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8. Implementação do SNC-AP na Marinha

8.1 Factos e acontecimentos enquadráveis na NCP 15

Após a análise efetuada à norma que versa sobre a problemática das provisões e dos passivos contingentes, é possível através da respetiva natureza, características e tratamento, identificar a ocorrência de situações, eventos e factos que podem exigir o seu enquadramento no âmbito da mesma.

Sendo assim, de acordo com os normativos de referência, o SNC-AP (NCP 15) e as IPSAS (IPSAS 19), as normas que tratam as provisões, passivos e ativos contingentes, definem situações e eventos que implicam o tratamento dos mesmos, enquadrando-os em três tipos distintos, salvaguardadas algumas exceções: obrigação presente que provavelmente exigirá outflow de recursos; obrigação possível ou obrigação presente que provavelmente não exigirá outflow de recursos; obrigação possível ou obrigação presente em que a probabilidade de outflow de recursos é remota.

No âmbito das provisões e dos passivos contingentes, os eventos enquadráveis passam por:

a. Benefícios sociais, “bens, serviços e outros benefícios proporcionados no prosseguimento de objetivos de política social de um governo” (IPSASB, 2012, p. 345);

b. Obrigações construtivas, derivada das ações de uma entidade (por exemplo, custos de reparação, obrigação construtiva para reestruturar);

c. Contratos executórios que sejam onerosos;

d. Obrigações legais, derivadas de contratos, legislação ou outras disposições legais;

e. Contratos onerosos, “troca de ativos ou serviços em que os custos inevitáveis para satisfazer as obrigações excedem os benefícios económicos ou potencial de serviço que se espera sejam deles recebidos” (IPSASB, 2012, p. 348), por exemplo, contratos onde estão estabelecidos direitos e obrigações para ambas as partes contratantes;

f. Processos judiciais, na forma de provisões ou passivos contingentes, dando origem, por exemplo, a indemnizações ou pagamento de custas dos processos;

g. Reestruturações (por exemplo, desmantelamento de instalações de defesa, alienação e/ou abate de unidades operacionais, cessação ou alienação de uma atividade ou serviço, deslocalização de atividades, alterações na estrutura do órgão de gestão, reorganizações com efeito material na natureza e foco das operações da entidade);

h. Responsabilidade solidária por uma obrigação (por exemplo, empreendimentos conjuntos);

i. Incumprimento de legislação e externalidades negativas (não cumprimento de leis ambientais e danos causados ao ambiente); e

j. Venda ou transferência de operações, quando existe acordo vinculativo. Considerando as situações identificadas, enquadráveis na NCP 15, do Decreto-Lei n.º 192/2015, durante os estágios curriculares em que o investigador participa e, em particular, da visita realizada à SF, DAF e respetivas divisões, fica demonstrada a preocupação sobre a existência de eventos e factos, que no contexto da Marinha, são passíveis ou não de serem tratados como provisões ou passivos contingentes, que até à data, não são alvo de um adequado tratamento contabilístico.

Adicionalmente, importa referir que de acordo com o normativo ainda em vigor (POCP), e conforme constatado por Rosa (2017, p. 44), não existem “critérios para distinguir, reconhecer e mensurar provisões e responsabilidades contingentes, no entanto existe uma conta 292 para a contabilização de riscos e encargos.” Estes são muitas vezes associados a créditos de cobrança duvidosa, depreciações, entre outras, algo que sai do âmbito da norma em análise e que ainda assim, salvo algumas exceções (por exemplo, Instituto Hidrográfico), não são devidamente tratadas.

Desta forma, as situações previamente identificadas na fase exploratória de investigação, observação direta e análise documental, referem-se a diferentes áreas e setores de atividade da Marinha, nomeadamente: Gabinete do CEMA (Chefe de Estado

de Pessoal (DP), Estado-Maior da Armada (EMA), CN, DAF, DA e Direção de Navios (DN). Tendo em conta as diferentes entidades enunciadas, os factos identificados são:

a) Processos judiciais; b) Indemnizações;

c) Requerimentos relativamente a abonos e suplementos; d) Processamento de vencimentos;

e) Deslocações, viagens e deslocações ao estrangeiro; f) Suplemento de Embarque e Suplemento de Missão; g) Legislação e decisões governamentais; e

h) Promoções.

