ter personalidade e temperamentos desajustados
relativamente ao abusador; estar dependente do consumo de substâncias (e.g., álcool, medicamentos, drogas de abuso); ter doença física e/ou mental, ou deterioração cognitiva fisiológica (…); ter dependência física e emocional relativamente ao abusador; ter escassos recursos económicos, encontrando-se dependente do abusador; ter baixo nível educacional; habitar em precárias condições; estar socialmente isolada” (Magalhães, 2010,pp. 72-73).