Por conseguinte, existindo a necessidade de verificar se os factos referidos se podem enquadrar como provisões ou passivos contingentes, opta-se pela realização de entrevistas nos dias 28 de maio de 2018 (DA), 29 de maio de 2018 (SF), 30 de maio e 1 de junho de 2018 (CN), a membros de entidades de diferentes setores, de modo a obter diferentes perspetivas sobre o assunto e confirmar ou refutar o inicialmente previsto.

No decorrer das entrevistas, após realizado o enquadramento inicial do tema e do esclarecimento necessário sobre a NCP 15, são vários os contributos que possibilitam a identificação e/ou confirmação das situações a enquadrar neste contexto.

Assim, as situações recorrentemente identificadas como passíveis de reconhecimento e/ou divulgação de provisões ou passivos contingentes, são a existência de processos em tribunal, que resultam na obrigação de pagamento de indemnizações por parte da Marinha. Algumas dessas indeminizações correspondem a indeminizações do âmbito remuneratório (reconstituição de carreiras, abonos incorretamente processados, acesso vedado a abonos em situações conferentes de direito ao seu recebimento, requerimentos e suplemento de residência e ainda prestações pecuniárias finais).

Outras situações relativas a indemnizações referem-se a acidentes, nomeadamente, acidentes em serviço, acidentes com meios navais constitutivos de obrigação de pagamento de indemnização por parte da Marinha, acidentes que incorrem em responsabilidade civil (âmbito da Autoridade Marítima) e eventualmente acidentes com viaturas do Estado.

Outras situações encontradas são:

a) Impugnação de concursos públicos, contratos onerosos;

b) Necessidades de fardamento, tendo em conta a probabilidade de ocorrência de eventos e cerimónias, naturalmente não previstas no orçamento;

c) Custos com combustíveis, em que o preço é variável no tempo e depende de diversos fatores imprevisíveis (quantidade abastecida, local, tipo de combustível, realização de missões, cotação de mercado);

d) Encargos portuários relativos ao dispositivo naval padrão, despesas com comunicações e alimentação da Marinha. Nesta área operacional, depende dos quantitativos (pessoal e meios), consumos de energia, abastecimento dos meios (água, sobressalentes, alimentação), portos, entre outros;

e) Envio e receção de material em transitário para navios em missão no estrangeiro, onde se depende de quantidades, pesos, tarifas e taxas;

f) Paragens e retomas de rancho em navios em revisão no estrangeiro, pela imprevisibilidade temporal (atrasos nos trabalhos) e do pessoal a bordo; e g) Possibilidade de ocorrência de acidentes nas missões em que os navios estão

empenhados, sendo necessário efetuar evacuação e assistência médica diferenciada (custos associados).

Identificadas estas situações e questionados os entrevistados sobre as ações desenvolvidas quando se deparam com estas realidades, verifica-se que não existem procedimentos formais estabelecidos para o seu adequado tratamento e que não existe reconhecimento contabilístico nem divulgação destes factos.

Adicionalmente, durante as entrevistas são identificadas consequências e dificuldades resultantes da inexistência de qualquer tipo de registo, reconhecimento e acompanhamento dos referidos acontecimentos. Não obstante, existem situações que são devidamente acauteladas, fruto da experiência dos elementos e do conhecimento transmitido nos momentos de rendição, ainda que sem o adequado tratamento formal.

Portanto, são identificadas fragilidades nesta área pois, o desconhecimento desta realidade pode implicar a inexistência de recursos financeiros necessários para o

transição de despesa para o exercício seguinte, que se encontrem situações de possível fracionamento de despesa, compromissos e cabimentos registados em datas posteriores à faturação.

Finalmente, estas situações obrigam a uma gestão orçamental flexível, provocando muitas vezes o incumprimento do planeado, sendo que o facto de se ter de colmatar situações inesperadas através do outflow de recursos, pode pôr em causa atividades planeadas ou mesmo atividades em curso, prejudicando o normal funcionamento da organização como um todo.